Backfire
4 III - Art Deco
Notas iniciais
Aimee
– Aimee! – Ouvi a voz da minha coordenadora e sorri, me virando. Ela me alcançou – Posso ter fazer uma pergunta? Mais um pedido, na verdade.
Franzi a testa, observando-a. Estava ansiosa, eu podia ver. Trocava rapidamente de pé para se apoiar, e estralava os dedos. Tudo bem. Fiquei intrigada.
– Claro, Jennifer. Pode pedir.
– Vem comigo.
Ela me puxou até sua sala, fechando a porta. Ia perguntar o que diabos estava acontecendo, mas a pequena criatura que estava deitada ao lado de sua cadeira respondeu por ela.
O cão, da raça Golden Retriever, levantou as orelhas quando me viu. Não devia ter mais de dois meses, e seu pêlo era caramelo claro.
– Ahn... Jennifer? – Pedi uma explicação, de sobrancelhas erguidas.
– Você sabe que eu tenho dois cães, não é? Então, minha cadela deu cria – Ela começou a explicar – Esse filhote foi o único que eu ainda não consegui doar. De uma ninhada de oito! Eu soube que você se mudou recentemente, está morando sozinha...
– Jennifer...
– ... Que tal um cachorrinho para alegrar seu lar? Por favor! – Ela pediu de mãos juntas, me fazendo suspirar.
Olhei para o animal, franzindo a testa. Nunca havia sido muito apegada a esse tipo de coisa, Jim sempre dizia que afeto era uma fraqueza e eu concordava, além de nem saber por onde começar. Um animal precisava de, além de afeto, comida, tempo, disponibilidade. Coisa que era meio desorganizada na minha agenda.
Mas o olhar no rosto de Jennifer me fez pensar duas vezes. Que mal poderia fazer um cão? Quer dizer, talvez fosse bom alguma companhia. Não é?
– Eu te odeio – Brinquei, fazendo-a sorrir e dar pulinhos patéticos de alegria, agradecendo em seguida.
Me ajoelhei ao lado do cão, acariciando sua cabeça. Ele lambeu meus dedos de forma brincalhona e não pude segurar um sorriso de lado. Filhotes eram bonitinhos, afinal.
Fomos até o carro, eu com a caixa do cachorro no braço e ele dentro. Pesado? Imagina. Ainda bem que eu me exercitava. Coloquei-o no banco da frente e a caixa no de trás. Jennifer novamente me agradeceu e quase mandei-a calar a boca, mas me limitei a sorrir. O que diabos eu faria com um filhote de cachorro? O que Jim pensaria disso?
Saí com o carro, lançando olhares ao animal de tempos em tempos. Ele precisava de um nome. Que nome as pessoas costumavam colocar em cães?
No que diabos eu fui me meter?
Liguei o rádio para ver se tinha alguma sugestão. Mas nenhuma música era boa, e nenhum nome parecia se encaixar no bicho.
Quando cheguei á Baker Street, peguei o animal no braço. Procurei Mrs. Hudson, e quando a encontrei, quase agradeci aos céus.
– Mrs. Hudson! – Chamei-a – Uma ajudinha, por favor!
– Oh, mas que coisinha linda! – Ela disse, pegando o animal no colo – Qual é o nome dele?
– Erm... Ele não tem um ainda. Foi para ajudar uma colega de trabalho, mas não faço ideia de como cuidar de animais. A senhora...
– Eu vou no pet shop mais próximo comprar uns agradinhos para ele. Já chego lá – Ela disse, devolvendo o cachorro.
Dei um sorriso.
– Mrs. Hudson, a senhora é uma santa! – Elogiei, agradecendo em seguida.
Ela saiu e eu me dirigi ao meu apartamento com o animal, parando na porta para ajeitar minha bolsa e pegar as chaves.
Porém, o cão se soltou do meu braço e, para o meu espanto, correu escada acima.
Soltei minha bolsa no chão, subindo atrás dele. Pude ver o rabo dele desaparecer nos andares superiores e corri mais rápido, meus saltos fazendo barulho nas escadas de madeira.
– Ei! Psiu, volta aqui! – Gritei enquanto ele entrava no 221B, que, para meu espanto, estava de portas abertas.
Soltei um palavrão, seguindo o cachorro. Quando cheguei na porta, hesitei. Não podia entrar assim no apartamento de alguém, mas dane-se, era meu cachorro. Nossa, eu já estava me referindo ao animal assim. E ele nem tinha nome ainda, mas já estava me dando problemas. Que maravilha.
Revirei os olhos, decidindo entrar no apartamento para buscar o monstrinho.
– Olá? – Chamei – Tsc tsc, aqui!
Encontrei-o finalmente aos pés de uma poltrona.
E nela estava Sherlock Holmes.
Senti aquele frio ruim na barriga, a raiva tentando tomar controle de mim. Mas fingi não me importar com isso. Sorri levemente para ele.
– Me desculpe. A porta estava aberta e ele simplesmente correu...
– Não tem importância – Ele me interrompeu, fazendo eu me calar. Franzi a testa e peguei o cachorro no braço.
Observei-o por uma fração de segundo. O rosto era bonito, exótico. Os ossos das bochechas eram salientes, e os olhos eram profundamente azuis. Os cabelos cacheados lhe davam um ar angelical que eu sabia que ele não tinha. As mãos, delicadas e de dedos longos e finos, eram pálidas e se encontravam juntas em frente aos lábios delineados.
Desviei os olhos para o cão, que me observava com os grandes e amendoados olhos castanhos. Ele tinha uma expressão culpada na cara, e aquilo me fez sorrir levemente, sacudindo a cabeça e indo até a saída.
– Você tem uma hostilidade em relação a mim. Por quê? – Ouvi a voz grave dele, parando de súbito.
– Reveja as únicas duas conversas que tivemos, e perceba quem foi realmente hostil – Falei sem me virar, deixando o apartamento.
Sherlock Holmes
Sherlock observou a garota sair do apartamento de sobrancelhas franzidas. Estava intrigado com a sua resposta, da forma como ela virara a mesa facilmente para ele. Personalidade manipuladora, com certeza. Alto uso de manipulação emocional para conseguir o que queria. Interessante.
Foi até o computador, seus dedos agindo antes que sua mente pudesse.
“Aimee Rail”.
Algumas páginas apareceram, prêmios na faculdade, trabalhos acadêmicos. Nada muito importante, nada que Sherlock já não soubesse. A garota era um gênio.
A frustração o fez abaixar a tela do aparelho bruscamente. Precisava descobrir quem era ela. A ideia de ter alguém que lhe era desconhecido morando no andar de baixo lhe irritava. Ainda mais alguém com histórico de manipulação emocional.
Tinha algo familiar nela.
No jeito, ele não sabia o que era. Isso o frustrava mais ainda. Mas uma coisa era certa: não confiava nela.
John entrou no apartamento, e Sherlock fez o possível para ignorá-lo.
– Você viu? Mrs. Hudson passou cheia de coisas...
– Nossa vizinha tem um cachorro – Ele interrompeu, voltando a se sentar em sua poltrona.
– Ela tem?
– Aparentemente sim. Um filhote – Sherlock disse – Macho, aproximadamente dois meses. Hiperativo e com tendências mastigadoras. Posso ler até o animal, mas não ela.
John franziu a testa, encarando-o.
– Está tudo bem? E como você sabe que ela tem um cão?
– O animal entrou aqui, ela entrou para vir buscar. Você tem conversado com ela, não é? O que sabe sobre ela? Ah, não importa, ela deve ter mentido. Você sabia que ela tem tendências manipuladoras? – Sherlock falava sem dar pausa.
John lançou-lhe um olhar preocupado, e Sherlock suspirou.
– Por que esse interesse súbito nela? Parece ser uma boa garota – Ele disse cautelosamente.
– Não confio nela. Não gosto de ter alguém sobre quem sei pouco ou nada morando no andar de baixo...
– Aaah, entendi. Isso não é sobre ela. É sobre seu ego.
Sherlock olhou com uma expressão confusa para John.
– Não é por causa disso. E se ela for alguém colocada para nos observar? É muito conveniente eu não saber nada sobre ela, não acha? Já tivemos essa conversa.
– Sim, sim. Verdade. Amanhã irei conversar com ela, ver o que eu posso sondar. Que tal nos focarmos no caso agora? – John pediu, sentando-se em sua poltrona. Sherlock pensou em fazer um comentário ácido sobre a capacidade de John de “sondar” algo, mas desistiu de última hora, afastando a mente da garota e pensando no que realmente importava. Era um caso realmente muito interessante. A precisão, a atenção aos detalhes. Fascinante.
– Sim. O caso. Fiz uma avaliação no que tirei da sola do sapato de Matthew. Solo hidromórfico e quantidades altas de mercúrio – Ele disse com um meio sorriso. John o olhou confuso, e Sherlock percebeu o que estava errado – Ah, sim. Usado em termômetros e barômetros, lâmpadas fluorescentes, e por aí vai. Dei uma pesquisada, e vi que uma empresa que lida com esse tipo de coisa foi vendida recentemente com toda a pompa. E quanto ao solo, é um solo que por ser localizado próximos a rios e lagos, apresenta grande umidade. Sua fertilidade depende do índice de umidade, quanto mais úmidos, menos férteis. Essa empresa que foi vendida fica próxima do Tamisa. O problema é que...
Sherlock hesitou. Mas sabia que John havia percebido o que estava errado.
– Está fácil demais – Ele disse – Não é?
Sherlock concordou, levando as mãos até o queixo. Era muito simples. Quase... Entediante. Mas não teriam tantos detalhes, não teria sido tudo tão pensado para terminar assim. Não é?
– O que você acha? – Ele perguntou a John.
O médico pensou um pouco antes de respondê-los.
– Acho que isso é só o começo.
Aimee
Fechei a porta, olhando para o cachorro. Ele se fez confortável, subindo no sofá e começando a brincar com uma almofada.
Okay. O que eu faço agora com esse bicho?
Sentei ao seu lado no sofá, esperando Mrs. Hudson chegar com a ajuda. Eu ia realmente precisar.
Uma meia hora depois ela chegou com duas vasilhas, uma para água e uma para ração, e alguns ossinhos de brinquedo e uma bolinha de borracha.
– Muito obrigada, Mrs. Hudson! Nem sei como agradecer a senhora – Agradeci, sorrindo para a senhora. Ela sorriu de volta, fazendo um sinal com a mão que significava “deixe isso pra lá”.
– Não foi nenhum trabalho, querida. Ele já tem um nome?
– Ainda não consegui pensar em nenhum.
– Oh. Bem, tenho certeza de que conseguirá pensar em algo – Ela disse, se despedindo e saindo do apartamento.
Eu tinha que ir comprar ração.
Olhei para o animal. Era sábio deixá-lo ali? Sozinho?
– Vou aqui na esquina. Se comporte, sim? Volto em cinco minutos – Pedi, ao que ele apenas me encarava com cara de bunda.
Ergui uma sobrancelha e saí do apartamento, andando pela rua. Lembrava de ter visto um pet shop a dois quarteirões dali quando estava vindo com o cão. Certo.
Andei por uns dez minutos até chegar ao tal pet shop.
– Boa tarde. Tem ração para filhotes de cachorro, por favor? – Pedi ao balconista.
– Boa. Temos, mas infelizmente agora só estou com o saco de 15kg. Um dos funcionários esqueceu de fazer o pedido à fornecedora, os sacos menores só chegam amanhã – Ele disse. Observei o rapaz. Pela sua postura e sua despreocupação, ele dizia a verdade.
Merda. Como vou carregar um saco de 15kg pela rua? Mesmo com treinamento como o meu, era pesado.
Suspirei, tirando a carteira do bolso. Eu mal tinha comida em casa, teria que servir. Era bom que eu demoraria um tempo para comprar de novo.
Paguei e ele me ajudou com o saco até o lado de fora do pet shop. Depois dali, eu estava pela minha conta.
O saco de ração era pesado como um elefante, mas ainda assim eu o arrastava pelas ruas de Londres. Vamos lá. Só mais dois quarteirões até a Baker Street. Força, Aimee.
– Senhorita, deixe-me ajudá-la – Ouvi uma voz desconhecida e me assustei levemente, dando de cara com um homem de pelo menos 1,85m, de terno e gravata, de aproximadamente 30 anos. Pela postura, forma e visual, parecia trabalhar como segurança de algum lugar. Franzi a testa.
– Não, obrigada – Agradeci, mas o homem puxou o saco das minhas mãos – Ei!
– Eu insisto – Ele respondeu com um sorriso debochado.
Me preparei para chutar a cara carrancuda dele se fosse necessário, quando mais três homens apareceram. Só aí notei o carro preto estacionado ao meu lado.
O segurança carrancudo abriu a mala e jogou o saco de ração dentro, ao que outro que parecia ser mais velho se aproximou.
– Srta. Rail, entre no carro. Por favor – Ele pediu. Seu tom de voz era educado, mas seu olhar era ameaçador e sua posição denunciava que estava inclinado a usar força se precisasse.
– Aham, claro que vou – Ironizei.
O brutamontes suspirou.
– Estou autorizado a usar força, Srta. Não me faça fazer isso.
– Fuck off.
Ele segurou meu pulso bruscamente, e eu senti meu sangue ferver. Olhei em volta. Testemunhas demais para causar uma cena, ter um surto psicótico e quebrar a cara dos quatro, deixando o brutamontes por último para saboreá-lo melhor. Será que eram de Jim? Não. Me chamariam de Moriarty, não de Rail.
Minha curiosidade se aguçou. Queria saber quem havia mandado aquele esquadrão para me “seqüestrar”.
Uma mulher bem vestida saiu do carro com um celular nas mãos, e me encarou brevemente.
– Srta. Rail, meu chefe a espera – Ela anunciou.
Suspirei, minha curiosidade pinicando minha nuca. Merda. Merda!
Passei pela mulher e entrei no banco de trás do carro, sentando de braços cruzados e cara fechada. Olhei para a marca vermelha no meu pulso e a raiva aumentou, me fazendo respirar fundo.
A mulher me avaliou por alguns segundos.
– Nenhuma pergunta? – Ela perguntou, sua voz exalando deboche – Quem sou, por que isso está acontecendo, quem é meu chefe?
– Quem é você? Não me interessa saber, até porque você mentiria e é só uma subordinada do seu chefe. Por que isso está acontecendo? Que pergunta patética, sinceramente. Seu chefe? Bem, ele me interessa, me interesso em saber quem ele é. Mas você não diria. Não vejo sentido em estabelecer comunicação com você, então com licença – Respondi, ignorando seu olhar surpreso e olhando para a janela.
– Ele tem razão. Tem algo em você – Ela disse.
Resolvi não reagir a esse comentário, mas coloquei em minha mente que deveria me “humanizar” mais. Não podia chamar atenção. Sentia que isso era requerido no plano de Jim, mesmo que ele insistisse em me deixar no escuro. Não chamar atenção das pessoas erradas. Até ele próprio seguia esse conselho.
Em vinte minutos, chegamos a um prédio alto e elegante, de escritórios, aparentemente. Segui a mulher até o elevador, no qual fomos até o último andar ao som de Mozart. Chique.
– O Mr. Holmes vai vê-la agora – Ela disse.
HOLMES?
Ah, que maravilha. De verdade. O outro Holmes.
Fiz um som estrangulado com a garganta enquanto saía do elevador, a irritação batendo no meu pé.
– É Anthea, a propósito – Ela disse.
– Tá, tá, tanto faz – Respondi fazendo um sinal de impaciência com a mão. Vi um traço de humor passar pelo seu rosto enquanto a porta do elevador se fechava.
Me virei para a sala de espera, que estava totalmente vazia. Um ambiente discreto, mas ao mesmo tempo elegante, e eu suspeitava que era assim que o maldito seria.
Passei por ela e cheguei à frente da porta do escritório, me perguntando se batia ou não.
Ah, o cara mandou quatro brutamontes e uma viciada em tecnologia telemóvel atrás de mim. Lógico que eu não ia bater.
Abri a porta com a melhor cara de tédio que eu tinha.
Ele era tão diferente de Sherlock, pelo que eu pude observar!
O olhar taciturno e a postura superior era a mesma, claro. Mas não sei, esperava alguém mais... Ameaçador?
Ele olhou para mim e um sorriso falso apareceu em seu rosto.
– Ah, Srta. Rail! Por favor, sente-se – Ele pediu, apontando a cadeira.
Hesitei por um segundo, mas sentei na elegante poltrona à minha frente. Avaliei Mycroft Holmes por alguns segundos antes de erguer o pulso, mostrando a mancha vermelha da mão do homem.
– Devia escolher melhor seus empregados, Mr. Holmes. Não é jeito de tratar uma dama – Ironizei.
Pude ver divertimento em seus olhos, que não atingiu o resto do seu rosto.
– Vou cuidar disso – Não, não vai – Que bom que finalmente nos conhecemos.
– Não sei se posso dizer o mesmo, Mycroft – Sublinhei seu nome, sorrindo levemente em seguida – Meu pulso ainda dói.
Ele ergueu uma sobrancelha.
– Fico feliz que não esteja em desvantagem – Ele disse, agora mais sério.
– Ossos do ofício. Podia ter só ligado, você sabe. Espero que eles devolvam meu saco de ração – Resmunguei, sem tirar os olhos do Holmes mais velho.
– Srta. Rail, você se mudou recentemente para a Baker Street. O que a trouxe para lá? – Ele perguntou com um mínimo sorriso misterioso.
– A localização, é claro! É perto de onde trabalho – Apesar de ter soado como ironia para mim, não sei como soaria para ele. Julgando pelo seu alto intelecto, eu podia esperar uma careta em breve – Por que estou aqui, Mr. Holmes? E não me diga que queria apenas saber com quem o irmão está convivendo. Não tente me enganar, não funciona. Quero saber porque Mycroft Holmes teve um súbito interesse em uma mera professorazinha de escola.
Eu me inclinava ameaçadoramente na mesa enquanto falava, e o tom da minha voz permanecia calmo e inalterado. Ele me olhava com curiosidade nos olhos de gavião, afiados como os de um caçador.
– Você realmente sabe demais para uma mera professorazinha de escola. E certamente não se porta como uma – Ele disse tão calmo quanto eu.
– Algumas são professorazinhas, outros possuem um pequeno cargo no governo britânico. E assim todos vivem as suas vidinhas medíocres.
– Mas você não é uma criaturazinha interessante? – Ele perguntou com veneno na voz.
– A melhor que você vai encontrar – Respondi, o rosto baixo e os olhos levantados numa posição desafiadora.
– Não é muito modesta, porém.
– Modéstia é para os fracos que não tem nada a oferecer, Mr. Holmes – Respondi, me encostando na poltrona – Agora, vamos ao que interessa.
Ele pegou uma pasta de arquivo, abrindo-a. Pude ver uma foto minha tirada de perfil. Bonita. E outra minha andando na rua.
– Você andou me espionando? Devia ter me levado para jantar antes – Ironizei, e a careta que eu tanto esperava veio. Dei um leve sorriso – Wow, tenho até uma pasta. Devo ser importante.
Meu sorriso aumentou. Queria irritá-lo.
– Os registros da senhorita só vão até seus quatorze anos. Curioso... – Ele comentou sem tirar os olhos do papel.
– Tão curioso quanto um incêndio em um cartório – Novamente ironizei, suspirando – Já terminamos? Tenho que alimentar meu cachorro.
– Você tem um irmão. George Rail. Trabalha para o governo, não é?
– Trabalhava. Agora possui uma pequena posição em uma fábrica em Dublin. Fica lá a maior parte do tempo.
Ele me avaliou por alguns segundos. Não tirei os olhos dos dele durante isso. E então ele sorriu, um sorriso que não chegou aos seus olhos.
– Espero que seja o tipo interessante bom, Srta. Rail. E não o tipo que dê trabalho. Nos veremos de novo. Anthea a levará até a saída – Ele disse, e a jovem mulher entrou na sala.
– Estou esperando ansiosamente por isso – Acenei com a cabeça – Mr. Holmes.
Saí da sala sentindo o olhar de Mycroft Holmes queimar minhas costas.
Entramos no elevador e a mesma música de Mozart ainda tocava. Era a sinfonia num. 40. Eu adorava.
Lembrei então do cão que me esperava em casa. Céus. Deve ter destruído o apartamento inteiro enquanto eu estava fora.
Mozart...
Mozart!
Eu gostava de Mozart. Por que não colocar o nome dele assim?
Estava decidido. Seria Mozart.
Sherlock Holmes
– Devíamos ligar para Lestrade antes – Ele escutou John falar pela décima vez naquela noite e suspirou.
– É tarde demais para isso agora – Ele respondeu, se acomodando no banco do táxi para parecer despreocupado. Mas não estava. não conseguia tirar a cabeça do que encontrariam naquela fábrica – Já estamos chegando.
– Isso é sério, Sherlock. Não sabemos o que tem lá. Pode ser uma emboscada. O que temos, duas armas? Nem sabemos quantas pessoas haverão lá.
Sherlock suspirou, pegando o celular e mandando uma mensagem rápida para Lestrade com o endereço da fábrica.
– Isso é o máximo que posso ir – O taxista anunciou.
Sherlock desceu do carro, olhando em volta. Terra, algumas árvores. Podia ver um galpão e a fábrica ao longe.
– Eu pago, pode deixar – John ironizou, mas ele o ignorou. Tinham de passar por uma grade para entrar. Um muro enorme.
O táxi deu ré e pegou a estrada, e os dois o perderam de vista.
Sherlock foi até o portão, tirando um alicate próprio do blazer e cortando a corrente. Era isso. Vamos lá.
Ele e John andaram até o galpão. O local era cheio de árvores, e eles podiam ver o leito do rio a uma curta distância. Eles andaram até a fábrica, mas a porta estava trancada com um enorme cadeado, e com grandes toras de madeira bloqueando-a.
– Bem, não vamos conseguir nada aqui – Sherlock disse, dando a volta enquanto John o seguia.
Ele constatou que a porta do galpão estava entreaberta.
– John, pegue sua arma – Ele disse, sacando a que havia trazido. John fez o mesmo, e Sherlock tomou a dianteira, empurrando a porta do galpão com cuidado.
O que viram lá dentro fez Sherlock abaixar a arma e John arregalar os olhos, soltando um “oh meu deus” baixo. Tarde demais. E exatamente o que Sherlock esperava.
Um corpo estava estendido no chão, um homem completamente nu de aparentemente cinqüenta anos. Seus braços e pernas estavam abertos, e em seu peito estava escrito “Sábio é aquele que conhece os limites da própria ignorância.” A frase estava forjada com algo cortante, o sangue ainda fresco. Sherlock se aproximou do corpo, com cuidado para não contaminar a cena do crime. Avaliou os ferimentos rapidamente. Haviam sido feitos após a morte do homem, ele pôde ver.
A frase... Se recordava vagamente dela. Sócrates.
– Você estava certo, John – Ele concordou com o amigo, passando a mão pelos cabelos – É apenas o começo.
Fale com o autor