Backfire
5 IV - Heat Of The Moment
— A frase é de Sócrates, a posição que ele se encontra remete ao Homem Vitruviano, de Leonardo Da Vinci. O Homem Vitruviano é considerado um símbolo de simetria básica, tanto do corpo humano quanto do universo – Sherlock explicava para Lestrade e John estava ao seu lado, escutando atentamente – Nosso assassino aprecia a simetria. Ele faz tudo perfeito, todos os detalhes são cuidadosamente arrumados, quase como uma piada escondida. Ele quer se exibir.
Donovan entrou na sala com uma pasta nas mãos.
— David Arnet, 55 anos. Professor de filosofia de Harvard e de uma pequena escola no norte de Londres. Casado, tem dois filhos – Ela leu.
Sherlock ficou calado, sua mente trabalhando rápido. Aparentemente, não havia nada que conectasse os dois homens. Idades diferentes, mundos diferentes. Não haviam registros de que eles se conheciam, nada que podia ligá-los. Então como estavam sendo escolhidos? Não, devia haver um padrão. Sherlock se recusava a acreditar que um assassino tão brilhante e inteligente escolhia as vítimas por acaso. Ele era muito organizado, metódico. Além disso, o espaço entre as duas mortes era muito curto para tantas referências à vida pessoal dos dois homens. O assassino precisaria ter pelo menos um mês de observação de cada um deles, seus hábitos, seus gostos. Fora a primeira vítima, que fora morta por sua fobia. Isso era uma informação pessoal. O assassino com certeza devia conhecê-lo, ou conhecer alguém próximo.
— John – Sherlock chamou – Vamos ao Barts. Quero saber o que realmente matou Arnet.
Ele concordou e os dois saíram a procura de um táxi. Quando finalmente conseguiram pegar um, Sherlock ainda estava silencioso. Ele tinha de achar um padrão. Não podia ser aleatório.
— Tem alguma teoria? – John perguntou, atraindo sua atenção.
— Até agora quatro, dependendo do que vamos encontrar. Depois, quero que vá á escola que ele trabalhava, preciso que sonde o ambiente, veja o que podia tirar do relacionamento dele com outras pessoas que trabalhavam lá.
— Eu?
— Sim, John. Algum problema?
— Claro que não. Só acho estranho você me mandar diretamente em algo assim...
— Estou mandando meu melhor homem nisso. Nada muito diferente do normal, nada que eu não tenha feito antes – Sherlock insistiu. Não gostava quando John se menosprezava, até porque ele não tinha razões para fazer isso. Era perfeitamente competente para algo assim.
Ele pôde perceber que havia inflado o ego do amigo, e sorriu brevemente com isso.
Ao chegarem ao Saint Bartholomew, logo procuraram Molly. A garota estava no laboratório, com os olhos cravados em uma prancheta. Ao ouvir a porta abrir, eles se desgrudaram dela e se dirigiram para Sherlock, e ela sorriu.
— Molly, David Arnet, o homem que foi encontrado no galpão da fábrica. Precisamos saber a causa de sua morte – Ele foi direto.
Ela concordou com a cabeça, checando a prancheta.
— Ele foi encontrado com a espinha fraturada e com as pernas partidas, mas a verdadeira causa da morte foi... Envenenamento – Ela leu – Conium maculatum. É o nome científico da...
— Cicuta – Sherlock completou – O veneno que matou Sócrates. Ele realmente pensou em tudo, isso é incrível.
John suspirou, e ele sabia que o amigo estava condenando seu jeito de pensar, sua falta de empatia. Mas aquilo não importava no momento. O que importava é que era brilhante. O modo como tudo fora planejado. Cada parte. O assassino tivera o cuidado de pensar em tudo, cada pedacinho.
— John... Vou precisar que você vá agora. Ao colégio, falar com a diretora. Ela era esposa de Arnet, não é? Precisamos encontrar algo que conecte os dois – Sua mente trabalhava rápido. Tinha de haver algo que conectasse os dois.
— E se foi apenas uma coincidência? E se não tiver nada que conecte os dois? E se forem duas vítimas aleatórias? – John perguntou, fazendo Sherlock controlar a vontade de revirar os olhos.
— O universo raramente é tão preguiçoso – Sherlock respondeu com um meio sorriso – Deve ter algo. A similaridade dos dois assassinatos sugere isso. Uma rixa. Algo.
John concordou com a cabeça.
— Eu vou para a escola. Te encontro mais tarde no flat – Ele disse, deixando o laboratório.
— Isso é sobre os assassinatos que andam acontecendo? – Molly perguntou, segurando sua prancheta contra o peito. Distribuía o peso de seu corpo de um pé para o outro. Parecia ansiosa.
Sherlock concordou brevemente com a cabeça. Os assassinatos. Os assassinatos estavam deixando-o em claro. Precisava descobrir o que estava se passando ali. Precisava já.
John Watson
John desceu do táxi, os pensamentos correndo livremente pela sua cabeça. Que tipo de pessoa faria isso com outra apenas por um capricho? E de forma tão enfeitada e calculada?
Ele havia falado há pouco com Jennifer Summers, a coordenadora da escola, pois a diretora estava em um recesso pela perda do marido.
John foi recebido pela secretária, uma mocinha loira e franzina que o pediu para esperar alguns minutos.
— Deseja algo? Um café, chá, água... – Ela perguntou, e sua voz combinava perfeitamente com a sua fisionomia, ele pensou. Fina e suave, como o barulho que o vento fazia quando passava por debaixo da porta.
— Não, estou bem, obrigado – John agradeceu com um leve aceno de mão, sorrindo simpaticamente.
A moça concordou e abaixou a cabeça, voltando para o computador. Ele olhou em volta, avaliando a sala. As paredes brancas e azuis inspiravam uma certa calma, e ele pegou uma das revistas postas ao lado das confortáveis poltronas para passar o tempo.
Passaram-se aproximadamente quinze minutos, e o telefone na mesa da moça tocou. Ela disse algumas palavras, e logo desligou, autorizando a entrada do doutor.
John agradeceu, pondo-se de pé e indo até a sala que indicava o nome da diretora, onde a coordenadora estaria cuidando de tudo enquanto a Sra. Arnet não podia assumir.
Ele bateu na porta, ouvindo um "entre" abafado. Assim o fez, vendo uma sala elegante e decorada, com fotos de algumas personalidades como Stephen Hawking e Joseph Lancaster.
Jennifer Summers se encontrava logo atrás de uma grande mesa de mogno escuro, com os olhos fixos em uma folha de papel. Quando ele entrou, porém, ela levantou-se, indo até ele com a mão estendida.
— John Watson? – Ela perguntou, ao que ele concordo com a cabeça – É um prazer conhecê-lo. Desculpe a demora, com o afastamento de Christina, está tudo uma bagunça.
— Não, que isso. Igualmente – Ela o guiou até uma das poltronas à frente da mesa.
— O que posso fazer pelo senhor? Quer dizer, não vejo o porquê de um médico aposentado do exército vir à minha procura – Ela se empertigou na cadeira, sorrindo levemente.
John permitiu-se notar o quanto aquela mulher era atraente. Cabelos loiros lisos, olhos azuis-esverdeados brilhantes e poderosos. Devia estar na casa dos trinta.
— Já ouviu falar sobre mim?
— E quem não? Você e Sherlock Holmes são o assunto mais interessante do jornal atualmente. Acompanhei o caso Reichenbach. Foi um ótimo trabalho. Meus sinceros cumprimentos. E eu, naturalmente, também leio o seu blog, o senhor é um ótimo escritor. Agora, Dr. Watson, vamos direto ao ponto. O que o traz aqui?
John sorriu com tantos elogios, se sentindo lisonjeado. Após agradecê-los, começou a dizer seu propósito.
— Não pretendo tomar muito do seu tempo. Só preciso de algumas informações sobre David Arnet. Ele era bem relacionado com todos? Tinha alguém com quem ele não se dava bem?
— De forma alguma. Dave era muito simpático e gentil, sempre bem humorado. Se dava bem com todo mundo – Ela respondeu, sua voz adquirindo um tom triste que pareceu sincero e adequado a John – Um ótimo profissional, um ótimo marido para Christina. Penso nas pobres crianças, coitadas, perderam o pai tão cedo.
John concordou brevemente com a cabeça enquanto Jennifer o encarava. Parecia estudar suas reações.
— Alguma ideia de quem pode ter feito isso com ele, Srta. Summers?
Ela pareceu pensar um pouco, os olhos se movimentando rapidamente como se procurasse sua resposta nos papeis da mesa.
— Não faço ideia. Como disse, ele não tinha inimigos, desavenças, pelo menos não conhecidos por mim ou por qualquer outro. Não bebia, não fumava. Era um homem muito correto – Ela disse, dando uma pausa para atender o telefone. Trocou algumas palavras e logo em seguida o desligou, suspirando – Dr. Watson, me desculpe. Estou ajudando a organizar uma vigília para Dave, e já que Christina não está aqui, está tudo nas minhas costas.
Ela fez uma careta como quem pede desculpas e John logo viu sua deixa.
— De forma alguma, Srta. Summers. Muito obrigado por tirar esse tempo para me atender – John agradeceu, se levantando e apertando a mão da mulher – E sinto muito.
— Obrigada. Até a próxima – Ela se despediu.
Ele deixou a sala, agradecendo também a secretária, que apenas sorriu e acenou com a cabeça.
Várias crianças corriam pelo pátio, algumas outras estavam sentadas abaixo de um enorme carvalho, outras formavam grupos enquanto lanchavam. John sorriu levemente.
Até que um rosto conhecido se destacou na multidão.
Ele franziu a testa, andando em passos largos até a garota. Ela, ao vê-lo, imitou sua expressão, mas sorriu simpaticamente em seguida.
— Aimee? O que está fazendo aqui? – Ele perguntou, agora também sorrindo.
— Eu que deveria lhe fazer a mesma pergunta, John. Não sabia que tinha filhos – Ela estreitou os olhos, e ele logo soube o que ela estava fazendo. Já vira aquela expressão antes – Eu trabalho aqui.
— Acho que nós dois sabemos que eu não tenho filhos – Ele respondeu com um meio sorriso – Você provavelmente deve saber até quanto tempo estou com minha escova de dentes. Filhos seriam fichinha pra você. Estava falando com Jennifer Summers sobre David Arnet. E sim, você mencionou que trabalhava em uma escola.
— Sim, eu disse – Ela pareceu satisfeita por ele ter se lembrado – Ah, sim. O pobre David. Estamos todos devastados, foi uma fatalidade. Era um bom homem.
— Você o conhecia bem?
— Sim, sim. Ele era doce e bondoso. Costumava trazer chocolates nas semanas mais tensas para a escola, provas e esse tipo de coisa, e distribuía na sala dos professores. Todos o adoravam, não entendo quem possa ter feito isso.
— A pessoa irá ser pega, não se preocupe. O mal nunca prevalece – John respondeu, e uma sombra passou pelo rosto da garota.
— Sim. Suponho que tenha razão – Ela disse, parecendo meio aérea – John, devo voltar para a sala agora. No que eu puder ajudar, é só avisar.
— Claro, Aimee. Até depois.
Ela sorriu e deu um tchauzinho discreto, saindo de perto dele e indo em direção as outras crianças. John avaliou o jeito da garota. Era doce e engraçada, ele não entendia a desconfiança de Sherlock quanto a ela. Claro, se ela fosse tão inteligente quanto ele era, aquilo que ela mostrava podia ser só uma outra face.
Ele foi para a rua e pegou um táxi. Tinha muito o que reportar.
Aimee
Observei curiosamente enquanto John Watson deixava o colégio, sacando meu celular do bolso e mandando uma mensagem para Jim explicando o ocorrido. Sherlock Holmes estava com os olhos no caso. Sorri comigo mesma enquanto preparava minha próxima aula.
Ela começou, de modo que não chequei meu celular pelas próximas 1h30.
— E lembrem-se de trazer próxima aula fotos de seus parentes! — Eu pedia enquanto as crianças desemburacavam porta afora. Comecei a guardar meus materiais, e pude ver a sombra de uma pessoa pelo canto de olho.
— A aula já acabou — Comecei, mas ao ver quem era, senti um arrepio na nuca.
Jim.
— John Watson aparece por aqui e a primeira coisa que você faz é parar para uma visita? — Repreendi, cruzando os braços — Imprudente de sua parte, não acha?
— John Watson não viu nada de errado na escola, fique tranquila. E não me demorarei — Ele usava roupas comuns, um jeans, uma camisa social azul-clara e tênis esportivos. Tinha uma pasta de arquivos nas mãos — Como você se sente quanto a morte de David Arnet? Soube que o conhecia.
Dei de ombros, franzindo a testa.
— Sim, mas não tenho motivos para lamentar sua morte. Era um bom homem, mas nunca fomos próximos — Fui sincera. Ele sorriu brevemente, e percebi que aprovou minha indiferença.
— Mas vai precisar se importar. Vai precisar ficar revoltada ao ponto de procurar pistas que conectem ele e Matthew Roberts. Porque você é inteligente, lógico que encontraria uma — Ele me passou a pasta. Abri-a, e dentro havia uma foto. Pude reconhecer David em seus 18 anos, o tal Matthew, que eu havia visto no jornal, e mais uma pessoa que eu não conseguia conectar a um nome. Quem era ela?
Os homens usavam ternos e erguiam taças de vinho tinto, parecendo muito felizes. Na parede, uma cruz enorme de madeira.
— Eles faziam parte do mesmo culto de igreja... — Comentei, fechando a pasta. A resposta de Jim foi um meio sorriso — Bem, que igreja?
— Não sei. Descubra. Como eu disse, você está muito interessada no caso, querida. Meus pêsames — Ele beijou minha testa afetuosamente, se dirigindo para a porta. Seu doce sotaque irlandês soava agora firme — Espero resultados. Em breve. Sabe como me contatar.
— Claro que espera — Murmurei depois que ele se foi, suspirando e guardando a pasta na bolsa, deixando a sala e indo até meu carro.
Uma vez lá, comecei a pensar em um modo de descobrir a igreja sem precisar falar com as famílias. Não podia me expor assim. Ainda não. E tinha de ser de um jeito mais difícil.
Dirigi até a Baker Street, indo direto para o meu flat. Fui bem recepcionada por Mozart, que fez muita festa, conseguindo arrancar até um pequeno sorriso meu. A devoção e lealdade daquele pequeno animalzinho era adorável.
Sentei no meu sofá e ele ao meu lado, deitando a cabecinha em minha coxa. Comecei a acariciar suas orelhas enquanto pensava na igreja. Como a descobriria?
Peguei meu notebook. Hackearia os endereços deles, depois faria um mapa com as igrejas das proximidades. Simples, mas poderia dar certo.
Comecei meu trabalho, levando pouco mais de meia hora para descobrir os endereços e para fazer um mapa decente.
Descobri que David havia tido três endereços anteriores, e Matthew dois. Avaliei cada um deles no mapa da cidade pela internet, fazendo rotas alternativas e tudo que eu podia fazer para conectá-los. Por que eles iriam para uma igreja tão longe de casa? O ser humano prezava a comodidade, o prático.
A não ser que fosse perto de outro lugar, um que oferecesse a comodidade e a praticidade que eles precisavam.
Como perto da escola.
Peguei a foto novamente, avaliando os rostos dos dois homens. Não deviam ter menos de 16 nem mais de 20 na foto.
Colégio ou faculdade?
Colégio.
Mais uma vez trabalhei para conseguir as informações sobre as antigas escolas, chegando a uma informação em comum: London Oratory.
Era isso. Eu havia achado?
Sorri enquanto jogava o nome do colégio no google, vendo fotos da capela. Sim. Era essa.
Era isso!
Bati palminhas com um sorriso no rosto, aprovando meus esforços devidamente recompensados. Apertei o botão da impressora, pegando os papéis e guardando na pasta junto com a foto. Sabia o que devia fazer.
[Moriarty sai. Rail entra em cena.]
********************
Saí do meu flat, subindo as escadas e indo em direção ao 221B. A pasta em mãos, o olhar inocente emoldurando meu rosto bonito. O bote da cobra.
Parei na frente do flat do andar superior, podendo ouvir o som do violino lá de dentro. Bach, creio eu. A porta, como sempre, estava aberta. Andei com passos largos e levemente na ponta dos pés, fingindo uma ansiedade que eu não tinha.
Sherlock Holmes tocava destraidamente ao lado da janela, os olhos azuis grudados na rua como um gavião. Por um instante, me lembrei do olhar de Mycroft sobre mim. Aquilo me deixou levemente desconfortável.
John lia o The Times com um olhar pensativo, fazendo com que eu me perguntasse se ele realmente estava prestando atenção. Sua testa estava franzida, seus olhos miravam o nada. Quando avancei, porém, eles se fixaram em mim, e o jornal foi abaixado.
Vigilância constante. Sem dúvida, um brinde do Afeganistão.
— Ah, olá, Aimee — Ele me cumprimentou.
À simples menção do meu nome, Holmes fez um som desafinado e estridente no instrumento, seus olhos de gavião se cravando em mim.
— John. Mr. Holmes — Cumprimentei-os com um aceno de cabeça — Bem, serei direta. Sei que estão de olho no caso de David Arnet. Sei que estão investigando sua morte. E quero ajudar! Tenho alguns papéis...
— O que faz você pensar que precisamos de alguém de fora para nos ajudar? — O detetive consultor alfinetou — E como sabe que estamos investigando esse caso?
Eu e John trocamos olhares constrangidos.
— Aimee trabalhava com Arnet. O conhecia. Quando fui hoje falar com a coordenadora da escola, nos encontramos por acaso — John respondeu por mim.
Concordei com a cabeça, mas podia ver no rosto do detetive: ele não iria ceder. Pelo menos não tão fácil.
Seu ego não permitiria.
— E o que dizem seus papéis, Aimee? — John perguntou, curioso.
— Bem — Hesitei, fingindo timidez — Eu acredito ter encontrado uma ligação entre Dave e Matthew Roberts. Pode não significar nada, mas...
Deixei minha voz morrer, encarando os dois homens.
John ficou claramente interessado, pois na mesma hora lançou um olhar empolgado à Sherlock Holmes, que apenas continuava a me encarar. Seu olhar demonstrava como me via. Como um inseto. Um inseto perigoso, que devia ser esmagado rapidamente. Tentava me ler, isso era certo. Mas ele leria apenas o que eu permitisse. A insegurança, a timidez, a ansiedade. Nada mais.
— Não precisamos da ajuda de amadores. Eu mesmo estou quase chegando a essa resposta. Passar bem, Srta. Rail — Ele apontou a porta com o arco do violino, voltando a tocar.
Minha testa se franziu, e senti o sangue subir para minha cabeça. Eu estava com o rosto vermelho, sem dúvidas. Mas não de vergonha. Era de raiva.
— Olhando para John, posso dizer que ele tomou café recentemente, que trocou de shampoo e que seu barbeador elétrico quebrou. Suas roupas são lavadas em uma máquina, depois vão para uma secadora. São passadas com esmero. Não é bem algo que uma amadora perceberia, ou é?
— Oh, maravilha. Agora são dois dele — John resmugou, e eu quase riria se não estivesse encarando profundamente Sherlock Holmes. Meus olhos castanhos astutos nos seus azuis brilhantes e desafiadores.
— Bem, como eu disse, não precisamos da sua ajuda, Srta. Rail. Tenho certeza de que consegue encontrar o caminho da saída, sendo tão esperta quanto julga que é — Ele disse, pegando de volta o violino.
— Sherlock! — John protestou — Ela só está tentando ajudar.
— Eu... — Comecei a falar, mas Holmes começou a fazer sons estridentes em seu violino.
Era como lidar com uma criança!
Minhas mãos amassaram a pasta enquanto eu me dirigia até a porta, quase fumegando de raiva. Queria socá-lo. Até ele sangrar. Até quebrar minha mão.
Mas devia controlar meu gênio. Aquilo não ajudaria em nada, em nada mesmo. E Jim me mataria se eu estragasse os planos dele.
Entrei no meu flat, fechando a porta.
E só aí me permiti liberar o furacão.
Joguei a pasta do outro lado da sala, fazendo-a ricochetear contra a janela e cair no chão, espalhando os papéis. Me virei para a parede, socando-a repetidamente até sentir que estava satisfeita.
O que fazia Sherlock Holmes pensar que era melhor do que eu? Qual o direito que ele tinha de pensar que era superior? Aquilo fez meu cérebro ferver. Já não bastava ele não se lembrar de mim depois do que me fez, e ainda se julgava algo mais do que eu? Uma sobrevivente? O que ele sabia sobre sobreviver?
Com aquele pensamento na minha mente, fui para o banheiro. Minha mão sangrava um pouco, a parede havia arrancado um bom pedaço da pele do punho. Ficaria roxo. Precisava de um banho para esfriar a cabeça.
John Watson
John observou com um olhar irritado Aimee Rail deixar o Flat. Sherlock parou de tocar o violino, seu olhar de cão treinado ainda na porta.
— Certo. De onde vem essa hostilidade toda? — Ele perguntou, encarando o amigo — Ela só queria ajudar, Sherlock. Ela tem as informações. Estava disposta a dá-las para nós. Resolveriamos o caso mais rápido...
— Não precisamos da ajuda dela. Sou perfeitamente capaz de resolver isso sozinho, John. Está duvidando da minha capacidade agora?
— Óbvio que não, só acho que um ajuda não seria ruim. Você não se tornaria menos inteligente por isso, sabe? — John observou Sherlock sentar-se em sua poltrona.
— Preciso ir para meu Mind Palace — Ele disse, fechando os olhos e juntando as mãos em frente ao queixo, a ponta dos dedos tocando os lábios. John suspirou, deixando o amigo trabalhar.
Aimee
Saí do banho enrolada na toalha, vestindo meu roupão e penteando os cabelos castanhos. Ao chegar na sala, avaliei minha bagunça.
Papéis por todos os lados. A parede manchada de sangue.
Com um suspiro, apanhei os papéis no chão, organizando-os na pasta e guardando-os numa gaveta do quarto. Peguei um pouco de gelo no freezer para meu punho machucado logo após de limpar como pude a parede, sentando no sofá e relaxando o corpo. Fechei os olhos brevemente, me permitindo um cochilo. Eu mal dormira ultimamente, meu cérebro andava trabalhando demais. Eu poderia ter — e merecia, até — um descanso.
Mal fechei os olhos e uma batida forte na porta me assustou. Eu não estava esperando ninguém, não é? Seria Jim? Não, ele não se arriscaria assim, seria loucura.
Me levantei devagar, indo até a porta e abrindo-a de vez.
Um cauteloso John Watson e um mal-humorado Sherlock Holmes entraram no meu campo de visão, me fazendo franzir a testa.
— Posso ajudá-los, cavalheiros? — Perguntei teatralmente com um falso sorriso.
Porém, Holmes apenas forçou sua entrada, empurrando a porta e passando por mim.
— Ei!— Protestei.
— Os papéis de sua investigação. Preciso deles. Onde estão? — Ele perguntou, bagunçando os papéis da escola na minha mesa. Perda de tempo, querido. Não estão aí.
— Por que você os quer? Eu pedi educadamente para participar da sua investigação, e você se recusou, muito rudemente devo dizer. Por que eu deveria te dizer algo agora? — Provoquei, cruzando os braços.
— Eu trabalho sozinho — Ele respondeu, olhando fundo nos meus olhos — Me dê os papéis.
Eu me aproximei, meu rosto a apenas alguns centímetros do seu.
— Não. — Falei com um sorriso maldoso, agora me afastando.
O rosto dele ficou mais mal-humorado que nunca, e tive que me segurar para não rir. Eu podia ver que John se sentia do mesmo jeito, pois cobria seu sorriso com a mão, fingindo coçar o nariz.
Então o rosto de Holmes relaxou, seu olhar ficou doce, quase submisso, e ele abriu um belo sorriso.
— Me desculpe, sei que começamos com o pé esquerdo. Fui rude, e por isso eu sinto muito. É só que essa investigação está tomando muito meu tempo, e odeio não saber o que está acontecendo. Eu esperava que você pudesse me ajudar. Me ajudar a fazer a coisa certa pelo David — Ele estava quase se parecendo com um ser humano normal, o que me fez perceber que ele estava fingindo. Os sorrisos, o jeito que ele piscava os olhos... Era tudo muito mecânico. Muito medido.
Fingi estar acreditando na sua tentativa de me enrolar, sorrindo e mordendo o lábio. Sério? Ele tentou aquilo comigo? Eu fingia ser normal todos os dias, 80% da minha vida, e eu era boa. Muito boa. Até melhor que ele, ousava dizer.
— Bem... Boa tentativa, príncipe encantado — Voltei a ficar séria — Não vai acontecer.
John não conseguiu mais se segurar, se abrindo em uma risada tão espontânea que quase me fez sorrir.
— Qual seu problema? Estou pedindo sua ajuda aqui! — O detetive insistiu.
— Agora me escute bem, cara. Uma hora atrás você realmente me humilhou dizendo que não precisava da minha ajuda estúpida e que trabalhava sozinho, praticamente dizendo que eu o atrasaria. Me chamou de amadora! E agora você invade meu flat, bagunça minha mesa, tenta me enfeitiçar com esse seu sorriso charlatão... Não! Deixe-me terminar!— Gritei, apontando o dedo para ele antes que pudesse me interromper — Eu não sou uma ferramenta. Se quiser minha ajuda, quero ser parte da investigação. Quero saber o que você sabe, ver o que você viu. Eu não irei fornecer dados para depois ser descartada. Você me entendeu?
Ele não respondeu, sua testa franzida e os lábios pressionados num bico infantil. John apenas me encarava de boca aberta, provavelmente pelo fato de alguém finalmente conseguir calar a boca de Sherlock Holmes.
— Vocês agora podem recolher seus queixos e suas dignidades do chão e sair. Tenho certeza de que conhece o caminho da porta, Mr. Holmes. Sendo tão esperto quanto julga que é — Apontei para ela, em seguida sentando no sofá.
— Ah, pelo amor de Deus! — Sherlock se irritou, deixando o flat apressadamente. John sorriu para mim, e pude ver que ele aprovara minhas palavras.
— Poderíamos realmente aceitar sua ajuda, sabia? De verdade — Ele disse.
— Eu sei. Sou inteligente. Posso ser muito útil. Mas não do jeito que ele quer que eu seja. Eu posso ser bem teimosa. Não vou desistir — Respondi, levantando o queixo.
Ele concordou.
— Eu sei disso agora. Boa tarde, Aimee. Me desculpe por ele — Ele acariciou Mozart, que presenciara a cena inteira calmamente do sofá, logo em seguida acenando com a cabeça e deixando o flat.
E eu soube bem naquele instante. Ele intercederia ao meu favor.
Talvez houvesse um uso para John Watson, apesar de tudo.
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