Azul Noturno - Interativa
10 Quem eu sou e em que acredito!
Notas iniciais
Ela estava parada, de pé, observando os amigos, como um segundo antes de ter tido a pior lembrança de sua vida. Só que mesmo com seus amigos bem a sua frente a pequena não conseguia vê-los, sua mente vagava no tempo e no sofrimento. A dor em seu peito era insuportável, ela queria arrancar o seu coração apenas para não sentir tamanha dor. Então teve vontade de arrancar o coração do assassino que matara seus pais, queria fazer isso mais que tudo...
"Lembre-se de quem você é e em que acredita", a voz do seu pai foi como um sussurro em sua mente e imediatamente a dor que sentia foi diminuindo, mas a indignação não. Como poderia não odiar aquele homem.
– Clara! Clara! Clara! — Josh a sacudia de leve, mas a gritava como se a mesma estivesse a quilômetros de distancia — teve uma lembrança ruim?
A pequena não disse nada, apenas olhou de a um até fitar os olhos de Josh, esse a abraçou apertado e a carregou no colo. A menina colocou a cabeça no ombro dele e caiu em prantos silenciosos, sem ao menos um soluço. Sentiu a mão de Lis acariciar seus cabelos e escutou sua voz macia cantar uma canção de ninar, Clara não entendia muito a letra, mas logo adormeceu.
Abriu os olhos e viu um teto branco, um barulho monótono e viu quera um aparelho que media as batidas do seu coração, sua perna estava engessada e a unica coisa que a separava de outros pacientes era uma cortina de hospital azul.
Sua cabeça doía muito e a dor triplicou quando as lembranças do ocorrido a invadiram, então uma enfermeira apareceu de trás da cortina.
– Olá fofinha — disse, uma raiva penetrou na jovem, mas não era da enfermeira, era da vida.
– Não me chame assim! — Brigou. Tentou se levantar, mas a enfermeira a empurrou delicadamente para as almofadas.
– Precisa se recuperar, você quebrou a perna e fraturou uma costela mocinha, desculpe por ter te chamado de fofinha — Clara apenas olhou feio para ela, como poderia ter se machucado tanto, ai lembrou, ela havia caído — tem alguém aqui que quer vê-la.
– Eu não quero ver ninguém — disse com raiva — só quero saber o que aconteceu com meus pais.
– Eles não estão mais aqui — disse uma senhora que se aproximou da maca, a enfermeira olhou feio para ela e saiu — sinto muito criança, mas acho que enrolar você não vai adiantar de nada, você viu tudo.
Clara sentiu vontade de chorar com o que acabara de escutar da avó. Ela só tinha cinco anos, tá que era bem mais esperta que as outras crianças da sua idade, mas não podia viver sem os pais. Quem iria lhe dar carinho? Quem iria lhe contar histórias a noite? Quem lhe daria beijos e lhe desejaria bons sonhos antes de dormir? Ninguém. Tudo por culpa daquele homem, tudo culpa daquele assassino! Antes que percebesse estava chorando e gritando até que a enfermeira voltou e lhe deu um sedativo.
Enquanto dormia, a avó que até agora se mantivera impecável, desmoronou, começou a chorar e a se lamentar.
– Ah! Alan, ela tem a sua determinação e a sua facilidade de sentir também, me lembro de quando meu marido morreu, Alan, você ficou na mesma situação que a menina — ela soluçava muito e se debruçava no colo de Clara — ela vai sentir muito a sua falta, assim como eu — dizia ela — não é correto uma mãe vê um filho morrer... Não é certo... Não é...
A música de Elizabeth continuava suave em seu ouvido. Clara continuava chorando. A menina sentiu que Josh começara a andar, mas se recusava a olhar para os amigos com os olhos inchados de lágrimas. Enquanto caminhavam a pequena pensou no que a avó dissera. Se para ela que era filha fora a dor terrível, imagine a senhora que era mãe. Mas a avó da menina não vira a cena de perto, não sabia que Sara havia tentado dar tempo a Clara, não sabia como era ver aqueles olhos dourados fazer o que tinham feito.
Tudo que Clara sentia naquele momento era ódio, então escutou novamente "lembre-se de quem você é e em que acredita". Mas quem era ela? Por que isso estava acontecendo com ela? Por que estava ali? Em que acreditava? Seus pensamentos foram interrompidos por Elizabeth.
– Clara, chegamos na caverna — disse tão suave quanto um brisa, a voz dela era gostosa e macia, muito reconfortante.
A menina desceu do colo de Josh limpando as lágrimas, agradeceu silenciosamente a ele por tê-la carregado. Clara entrou na caverna e procurou o lugar mais afastado para se sentar. Ainda estava com o choque das imagens que tivera. Mal se recuperara quando...
– Clara vem almoçar — chamou a sua avó da cozinha.
– Já vou — respondeu do quarto. Não podia sair agora, estava quase zerando um dos jogos mais difíceis que encontrara, "Príncipe da Pérsia", e então a TV desliga — O quê? — exclamou a menina exasperada.
– Eu não vou poder ficar aqui o dia todo menina — disse Vovó — tenho que trabalhar e ficar nesses jogos o dia inteiro não vai lhe fazer bem — em seguida saiu.
Clara cerrava os punhos para não voar na velha. Fora almoça com a avó usando a cara mais fechada que conseguia. Quem era aquela velha pra dizer o que ela tinha que fazer?
– Abriu uma academia de dança aqui do lado — falou a avó, Clara murmurou um "Hmm" quando percebeu que a mulher bastante enrugada queria uma resposta — vou te matricular no Ballet.
– O quê? — bateu as mão na mesa — eu não quero fazer Ballet, isso é inútil e fresco, é para menininhas e eu já sou grande... — a avó não disse nada — escutou? Eu já tenho 7 anos, não tenho que te obedecer.
A velha se acabou de tanto rir, era gargalhadas infindas. Clara sentiu a raiva percorrer pelo corpo, como sua avó ousaria rir dela de tal forma , ela tinha vontade de estraçalhar a velha.
– Quem paga sua comida? — vai começar a jogar na cara, pensou Clara — quem cuida de você? Quem arruma a casa? Quem te dá seus jogos estúpidos? Você está ficando sedentária menina, precisa fazer algo, e EU — ela enfatizou bem o "eu" — já decidi.
– Me coloca no jiu jitsu — ideia aflorara na mente da menina — eu prometo que não falto nenhuma aula.
– Lutas não são para garotas.
– Eu lavo a louça — sugeriu.
– Ballet.
– Eu limpo a cozinha — falou — inteira...
– Fechado — disse a mulher alongando a coluna, a menina ficara tao empolgada que comera a comida e fora direto ver filmes de luta sem ao menos olhar que ao lado do prato da avó estava a carta de demissão do quarto emprego da senhora.
Clara, que até então abraçava os joelhos, agarrou a cabeça e falou alto..
– Para de vir — gritava ela — não aguento mais.
– Talvez falar ajude — disse uma voz gentil ao seu lado.
– Que você esta fazendo aqui? — Clara levou um sustou com Josh.
– Não gosto de te ver sofre — falou ele se aproximando da pequena — sabe, eu tive uma irmã, eu a amava muito, não me lembro mas posso sentir. Você se parece com ela.
Clara não sabia o que fazer, estava desesperada para esvaziar a mente, então resolveu aceitar a proposta de Josh. Contou-lhe tudo sobre sua vida, pelo menos o que lembrava. Contou que tinha 11 anos, contou sobre os pais e o que vira no estacionamento, até da pequena raiva que sentira da avó. Falar com alguém a fez se sentir aliviada, só se sentir assim que outra memória apareceu.
– Você é a minha melhor aluna — dizia um homem alto e muito musculoso que vestia um quimono preto. Clara estava no centro, vestida um quimono branco com uma faixa-marro, estavam em uma sala ampla cercadas por garotos bem maiores que clara que vestiam a mesma roupa — é por isso que irei lhe entregar a faixa-preta — um dos garotos trouce uma caixa parecendo uma paralelepípedo, quando foi aberta ficou a mostra uma simples faixa negra.
Quando Clara pegou a caixa todos na sala fizeram o mesmo movimento, abaixaram o tronco e untaram as mão, uma fechada e outra aberta, em sinal de reverencia.
– E sou faixa-preta em Jiu Jitsu — disse Clara terminando de contar tudo a Josh.
– Uau! — Ele estava pálido e estranhamente sereno — Clara, a vida é estranho, não me lembro de praticamente nada então não posso dizer muita coisa, mas você perdoou o assassino dos seus pais?
– Claro que não — falou exaltada.
– Eu não sei porque, e nem como, mas toda vez que minha mente vaga em perdão meu peito dói — falou ele fitando o chão a sua frente com a mão sobre a camisa branca — talvez, você que se lembra, se perdoar aquele que te fez mais mal consiga sentir menos dor.
A menina ficou pensativa... No que acredito, pensou, quem eu sou... Perdão? Sua mente fora ocupada com outra lembrança.
Estava na sua casa, ansiosa, até que a campainha tocou. Clara correu para atender. Era a sua única amiga, Jane, uma colega da academia de luta. A sua avó chamou da cozinha. Mesmo sendo muito rígida e querendo tudo com perfeição, Ela sempre se lembrava das datas comemorativas. E a quela era a favorita de Clara. Seu aniversário de 10 anos.
– Parabéns pra você... — começaram a cantar depois de duas canecas de chocolate quente. A menina ganhara 7 jogos de computador da amiga e uma coleção de livros da avó. Estava tão contente. A comida simplesmente fabulosa, o bolo, de chocolate, salgadinhos até dizer chega...
Quando eram quase meia-note, as duas meninas foram dormi porque a avó se zangou com a barulheira feita pela guerra de travesseiro.
Clara teve um pesadelo, sonhara com a morte dos pais. O espectro do futuro estava no seu quarto observando tudo, como sempre, com olhos de terceira pessoa.
Clara viu seu eu do passado checar o quarto de hospede, para vâ se a amiga estava dormindo, beber água e voltar para o quarto. Porém Clara observeu que seu eu não tinha visto um vulto atrás da porta.
Assim que a garota se deitou, o vulto apareceu e tapou a boca da menina. Ela tentou revidar, mas assim que viu aqueles olhos dourados seu corpo imobilizou.
O espectro segurava, chutava, socava o assassino de seus pais, mas sem surtir nenhum efeito. A menina chorava, era como se a cena tivesse congelado. Clara olhava para a faca com homem segurava e já sabia o que ia acontecer.
O espectro gritava por sua avó, por sua amiga, por seu pai, por sua mão, por Josh, por Lis, Chelsea, Nick, Sugar... Mas, nada, a cena continuava a mesma. Ela observou mais, viu o seu olhar de ódio na face aterrorizada de seu eu deitado. Olhou no espelho que ficava ao lado da cama e reparou na lua crescente no lado esquerdo do pescoço, era disso que Lis falara mais cedo. A marca começou a ficar dourada e a brilhar.
Clara olhou mais uma vez para o assassino, uma dor horrível dentro de se. Ela então lembrou do que Josh disse.
– Eu te perdoou — gritou ela para o assassino — eu perdoou você pelos meu pais — o brilho em seu pescoço começou a consumi-la — eu o perdoou por mim, eu te perdoou.
Então sua visão ficou turva e ela percebeu que estava vendo tudo através dos olhos da menina deita na cama.
– Eu disse que voltaria, não disse?! — Falou a voz rouca e irritadiça do homem.
Mas Clara não fez nada, apenas fitou os olhos dele, não tinha mais medo do dourado, não tinha medo de nada. Ela sentiu pena dele. AO olhar nos olhos de Clara ele pareceu se enfurecer.
– Que que há garotinha? — ele destampara a boca de Clara e colocara a faca em sua garganta, segurando os braços da menina com a mão livre -Onde está seu ódio? Não vai nem gritar?
Clara se lembrou do que o pai disse: lembre-se de quem você é e em quê acredita...
– Eu sou Clara West — disse ela para o assassino — e acredito naquilo que meu pai me ensinou, coragem. E agora eu tive coragem o suficiente para perdoar você.
O cara não gostou nenhum pouco dessa resposta e com um grito bem audível ao mundo, levantou a faca e golpeou a menina.
Clara esperou pela dor de olhos fechados. Mas não sentiu nada. Os abriu e se deparou com o céu mais estralado que podia imaginar. Estava tudo escuto e ela esta de pé sobre águas que refletiam as estrelas.
– Clara!
A menina não podia acreditar no que ouvira se virou para trás e olhou para os pais.
– Papai! Mamãe! — Gritou ela correndo para os pais, deixando grandes ondulações sobre a água. Ela abraçou a mãe e o pai a abraçou, o abraço coletivo aliviou todo e qualquer indício de sofrimento que já tivera no coração da jovem — eu senti medo.
– Você foi corajosa — disse seu pai.
– Estamos orgulhosos de você — disse sua mãe dando um beijo forte nela.
– Mas está na hora de ir Clara — falou Alan em tom gentil — você já está pronta para recomeçar. Você aprendeu o perdão, perdoar te deixou livre. Agora você pode vir conosco — disse se estendendo a mão para a menina segurar.
Clara também estendeu a mão, quando ia tocar na do pai hesitou — eu posso esperar meus amigos? — Pediu.
– Claro — disse sua mãe — isso é uma escolha sua.
Os pais de Clara então desapareceram, do nada. Mas a menina não ficou assustada. Apenas fitou a imensidão azul noturna em que estava.
– Boa sorte Elizabeth — sussurrou para o infinito.
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