Backfire
3 II - Would You Kill To Prove You're Right?
Notas iniciais
James Moriarty
Enquanto aguardava sua chegada em casa, James Moriarty olhava pela janela do carro com um sorriso no rosto. Estava tudo dando tão certo, como nunca antes. Quase podia sentir o gostinho do que estava por vir. Esteve longe por um mês, tinha certeza de que Aimee havia sentido sua falta, e que estava esperando-o.
Ele desceu do carro com a maleta nas mãos. Ansioso? Sim, estava. Não ia negar. A expectativa o corrompia por dentro, como um vinho doce encontrando o caminho para seu estômago.
Ele abriu a porta, dando de cara com Agatha. Tentando segurar uma cara de entojo, deu-lhe as regras do almoço. Aquele sotaque dela, junto com a sua voz afetada, o irritava. Profundamente. Mas ela foi necessária e até havia ajudado-o, então resolveu deixá-la ficar. Além dela ter pego uma extrema afeição por Aimee, e a mesma por ela.
Falando na garota, ouviu seus passos descendo as escadas. Vinha correndo, usando aquelas meias com solado de borracha. Elas faziam um barulho suave na madeira da escada, e ele abriu um sorriso quando a viu.
Ela realmente havia crescido bastante desde que a resgatou. Desde que era uma pequena garotinha assustada tentando ser forte.
Ela o abraçou e ele pôde sentir o cheiro habitual de baunilha dos cabelos da garota. Não sabia se gostava dela, para ser sincero. Quando pensava em Aimee, pensava também naqueles filhotinhos de cachorros quando são recém-chegados na sua casa. No começo são adoráveis, mas depois... Você se acostuma e ele passa a ser indiferente. Era assim que se sentia. A mente de Aimee era extraordinária, mas a pessoa Aimee... Era totalmente ordinária. E tudo que era ordinário era insuportável na vista dele.
Jim tocou seus cabelos, acariciando-os e sentindo a maciez das mechas castanhas escuras.
Se ele havia sentido saudades dela? Havia pensado na menina duas, talvez três vezes enquanto estava fora, nada mais que isso. Era o bastante.
Levou-a até o seu escritório, tirando a pasta de arquivo da maleta. Quando colocou-a na frente dela e disse que estava pronta, seu sorriso desapareceu. Os pequenos dentinhos brancos foram escondidos, e ele se perguntou se ela desistira da vingança. Se estava tudo arruinado.
Mas logo o olhar de antes voltou à seus olhos, o olhar do dia que ela foi resgatada. Aquela luminosidade que o lembrou dos seus próprios. Ela ergueu o queixo de forma arrogante, mordendo o lábio levemente. Hesitação.
– O que eu tenho que fazer? – Ela por fim perguntou, e Jim abriu um largo sorriso.
Contou sua pequena mentira sobre os Holmes. Mycroft Holmes, o próprio governo britânico e um pouco mais, tinha uma rede interna que cobria os desejos absurdos do irmão. Ele havia prendido Aimee para ver como uma mente como a dele (ou superior, ele adicionou, para encher o ego da garota) reagiria a tanto tempo presa. Acabou que ele havia encontrado-a primeiro, devido a contatos e informações sigilosas. E ali estava ela agora. Havia chegado sua chance. Sua chance de se vingar. Sua chance de dar o troco para os dois.
Aimee não queria admitir, mas Jim sabia que ela não havia esquecido a ideia de vingança. Aquela imagem de garota boazinha que cumpre as leis era fachada total. Ele já havia visto o lado sombrio da garota quando ela adiantara a morte do guarda. Onze anos haviam se passado e ele não esquecera o grito da garota ao esmurrar o ferimento de bala do carcereiro. Como música para seus ouvidos. Um som anárquico, sofrido. E na voz de uma garota tão nova.
Perdeu-se em seus pensamentos, apenas para ser puxado de volta por ela em seguida. Ele avaliou-a por alguns segundos. A garota ainda esperava instruções. Como um bom soldadinho que Jim podia moldar conforme sua vontade. Era melhor que encomenda.
– Primeiro de tudo, amor. Você vai ter que se mudar daqui – Ele começou – Já arranjei um novo endereço para você.
Ela ergueu as sobrancelhas, seus olhos adquirindo um visual triste. Jim controlou a imensa vontade de revirar os seus. Ela não entendia que era para um bem maior?
– Eu... Fiz alguma coisa? – Ela perguntou, insegura.
– Não, não! – Ele foi até ela, segurando seu maxilar com as duas mãos – Claro que não, querida. É parte de tudo que estou arquitetando. Não se preocupe, vai dar tudo certo.
Ele usava a voz mais delicada que possuía para inspirar confiança, mesmo sabendo que não era necessário. Aimee confiava cegamente nele. E chegara a hora dele se aproveitar disso.
Ele se levantou e foi até ela, abrindo os braços. Ela imediatamente se levantou da cadeira, indo até ele e encostando a cabeça em seu peito, selando o abraço apertando. Jim encostou o queixo na cabeça dela, com um sorriso malicioso nos lábios. Era isso. Estava feito.
Aimee
No outro dia, eu estava pronta. Minhas coisas mais importantes haviam sido encaixotadas, e agora estavam no banco de trás do meu carro. Jim havia dito que mandaria o resto depois por Agatha. Concordei com a cabeça e beijei sua bochecha, entrando no meu Mini Cooper vermelho e dando a partida. Dei-lhe um tchauzinho pelo retrovisor enquanto saía da propriedade, que foi devidamente retribuído.
Eu achava estranho Jim me deixar completamente no escuro. Porque era assim que eu me sentia. Ele havia falado pouco sobre os Holmes, e agora havia feito eu me mudar. Qual o sentido disso?
Ele havia deixado o endereço no GPS, o que realmente era desnecessário, pois eu conhecia Londres na palma da mão.
Cheguei depois de um tempo na Baker Street, iria morar no 221C. Desci e a porta marcava 221B. Provavelmente era embaixo. Bati e uma senhora me atendeu, sua cara era amável e ela mesma era muito doce. Mrs. Hudson era seu nome. Segui-a pelo grande prédio. Pude ouvir o som de um violino tocando em algum lugar. Não pude segurar um sorriso, adorava o som do instrumento.
– Seu irmão falou comigo e trouxe alguns dos móveis que faltavam. Precisa de ajuda com alguma coisa, querida? – Ela perguntou com um sorriso adorável.
– Ahn, um chá seria maravilhoso – Arrisquei, sorrindo amarelo.
Ela me lançou um olhar cúmplice.
– Só dessa vez. Sou sua senhoria, não sua empregada – Ela disse, caminhando até o lado de fora do meu novo lugar. Olhei em volta, apreciando a decoração rústica escolhida por Jim. Era realmente do jeito que eu gostava, precisava apenas de uma faxina. Eu cuidaria disso mais tarde, depois de desencaixotar tudo e me estabelecer.
Desci as escadas e fui até o carro, pegando a primeira caixa. Era pequena, então pude levá-la sem problemas até o apartamento, colocando-a no pé do sofá. As malas foram mais difíceis. A primeira era leve e pequena, pois só tinham maquiagens e essas frescuras. Agatha havia insistido, e não pude dizer não. Coloquei-a na cômoda do quarto.
Quando fui pegar a mala das roupas então, era bem mais pesada. Gemi com o peso enquanto arrastava-a com esforço, colocando-a também ao lado do sofá.
A última mala, porém, foi a mais difícil. Meus braços não estavam ajudando muito, pois além do exercício ser duro para mim, eu não havia dormido direito. Ia derrubando a mala quando braços me ajudaram a apoiá-la.
– Oh, meu deus! – Falei, olhando para ele – Muito obrigada, ia acontecer uma tragédia aqui.
Ele sorriu, me encarando com olhos desconfiados.
O homem tinha cabelos curtos e loiros, e sua postura logo denunciou seu passado militar, além do corte de cabelo.
– Você é a nova inquilina, não é? – Ele perguntou, me ajudando a apoiar a mala no chão e estendendo a mão – John Watson. Moro aqui em cima.
– Ah, prazer! Aimee Rail – Respondi com um meio sorriso.
– Precisa de ajuda?
– Não, obrigada. Essa era a última.
Ele concordou com a cabeça e eu o avaliei mais um pouco. Ele era baixinho para um cara, mas era tão bonitinho! E havia sido gentil em me ajudar com a mala.
Ia dizer algo quando Mrs. Hudson chegou com o chá.
– Ah, você já conheceu John – Ela disse com um sorriso no rosto e entrando no meu apartamento novo, colocando a bandeja na mesinha de centro da sala – Ele é um bom rapaz.
John ficou momentaneamente sem graça, e Mrs. Hudson sorriu para nós dois.
– Muito obrigada, Mrs. Hudson – Agradeci pelo chá – Mr. Watson, chá?
– Eu adoraria, mas sinto muito. Estou atrasado para um compromisso – Ele disse, os ombros encolhendo – Quem sabe outra hora.
Sorri de lado.
– Quem sabe.
Ele deu um tchauzinho e se virou, indo até a porta. Minha língua estava coçando, e não consegui me aguentar.
– Afeganistão ou Iraque?
Ele parou de súbito sem se virar para mim.
– Perdão? – Ouvi sua voz ecoar pelo espaço, insegura e desconfiada.
Levei a mão aos lábios, me condenando.
– Nossa, desculpe. Isso realmente não é da minha conta, nem nos conhecemos. Desculpe, com licença – Pedi, e pude ver o rosto dele virar devagar para mim enquanto fechava a porta.
Fui até a mesa de centro me servindo do chá quente, bebendo um gole enquanto arranjava coragem pra começar a faxina.
Comecei passando o aspirador no chão, logo em seguida pano. Pano nos moveis, em tudo. Quando terminei, estava exausta. Tomei um bom banho e fui direto para a cama.
Acordei no outro dia ainda me sentindo cansada, mas tinha de levantar. Tinha de dar aula. Mrs. Hudson veio me trazer o jornal do dia e eu o li enquanto tomava café, sentada no meu sofá. Estava achando estranho a falta de gente à minha volta, já que a casa de Jim era tão grande e eu quase nunca estava sozinha. Mas eu gostava. Ajudava a pensar.
Lembrei-me então do pobre John Watson e de sua cara de espanto do dia anterior. Droga, Aimee. Eu tinha que me lembrar de que nem todos gostavam de serem lidos daquela forma.
Suspirei. Quando o encontrasse, pediria desculpas. Não era legal já começar criando inimizade com os vizinhos desse jeito.
Peguei a bolsa e saí do prédio, indo para meu carro e dirigindo direto à escola.
Em resumo, o dia foi estranhamente tedioso. Eu geralmente me sentia bem ensinando, mas hoje eu estava hiperativa. Meus pensamentos não se organizavam direito, tudo vinha na minha mente de uma vez.
Acabei pedindo para largar mais cedo, percebendo que a coordenadora não havia ficado muito feliz, e também que não havia feito sexo com o marido noite passada. Merda.
Peguei o carro e dirigi direto para a Baker Street. Estava com a cabeça cansada por causa da mudança, tinha de ser isso. O barulho do violino novamente se fez ouvido, e não pude segurar um sorriso. Entrei no meu apartamento e peguei meu celular, colocando uma musica qualquer para tocar enquanto estudava.
Não me lembro de ter cochilado no sofá, mas acordei sobressaltada com barulhos de tiros no andar de cima. Meu deus! O que será que estava acontecendo?
Vesti meu robe e peguei uma faca da cozinha, abrindo a porta do apartamento devagar. Pude ouvir a voz alterada da Mrs. Hudson reclamando, e a de John respondendo. E outra voz grave desconhecida. Subi as escadas, encontrando as três pessoas.
– Por deus, está tudo bem? – Perguntei – Quase morri de susto!
– Desculpe, Srta. Rail. Foi só...
John começou a falar, mas minha atenção não estava mais nele. Estava no ser estranho dentro do quarto, o outro homem. Ele seria só mais uma pessoa normal se não fosse por um pequeno problema: eu não conseguia lê-lo.
Fiz contato visual com ele. Era magro, alto e pálido, com intensos olhos azuis. Seus cabelos eram negros e cacheados. Ele olhava para mim, e tudo que eu podia tirar era a dúvida de seu rosto fino.
O homem tinha uma arma na mão, e considerando os buracos da parede, ali eu tinha minha dúvida tirada. Ele estava... Atirando na parede?
– Srta. Rail? – John chamou, atraindo minha atenção.
– Ahn? Ah, sim. Sim, sem problemas – Respondi, aérea – Sem problemas, Dr. Watson. Boa noite a todos.
Acenei com a cabeça, me virando para sair.
– Respondendo sua pergunta, foi Afeganistão – Ouvi a voz grave mais uma vez e me virei para o homem. Ele me encarava com um olhar desconfiado e ainda sim compenetrado. A testa franzida e os olhos apertados.
– Sherlock! – John Watson protestou, e aquele nome me fez arregalar os olhos.
Sherlock? Sherlock Holmes?
Jim havia me mandado morar no prédio de Sherlock Holmes?
Levei inconscientemente a mão aos lábios, pedindo licença e descendo depressa, entrando no apartamento e soltando a faca no chão. Como assim? Ele havia me deixado no escuro daquela forma?
Corri para meu quarto e fechei a porta, pegando meu celular e discando o número dele. Apesar da hora, ele atendeu no terceiro toque.
– E então, como foi a mudança? – Sua voz estava até meio debochada. Franzi a testa raivosamente.
– Ah, foi maravilhosa. Acabei de conhecer meus vizinhos.
– Foi?
– Aham. John Watson, e... Mas olha só! Sherlock Holmes! – Falei, a raiva passando agora para minha voz – Coincidência, não é?
– Não existem coincidências, Aimee.
– Podia ter me avisado.
– Mas não avisei – Ele cantarolou, me fazendo morder o lábio impacientemente. O que ele pretendia com aquilo? – Aimee. Nada pode dar errado. Você sabe exatamente o que fazer, é só ser você mesma.
– Não, não sei. Estou perdida. O homem que fez tudo aquilo comigo está vivendo no andar de baixo!
– Eu sei. Você tem que conviver com ele. Apenas isso. Mantenha os amigos perto e os inimigos bem perto. E espere alguma ação em breve. Tchauzinho!
– Jim! – Chamei, mas ele já havia desligado. Quase atirei o celular do outro lado do quarto, mas coloquei-o na mesa de cabeceira e fui tomar um banho para me acalmar.
John Watson
John encarou Sherlock, tentando imaginar o que se passava naquela cabeça complicada. Ele estava sentado em sua habitual poltrona, fitando o nada silenciosamente.
– Por que disse aquilo? – John perguntou, encarando o detetive.
– Não achou estranha a reação dela após isso? – Ele perguntou, uma ruga se formando no meio de suas sobrancelhas.
John parou para pensar. Sherlock estava certo, a garota praticamente havia fugido como o diabo foge da cruz.
– O que tem de mais?
– Não consigo lê-la, John.
O médico ergueu as sobrancelhas, incrédulo. A última mulher que ele não havia conseguido ler havia sido Irene Adler, The Woman. E deu no que deu, não é?
– Vamos ficar de olho nela – John disse, indo até a cozinha – Tenho certeza de que ela é uma boa...
– Só chá para mim, obrigado – Sherlock o cortou, fazendo John revirar os olhos e colocar água para esquentar. Ficou em silêncio após isso, não querendo atrapalhá-lo.
Abriu a geladeira, ignorando a cabeça que ocupava metade da prateleira de baixo. Fez para si um sanduíche e serviu o chá para Sherlock, entregando-lhe a xícara fumegante. Sentou-se então na sua poltrona, pensando na garota. Aimee. Parecia uma pessoa normal, normal demais para ter a mente sequer parecida com a de Sherlock. Definitivamente mais sociável que ele, não passava a imagem de femme fatale como Adler. Parecia ser bem comum. Também não parecia ser arrogante, pois...
Sua linha de raciocínio foi quebrada pelo barulho da porcelana batendo bruscamente contra a mesa de centro. Ele observou Sherlock se levantar da poltrona, os olhos azuis vivamente agitados.
– Não está bom? – John perguntou, referindo-se ao chá.
– O cheiro e o barulho das engrenagens do seu cérebro estão me atrapalhando – Ele reclamou, fazendo-o erguer as sobrancelhas. Sherlock pegou o violino e começou a tocar algo desconhecido por John, uma melodia energética e arisca.
– O cheiro e o barulho... – Ele começou, mas desistiu no meio do caminho, levantando-se ao terminar o seu sanduíche – Você vai...
Ao ouvir sua voz, Sherlock fez um som estridente e desafinado no instrumento, que significava claramente que queria ficar sozinho.
O médico suspirou e recolheu a xícara, colocando tudo na cozinha e recolhendo-se ao seu quarto. Era o melhor que podia fazer.
Aimee
Acordei me sentindo cansada pelo sono interrompido da noite passada. Tomei um banho e logo em seguida uma boa xícara de chá. Não estava com muita fome, então comi apenas uma maçã.
Quando abri a porta, dei de cara com um John Watson com o punho erguido.
– Ahn... Olá, Dr. Watson – Cumprimentei-o com um sorriso, saindo de casa e trancando a porta.
– Srta. Rail. Bom dia. Eu só queria pedir desculpas pela indelicadeza do meu amigo ontem. É só que ele não está muito acostumado a ser social.
Ergui a sobrancelha, avaliando-o enquanto ele falava. Será que John sabia das atividades ilícitas do amiguinho? Provavelmente não, parecia ser um homem tão correto.
– Não se preocupe com isso. Verdade, não tem problema nenhum.
– Mas Srta... como você sabia que eu havia estado no exército?
Sorri de lado, me segurando para não me mostrar demais.
– Acho que, considerando o seu parceiro de apartamento, o senhor sabe exatamente como eu sei disso – Falei, piscando para ele – Li seu blog, a propósito. Bom material, você escreve muito bem.
– Oh... Oh, obrigado – Ele disse, sem jeito. Percebi que ainda esperava a resposta para sua pergunta e suspirei, parando em sua frente.
– Ah, você sabe. Seu corte de cabelo, sua postura. O jeito de você andar. Essas coisas – Não me aprofundei muito, se ele me deixasse, eu provavelmente daria uma monografia aqui.
Enquanto nos dirigíamos à saída, o maldito violino começou a ser tocado novamente. Suspirei, fechando os olhos e aproveitando brevemente a melodia.
– Ele que toca? – Perguntei, erguendo uma sobrancelha.
John concordou com a cabeça e eu fechei a cara. Como assim o homem que eu odeio toca meu instrumento favorito?
– Eu amo violinos – Comentei, suspirando brevemente enquanto chegávamos ao meu carro.
– Você toca?
– Piano. Tenha um bom dia, John – Sorri para ele e entrei no automóvel, dando a partida e saindo dali com a cabeça cheia.
Meu celular vibrou, me tirando dos meus devaneios. Era uma mensagem de numero privado.
"Jamais consegui
Imaginar algo como o
Medo extremo paralisante"
Franzi a testa, minha mente trabalhando rápido. J + I + M. Era uma mensagem dele, mas o que ela queria dizer?
Enquanto isso...
Matthew acordou com dores no pescoço, olhando em volta para saber aonde estava. Era um lugar escuro e extenso, pois não conseguia sentir paredes enquanto tentava tatear algo. Sentia o chão fofo debaixo dos sapatos, o que aparentemente significava que o chão era de terra. Ele franziu a testa. Como havia chegado ali, não sabia.
Andou um pouco pelo local, tentando ainda tatear algo. Uma corrente fraca de ar vinha de algum lugar, e ele tentou segui-la. Podia ser a saída daquele lugar estranho. Ele estava tentando se manter calmo até um som estranho chegar aos seus ouvidos. Era um... Silvo?
Ele sentiu um arrepio na espinha quando algo tocou seu calcanhar. Matthew se agachou e sentiu algo escamoso e áspero ao seu toque, algo que deu uma sacudida brusca quando ele o tocou.
Cobra. Era uma cobra.
Ele gritou e se afastou do animal, sentindo as pernas tremerem. Nesse momento, luzes se acenderam e ele pode ver aonde estava.
Era um galpão abandonado. Ele pôde ver a cobra, a língua do animal entrando e saindo da sua boca. Sentiu uma sensação ruim no estômago, o coração acelerado.
A coisa piorou quando dois homens de máscaras negras entraram no galpão, vindo até ele ameaçadoramente.
– Quem são vocês? O que querem? – Ele perguntou, tentando se afastar o quanto podia. Os homens não responderam, e antes que ele pudesse dizer algo mais, um soco forte acertou seu maxilar, derrubando-o no chão.
Os dois homens alternavam os socos e os chutes, até Matthew ficar sem forças para protestar. Sua voz se tornou um sussurro fraco enquanto ele pedia para não matarem-no. Tinha filhos. Queria vê-los crescer, não queria que crescessem sem um pai. Aquilo não era justo.
Mas nada adiantou. Matthew não teve forças para lutar enquanto os dois homens ergueram seu corpo e o colocaram dentro de uma enorme caixa de madeira com furos, grande o bastante para ele ficar sentado com as pernas esticadas.
Seus olhos arregalados observavam enquanto os dois homens viravam jarros e mais jarros com cobras enormes, e o silvo delas foi a única coisa que ouviu enquanto a caixa era fechada e ele era jogado na escuridão.
John Watson
John desligou o telefone, perplexo. Como é possível alguém, um ser humano, fazer algo com outra pessoa daquele jeito? Que crueldade sem limites era aquela?
Antes que pudesse organizar seus pensamentos, sentiu os olhos de Sherlock em si. O amigo esperava as notícias.
– Lestrade pediu que fossemos até a Scotland Yard. Agora – Ele disse, vestindo um casaco – Chegou um presentinho anônimo lá.
Sherlock continuou sentando, a testa franzida e as mãos juntas à frente dos lábios.
– Presente?
– Um homem morto chegou dentro de uma caixa. Confinado com cobras. Várias delas, pelo que Lestrade contou. E na caixa estava escrito "Não tenham medo dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Antes, tenham medo daquele que pode destruir tanto a alma como o corpo no inferno."
Sherlock ergueu uma sobrancelha, se levantando energeticamente.
– Um caso! Um bom, para variar. Oh, sim – Ele disse, esfregando as mãos. John franziu a testa diante da falta de empatia do amigo para com o morto, mas em seguida relaxou. Já estava acostumado.
Sherlock vestiu seu sobretudo habitual e os dois seguiram para a rua, aonde pegaram um táxi e chegaram em pouco tempo à Scotland Yard, onde Lestrade, Donovan e Anderson já esperavam. Bem... Mais para onde Lestrade esperava, pois ao vê-los, Donovan não escondeu seu descontentamento.
– Ainda bem que vocês chegaram. A imprensa está caindo em cima – Lestrade reclamou, guiando-os até uma sala. A caixa pôde ser vista, desmontada para facilitar a análise do corpo.
Que, aliás, estava um caos. Inchado e cheio de marcas de mordidas por causa das cobras.
A parte do escrito na caixa havia sido preservada. John leu os dizeres: havia sido escrito com sangue.
Ele observou Sherlock abrir sua pequena lupa e examinar as solas do sapato do morto. Em seguida, as marcas de mordida.
– Lestrade, me arranje uma seringa – Ele pediu sem tirar os olhos do cadáver.
– Para quê? – O inspetor perguntou, com rugas entre as sobrancelhas.
Sherlock não respondeu, apenas lançou-lhe um olhar que significava claramente "não faça perguntas". John conhecia aquele olhar. Muito bem.
Quando Lestrade saiu, Sherlock se levantou.
– John, venha aqui – Ele chamou, fazendo o médico se aproximar. Ele se inclinou sobre uma das paredes da caixa e passou os dedos por cinco marcas longas e juntas – O que você acha?
John arregalou os olhos, fazendo o mesmo com os dedos.
– Unhas. São marcas de unhas – John constatou – Isso significa...
– Uhum. Ele estava vivo quando o colocaram aqui dentro – Sherlock disse – Não tenham medo dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Antes, tenham medo daquele que pode destruir tanto a alma como o corpo no inferno... Precisamos falar com a viúva.
Sherlock se levantou de um pulo, ignorando Lestrade totalmente quando ele chegou com a seringa. John fez uma careta como quem pede desculpas, mas sabia que, como ele, o inspetor também já estava acostumado.
Sherlock tentou entrar em uma sala, mas foi interceptado por Donovan.
– Ela está em choque – Ela protestou – Você não vai falar com ela e piorar a situação.
– É necessário.
– Por que eu deixaria, freak? Posso sentir a sua felicidade mórbida daqui – Ela incitou, fazendo Sherlock revirar os olhos e tirá-la do caminho – Greg!
– Ora, Sally... – John passou direto da discussão e entrou na sala, onde viu uma mulher na faixa dos 30 anos, que chorava desesperadamente. Sherlock tentava acalmá-la, aparentemente sem sucesso.
Ele se aproximou da mulher, tocando em seu ombro delicadamente.
– Sinto muito pelo seu marido. Nós só precisamos fazer algumas perguntas, por favor, ajude-nos a encontrar quem fez isso com ele – Ele falou com a voz baixa e calma.
A mulher respirou fundo, tentando formular palavras.
– O Matthew nunca iria chegar perto de um lugar com cobras – Ela começou – Ele tinha pavor delas. Fobia. Ele nunca, ele nunca...
Ela disse algo desconexo e a choradeira voltou.
– Já é o bastante – Sherlock disse, chamando John com um aceno de cabeça, e os dois saíram da sala.
– E lá vai você – John reclamou, fazendo Sherlock franzir a testa.
– O quê?
– Está fazendo aquela cara de "sabemos o que está acontecendo aqui". O que descobriu?
O detetive tirou o celular do bolso, digitando algo que John não conseguiu ver. Eles voltaram para a sala onde Matthew estava, e Sherlock tirou um pouco da terra dos sapatos dele, guardando-a em um frasco.
Ele, então, se levantou e mostrou o celular para John.
– Essa frase está na bíblia. Evangelho de Matthew. Lestrade, você contou quantas cobras estavam na caixa?
O inspetor pareceu pensar.
– Eram dez, se não me engano. Todas perigosas, tivemos que chamar especialistas para tirá-las daqui.
– Me dê as informações do homem.
– Ahn... Matthew Roberts, 28 anos, empresário...
– Aí está. 28 – Sherlock disse – Dez cobras, vinte e oito anos. A frase é do evangelho de Matthew, capítulo 10, versículo 28. O assassino pensou em tudo, cada detalhe. Magnífico!
– Sherlock... – John reclamou, fazendo o detetive o encarar confuso.
– Então teremos outros, devo supor – Lestrade perguntou com os ombros arriados.
– Oh, sim. Definitivamente. Devo voltar à Baker Street agora, tenho coisas para ver – Sherlock estava eufórico enquanto saía da sala, sem nem mesmo esperar por John.
– Olha só o quanto ele está feliz com tudo isso... – Lestrade notou, suspirando.
– Qualquer coisa de importante que descobrirmos, eu ligo – John avisou, se apressando para alcançar Sherlock.
Quando chegou na rua, porém, ele havia desaparecido. John revirou os olhos. Típico.
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