O segundo dia de preparação para a luta começou antes do sol.

O quarto ainda estava mergulhado em sombras azuladas quando Raziel abriu os olhos. O relógio marcava 05:58. Não foi o alarme que o despertou, mas o próprio corpo… um ajuste interno que já começava a se formar como hábito. Permaneceu imóvel por alguns segundos, sentindo o peso leve dos músculos ainda descansados.

Levantou-se em silêncio. O chão frio sob os pés ajudou a acordar o restante do corpo mais rápido do que qualquer som poderia fazer. Lavou o rosto, colocou a roupa de exercícios e saiu antes que o primeiro corredor acendesse totalmente as luzes.

O campus ao amanhecer era um mundo paralelo.

Sem vozes, telas piscando ou disputas invisíveis. Apenas o vento atravessando as árvores e o eco distante de um drone de patrulha cruzando o céu. A pista de corrida ainda estava vazia quando começou o primeiro movimento. Precisava ter pressa. Lembrava do futuro que o aguardava e sabia que uma mudança era necessária.

O ritmo veio com a respiração. Um passo, depois outro. O ar frio entrava pelos pulmões e saía em vapor leve. Cada volta ao redor do campo não era distância percorrida, mas disciplina reafirmada. O mundo ainda não estava acordado o suficiente para assistir, e isso tornava o momento ainda melhor. Ali, o tempo pertencia a ele.

Quando parou, o suor já escorria pela têmpora, mas o corpo não tremia. Estava se adaptando mais rápido que o normal e deveria agradecer ao sistema por isso.

As flexões vieram em seguida, depois os agachamentos e a prancha sustentada até o limite silencioso entre desconforto e falha. Não tinha plateia nem comparação.

O único dia fácil foi ontem.

Repetia isso como um mantra interno. Sentou sob a sombra de uma árvore para a última parte. Fechou os olhos. A respiração desacelerou, e o som do mundo começou a surgir aos poucos, portas abrindo ao longe, passos soltos, o primeiro grupo de alunos cruzando o pátio. Não se desligava do ambiente. Alinhava-se a ele.

A janela translúcida surgiu diante de seus olhos com a mesma suavidade de sempre.

[Sistema — Treinamento Diário Concluído]

Sequência Perfeita Mantida

Sincronização Corpo–Mente–Mana Estável

Recompensa de Consistência:

Força +0,50

Agilidade +0,50

Defesa +0,50

Poder Mágico +0,50

Mental +0,50

Raziel abriu os olhos lentamente. Sem euforia, apenas confirmação. O treino não era ritual vazio e sim um progresso mensurável.

Quando retornou ao prédio principal, depois de um banho rápido e do uniforme ajustado, o silêncio do amanhecer já havia sido substituído por murmúrios. Corredores cheios, celulares erguidos, grupos inclinados em semicírculos invisíveis. O som não estava alto mas lembrava o tipo de ruído que se espalha sem pedir permissão.

— É ele.

— O duelo é em dois dias.

— Treina com a necromante.

Não virou o rosto ou pensou em desacelerar. Apenas seguiu. O mundo precisava de pouco para escolher assunto. E ainda menos para esquecê-lo.

No campo de treinamento, o professor já os aguardava com os braços cruzados. Falou poucas palavras, apenas que deveriam treinar o físico e o mental como sempre.

O aquecimento começou intenso. Corridas com peso nos tornozelos, impactos contínuos contra escudos de madeira, sustentação de postura com mana ativa nas pernas. Não havia técnica avançada, apenas repetição até o limite. Aquela parte inicial era essencial para todos, independente da classe que escolheriam no futuro.

O corpo de Raziel respondia melhor do que no dia anterior. O cansaço vinha, mas não desorganizava. A respiração mantinha ritmo. O suor não incomodava. Era apenas sinal de um bom funcionamento.

A janela surgiu novamente.

[Sistema — Treinamento Intensivo Detectado]

Força +0,11

Defesa +0,09

Pequeno. Mas somado ao amanhecer, perceptível.

Ao lado, Azuki corria mantendo um pequeno círculo rúnico ativo na palma da mão. A energia oscilava menos do que antes. A técnica começava a ser sustentada pelo foco. Não olhava ao redor nem buscava validação. Simplesmente executava.

Quando as lâminas de madeira e os cajados foram distribuídos, o silêncio assumiu outra forma. Raziel ajustou o eixo do corpo e executou o primeiro corte. O movimento veio limpo, sem desperdício. O segundo manteve o padrão. O terceiro trouxe velocidade.

A memória guiava... e o corpo acompanhava.

[Sistema — Execução Refinada Detectada]

Agilidade +0,09

Força +0,06

Poderia até parecer nostalgia, mas no fundo era mais uma reconexão funcional. Foi no final da sequência que a sensação surgiu, antes da visão, antes do som. Uma presença que não exigia movimento para ser notada.

Raziel virou levemente o rosto.

Do outro lado da grade metálica, Darius observava. Braços cruzados. Expressão neutra demais para ser casual. O contato visual durou pouco, mas suficiente. Ele descruzou os braços e se afastou sem dizer uma palavra.

Então ele percebeu.

O restante do dia seguiu sem anúncio. O período livre fragmentou a academia em escolhas individuais. Alguns correram para guildas como sempre faziam, outros para bibliotecas, outros para descanso. Raziel voltou ao campo. Repetição leve, seguida de ajustes finos. Azuki apareceu mais tarde, sustentando o círculo rúnico por mais tempo do que no dia anterior.

Quando o céu começou a se tingir de laranja, o campo estava quase vazio. Os obeliscos refletiam a luz como espelhos mágicos. Foi então que ele abriu o status discretamente.

Força: 6,36

Agilidade: 5,35

Defesa: 3,14

Poder Mágico: 4,20

Mental: 4,00

Não eram números gigantes.

Era mais um degrau subido.

A janela piscou no canto da visão.

Missão Ativa — 1 Dia, 14 Horas

Fechou a mão lentamente. O cansaço não pesava, construía. Os boatos, os olhares, a presença silenciosa de Darius… tudo fazia parte do mesmo movimento. O mundo começava a reagir, mas o centro continuava sendo o treino.

O segundo dia não trouxe glória.

Trouxe base.

E, pela primeira vez, base parecia mais perigosa que força bruta.