Avesso

25 Capítulo 25 - Uma Coisa Chamada Cosmo




O calor daquele dia era particularmente cruel.


Mu já estava acostumado às temperaturas de Jamiel, mas a Grécia parecia ter decidido transformar o pátio de treinamento em uma fornalha.


Ele havia abandonado a parte superior da roupa de treino sobre uma das colunas.


Não era nada incomum.


Os Cavaleiros faziam aquilo com frequência durante os treinamentos. O calor, somado ao esforço físico, tornava qualquer tecido desnecessário.


Mu caminhou até o centro do pátio e começou a alongar os ombros.


Foi quando percebeu que Skamar estava parada alguns metros atrás dele.


Olhando.


Mu continuou o alongamento.


Esperou.


Ela continuou olhando.


Ele virou o rosto.


— Algum problema?


Skamar piscou.


— Não.


Mu ergueu uma sobrancelha.


— Então por que está me olhando?


Ela pareceu genuinamente confusa com a pergunta.


— Porque você está sem roupa.


Mu olhou para o próprio peito.


Depois para ela.


— Estou sem a parte de cima.


— É.


— Não estou sem roupa.


— Para mim parece a mesma coisa.


Mu suspirou.


— É por causa do calor.


— Os outros Cavaleiros também fazem isso?


— Fazem.


— Então é normal?


— Completamente.


Skamar assentiu lentamente.


Depois continuou olhando.


Mu cruzou os braços. O movimento fez os músculos dos ombros e do peito se contraírem sob a pele aquecida pelo treino. A luz do sol destacava cada linha do corpo, e o cabelo lilás, preso apenas o suficiente para não atrapalhar, deixava seu rosto ainda mais marcante. Mu não parecia perceber o efeito que causava; para ele, estar sem a parte de cima da roupa era apenas uma questão prática.


Para Skamar, porém, aquilo era uma provação.


Ela já havia achado Mu bonito antes. Mas vê-lo daquele jeito, com a pele levemente brilhante de suor, os braços fortes e a postura tranquila de quem não fazia ideia de como estava sexy, parecia ter desorganizado completamente seus pensamentos.


— Skamar.


— Sim?


— Você ainda está olhando.


— Estou.


— Por quê?


Ela inclinou a cabeça, como se estivesse tentando encontrar uma resposta razoável. Não encontrou nenhuma.


— Porque você está muito bonito assim.


Mu piscou.


Uma vez.


Duas.


— Assim como?


Skamar apontou para ele.


— Sem a parte de cima da roupa.


Mu ficou tão imóvel que parecia ter virado uma estátua.


Ela continuou, cada vez mais direta, sem perceber que já havia ultrapassado qualquer limite de discrição:


— Seus ombros são bonitos. E seus braços. E o seu peito também. Você é muito mais musculoso do que parece quando está vestido.


Mu abriu a boca.


Fechou.


Skamar franziu a testa.


— Eu disse alguma coisa errada?


— Não.


— Então por que você está estranho?


— Não estou estranho.


— Está sim.


Mu desviou o olhar.


— Vamos começar o treinamento.


— Você ficou vermelho.


— Não fiquei.


— Ficou.


— O calor.


Skamar sorriu.


— Ah.


Ela se aproximou um pouco, os olhos ainda percorrendo o corpo dele com uma sinceridade quase desconcertante.


— Se o calor é o motivo, você devia treinar assim mais vezes.


Mu virou o rosto para ela.


— Skamar.


— Sim?


— Isso não foi necessário.


— Mas foi verdade.


Mu passou a mão pela nuca, tentando recuperar a compostura.


— Você está muito direta hoje.


— Estou?


— Está.


— Talvez seja porque você está sem roupa.


— Sem a parte de cima.


— Para mim continua sendo praticamente a mesma coisa.


Mu respirou fundo.


— Concentre-se no treinamento.


— Estou tentando.


— Tentando?


— É difícil.


— O quê?


Skamar apontou para ele outra vez.


— Ignorar você... Assim...


Silêncio.


Mu ficou ainda mais vermelho.


Atrás de uma coluna, uma pequena cabeça apareceu.


Kiki.


Ele havia chegado justamente a tempo de ouvir a última parte da conversa.


— Mestre?


Mu fechou os olhos.


— O que foi, Kiki?


— Você ficou vermelho?


— Não.


Kiki olhou para Skamar.


— Ficou?


— Ficou.


— Ah.


Mu apontou para a saída.


— Kiki.


— Sim?


— Vá embora.


— Mas eu vim ajudar.


— Você veio bisbilhotar.


— Também.


— Vá.


Kiki saiu correndo.


— Eu volto depois!


Mu passou a mão pelo rosto.


Skamar sorriu.


— Ele é engraçado.


— Ele é um problema.


— Você gosta dele.


Mu olhou para ela.


— Com todo meu coração.


— Mesmo quando ele interrompe momentos interessantes?


Mu estreitou os olhos.


— Que momentos interessantes?


Skamar deu de ombros, com uma inocência que não combinava nem um pouco com o brilho divertido em seus olhos.


— Nada.


---


— Antes de começarmos — disse Mu, finalmente — preciso deixar uma coisa clara.


Skamar ficou diante dele.


— O que vamos fazer?


— Eu vou ensinar você a se defender.


— Eu já sei lutar.


Mu arqueou uma sobrancelha.


— Você sabe?


— Sei.


— Como sabe?


— Não sei.


Mu ficou em silêncio.


— Essa foi uma resposta muito útil.


— Eu consigo.


— Consegue o quê?


Ela assumiu uma posição de combate.


Mu observou.


A postura não era perfeita.


Mas também estava longe de ser ruim.


— Quem ensinou você?


— Ninguém.


Mu estreitou os olhos.


— Então faça um movimento.


Skamar avançou.


Mu desviou.


Ela girou, mudou o peso do corpo e tentou atingi-lo novamente.


Mu bloqueou.


Ela recuou.


Voltou.


Ele desviou outra vez.


Na terceira tentativa, Skamar quase conseguiu acertá-lo.


Mu precisou usar um movimento muito mais rápido para escapar.


Parou.


Olhou para ela.


— Você nunca treinou?


— Não.


— Tem certeza?


— Tenho.


Mu voltou a observá-la.


Ela não lutava como uma aprendiz.


Não havia a força, a técnica ou a disciplina de um Cavaleiro.


Mas havia algo muito estranho.


Ela antecipava seus movimentos.


Não perfeitamente.


Às vezes errava.


Mas, em alguns momentos, parecia saber o que ele faria antes que ele próprio decidisse.


Mu deu um passo para a direita.


Skamar acompanhou.


Ele fez menção de avançar.


Ela recuou antes.


Mu parou.


— Como você fez isso?


— O quê?


— Você sabia que eu iria avançar.


— Não sabia.


— Sabia sim.


— Eu só senti.


Mu ficou sério.


— Sentiu?


Skamar levou a mão à testa.


— Às vezes acontece.


— O quê?


— Eu vejo coisas.


Mu imediatamente ficou atento.


— Que coisas?


— Não sei explicar.


Ela fechou os olhos.


— Às vezes eu vejo alguma coisa antes de acontecer.


Mu a observou em silêncio.


Então compreendeu.


As premonições.


Era uma habilidade que ela já havia demonstrado antes, mas que ainda não compreendia completamente.


E aquilo explicava muita coisa.


— Então você não está prevendo meus movimentos porque é uma lutadora excepcional.


Skamar abriu os olhos.


— Não?


— Você está tendo pequenas premonições.


Ela pensou.


— Isso parece menos impressionante.


— Na verdade...


Mu sorriu.


— Pode ser muito mais complicado.


— E o cosmo? — perguntou Skamar. — Você também vai me ensinar?


Mu ficou sério.


— Não.


Ela franziu a testa.


— Não?


— Eu vou ensinar você a se defender. Posso ensinar movimentos, postura, equilíbrio e maneiras de escapar de um ataque. Mas não vou ensinar você a desenvolver o cosmo.


— Por quê?


Mu se sentou sobre uma pedra baixa, indicando que ela fizesse o mesmo.


— Porque desenvolver o cosmo não é apenas aprender uma habilidade.


Skamar se sentou diante dele.


— O que é, então?


— Para os Cavaleiros, ter um cosmo desenvolvido significa assumir um caminho. Significa tornar-se uma guerreira, lutar por uma armadura e ficar sob o controle do Santuário.


Skamar ficou em silêncio.


— Então, se eu desenvolver o cosmo...


— Você pode acabar sendo arrastada para esse mundo. Treinamentos, combates, ordens, deveres. O Santuário não costuma enxergar alguém com um cosmo forte como uma pessoa que pode simplesmente seguir a própria vida.


— E você não quer isso para mim?


Mu sustentou o olhar dela.


— Não quero que você seja obrigada a nada. Se algum dia decidir lutar, essa escolha precisa ser sua. Não quero despertar algo em você e depois entregar sua vida às exigências do Santuário.


Skamar abaixou os olhos.


— Mas você pode me deixar sentir o seu?


Mu hesitou por um instante.


— Sentir o meu cosmo não significa desenvolver o seu. Eu posso mostrar o que ele é sem ensinar você a despertá-lo ou a transformá-lo em uma arma.


— Então você vai me explicar?


— Da mesma forma. O cosmo é a energia interior de cada ser humano.


— Como uma alma?


— Não exatamente.


— Como magia?


— Também não.


— Como alguma coisa invisível?


— Sim.


Skamar abriu um sorriso.


— Então é magia invisível.


— Não.


— Mas é invisível.


— Isso não significa que seja magia.


— Parece magia.


Mu respirou fundo.


— O cosmo é a força que existe dentro de nós. Os Cavaleiros aprendem a despertar essa força, expandi-la e utilizá-la. Mas você não precisa fazer isso para compreender o que está sentindo.


— E você consegue?


Mu sorriu.


— Consigo.


— Mostre.


Mu ergueu uma mão.


Uma pequena explosão de energia fez o ar vibrar ao redor deles.


Skamar arregalou os olhos.


— Ah.


— Isso é cosmo.


Ela se aproximou.


— Posso tocar?


— Não é exatamente algo que você possa tocar.


Ela aproximou a mão mesmo assim.


Mu segurou seu pulso delicadamente.


— Não.


Skamar olhou para a mão dele em seu pulso.


Depois para o rosto dele.


— Você faz isso de propósito?


— O quê?


— Segurar minha mão.


Mu soltou imediatamente.


— Não.


— Ah.


Ela sorriu.


— Que pena... — soltou em um sussuro, mas o suficiente pra Mu ouvir.


Mu olhou para o céu.


Talvez o treinamento fosse mais difícil do que imaginara.


---


— Vamos tentar de outra forma — disse ele.


Os dois se sentaram no chão.


Um de frente para o outro.


Mu cruzou as pernas em posição de lótus.


Skamar o imitou.


— Feche os olhos.


Ela fechou.


— Respire devagar.


Ela respirou.


— Tente esvaziar a mente.


Skamar abriu um olho.


— Como?


Mu abriu os olhos também.


— Apenas não pense.


— Mas eu estou pensando.


— Em quê?


— Em como não pensar.


Mu suspirou.


— Esqueça.


— Posso pensar em outra coisa?


— Não.


— Posso pensar em você?


Mu ficou completamente imóvel.


— Preferia que não.


— Por quê?


— Porque isso não vai ajudar.


Skamar sorriu.


— Está bem.


Mu fechou os olhos novamente.


— Agora coloque as mãos aqui.


Ele estendeu as mãos.


Ela colocou as palmas contra as dele.


O contato foi simples.


Mas, por alguma razão, ambos ficaram quietos.


— Agora — murmurou Mu — concentre-se.


Skamar fechou os olhos.


Mu fez o mesmo.


Ele deixou o próprio cosmo fluir lentamente.


Não como uma demonstração de poder.


Apenas uma pequena manifestação.


Calma.


Quente.


Constante.


— Não tente ver — explicou. — Sinta. E lembre-se: você não precisa despertar nada em si. Apenas perceba o que já existe ao seu redor.


Skamar respirou fundo.


No começo, não aconteceu nada.


Depois, ela sentiu.


Não exatamente uma energia.


Era mais como uma presença.


Uma sensação profunda e tranquila.


Como estar diante de algo muito maior do que ela.


Os dedos de Mu permaneceram imóveis contra os seus.


— Está sentindo? — perguntou ele.


— Sim.


Mu sorriu.


— O que você sente?


Ela ficou alguns segundos em silêncio.


— Você.


Mu abriu os olhos.


— O meu cosmo.


Skamar abriu os olhos também.


— Não.


— Não?


Ela sorriu.


— Você.


Mu ficou sem resposta.


— Quer dizer... seu cosmo — corrigiu ela.


— Certo.


— Mas parece você.


Mu olhou para as mãos unidas.


Aquilo fazia sentido.


O cosmo era uma expressão da própria essência de cada pessoa.


Talvez ela tivesse compreendido melhor do que ele esperava.


— Muito bem.


Skamar continuou olhando para ele.


— Seu cosmo é bonito.


Mu sorriu.


— Obrigado.


— Você também.


— Eu também o quê?


— É bonito.


Mu piscou.


— Skamar...


— Sim?


— Estamos falando do cosmo.


— Eu sei.


— Então não diga essas coisas.


— Por quê?


Mu abriu a boca.


Fechou.


Não encontrou uma resposta.


Do outro lado do pátio, Kiki apareceu novamente.


— Mestre?


Mu fechou os olhos.


— O quê?


— Vocês estão de mãos dadas há bastante tempo.


Skamar olhou para as próprias mãos.


Mu percebeu.


Soltou imediatamente.


Kiki sorriu.


— Eu sabia!


— Sabia o quê?


— Nada.


— Kiki.


— Estou indo!


Ele correu.


Mu ficou olhando para o corredor.


— Eu vou precisar conversar com esse garoto.


Skamar riu.


---


No fim do treinamento, Mu estava impressionado.


Skamar havia aprendido a sentir o cosmo dele.


Não conseguia ainda despertar o próprio de maneira consciente — e Mu não pretendia ensiná-la a fazer isso.


Mas conseguia perceber alterações sutis na energia ao redor.


E suas premonições pareciam ajudá-la a antecipar movimentos e intenções.


Para uma aprendiz que sequer sabia o que era cosmo naquela manhã, era extraordinário.


— Você aprende rápido — disse Mu.


Skamar abriu um sorriso.


— Sou uma boa aprendiz?


— Muito.


— Melhor que Kiki?


Mu olhou para ela.


— Definitivamente não diga isso perto dele.


— Por quê?


— Porque ele vai ficar insuportável.


— Ele já é.


Mu riu.


Skamar ficou olhando para ele.


— Você sorriu.


— Eu sorrio.


— Pouco.


— Não é verdade.


— É sim.


Ela se aproximou.


— Você devia sorrir mais.


Mu ficou quieto.


Então ela estendeu a mão.


— Posso?


— O quê?


— Sentir o seu cosmo de novo.


Mu sorriu.


— Tudo bem.


Ela colocou a palma da mão contra a dele novamente.


Mu sentiu uma pequena expansão de energia.


Skamar fechou os olhos.


— Eu consigo sentir.


— Consegue.


— Parece você.


Mu sorriu.


— Talvez porque seja parte de mim.


Ela abriu os olhos.


Por alguns segundos, ficaram apenas se olhando.


Então Skamar desviou o olhar para o peito descoberto dele e sorriu de lado.


— Ainda acho que você devia treinar sem a parte de cima da roupa mais vezes.


Mu soltou um suspiro.


— Você não consegue esquecer isso?


— Estou tentando.


— E está funcionando?


— Não.


Mu balançou a cabeça, mas um sorriso quase imperceptível apareceu em seu rosto.


— Você está sem noção hoje.


— Talvez.


— Por quê?


Skamar olhou para ele com uma sinceridade desarmante.


— Porque você está muito sexy.


Mu ficou completamente imóvel.


Antes que pudesse responder, Kiki surgiu correndo pelo pátio.


— MESTRE!


Os dois se afastaram imediatamente.


— O QUE FOI? — gritou Mu.


Kiki apontou para o outro lado.


— O pão!


Mu empalideceu.


— O quê?


— Eu esqueci o pão no forno!


Skamar levou a mão à boca.


— O nosso almoço!


Mu saiu correndo.


— Kiki!


— Eu tentei lembrar!


— VOCÊ DEIXOU O FORNO ACESO?


— TALVEZ!


Skamar começou a rir.


E correu atrás dos dois.


O primeiro treinamento de Skamar havia terminado.


Ela não aprendera a dominar o cosmo.


Não aprendera nenhuma técnica de combate.


E definitivamente não aprendera a meditar.


Mas havia descoberto três coisas importantes naquele dia:


O cosmo de Mu era diferente de tudo que já havia sentido.


Kiki era provavelmente a criatura mais inconveniente de Jamiel.


E Mu sem a parte de cima da roupa era uma distração terrivelmente difícil de ignorar — especialmente porque ele parecia não fazer ideia do quanto era sexy.


Quanto a Mu...


Ele havia descoberto que ensinar Skamar seria muito mais trabalhoso do que imaginara.


E, pela primeira vez, não tinha certeza se estava reclamando disso.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.