A academia acordou diferente naquele dia.

Não era algo visível de imediato, mas perceptível em pequenos detalhes: conversas que cessavam quando alguém passava, olhares que se demoravam meio segundo além do necessário, celulares erguidos com discrição demais para parecer natural.

O duelo deixara de ser apenas um evento marcado na agenda da Arena Sul. Se tornou o assunto mais recorrente entre os alunos. Raziel atravessava o corredor principal quando ouviu seu nome pela terceira vez naquela manhã.

— É hoje.

— Não, amanhã ao meio-dia.

— Aposto que ele não aguenta cinco minutos.

Um grupo próximo ao painel digital analisava algo no celular. Um vídeo curto do refeitório circulava entre os alunos, o momento exato em que havia desafiado o oponente. A gravação não tinha como foco mostrar poder, mas resultou em uma demonstração de postura que ninguém esperava do fracote.

E postura, naquele mundo, era quase tão valiosa quanto força. Com o tempo, poderia até chamar a atenção de seus pais e garantir posição de prestígio dentro da própria família... e até mesmo entre outras casas e guildas renomadas.

Não reagiu. O ruído não alterava o objetivo.

Mas havia algo diferente.

Enquanto caminhava, sentiu um leve formigamento sob a pele, como se uma camada invisível quisesse se expandir. A aura azul não se manifestava completamente, mas a presença interna era constante, pulsante. Controlada… por enquanto.

No fundo do corredor, Azuki o aguardava próxima à sala 3-C. Não estava tensa, mas observava o ambiente com atenção mais consciente do que nos dias anteriores.

Quando ele se aproximou, a jovem franziu levemente o cenho.

— Você está diferente.

Não era pergunta.

Raziel parou ao lado dela.

— Diferente como?

Ela hesitou por um segundo.

— Não sei explicar. É como se o ar ao seu redor estivesse… mais denso.

Ele sustentou o olhar dela sem responder de imediato.

Percebeu que ela estava sentindo.

— Fiz um teste esta manhã. — disse, por fim.

— Um teste? — repetiu, inclinando levemente a cabeça. — Que tipo de teste?

— Um que leva você ao limite.

Azuki estreitou os olhos, tentando analisar a resposta. Estava aprendendo a observar além da superfície.

— Foi por isso que você parece cansado?

Ele não confirmou nem negou.

— Estou bem.

A futura necromante cruzou os braços.

— Você não está. Mas não vou insistir. Só… não faça nada que destrua seu próprio corpo antes do duelo.

A frase era direta, quase fria. Mas havia preocupação contida ali.

A aula transcorreu com concentração incomum. Mesmo os alunos menos interessados pareciam atentos demais, como se cada movimento dele pudesse revelar algo escondido. O professor discursava sobre estratégias de combate em duplas, mas o foco coletivo estava dividido.

O assunto do dia tinha nome.

Durante o intervalo, o campo de treinamento externo recebeu pequenos grupos que fingiam treinar enquanto observavam discretamente. Raziel caminhou até um dos obeliscos de treinamento, estruturas altas, de superfície escura e linhas rúnicas azuladas que reagiam a impactos físicos e mágicos.

Não pretendia demonstrar nada. Apenas medir.

Empunhou a lâmina de madeira utilizada durante os treinos. Respirou fundo. Ajustou o eixo do corpo. Sem ativar a técnica de reforço. Sem forçar a aura.

Apenas execução.

O corte veio limpo, descendente, preciso.

O impacto reverberou no obelisco com um som mais grave do que o habitual. As linhas rúnicas brilharam com intensidade maior por uma fração de segundo antes de estabilizarem.

Um pequeno número surgiu na superfície. Mais alto do que deveria, não exagerado. Porém notavelmente acima da média dos dias anteriores.

Dois alunos próximos trocaram olhares.

— Ele sempre bateu assim?

— Não.

Raziel se afastou do obelisco como se nada tivesse acontecido. O coração permanecia estável. O corpo ainda carregava a exaustão do amanhecer, mas respondia melhor do que o esperado. A aura azul tremulou por um instante sob a pele, invisível aos olhos comuns, mas perceptível para quem soubesse sentir.

Azuki se aproximou alguns minutos depois.

— Aquilo foi diferente. — disse.

Ele não fingiu ignorância.

— Foi controle.

Ela analisou o obelisco por um instante.

— Você não ativou nada, ativou?

— Não.

Os olhos dela permaneceram fixos nele. Pensou em dizer algo, mas permaneceu em silêncio, absorvendo a resposta.

— Então amanhã… — começou.

— Amanhã eu não posso exagerar. — completou ele.

Era verdade. O sistema ainda não havia emitido novo aviso, mas o corpo dava sinais claros. Um passo além e poderia haver colapso.

Como se respondesse ao pensamento, a janela translúcida surgiu discretamente no canto da visão.


[Sistema — Missão: Lâmina da Postura]

Tempo Restante: 18 Horas



Condição Adicional Detectada:

Aura Manifestada


Probabilidade de Vitória Atualizada.

Nenhuma porcentagem foi exibida. Nenhum cálculo detalhado. Apenas a confirmação de que algo mudara. Fechou a janela mentalmente. A garota não tirava os olhos dele.

— Você viu algo, não viu?

— Vi.

— E?

— Não posso perder.

Ela não sorriu. Não celebrou. Apenas assentiu.

— Então não perca.

O restante da tarde foi contido. Nada de demonstrações exageradas. Nada de confrontos diretos. Alguns alunos tentaram provocá-lo com comentários velados, mas ele não reagiu. A expectativa crescia por conta própria.

Quando o sol começou a descer, o campus assumiu tons mais quentes. O reflexo dourado nas janelas criava uma atmosfera quase tranquila demais para a tensão que se acumulava.

Raziel permaneceu no campo por alguns minutos após o término das atividades. Sozinho.

Apoiou a lâmina no chão e fechou os olhos. A aura azul respondeu imediatamente, uma camada fina, quase imperceptível, envolvendo seus ombros. Não explodiu. Não brilhou intensamente. Apenas respirou junto com ele.

Ainda instável. Prematura. Mas real.

Abriu os olhos e deixou a energia se dissipar.

O duelo não seria apenas sobre força. Quem controlasse o embate sairia muito à frente.

O corredor principal estava mais vazio quando retornou ao prédio. No painel digital próximo à entrada, a programação do dia seguinte piscava em destaque:

ARENA SUL — 12:00

Alguns nomes surgiam nos comentários públicos do aplicativo interno da academia. Previsões. Apostas. Opiniões inflamadas.

Ignorou todas.

O que precisava fazer já estava decidido.

Ao chegar ao alojamento, sentou-se na cama e encarou as próprias mãos por alguns segundos. Não tremiam mais como de manhã, mas ainda carregavam resquício de fadiga.

Foi então que a janela do sistema surgiu novamente.


[Sistema — Treinamento Diário Concluído]

Sequência Mantida


Recompensa Base Aplicada.


Aviso Importante:

O corpo sofreu estresse estrutural elevado nas últimas 24 horas.



Recuperação necessária: 100% de repouso nas próximas 8 horas.

Risco de dano interno permanente em caso de negligência: Alto.



Força +0,50

Agilidade +0,50

Defesa +0,50

Poder Mágico +0,50

Mental +0,50


Leu com atenção. Força sem preparo era risco. Controle sem descanso gerava colapso. Fechou os olhos lentamente e se deitou.

Missão Ativa — 17 Horas, 42 Minutos

Amanhã não seria apenas um duelo.

Seria o momento em que deixaria de ser um nome ignorado nos corredores para se tornar alguém que o mundo precisaria observar com atenção.

E, desta vez, estava pronto para ser visto.