Até que o Apocalipse nos Separe
9 Depois da chuva sempre vem o sol... Ou não!
Notas iniciais
Eu ia postar o capítulo ontem, mas aconteceram uns lances aí e só consegui postar hoje!
Boa leitura!
Ainda chorando esperei o dia amanhecer. Foram quase três horas de espera; não sei de onde surgiram tantas lágrimas. Por mais que tenha sido bom, eu não gostaria de sonhar aquilo outra vez. Foi o melhor e o pior sonho de todos. Só me fez lembrar e pensar nas coisas horríveis que aconteceram com as pessoas que eu mais amava, e isso não é bom agora. Eu daria qualquer coisa, qualquer coisa, para sonhar algo diferente, diferente do meu passado, pelo menos uma vez. Ou então não sonhar nada.
Ah... Como eu queria um daqueles comprimidos que a Lúcia tomava para dormir a noite inteira. Ela sempre dizia que apagava de vez e que tinha uma noite tranquila, sem interrupções, sem insônia, sem sonhos...
Afasto totalmente (ou pelo menos uma parte) desses pensamentos quando a luz que passa pelas brechas da porta chega até mim. Logo menos aparece alguém do outro lado da cela. Não consigo ver quem é por causa da luz forte, mas sei que está abrindo a porta. Sento-me, esfrego as mãos nos olhos e tento ficar na parte mais escura do beliche. Está mais do que claro de que passei a noite chorando.
- Lyanna? Bom dia — Ouço a voz de Rick. Ele se aproxima e fica bem ao meu lado, com uma expressão séria, como todas as outras vezes que veio aqui. Apoia-se na cama de cima e logo imagino que vai reclamar de algo, brigar comigo e me mandar embora por causa do garoto — Quero me desculpar por ontem — Quê?
Fico sem saber o que falar — Hã... Eu... Sabe, eu...
- Não precisa falar nada — Ele diz enquanto coça brevemente a barba — Basta ouvir — Então puxa um banquinho que estava próximo, senta-se e olha bem sério para mim — Olha... — Ele começa, mas logo faz uma cara estranha — Estava chorando?
- Quê? Não, não! — Digo rapidamente enquanto passo mais uma vez as mãos nos olhos.
Ele suspira — Todos nós temos um lado sensível — E inclina-se um pouco para me tocar.
Dou uma forte tapa em sua mão e grito — Eu não!
- Tudo bem — Ele diz afastando-se de mim — Tudo bem...
Logo sinto minha embaçar mais uma vez. Não posso chorar agora... — Me desculpa — Digo enquanto tapo brevemente minha boca com a mão direita.
- Tudo bem — Rick responde calmamente — O que aconteceu ontem... Meu filho não teve a intenção. Desde que a Lori morreu ele...
- Seu filho? — Pergunto totalmente chocada. Sinto que meu queixo caiu e logo fecho minha boca.
- Sim, meu filho — Ele dá uma pausa — E Lori... — Suspira — Era minha esposa. Ela morreu no nascimento de Judith.
- Você tem uma filha também? — Pergunto mais chocada ainda. Quantos filhos esse cara tem?
- Tenho. Um bebê.
- Um bebê? — Altero-me — Em um apocalipse?
- Eu sei... — Ele suspira mais uma vez — É uma longa história. Terei tempo para contá-la — Então esqueço o choque e tento me concentrar no que ele acabou de dizer.
- Acho que não, já que... — As palavras somem da minha mente. Logo um duplo sentido vem à tona e pergunto-me se pode ser verdade.
- Já que o que? — Ele pergunta gentilmente e nota que não sei o que falar — Só quero que saiba que entendemos o que está passando e que você ainda terá várias chances para nos provar que é alguém de confiança — Ele dá mais uma pausa e inclina-se, apoiando os cotovelos nos joelhos.
- Sou sim... — Penso alto, já transbordando de alegria. Por dentro, claro. Por fora continuo sendo o osso duro de roer.
- E... — Ele continua. Pelo visto não me escutou. Obrigada, Deus — Se quiser... Você pode continuar aqui conosco.
- Eu quero — Digo alto parecendo uma desesperada. E eu realmente sou uma desesperada. Não acredito que isso está acontecendo — Eu quero! — Digo mais uma vez enquanto movo-me para perto de Rick.
Ele sorri — Ótimo. Você pode... — E interrompo-o com um abraço. Um forte abraço. Aperto-o com muita força até perceber que estava lhe sufocando — Ok... — Ele diz em um riso baixo e abafado, meio desajeitado, e apenas corresponde com uns tapinhas nas minhas costas.
- Você não tem noção da felicidade e do alívio que estou sentindo agora — Digo com um sorriso de orelha a orelha.
- Tenho sim — Ele diz com uma sorriso meigamente maravilhoso — Foi o que senti quando encontrei esse lugar — Sorrio mais uma vez e então lhe dou outro abraço, dessa vez um normal, só para ver se ele consegue imaginar o quanto estou feliz. Não sei o que vai rolar daqui pra frente entre Maggie e eu, e principalmente Carl, mas terei tempo para resolver isso.
Afasto-me de Rick — E agora? — Pergunto ansiosa.
- Agora vamos descer — Ele responde enquanto levanta-se do banquinho — Consegue andar, não consegue?
- Claro — Minto, totalmente tomada pela felicidade. Minha coxa ainda dói quando ando e consequentemente isso me faz mancar — Com certeza — Ele afirma com a cabeça e num gesto meio tenso coça a nuca. Fez isso disfarçadamente, mas consegui perceber — Está tudo bem? — Pergunto meio preocupada. Afinal, faço parte de sua família agora.
- Está — Ele responde. De imediato notei que era mentira, mas decidi apenas sorrir e afirmar. Não vou arriscar perder tudo por causa da minha boca grande — Vamos? — Ele pergunta enquanto sai da cela.
Acompanho-o e na medida que vamos nos aproximando da escada percebo que há algo errado. Olho para Rick e por mais que ele queira esconder seu nervosismo não consegue. Uma veia enorme pulsando na testa, respiração rápida, ombros rígidos, suor..., reparo em Rick enquanto desço os degraus com sua ajuda. Com certeza tem algo errado. Não comigo, mas com ele.
Quando finalmente chego na parte de baixo encontro Daryl, Hershel, Maggie, Carl, Carol, a loirinha que ainda não sei o nome e algumas outras pessoas desconhecidas. Todos reunidos só para me receber?, penso enquanto estranho por completo esse momento, mas nada de mais a ponto de tirar minha felicidade. Sorrio meio constrangida ao notar todos olhando para mim.
- Uma parte do grupo você já conhece — Rick fala e começa a apontar para algumas pessoas — Estes são Glenn, Michonne e Tyreese — Diz respectivamente — Há vários outros que ainda vai conhecer — Sorrio meio tensa. Estou totalmente constrangida. Nenhum deles retribuiu meu sorriso, só o asiático que fez um breve gesto com a mão. Olho para Daryl e dou um sorriso de canto de boca e ele apenas arqueia as sobrancelhas. Logo meu sorriso vai sumindo e então desvio meu olhar para Rick, esperando ele falar algo — Hã... — Ele começa — Nós só queremos fazer umas perguntas, Lyanna — E puxa uma cadeira para mim, deixando-me bem no centro, para que todos consigam me olhar. Que ótimo... Faço uma cara de quem não está gostando e cruzo os braços — Vai ser rápido, não precisa ficar chat...
- Termina logo isso — Digo rigidamente, deixando bem claro que não estou curtindo o momento.
- Você conhece Philip Blake? — Michonne pergunta com uma linha rígida nos lábios. Pergunto-me se ela está assim por causa do que está acontecendo ou porque já está me odiando mesmo — O Governador — Complementa.
- Que Governador? — Pergunto sem ter a mínima noção do que ela está falando.
- Não finja que não o conhece — Era só o que me faltava.
- Mas eu não conheço — Digo totalmente confusa — Governador de qual estado?
- Eu falei. Ela não tem a mínima ideia de quem seja — Daryl diz em um gesto defensivo.
- Ou talvez seja isso que ela queira que pensemos — Maggie o contradiz enquanto olha seriamente para mim. Mas que porra está acontecendo?
- Eu não sei do que vocês estão falando — Digo calma e pausadamente. Se você se alterar vão pensar o contrário...
- A garota é inocente — Hershel diz, mas é ignorado.
- De onde você e seu grupo eram? — O asiático pergunta. Meu grupo?
- Eu não tenho um grupo — Digo em um tom alto, dando ênfase à palavra "não" — Nasci em Nova Jersey, mas depois me mudei para NY.
- Nós somos seu grupo agora — Ele responde enquanto desvio meu olhar para Rick. Então era por isso que estava nervoso..., penso, negando com a cabeça e dando um breve e sarcástico sorriso. Sua expressão parece não se alterar com isso. Parece que quer dar uma de "macho alfa" na frente da família, mas ainda consigo ver a veia pulsando em sua testa.
- Não minta pra nós — Michonne diz, aproximando-se de mim — Cedo ou tarde descobriremos a verdade.
Encaro-a rigidamente — Eu estou falando a verdade.
- O que fazia naquela casa? — Rick finalmente pergunta. Não acredito nisso. Logo todo o meu ódio inicial por ele volta.
- Estava perdida. Procurava mantimentos, roupas e principalmente a estrada — Digo totalmente irritada. Então começo a bater de leve o meu pé no chão, demonstrando toda a minha impaciência.
- Você estava muito machucada quando chegou aqui... — Maggie fala e desvio meu olhar para ela — O que aconteceu? Por que estava seminua? Só sabemos que foi atacada por zumbis naquela casa.
Fecho os olhos e inclino-me para apoiar os cotovelos nos joelhos. Logo em seguida coloco as duas mãos no rosto. Pelo que parece Daryl não contou... E estou satisfeita com isso, ninguém mais precisa saber. Só em lembrar de tudo que aconteceu naquele dia... Sinto calafrios — Lyanna?
Lembro que ainda estou no meio dessa gente. Se for para continuar assim prefiro não ter grupo nenhum — Não preciso te dizer isso — Respondo, voltando a posição inicial.
- Precisa sim — Michonne fala rapidamente e então sinto uma vontade imensa de dar um soco no próximo que falar.
- Não, não preciso — E continuo a bater meu pé direito no chão.
- Precisa sim — Ela repete e dessa vez pausadamente.
- NÃO! — Grito, fazendo Hershel dar um breve pulo de susto. Perco totalmente a paciência. Eles encontraram um dos meus pontos fracos — NÃO PRECISO! — Minha visão embaça e em poucos segundos sinto um líquido quente escorrer por minhas bochechas. Estava bom de mais pra ser verdade... Coloco rapidamente minhas duas mãos no rosto e soluço alto. Vão pro inferno! Isso só pode ser brincadeira, só pode ser brincadeira, penso totalmente em prantos até que sinto alguém tocar meu ombro.
- Lyanna... — Era Rick — Não precisa chorar... — Olho para o lado e vejo seu quadril bem na minha frente, seu revólver bem na minha cara. Eu poderia puxa-lo e atirar bem no meio de sua cabeça agora, mas por mais que eu queira, por mais que eu o odeie não consigo. Não consigo...
- Acho que já está bom — Escuto a voz de Daryl se aproximando e então sinto-o tocar o meu outro ombro — Ela não é uma ameaça, isso está claro... — Pelo menos alguém com quem contar. Não sei o que estão pensando agora ou o que estão fazendo, e também não me importa. Eu simplesmente comecei a chorar e me fechei para o mundo, com um demônio e um anjo em cima de cada ombro.
Notas finais
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