Baby, I don't want to feel alone.
1 Looking for the past
O barulho do despertador soava por todo o quarto, eu não podia acreditar ainda, era como se eu tivesse dormido há alguns minutos. Passei a mão em meu rosto para acordar de vez, enquanto a outra parava o despertador e sua musiquinha irritante. Sim, compromisso diário era um saco, pior coisa que a vida lhe presenteia quando você vira adulto. Respirei fundo e virei para o outro lado da cama para acordar o Kevin, que tinha certo problema em acordar com o despertador.
– Amor, acord... – Falei enquanto me virava para sua parte da cama, porém minha frase foi interrompida ao ver que o mesmo não se encontrava por lá, o que achei um pouco estranho.
Afastei o cobertor e me sentei na cama, procurando calçar as pantufas. Não me importava nem um pouco o jeito em que eu me vestia em casa, logo, estar apenas de boxer preta não era novidade para ninguém. Já ia em direção a porta do quarto quando algo deu uma leve piscada em meio ao quarto parcialmente escuro. Olhei para trás e era o celular do Kevin no criado mudo. Se eu podia ter ignorado e ir procura-lo pela casa ao invés de checar o que seria a tal notificação no celular dele? Sim, mas estamos falando de mim, onde curiosidade é meu segundo nome.
Caminhei em direção ao criado mudo onde o celular dele estava e desbloqueei, enquanto ainda coçava os olhos, me sentindo um pouco sonolento. Por um momento, achei que seria ilusão minha ou o sono teria me afetado o bastante para eu ter lido errado o que estava no celular do Kevin. Não podia acreditar que depois de anos juntos, John estaria de volta na vida dele. Minha vontade era de procura-lo em cada metro quadrado daquele apartamento e tirar satisfações ou quem sabe por algum acaso do destino mata-lo e enterrar o corpo. Mas respirei fundo, soltei o celular de qualquer forma na cama e retirei minha cueca, indo em direção ao banheiro do quarto mesmo, para tomar banho. O Kevin que se virasse no que quer que ele estivesse fazendo.
Não demorei muito no banheiro, apenas o suficiente para que a água morna fizesse com que eu me sentisse relaxado novamente para tentar ter alguma conversa decente com o Kevin. Aproximei minha mão esquerda do meu rosto, podendo observar a aliança dourada que se encontrava ali fazendo com que eu me recordasse do momento exato do pedido de casamento proposto pelo moreno. Fechei a ducha e logo me sequei, envolvendo uma toalha em minha cintura, rumando de volta ao quarto que ainda parecia não ter ninguém.
Me vesti sem pressa, como um bom CEO que eu era, já havia deixado alguns projetos e burocracias resolvidas na agência, que hoje, era uma das melhores agências de publicidade da cidade. Sem falar que puff eu era o CEO, eu que mandava naquilo tudo e podia chegar na hora que quisesse –ou talvez não. Publicidade era conhecida justamente por ser fora de toda formalidade que outros empregos ou empresas exigem, logo, eram raras as vezes que eu ia vestido como “manda o figurino” e os bons costumes. Assim que terminei de me vestir, caminhei até o espelho e pude ver se a roupa estava boa o suficiente. A calça skinny preta havia caído perfeitamente com uma camisa de manga ¾ branca e por fim um dockside para finalizar. Olhei diretamente para meus olhos, tentando me fazer acreditar que tudo estava bem e rumei até a cozinha.
Ao caminhar sutilmente até a cozinha para tomar o café da manhã, era possível ouvir alguns barulhos vindo de lá, até que finalmente eu pude perceber do que se tratava. Kevin havia feito o café da manhã e a mesa estava parcialmente cheia com diversas comidas, era possível encontrar desde panquecas, até torradas e geleias.
– Ah, bom dia amor. – Seu sotaque britânico percorreu em meus ouvidos, fazendo com que quase eu perdesse a razão.
– Bom dia, sweetheart. – Falei em um tom forçado que não fora percebido pelo mais velho e logo ele veio em minha direção, dando um breve beijo.
Sentei-me a mesa enquanto Kevin terminava de fazer os ovos mexidos. Ele ainda estava “vestido” como tinha ido dormir, apenas de boxer, como eu, porém branca e com um avental que ele nunca largava mão quando o assunto era cozinha.
– Mas então, me fala. Porque isso tudo? Estamos comemorando aniversário de casamento, alguma promoção tua, ou o quê? – Perguntei enquanto colocava o café puro em uma caneca de cerâmica preta por fora e branca por dentro, minha caneca favorita de toda a casa.
– Não, eu só achei que devia fazer isso tudo, sempre estamos com pressa e nunca tomamos café direito. Hoje, por coincidência, temos parte da manhã livre, então... — Ele falou enquanto já colocava o ovo mexido num prato vazio que estava em meio a diversas outras coisas na mesa.
Conhecia o Kevin há bastante tempo para saber como ele agia quando estava se sentindo culpado por algo ou havia feito alguma merda e estragado tudo. Sempre tentando me agradar de diversas formas. Apenas assenti com a cabeça e observei-o finalmente sentar junto a mim. Por algum momento o silêncio tomou conta do lugar, não sabia dizer se por conta do sentimento de culpa que estava implícito nele, ou porque ambos estavam comendo mesmo. Peguei uma torrada e passei um pouco de geleia de morango na mesma, não demorando muito para leva-la até a boca. Enquanto o Kevin tomava seu “chá nosso de cada dia” e comia uma panqueca com mel e assim foi, por um pequeno espaço de tempo.
– Sabe que não como muito na parte da manhã, não é? Então eu acabei por aqui. Vou direto para a agência agora, lembrei que tenho algumas pendências para serem resolvidas. – Na verdade não existia pendência nenhuma, o fato era, ou eu saia agora de casa e evitava uma discussão, ou a faca da geleia seria uma boa arma para ser usada contra Kevin que agia como se nada tivesse acontecido.
– Mas você disse que não ia cedo hoje, até inventei uma desculpa qualquer para meus alunos e remarquei a aula de história para a tarde. – Ele falou fazendo um bico e olhando para baixo, enquanto eu já me levantava da cadeira e passava por ele, indo em direção a sala.
– Não, vem aqui. Qual é, Patrick. Você pode atrasar um pouco e eu posso tirar toda essa sua roupa novamente, que tal? – Ele falou, segurando meu braço, impedindo que eu pegasse a chave do carro e meu celular.
– Eu fico, se você me explicar o que porra você estava conversando com o John a madrugada quase toda no iMessage. – Falei calmo, apesar do palavreado. Nesse momento ele havia parado de segurar meu braço e aproveitei a oportunidade para me distanciar e olhar diretamente para ele que fazia cara de surpreso sem falar nada, provavelmente pensando em alguma mentira.
– Pois bem, Kevin. Até mais tarde. – Continuei a falar, enquanto andava em direção a porta do apartamento, batendo ela em seguida.
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