A noite estava escura e fria enquanto o príncipe adentrava na floresta. Ele podia ouvir as corujas e o bater de asas de morcegos, mas isso não o afligia de maneira alguma.

Seu plano era ir o mais longe que pudesse do Reino de Antuérpia. O futuro como rei não lhe interessava, tampouco a vida como nobre em sua terra natal. Ele ansiava por aventuras, adrenalina e quem sabe, um pouco de mágica.

Seu cavalo, Galope, era o melhor, mais forte e robusto cavalo dentre os outros. Era seu grande aliado há anos e o seu preferido.

Viajou a noite toda, passando por terrenos acidentados e colinas. Ao amanhecer, já não suportava mais continuar montado em Galope, e ele provavelmente já não aguentava mais cavalgar.

Carlos viu que se encontrava próximo a uma pequena aldeia. Não pensou duas vezes e adentrou, rumando direto a uma fonte onde pudesse dar um pouco de água a seu fiel companheiro.

Poucas pessoas se encontravam pelas ruas de pedra aquela hora da manhã. Elas passavam olhando e analisando-o de cima a baixo, provavelmente querendo saber quem ele era. Deve ser o tipo de lugar onde todos se conhecem e onde um forasteiro não é visto com bons olhos, pensou. Ele não se importou, era exatamente o tipo de aldeia onde não iriam encontrá-lo.

Rumou em busca de uma hospedaria. Tudo o que ele mais queria e precisava naquele momento era um pouco de descanso da longa jornada.

Mais olhares vinham em sua direção, mas o rapaz tentava não se importar. Desde sempre, aonde fosse era sempre o foco da atenção.

– O príncipe herdeiro do Reino de Antuérpia está aqui!

– Príncipe Carlos dará um baile de boas-vindas a organização de moças e rapazes da alta sociedade!

– O príncipe disse que não gosta de mel!

Sempre havia algo sobre ele para os aldeões comentarem. Mesmo que a maioria deles não soubessem nem como o príncipe aparentava, rapidamente descobriam ao ver sua maneira de andar e suas roupas, assim como os criados que o acompanhavam e sua carruagem. Mas eles se enganavam se pensavam que ele também não os observava. Carlos sabia perfeitamente como era a maneira de andar e falar de seus conterrâneos de classe inferior. Por conta dessa observação é que ele conseguia agir perfeitamente como um deles naquele momento.

Sem a postura empertigada ou o corpo aprumado, o rapaz encontrou uma pequena hospedaria próxima a fonte. Bateu à porta e entrou, imediatamente observando a simplicidade do lugar. Apertou uma pequena campainha instalada num balcão um pouco empoeirado, repleto de livros grandes e antigos.

– Já estou indo! — respondeu uma voz vinda do segundo andar.

Um velhinho surgiu com uma bengala no topo da escada, descendo lentamente degrau por degrau, apoiando a mão esquerda no corrimão.

– Bom dia, meu rapaz. Como posso ajudá-lo? — ele perguntou enquanto sentava atrás do balcão.

– Bem, eu procuro um quarto, embora não tenha certeza de quanto tempo permanecerei aqui.

– Não costumo interrogar meus fregueses, mas a maioria dos que aparecem por aqui sempre tem uma ideia de quanto tempo irá se hospedar.

– Estou em uma longa viagem, passando por vários lugares. Se eu gostar daqui, permanecerei por mais tempo. Caso contrário, não devo ficar mais do que alguns dias.

– Tudo bem, então. Temos um quarto vago no último andar, com uma cama sempre quente, mesa e cadeira. Servimos nosso café-da-manhã às sete, almoço ao meio-dia e jantar às oito. Você é livre para fazer o que quiser durante o dia, mas não aceitamos bagunça e nem que traga mulheres para cá.

O príncipe esboçou um sorriso assanhado:

– Realmente não posso trazer mulheres para cá?

O velho olhou para ele com olhar firme:

– Não sei quem você é, nem de onde veio. Se você é um fanfarrão e mulherengo, vá se divertir na taverna ou em qualquer outro bar, mas isso aqui é uma casa de ordem, e eu não irei tolerar esse tipo de coisa.

O rapaz ficou encabulado diante daquele senhor e apenas assinou o livro de hóspedes.

– Seja bem-vindo, sr. Carlos. Como eu disse, o quarto do último andar está vago e você irá ficar lá. Serviremos o café-da-manhã daqui a pouco.

– Ah sim, muito obrigado. — respondeu o príncipe enquanto subia as escadas.

O velho sorriu e em seguida caminhou até a cozinha onde sua neta estava cozinhando.

– Olá, vovô, bom dia! Ouvi a campainha, temos novos hóspedes?

– Sim, querida. É um rapaz, mas quero que você fique longe dele. Ele não sabe quanto tempo irá ficar, e eu achei tudo isso muito suspeito. Talvez ele seja um fora da lei.

Aurora exibiu um olhar um pouco assustado, porém logo voltou a se concentrar em sua torta de maçã.

– Bom saber disso, ficarei longe dele.

O avô sorriu e deu-lhe um beijo na testa:

– Boa menina.