Avesso

24 Capítulo 24 - O Homem por Detrás da Armadura


Skamar descobriu que Mu era muito mais difícil de convencer quando o assunto era ela.


— Não.


Ela piscou.


— Eu nem terminei de falar.


— Não precisava.


Mu continuou reparando uma armadura, como se aquela conversa simplesmente não estivesse acontecendo.


Skamar cruzou os braços.


— Você nem sabe o que eu ia pedir.


— Sei.


— Como?


Mu finalmente olhou para ela.


— Porque você está com essa expressão.


— Que expressão?


— A expressão que você faz quando já decidiu alguma coisa e veio aqui apenas para me informar.


Ela sorriu.


— Então você me conhece bem.


— Infelizmente.


Skamar aproximou-se mais um passo.


— Quero que você me ensine a lutar.


Mu parou.


Por alguns segundos, não houve resposta.


— Não.


— Você já disse isso.


— E continuo dizendo.


— Então eu vou perguntar de outra maneira.


Ela respirou fundo.


— Quero que você me ensine a me defender.


O olhar dele mudou um pouco.


Skamar percebeu.


— Eu não sei quem me feriu.


Mu ficou imóvel.


— Não sei onde aconteceu. Não sei por que aconteceu. Não sei se foi um homem, uma mulher, um Cavaleiro, um grupo inteiro ou alguma coisa que eu sequer consigo lembrar.


Ela baixou os olhos por um instante.


— E se acontecer de novo?


Mu desviou o olhar.


— Você está segura aqui.


— Hoje.


Ele voltou a encará-la.


— Sim.


— E amanhã?


Mu não respondeu.


— E se você não estiver comigo?


Silêncio.


Skamar deu mais um passo.


— Eu não quero aprender a ser uma guerreira.


A expressão de Mu suavizou.


— Então não seja.


— Quero aprender a não ficar indefesa.


Aquilo o atingiu.


Porque era exatamente o tipo de argumento contra o qual ele não tinha uma resposta.


Mu fechou os olhos por um instante.


Quando os abriu, ainda havia preocupação neles.


— Skamar...


— Eu não estou pedindo para enfrentar ninguém. Só quero saber o que fazer se alguma coisa acontecer.


— Você não sabe o que está pedindo.


— Talvez não.


Ela sustentou o olhar dele.


— Por isso estou pedindo que você me ensine.


Mu suspirou.


— Não.


Skamar abriu a boca para protestar.


Antes que pudesse, um estrondo sacudiu o Santuário.


Os dois ficaram imóveis.


Outro impacto veio logo depois.


Mais forte.


As ferramentas sobre a mesa vibraram.


Mu se levantou imediatamente.


O semblante tranquilo desapareceu.


Skamar sentiu o coração acelerar.


— O que foi?


Mu já estava caminhando para a porta.


— Fique aqui.


— Mu—


— Agora.


Foi a primeira vez que ela ouviu aquela palavra daquele jeito.


Sem suavidade.


Sem espaço para negociação.


Skamar o observou desaparecer pela entrada da Casa de Áries.


E, por algum motivo, teve a sensação de que aquela conversa ainda não havia terminado.


---


Até aquele dia, Skamar gostava do Santuário.


Gostava mais do que admitia.


Gostava do cheiro das pedras aquecidas pelo sol, do movimento constante das pessoas, das vozes que vinham das áreas de treinamento, do brilho das armaduras quando o sol batia sobre elas.


Gostava de observar os Cavaleiros.


Alguns pareciam ter nascido para aquilo.


Outros carregavam a função como um peso.


Mu parecia pertencer aos dois grupos ao mesmo tempo.


Ela já sabia que ele era um Cavaleiro de Ouro.


Sabia desde Jamiel.


Já havia visto a Armadura de Áries diante dos próprios olhos. Conhecia a Casa de Áries, já havia observado Mu vestir a armadura mais de uma vez.


Sabia também que ele era poderoso.


Aldebaran havia deixado isso bastante claro.


Mas saber uma coisa e entender o que ela significava eram coisas completamente diferentes.


Até então, Skamar nunca havia visto Mu lutar.


Nunca havia visto seu cosmo.


Nunca o vira diante de um inimigo.


Nunca tinha visto o Santuário precisar, de fato, de Mu de Áries.


Naquela manhã, ela descobriria.


O primeiro sinal foi o silêncio.


Skamar estava no pátio próximo à Casa de Áries, conversando com Aldebaran, quando percebeu que alguma coisa havia mudado.


Os sons habituais do Santuário diminuíram.


As conversas cessaram.


Até os pássaros pareciam ter desaparecido.


— O que foi? — perguntou ela.


Aldebaran ergueu a cabeça.


Seu rosto mudou.


— Fique aqui.


— Por quê?


— Skamar.


Ela nunca ouvira aquele tom nele.


Não era a voz do amigo que brincava com ela.


Era a voz de um Cavaleiro.


— O que está acontecendo?


Um estrondo respondeu.


As pedras sob seus pés tremeram.


Skamar se desequilibrou.


Aldebaran segurou seu braço.


Então veio outro.


Mais próximo.


Uma explosão levantou uma nuvem de poeira ao longe.


Pessoas começaram a correr.


— Invasores! — alguém gritou.


Skamar sentiu o coração disparar.


— O Santuário está sendo atacado?


Aldebaran já estava olhando para a Casa de Touro.


— Parece que sim.


— Quantos?


— Não sei.


Outro impacto.


Dessa vez, muito mais próximo.


Aldebaran colocou Skamar atrás de si.


— Não saia daqui.


— Aldebaran—


— Não.


A voz dele não deixava espaço para discussão.


Então ele desapareceu.


Não literalmente.


Mas foi rápido o bastante para parecer.


Skamar ficou sozinha.


Por alguns segundos.


Até ouvir passos.


Mu.


Ele surgiu da entrada da Casa de Áries já vestido com a armadura.


Skamar conhecia aquela imagem.


Mas não daquela maneira.


A Armadura de Áries cobria seu corpo inteiro, dourada e imponente sob a luz do sol. O elmo escondia parte de seus cabelos. A capa branca descia de seus ombros e arrastava-se levemente sobre as pedras.


E havia alguma coisa no modo como ele caminhava.


Não era o Mu que tomava chá com ela.


Não era o homem que se sentava ao seu lado nas escadarias.


Não era o mestre que corrigia seus movimentos durante o treinamento.


Era alguém que pertencia àquele lugar.


Alguém que havia sido feito para aquilo.


— Mu.


Ele parou.


Por um instante, os olhos dele encontraram os dela.


E o olhar suavizou.


Só um pouco.


— Você está bem?


Skamar assentiu.


— O que está acontecendo?


— Um grupo conseguiu atravessar as defesas externas.


— Quem são eles?


— Ainda não sabemos.


Ele olhou para o horizonte.


— Fique dentro da Casa de Áries.


— E você?


Mu não respondeu.


Apenas começou a andar.


Skamar sentiu uma pontada de medo.


— Mu.


Ele parou novamente.


— Não se preocupe.


Ela olhou para ele.


— Você vai voltar?


Por uma fração de segundo, alguma coisa passou pelo rosto dele.


Depois veio o sorriso tranquilo que ela conhecia.


— Sempre que puder.


E ele foi embora.


Skamar não ficou dentro da Casa de Áries.


Naturalmente.


Esperou apenas alguns segundos antes de seguir.


Manteve-se distante, escondida entre as estruturas de pedra, enquanto avançava na direção do tumulto.


Quando chegou a uma elevação, conseguiu ver.


Havia homens espalhados pelo caminho.


Alguns usavam armaduras estranhas.


Outros carregavam apenas armas.


Não pareciam soldados comuns.


Seus movimentos eram rápidos demais.


Cosmos hostis se chocavam no ar.


Cavaleiros do Santuário avançavam para contê-los.


Skamar nunca havia visto aquilo.


Era assustador.


E fascinante.


Então um dos invasores lançou um ataque.


Uma esfera de energia atravessou o campo.


Skamar viu um Cavaleiro se preparar para recebê-la.


Mas antes que o golpe o atingisse...


O ar mudou.


Uma luz dourada atravessou o campo.


Mu apareceu.


Não correndo.


Não gritando.


Simplesmente surgiu entre o ataque e o Cavaleiro.


Ergueu uma das mãos.


E o mundo pareceu parar.


Skamar prendeu a respiração.


Uma parede translúcida surgiu diante dele.


O ataque atingiu a barreira.


E parou.


Não diminuiu.


Não foi desviado.


Parou.


O impacto fez o chão estremecer.


Mu sequer recuou.


A mão continuava erguida.


Skamar sentiu algo que nunca havia sentido antes.


O cosmo.


Não como uma sensação vaga.


Não como aquela energia que Mu usava durante pequenos exercícios.


Aquilo era outra coisa.


Era enorme.


Controlado.


Preciso.


Por um instante, Skamar esqueceu de respirar.


Esse é o Mu.


O invasor gritou e lançou outro ataque.


Mu abaixou a mão.


A barreira desapareceu.


Ele simplesmente inclinou o corpo.


O golpe passou por ele.


Mu surgiu ao lado do homem.


Um movimento.


Um golpe.


O invasor foi lançado vários metros para trás.


Skamar arregalou os olhos.


Mu não parecia estar lutando.


Parecia estar resolvendo um problema.


Outro homem avançou.


Mu ergueu a mão.


O adversário parou no ar.


Literalmente.


Os pés deixaram o chão.


Ele tentou se mover.


Não conseguiu.


Mu o observou com uma calma quase desconcertante.


— Vocês tiveram uma oportunidade de sair.


O homem tentou atacar.


Mu fechou os dedos.


O corpo dele foi violentamente lançado contra uma parede.


Skamar levou a mão à boca.


Não por medo.


Por espanto.


Aquele era o homem que reclamava quando ela esquecia de comer.


O homem que passava horas consertando coisas em silêncio.


O homem que sorria quando ela o provocava.


E aquele homem acabara de dominar dois guerreiros como se eles não fossem nada.


— Mu...


A palavra escapou de seus lábios.


Ele não ouviu.


Estava concentrado.


Um terceiro invasor surgiu atrás dele.


Skamar viu antes.


— MU!


Ele virou-se.


O ataque veio.


Mu não teve tempo de erguer a barreira.


Mas também não precisou.


Seu corpo simplesmente desapareceu.


Teletransporte.


Ele reapareceu em pé, em algumas pedras acima do inimigo.


Por um instante, o sol refletiu na Armadura de Áries.


Mu desceu.


O golpe do oponente atingiu o chão.


Uma onda de poeira se espalhou.


Quando ela desapareceu, o invasor estava caído.


Mu permanecia de pé.


Intacto.


A capa branca movia-se lentamente atrás dele.


Skamar ficou completamente imóvel.


Então percebeu alguém ao seu lado.


Grande Mestre.


O Grande Mestre estava alguns metros atrás, acompanhado por guardas.


Ela abaixou a cabeça imediatamente.


— Grande Mestre.


Ele não respondeu de imediato.


Seus olhos estavam sobre Mu.


Depois passaram para Skamar.


Ele havia percebido a expressão dela.


Fascínio.


Admiração.


E alguma coisa mais difícil de definir.


Grande Mestre voltou a olhar para Mu.


Interessante.


Muito interessante.


A batalha terminou pouco depois.


Os invasores foram capturados e levados ao Grande Mestre para interrogação e julgamento.


O Santuário voltou lentamente à sua rotina.


Mas Skamar não conseguia voltar ao normal.


Ela continuava olhando para Mu.


Ele havia tirado o elmo.


Os cabelos estavam um pouco desalinhados.


A expressão havia voltado a ser tranquila.


Quase parecia o mesmo homem de sempre.


Quase.


Mu percebeu o olhar dela.


— O que foi?


Skamar não respondeu.


Ele se aproximou.


— Você está bem?


— Eu...


Ela olhou para a armadura.


Depois para ele.


— Você fez aquilo.


— Fiz o quê?


— Aquilo.


Mu arqueou uma sobrancelha.


— Isso não esclarece muito.


— A parede.


— Muralha de Cristal.


— E depois você...


Ela fez um gesto com a mão.


— Fez ele voar.


— Telecinese.


— E depois desapareceu.


— Teletransporte.


— E depois apareceu acima dele.


— Sim.


Skamar ficou alguns segundos em silêncio.


— Você é assustador.


Mu sorriu.


— Eu já ouvi isso.


Ela deu uma pequena risada.


Mas então ficou séria.


— Eu nunca tinha visto você assim.


Mu olhou para ela.


— Assim como?


Ela demorou.


— Poderoso.


Ele ficou em silêncio.


Skamar continuou:


— Eu sabia que você era forte.


— Mas?


— Mas eu não sabia.


— Não sabia o quê?


Ela procurou as palavras.


— Que as pessoas olhavam para você daquele jeito.


Mu franziu a testa.


— Que jeito?


— Como se soubessem que você poderia protegê-las.


Ele não respondeu.


Skamar olhou ao redor.


Cavaleiros passavam por eles.


Alguns cumprimentavam Mu.


Outros apenas inclinavam a cabeça.


Ninguém parecia surpreso com o que ele havia feito.


Para eles, aquilo era Mu de Áries.


Para ela...


Era uma revelação.


— Você parecia outra pessoa.


Mu ficou olhando para ela.


— Eu sou a mesma pessoa.


— Não parecia.


Ele sorriu.


— Você nunca tinha me visto trabalhando.


Skamar riu.


— Então é isso que você chama de trabalhar?


— Mais ou menos.


Ela olhou novamente para a armadura.


— E você não ficou com medo?


Mu ficou sério.


— Fiquei.


— Não pareceu.


— Isso também faz parte do trabalho.


Ela ficou quieta.


Mu percebeu que a pergunta seguinte estava chegando antes mesmo de ela fazê-la.


— Quantas vezes você já fez isso?


— Muitas.


Skamar baixou os olhos.


— E quantas vezes alguém não voltou?


Mu não respondeu.


Ela não precisava perguntar novamente.


---


Mais tarde, quando o Santuário já estava quase completamente tranquilo, Skamar encontrou Mu sentado nos degraus da Casa de Áries.


Sem o elmo.


A capa ainda sobre os ombros.


Ela se sentou ao lado dele.


Por algum tempo, ficaram em silêncio.


— Você estava diferente hoje — disse ela.


— Você já disse.


— Não.


Ela balançou a cabeça.


— Hoje eu entendi.


Mu olhou para ela.


— Entendeu o quê?


Skamar olhou para as próprias mãos.


— Por que você não queria me ensinar.


Ele ficou imóvel.


— Por que você dizia que isso não era uma brincadeira.


Mu não respondeu.


— Eu achei que você estivesse exagerando.


Ela respirou fundo.


— Não está.


Mu desviou o olhar.


— Não.


Skamar encostou o ombro no dele.


— Ainda quero aprender.


Ele fechou os olhos por um instante.


— Eu sei.


— E agora eu sei por quê.


Mu olhou para ela.


— Isso não muda minha opinião.


Ela sorriu.


— Eu sei.


— Skamar...


— Mu.


Ela encostou novamente a cabeça no ombro dele.


— Só me ensine a não ser completamente indefesa.


Mu ficou em silêncio.


Por alguns segundos, apenas observou o horizonte.


Então, muito devagar, relaxou o corpo. E então, suas próprias palavras ditas à garota dias antes começaram a ecoar em sua mente... "Às vezes, proteger alguém significa prepará-la para a guerra..."


— Tudo bem.


Skamar levantou a cabeça.


— Sério?


— Não me faça me arrepender.


O sorriso dela apareceu imediatamente.


— Não vou.


— Vai, sim.


— Provavelmente.


Mu soltou uma pequena risada.


E, pela primeira vez, Skamar percebeu que aquele talvez fosse o verdadeiro homem por trás da armadura.


Não o Cavaleiro que havia parado ataques com uma única mão.


Não o guerreiro capaz de lançar homens contra paredes.


Não o dourado que fazia o Santuário inteiro confiar nele.


Mas o homem que, depois de ver o perigo tão de perto, ainda tinha medo de que ela se machucasse.


Naquela noite, Mu percebeu que talvez aquela invasão tivesse feito exatamente aquilo que ele mais temia.


Skamar havia visto o Cavaleiro de Ouro.


Havia visto o poder.


Havia visto a violência.


Havia visto o perigo.


E, em vez de se afastar...


quis aprender a permanecer ao lado dele.


A alguns metros dali, no alto das escadarias, uma figura observava os dois.


Saga.


Seu olhar passou de Mu para Skamar.


Ele ainda não sabia quem aquela garota era.


Ainda não sabia de onde vinha aquele estranho silêncio em torno dela.


Mas começava a suspeitar de uma coisa.


Aquela menina não havia aparecido no Santuário por acaso.


E, talvez, fosse apenas questão de tempo até que alguma coisa dentro dela finalmente despertasse.