O refeitório à noite era diferente do que fora pela manhã. O barulho diminuía, os grupos se dispersavam e a luz branca intensa dava lugar a um tom mais amarelado, quase confortável. Telões ainda exibiam anúncios de guildas e notícias de novas dungeons, mas poucos realmente prestavam atenção. Depois de um dia inteiro de treino, a maioria apenas queria comer e descansar.

Raziel carregava uma bandeja simples quando avistou Azuki em uma mesa próxima à lateral. Não estava isolada daquela vez, apenas concentrada, revisando algo no tablet entre uma garfada e outra. Aproximou-se sem anunciar e sentou-se na cadeira à frente.

Ela ergueu os olhos por um segundo.

— Hoje você parece mais cansado. — disse.

— Estou. — respondeu, sem rodeios.

Azuki inclinou levemente a cabeça.

— Amanhã é o último dia antes da luta… você já sabe o que vai fazer?

Raziel pousou o talher na bandeja por alguns segundos. A pergunta não vinha carregada de dúvida, mas de interesse real. Ela não questionava sua capacidade, procurava entender o método.

— Sei que ainda posso melhorar. — respondeu.

Ela observou o rosto dele por um instante e voltou ao prato.

— Eu tentei invocar de novo hoje à tarde. — disse. — Não consegui sustentar a forma inteira… mas a invocação apareceu mais definida.

— Quanto tempo?

— Quase um minuto.

Raziel assentiu. Não precisou elogiar. De segundos para um minuto? O avanço estava implícito.

O silêncio voltou à mesa, mas não era desconfortável. Era o tipo de silêncio que surge quando duas pessoas estão alinhadas em objetivo, não apenas em conversa. Ao fundo, um grupo de alunos ria alto diante de um vídeo qualquer. Em outro canto, dois discutiam builds de classe como se o futuro fosse um jogo de escolhas simples.

Azuki ergueu o olhar novamente.

— Você vai descansar amanhã de manhã?

O jovem negou com a cabeça.

— Descansar também é treino… mas, antes disso, vou testar algo.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Algo perigoso?

— Algo necessário.

Não explicou mais. Ela não insistiu.

Quando terminaram de comer, levantaram-se quase ao mesmo tempo. Azuki se despediu com um aceno curto e seguiu pelo corredor. Raziel permaneceu alguns segundos parado, observando o reflexo das luzes no piso polido.

Perigoso… talvez? Necessário… com certeza.

O quarto estava silencioso quando se deitou, mas o sono demorou a chegar. A mente não revivia o duelo, revivia memórias de batalhas passadas. Técnicas esquecidas. Movimentos de guerreiros que haviam sobrevivido por saberem extrair mais do próprio corpo do que parecia possível.

Mana não era apenas energia externa. Bem usada, podia ser considerada um excelente combustível interno.

Fortalecimento muscular ativo? Impulso de núcleo? Overdrive corporal?

Nomes diferentes para o mesmo princípio: usar a própria mana para reforçar músculos e acelerar respostas físicas. Não havia nada de habilidade formal de classe. Era técnica bruta, perigosa quando usada sem preparo.

E, no momento, o que ele não tinha era preparo suficiente. Mas tinha tempo limitado.

O relógio marcava quase meia-noite quando finalmente fechou os olhos.

O terceiro amanhecer veio frio.

O ar cortava levemente a pele quando Raziel saiu do alojamento onde ficavam os quartos de cada despertado. O céu ainda não clareara completamente, e o campus permanecia em silêncio. Caminhou até o pátio lateral, onde treinara nos dias anteriores, e parou no centro do espaço vazio.

Respirou fundo.

O treino diário começaria como sempre: corrida, calistenia, finalizando com meditação… mas, daquela vez, havia um elemento novo. Fechou os olhos e concentrou a atenção no próprio peito. Sabia que o coração era a força que regia tudo, então sentiu o núcleo de mana pulsar de forma discreta.

A mana respondeu.

Primeiro como um calor leve. Depois como pressão interna. Guiou o fluxo pelos braços, depois pelas pernas, envolvendo fibras musculares invisíveis em uma camada azulada quase imperceptível.

O primeiro passo veio mais rápido.

O segundo, mais firme.

A corrida começou.

O impacto dos pés no chão parecia mais leve. O corpo reagia antes da mente ordenar. Cada músculo respondia com agilidade incomum, como se tivesse sido acordado de um sono profundo. O ar frio queimava os pulmões, mas não interrompia o ritmo.

A mana circulava e o corpo acelerava.

Quando parou, o suor escorria com mais intensidade do que nos dias anteriores. Não era apenas esforço físico comum, o desgaste vinha em dobro. Apoiou as mãos nos joelhos e respirou fundo, sentindo o coração bater em um compasso acelerado demais.

Seguiu para as flexões.

Os músculos tremiam levemente, mas respondiam. Cada repetição parecia exigir mais do que o normal e, ao mesmo tempo, devolver mais do que o esperado. A energia azul começava a se manifestar de forma sutil ao redor dos antebraços, linhas finas de luz que desapareciam quando piscava.

Isso não era normal. Aura só se manifestava após a escolha de classe. Talvez por sua classe já estar pré-definida?

Sentou-se para a meditação final. O núcleo de mana pulsava como um segundo coração. O calor interno aumentava, e a respiração exigia controle consciente. Por um instante, a visão oscilou.

Então aconteceu.

Uma camada tênue de luz azul surgiu ao redor de seu corpo, como uma névoa luminosa que respirava junto com ele. Não era densa, nem instável naquele momento… mas existia. A aura se formava antes do tempo.

A janela do sistema irrompeu diante de seus olhos com brilho mais intenso do que o habitual.

[Sistema — Anomalia Detectada]

Manifestação de Aura Pré-Classe Confirmada

Corpo superando limite estrutural

Recompensa Extraordinária Concedida:

Força +10

Agilidade +10

Defesa +10

Poder Mágico +10

Mental +10

O resultado foi imediato. Quer dizer que quebrar expectativas do próprio sistema tinha seus benefícios?

O corpo inteiro pareceu receber uma descarga elétrica invisível. Os músculos se contraíram ao mesmo tempo, a respiração falhou por meio segundo e a visão escureceu nas bordas. Tentou se levantar… e precisou apoiar a mão no chão para não cair.

A aura azul ainda tremulava ao redor do corpo quando a segunda mensagem surgiu.

[Sistema — Exaustão Crítica Detectada]

Risco de Colapso Corporal

Recomendação: Repouso Imediato

Sentou-se novamente, o peito subindo e descendo em respirações pesadas. O mundo parecia distante, como se estivesse alguns passos atrás do próprio corpo. O ganho fora enorme… e o preço também.

Levou alguns minutos até conseguir se levantar sem sentir o chão girar levemente sob os pés. A aura já não era visível, mas o resquício de energia permanecia como um eco interno.

Abriu o status com dificuldade.

Força: 16,36

Agilidade: 15,35

Defesa: 13,14

Poder Mágico: 14,20

Mental: 14,00

Dessa vez, não foi apenas um degrau. Tinha dado um salto gigantesco. Mas o corpo não estava pronto para saltos.

Caminhou lentamente até um banco de pedra e sentou-se, deixando o ar frio tocar o rosto. Os dedos ainda tremiam levemente, e a visão demorava meio segundo a mais para se ajustar ao foco. A técnica funcionara… e, ao mesmo tempo, mostrara seus limites.

A aura azul não era apenas energia.

Fechou os olhos por alguns segundos, sentindo o pulso estabilizar aos poucos. O duelo agora não era mais impossível, e saber disso trazia um conforto quase perigoso.

Mas inevitável não significava fácil.

Quando finalmente se levantou para seguir ao banho e às aulas, o sol começava a surgir por trás dos prédios da academia. A luz dourada tocou o chão onde, minutos antes, a aura azul havia tremulado.

Raziel observou as próprias mãos por um instante.

Ainda não possuía força absoluta.

Mas, dentro de si, sentia o sinal de algo que não poderia mais ser ignorado.

E, pela primeira vez, percebeu que o maior desafio não seria o oponente na arena, seria o próprio corpo tentando acompanhar o poder que despertara cedo demais.