Avesso

23 Capítulo 23 - Um Dia, Você Vai Entender


A guerra que sempre volta.


Skamar demorou a se afastar do campo de treinamento.


As crianças já haviam ido embora.


O Santuário estava silencioso novamente.


Ela ainda olhava para Mu.


— Você falou que sabe o que acontece quando alguém começa a gostar de uma pessoa que pode não voltar.


Mu permaneceu calado.


— O que acontece?


Ele respirou fundo.


— Você realmente quer saber?


— Quero.


Mu caminhou até um dos bancos de pedra e sentou-se.


Skamar sentou ao lado.


Por alguns segundos, ele pareceu escolher as palavras.


— Existe uma guerra que está acima de todas as outras.


— A guerra contra Hades?


Mu assentiu.


Skamar já havia ouvido aquele nome.


Mas nunca havia entendido exatamente o que significava.


— Hades não é apenas um inimigo.


Mu olhou para o céu escuro.


— É uma ameaça que retorna.


— Retorna?


— A cada algumas centenas de anos. A cada geração, talvez.


Ele fez uma pausa.


Skamar franziu a testa.


— E sempre acontece?


— Sempre que Hades desperta.


— E Atena luta contra ele?


— Sim.


— E vocês?


Mu olhou para ela.


— Nós somos os soldados dela.


A resposta foi simples.


Mas havia alguma coisa pesada nela.


— Então os Cavaleiros de Ouro existem para essa guerra?


— Não somente para ela.


Mu pensou por um instante.


— Mas, principalmente, sim.


Ele tocou a própria armadura.


— Os doze Cavaleiros de Ouro são a última linha de defesa. Quando a Guerra Santa chega, somos colocados diante das ameaças que os outros não conseguem enfrentar.


Skamar olhou para a armadura.


— E quantos sobrevivem?


Mu não respondeu.


Ela entendeu.


— Nenhum?


— Na última guerra...


Ele fez uma pausa.


— Shion e Dohko sobreviveram.


— Só eles?


Mu assentiu.


Skamar sentiu um arrepio.


— Dos doze?


— Sim. E ainda assim, foi um acontecimento raro.


Ela ficou olhando para ele.


— Então vocês sabem disso quando entram aqui.


— Sabemos.


— Sabem que provavelmente vão morrer?


Mu olhou para as próprias mãos.


— Sabemos que essa possibilidade é muito grande.


— E mesmo assim continuam.


— É o que somos treinados para fazer.


— Isso parece horrível.


Mu sorriu sem humor.


— É.


Skamar permaneceu em silêncio.


Depois perguntou:


— Então por que alguém escolheria isso?


Mu demorou a responder.


— Porque alguém precisa fazer.


Ela o encarou.


— Mas não precisa ser você.


— Precisa ser alguém.


— Isso não responde.


Mu olhou para ela.


— Quando você passa a vida inteira sendo treinado para uma única finalidade, chega um momento em que não consegue imaginar outra.


A frase ficou entre eles.


Skamar pensou nas crianças que vira treinando.


Nas armaduras.


Nos homens que retornavam feridos.


No corpo que haviam carregado naquela manhã.


Tudo começou a fazer sentido.


— Então o Santuário quer que vocês não tenham nada que possa distraí-los.


Mu assentiu.


— É uma das razões.


— Uma das?


— Há muitas.


Ele respirou fundo.


— Mas existe uma coisa importante que você precisa entender sobre os Cavaleiros de Ouro.


Mu tocou a armadura de Áries.


— Nós não somos simplesmente homens que receberam uma armadura porque eram fortes.


Skamar olhou para ele.


— Não?


— As Armaduras de Ouro escolhem seus portadores.


— Escolhem?


— Sim.


Ele assentiu.


— Elas reconhecem determinadas características. O cosmo, as habilidades, a natureza do guerreiro, a compatibilidade com aquela armadura... até a constelação sob a qual ele nasceu pode fazer parte disso.


Skamar observou a proteção dourada.


— Então não é qualquer Cavaleiro que poderia usar uma Armadura de Ouro?


Mu quase sorriu.


— Não.


— E nem qualquer pessoa poderia substituir um Cavaleiro de Ouro morto?


— Também não.


A resposta veio imediatamente.


— É justamente aí que está um dos maiores perigos.


Ele apontou para a própria armadura.


— Se eu morrer, Áries não simplesmente escolhe outro homem amanhã.


Skamar franziu a testa.


— Mas existe Kiki.


Mu assentiu.


— Existe.


— Ele será o próximo Cavaleiro de Áries?


— Se a armadura o reconhecer quando chegar a hora, sim.


— Então ele poderia substituir você.


— Um dia.


Mu fez questão de enfatizar a última palavra.


— Kiki pertence à próxima geração. Se eu morrer amanhã, isso não significa que ele poderá simplesmente vestir a Armadura de Áries amanhã e ocupar meu lugar. Ele não estará preparado para a próxima Guerra Santa, da minha geração.


Skamar ficou pensativa.


— Então uma armadura pode ficar sem Cavaleiro.


— Pode.


— Por quanto tempo?


— Até que exista alguém da geração apropriada que seja reconhecido por ela.


Skamar olhou novamente para a armadura.


— Então, se um Cavaleiro morrer...


— Podemos simplesmente ficar com uma armadura a menos.


Ela pareceu compreender a gravidade daquilo.


— E isso já aconteceu.


— Mais de uma vez.


Mu baixou os olhos.


— Há armaduras que permaneceram sem seu portador até uma nova geração.


— Como Sagitário?


Mu assentiu.


— Por exemplo.


Ele fez uma pausa.


— E isso é extremamente perigoso durante uma Guerra Santa.


Skamar ficou em silêncio.


— Porque não são apenas doze homens.


Mu olhou para ela.


— Exatamente.


— São doze armaduras.


— E doze guerreiros diferentes.


Ele tocou o próprio peito.


— Cada um possui um cosmo próprio. Técnicas próprias. Habilidades que podem ser únicas naquela geração.


— Então perder um Cavaleiro significa perder tudo isso.


— Sim.


Mu olhou para o horizonte.


— Imagine entrarmos numa guerra contra Hades com onze Cavaleiros de Ouro em vez de doze.


— A diferença parece pequena.


— Numa guerra comum, talvez.


Ele balançou a cabeça.


— Contra Hades, pode ser a diferença entre vencer e perder.


Skamar sentiu um arrepio.


— E se perderem...


— Não serão apenas os Cavaleiros que morrerão.


A voz de Mu ficou mais baixa.


— A humanidade inteira estará em risco.


Ela o encarou.


— Todos?


— Todos.


Mu assentiu.


— Homens, mulheres, crianças. Pessoas que nunca ouviram falar de Hades. Pessoas que nem sabem que existe um Santuário.


Ele respirou fundo.


— É por isso que não existe uma escolha simples entre salvar a própria vida e cumprir o dever.


Skamar franziu a testa.


— Mas você acabou de dizer que a vida de vocês também importa.


— E importa.


— Então por que um Cavaleiro não pode simplesmente abandonar tudo quando percebe que não quer morrer?


Mu ficou em silêncio por alguns segundos.


Então respondeu:


— Porque, quando você ocupa uma dessas doze posições, sua decisão deixa de afetar apenas você.


Ele a encarou.


— Se eu abandonar meu posto para preservar minha vida, não estou apenas escolhendo viver.


— O que está fazendo?


— Estou retirando uma das doze defesas que existem entre a humanidade e aquilo que está vindo.


Skamar ficou imóvel.


— Mas isso não significa que você não tenha direito de querer viver.


— Não.


Mu sorriu tristemente.


— Eu tenho esse direito.


— Então?


— O problema é que ter o direito de viver não significa ter o direito de abandonar aqueles que dependem de você.


Ela abaixou os olhos.


Mu continuou:


— Atena não nos pede para morrer porque nossas vidas valem menos.


Ele tocou a própria armadura.


— Ela nos pede para lutar porque nossas vidas, justamente por valerem tanto, são capazes de proteger outras.


Skamar permaneceu em silêncio.


— Se eu fugir da guerra, talvez consiga salvar uma vida.


Ele fez uma pausa.


— A minha.


Depois olhou para ela.


— Mas se a ausência de Áries contribuir para a derrota, quantas vidas estarão sendo colocadas em risco?


Skamar não respondeu.


— É isso que torna o dever tão cruel.


Mu olhou para o céu.


— Não é porque não temos nada a perder.


Sua voz quase desapareceu.


— É porque temos.


Skamar sentiu o peito apertar.


— Então essa é a vida que você quer?


Mu virou-se para ela.


A pergunta pareceu pegá-lo desprevenido.


— Essa é a vida que você quer? — ela repetiu. — Passar a vida esperando uma guerra que pode matá-lo?


Mu demorou a responder.


— Não.


A honestidade a surpreendeu.


— Não?


— Não.


Ele olhou para as próprias mãos.


— Se você me perguntar se eu quero passar a vida esperando pela próxima Guerra Santa, vendo companheiros morrerem e sabendo que talvez um dia eu não volte...


Ele balançou a cabeça.


— Não.


— Então por que continua?


Mu levantou os olhos.


— Porque querer outra vida não me dá o direito de abandonar esta.


Skamar ficou imóvel.


— Eu posso não querer ser um Cavaleiro.


Ele tocou a própria armadura.


— Posso querer viver muito. Posso querer conhecer lugares que nunca vi. Posso querer uma casa. Uma vida tranquila.


Um pequeno sorriso surgiu.


— Talvez até alguém esperando por mim quando eu voltar.


Skamar desviou os olhos.


Mu continuou:


— Mas se Hades despertar amanhã, eu sou o Cavaleiro de Áries.


A voz dele ficou firme.


— E não existe outra pessoa que possa simplesmente ocupar o meu lugar porque eu decidi que estou cansado.


Ele apontou para a armadura.


— Se eu abandonar meu posto, Áries não terá outro Cavaleiro imediatamente. Se eu morrer, talvez ninguém possa ocupar essa armadura nesta geração.


Mu respirou fundo.


— Eu não posso decidir que a minha vida vale mais do que a vida daqueles que estão atrás de mim.


Skamar levantou os olhos.


— Mas você também é humano.


— Eu sei.


— Sua vida também importa.


— Eu sei.


— Então por que parece tão tranquilo falando disso?


Mu sorriu tristemente.


— Porque aceitar que posso morrer não significa desejar morrer.


Ele olhou para ela.


— Eu quero voltar.


A sinceridade daquela frase a atingiu.


— Quero voltar da guerra.


Sua voz ficou baixa.


— Quero ter uma vida depois dela.


Skamar sentiu os olhos arderem.


— Então você não está lutando porque não tem medo da morte.


— Não.


— Está lutando apesar de ter medo.


Mu assentiu.


— É isso que significa ser um Cavaleiro.


Ela ficou em silêncio.


Depois perguntou:


— E se um dia você gostar de alguém?


Mu desviou o olhar.


— Então será ainda mais difícil.


— Mas você ainda iria?


Ele não hesitou.


— Sim.


— Mesmo sabendo que essa pessoa pode ficar sozinha?


Mu fechou os olhos por um instante.


— Sim.


Skamar baixou a cabeça.


— Isso parece cruel.


— Talvez seja.


Ele olhou para ela.


— Mas existe uma diferença entre aceitar o risco e desejar que ele aconteça.


— Qual?


— Eu nunca escolheria morrer.


Mu tocou a própria armadura.


— Eu escolheria voltar.


Ele respirou fundo.


— Mas, se chegar o momento em que eu precisar escolher entre a minha segurança e a vida daqueles que estão atrás de mim...


Mu não terminou.


Não precisava.


Skamar havia entendido.


Ela ficou alguns segundos em silêncio.


— E se essa pessoa soubesse dos riscos?


— Então ela teria escolha.


— E se escolhesse ficar?


Um pequeno sorriso apareceu no rosto de Mu.


— Você parece determinada a me dar problemas.


— Talvez eu seja muito teimosa.


— Eu já percebi.


Ela sorriu.


Então ficou séria novamente.


— Você não acha que amar torna um Cavaleiro fraco.


— Não.


Mu olhou para ela.


— Acho que amar torna um Cavaleiro humano.


A resposta fez Skamar perder o sorriso.


Mu continuou:


— E é justamente por isso que pode ser perigoso.


Ela abaixou os olhos.


— Porque ele passa a ter alguém a perder.


— Sim.


— E você não quer isso.


Mu demorou a responder.


— Eu não quero que alguém precise assistir à minha morte.


Skamar levantou os olhos.


Ele parecia estar falando de uma pessoa que ainda não existia.


Ou talvez de alguém que ele simplesmente não queria imaginar.


— Você pensa nisso?


— Às vezes.


— Em ter uma esposa?


Mu soltou uma pequena risada.


— Não exatamente.


— Então em quê?


Ele olhou para o horizonte.


— Em voltar de uma guerra e encontrar alguém esperando por mim.


Skamar ficou quieta.


— E depois imaginei o contrário.


— O contrário?


— Não voltar.


A voz dele ficou baixa.


— Imaginei alguém recebendo a notícia.


Ele engoliu em seco.


— Imaginei uma mulher ficando viúva antes mesmo de ter tempo suficiente para envelhecer comigo.


Skamar sentiu os olhos arderem.


Mu continuou:


— Não quero isso para ninguém.


— Nem para alguém que ame você?


Ele olhou para ela.


— Principalmente para alguém que me ame.


O silêncio que veio depois foi diferente.


Mais íntimo.


Skamar percebeu que Mu não estava falando apenas sobre a doutrina do Santuário.


Estava falando sobre ele.


Sobre a própria vida.


Sobre o futuro que havia decidido não ter.


Ela perguntou baixinho:


— E se essa pessoa soubesse que você não pode abandonar sua missão?


— Então ela precisaria entender que eu não estaria escolhendo a guerra em vez dela.


Skamar o encarou.


— Não?


Mu balançou a cabeça.


— Eu estaria escolhendo proteger o mundo onde ela vive.


A resposta a deixou sem palavras.


— Se eu abandonar a minha missão, não estou garantindo que vou voltar para ela.


Ele olhou para Skamar.


— Estou apenas garantindo que, se Hades vencer, talvez não exista mundo para o qual eu possa voltar.


Skamar sentiu um arrepio.


Mu continuou:


— É por isso que eu não posso abandonar.


A voz dele estava tranquila.


Mas absolutamente firme.


— Não importa quem eu ame. Não importa quanto eu tenha a perder.


Ele tocou o peito.


— Enquanto eu for o Cavaleiro de Áries, essa responsabilidade é minha.


Skamar ficou olhando para ele.


— E você espera que alguém aceite isso?


Mu sorriu sem humor.


— Não sei.


— E se ela não aceitar?


— Então talvez ela nunca consiga viver ao lado de um Cavaleiro.


— Porque você escolheria o dever.


— Porque eu não posso escolher apenas a mim. E ainda que eu abandonasse a missão, isso não garante que eu sobreviveria.


— Você não teme por Kiki?


Mu virou-se para ela, olhando-a profundamente nos olhos, certificando-se que ela absorvia cada palavra.


— Skamar, se um dia a armadura escolher alguém que você ama, não pense que está perdendo essa pessoa. Pense que a humanidade encontrou alguém capaz de protegê-la.


Ela ficou em silêncio.


— Às vezes, proteger alguém não significa mantê-lo longe da guerra. Significa prepará-lo para sobreviver a ela.



Ela continuou em silêncio.


Depois encostou o ombro no dele.


Dessa vez, Mu não se afastou.


— Você sabe que isso também é uma escolha, não sabe?


— O quê?


— Ficar sozinho.


Mu olhou para ela.


— Talvez.


— E talvez você não possa controlar tudo.


Ele sorriu.


— Você está ficando muito parecida com Aldebaran.


— Isso é um elogio?


— É.


Ela sorriu.


Então ficou séria novamente.


— Mu?


— Sim?


— Eu ainda quero aprender.


— Eu sei.


— Mesmo sabendo disso tudo.


Ele a observou por alguns segundos.


— É por isso que eu tenho medo.


Skamar não respondeu.


Mu olhou para o céu.


— Porque agora eu sei que você entende o preço.


Ela segurou discretamente a ponta da capa da armadura de Áries.


— E mesmo assim eu quero ficar.


Mu fechou os olhos.


Não havia argumento contra aquilo.


Porque, no fundo, era exatamente o que ele fazia.


Sabia o preço.


E continuava ficando.


Continuava treinando.


Continuava vestindo a armadura.


Continuava esperando a guerra que talvez só viesse décadas depois, mas que já havia moldado toda a sua vida.


Skamar encostou novamente a cabeça no ombro dele.


Dessa vez, Mu permitiu.


E nenhum dos dois percebeu que aquela conversa havia mudado alguma coisa.


Porque, até aquele momento, Mu acreditava que proteger Skamar significava mantê-la longe da vida de Cavaleiro.


Agora começava a entender uma coisa muito mais perigosa:


talvez protegê-la significasse ensiná-la a sobreviver.


E, se ela insistisse em ficar ao lado dele...


talvez ele precisasse aprender a sobreviver também.