O sol já havia nascido e brilhava forte no céu enquanto Aurora cantarolava, pondo a torta de maçã para assar. Ela sequer viu o príncipe adentrar na cozinha.

– Você trabalha aqui? — ele perguntou ao se aproximar.

– Oh, nem te vi entrar. Sim, eu trabalho aqui. O dono da hospedaria é meu avô.

– Você por acaso sabe onde há algum lugar para se divertir aqui?

– Desculpe, mas eu realmente não sou o tipo de garota que costuma se divertir.

Ele a olhou de cima a baixo com um sorriso sarcástico. A menina não era bonita. Seu rosto era bastante desarmonioso; sem brilho nos olhos ou no cabelo; pele oleosa e algumas pequenas cicatrizes na testa, nariz e queixo.

– Bem, se eu tivesse a sua aparência, também não sairia para me divertir. Talvez sequer encontraria alguém que se interessasse em ter minha companhia.

Ela se encolheu timidamente. Sabia o quão ruim era sua aparência e se sentia extremamente envergonhada em ter que ouvir isso de um rapaz tão bonito quanto ele.

– Você não deveria estar aqui. — disse Aurora, desviando o olhar.

– Verdade. Não encontrei nada útil ou interessante aqui. — ele proferiu essas palavras enquanto lhe dava as costas, saindo da cozinha e batendo a porta.

Algumas lágrimas brotaram nos olhos da menina enquanto ela observava seu reflexo na colher.

– Por que Soraya fez isso comigo? Eu não merecia passar a minha vida assim!

Ela tentou enxugar as lágrimas, afinal, havia muito trabalho para ser feito.

Carlos saiu andando pelas ruas de pedra da aldeia. Ele havia descansado algumas poucas horas antes de ir à cozinha da hospedaria e já se sentia pronto para explorar o lugar. Sentiu o cheiro do pão fresquinho vindo da pequena padaria e observou como as maçãs do feirante eram as mais vermelhas que ele já havia visto. O sol estava brilhando, e a temperatura, agradável.

Ele viu uma taverna e não pensou duas vezes antes de entrar. O príncipe precisava relaxar e beber um pouco. Quem sabe encontrar uma garota bonita, ao invés da moça feia da hospedaria?

Abriu a porta, encontrando um lugar mal iluminado, com apenas algumas tochas distribuídas pelas paredes de pedra do ambiente. Alguns homens bebiam copos enormes de cerveja enquanto riam e falavam alto ao mexer com as mulheres. Elas gostavam de receber tal atenção e se debruçavam sobre eles, vestindo roupas inapropriadas e indecentes.

O rapaz caminhou até o balcão e pediu a bebida mais forte do estabelecimento. As moças não demoraram a pousar os olhos neles, perceberem o quanto era bonito e juntarem-se com um enxame de abelhas à sua volta. Elas tentavam chamar sua atenção passando a mão em seus cabelos e se aproximando cada vez mais. Carlos estava gostando da atenção recebida e resolveu se divertir com elas.

O jovem príncipe permaneceu ali durante o restante do dia. Se meteu em brigas de bar, bebeu o máximo que podia e teve a companhia de belas mulheres. Virou seu último copo no início na madrugada quando o que restava de sua consciência decidiu ir embora.

– Você me deve quinhentas pratas por todas essas bebidas. — avisou o dono da taverna.

– Meu senhor, eu sou um pobre homem andante, acha mesmo que posso pagar-lhe tudo isso? — Carlos falava com a voz completamente embriagada, esforçando-se para manter-se de pé.

– Não me importo se você é um andarilho, só quero meu dinheiro!

– Prometo-lhe pagar quando resolver voltar ao meu reino. Sou o príncipe herdeiro de Antuérpia.

Um coro de risadas explodiu no bar.

– Príncipe herdeiro? Você realmente acha que um príncipe frequentaria essa espelunca? — gritou um magrelo barbudo, quase não respirando de tanto rir.

– Ele já bebeu tantas que já nem sabe mais quem é!

– Está louco!

– Não estou brincando! — Carlos conseguiu manter-se de pé — Sou o príncipe herdeiro do reino de Antuérpia e irei pagar-lhe quando retornar ao meu castelo. — em seguida, desabou em cima de uma cadeira novamente.

– Esse pobre maltrapilho está fora de si!

– Não suporto mentirosos devedores em meu estabelecimento. — afirmou o dono da taverna, puxando o rapaz e arremessando-o na noite fria.

Carlos desabou no meio do lixo num beco catinguento repleto de ratos. Ele não conseguia sequer manter-se em pé. Sua cabeça girava, não entendendo o que estava acontecendo, nem as atitudes que deveria tomar. Acabou por passar a madrugada fria ali mesmo. Ele, um príncipe herdeiro, bêbado, no meio de roedores e detrito. Se seus pais pudessem vê-lo agora, ele ficaria preso no castelo por meses, sem sombra de dúvidas.

O sol raiava quando Aurora saiu da hospedaria. Sorridente, ela carregava uma cesta enquanto cumprimentava os vizinhos. A moça planejava comprar algumas frutas para abastecer sua cozinha e flores para embelezar a hospedaria. Achou estranho o fato de o rapaz ranzinza não ter dormido no estabelecimento na noite anterior. Talvez tenha encontrado a diversão que tanto queria, pensou ela.

Distraída em seus pensamentos, ela tropeçou em um pobre mendigo ao passar por uma esquina.

– Desculpe, meu senhor, não te vi quando estava passando! Deixe-me te ajudar. — Aurora inclinou a mão para o homem quando percebeu que conhecia aquele rosto.

– O que está fazendo aqui? — perguntou ao reconhecer o rapaz grosseiro do dia anterior.

Ela percebeu a expressão de dúvida no rosto dele, notando uma certa sombra de esquecimento.

– Você não sabe quem eu sou?

– Claro que sei. Não iria esquecer um rosto feio como esse mesmo se fosse à China.

Grosseiro como sempre, ela pensou com raiva.

– Você não merece, mas deixe-me te ajudar. — Aurora puxou-o com facilidade do chão e pôs seu braço molengo em volta de si. Ela planejava levá-lo de volta para sua cama na hospedaria.

Chegando lá, deitou-o em seu leito e cobriu-o com suas cobertas. Ele não resistiu em momento algum. Ela percebeu que ele estava febril e tremia um pouco. Providenciou seus remédios caseiros e passou o dia cuidando dele. Carlos passou o tempo todo meio inconsciente, recuperando-se da ressaca da noite anterior e do forte resfriado adquirido.

Sempre bondosa e atenciosa, Aurora verificava sua febre de hora em hora. À noite, ele enfim se pronunciou:

– Por que está cuidando de mim? Você deveria me odiar.

– Eu não odeio ninguém. Na verdade, eu sou realmente feia. Ouvi isso minha vida inteira e já percebi. Nenhum forasteiro vai fazer-me sentir pior sobre um fato já conhecido.

Ele ficou em silêncio, mas continuava a estranhar a ação daquela menina de rosto feio, porém com um belo e bondoso coração.