Até que a morte os una - (EM REVISÃO)
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Foxy sentiu uma sensação estranha atravessar todo o seu corpo.
No momento em que Bonnie parou de expressar aquela melodia em palavras, o pirata começou a finalmente despertar de seu transe lentamente, ainda sem muita noção de tempo e espaço.
O silêncio dominou o local subitamente. A única coisa que ele conseguia ouvir naquele momento, era o som de sua própria respiração repercutindo no espaço aonde se encontrava.
Apreensivo com o silêncio repentino se aproximou das cortinas novamente, temendo que algo de errado estivesse acontecendo.
Puxou de forma brusca uma das cortinas com seu gancho, deixando à mostra somente seus olhos e parte de seu rosto.
Suas pupilas se dilataram com uma cena que o fez quase ir ao chão.
Bonnie estava parado, quase estático em cima do palco, olhando para si com um olhar apreensivo e temeroso, e pela reação de Freddy e Chica fora algo repentino para eles também.
O urso engravatado estava confuso com a situação, o que Bonnie estava fazendo?
Quase se assustou com o movimento brusco que o coelho fez para olhar na direção da... Pirate Cove?
Ao perceber qual era o local ao qual seu colega havia dirigido a atenção, virou-se na mesma direção rapidamente, sem dizer uma só palavra ao mesmo.
Pode ver rapidamente um par de íris amarelas, que ao aparentemente notarem sua atenção aos mesmos, se embrenharam para dentro das cortinas novamente, o moreno podendo ver somente um vulto em seguida.
Freddy estreitou os olhos em desconfiança, pelo visto Bonnie estava procurando pela figura do pirata na desativada atração do mesmo.
Chamou-o tentando trazer a atenção do guitarrista para si.
–Bonnie? Você viu algo estranho? – indagou o moreno, rezando para que a resposta fosse negativa.
No momento em que o intenso contato visual fora quebrado, Bonnie começou a piscar os olhos diversas vezes, semicerrando os mesmos.
Chica apenas observava a cena, se perguntando aonde ela já vira uma situação parecida.
Freddy permanecia apreensivo, esperando alguma reação por parte do coelho.
–Hum? Freddy? – tentou ordenar os próprios pensamentos em quanto se virava para o urso – tem... alguma coisa acontecendo – disse decidido, finalmente estabelecendo uma noção da situação.
– O que? – perguntou um tanto incrédulo. Olhou de soslaio para a atração do pirata, agora decorada com uma estranha placa aonde havia a frase´´Desculpe! Fora de ordem´´ — está falando de Foxy? – indagou confuso o urso engravatado.
Bonnie apenas acenou de leve com a cabeça, com um olhar sério, porém ainda assim com o temor refletido claramente em suas íris.
As pessoas do local apenas ficavam cada vez mais confusas com a situação, e naquele momento não havia nenhum funcionário vigiando o salão principal para interferir na situação, já que o mesmo que deveria cobrir aquele turno havia tirado o dia de folga, por culpa de ocorrências médicas.
Decidido, começou a dar passos em direção a Pirate Cove, porém fora interrompido rapidamente pela mão de Freddy, que segurou firmemente seu pulso. Quase se assustou com a reação do urso.
Quase.
– O que está fazendo? – indagou o vocalista, se sentindo cada vez mais perdido e aflito com a situação.
– Não é obvio? Eu vou até lá! – respondeu sem recuar.
– O que está havendo com vocês? – perguntou Chica, se irritando cada vez mais pelo fato de eles estarem agindo daquela maneira. O show não poderia ser interrompido, ou eles teriam problemas.
– É o que eu estou tentando descobrir! – retrucou o urso, ainda sem soltar o pulso do coelho – E Bonnie, você tem que ficar aqui! Por que você precisa ir até lá? – indagou o urso, se dirigindo novamente para o arroxeado, ainda se pronunciando em um tom audível apenas para os dois animatrônicos ao seu lado.
– Você não entendeu ainda? A última vez que eu me senti assim foi quando Foxy mordeu aquela criança! – respondeu elevando um pouco o tom de voz, não o suficiente para alguém fora do palco o escutar.
Freddy estremeceu ao ouvir a última frase, realmente odiava se lembrar dos acontecimentos daquele dia.
–O que... você está dizendo? – Foi a única coisa que o urso conseguiu dizer naquele momento, enquanto Chica apenas assistia a cena incrédula.
Bonnie suspirou, se soltando do pulso do vocalista.
– Se eu não for lá agora, provavelmente coisas piores vão acontecer, e eu não sei o que é! – respondeu as últimas palavras antes que Freddy pudesse fazer qualquer objeção – eu só sei que tem alguma coisa errada com Foxy! Por favor Freddy, me deixe ir até lá! Você por acaso não se lembra do que aconteceu da última vez que nós não fizemos nada, simplesmente ficamos assistindo?? – respondeu tudo em um fôlego só, aquela discussão estava durando a tempo demais.
Um tempo precioso demais para ser desperdiçado.
Freddy virou seu olhar para o lado, as palavras de Bonnie haviam atingindo uma ferida que há tempos o urso tentava cicatrizar.
– Bonnie eu entendo seus motivos, mas se você fizer isso eles podem achar que estamos defeituosos! Eles só não vieram aqui até agora, porque é normal termos alguns falhas durante o show, mas não a ponto de sairmos do palco! — respondeu no mesmo tom o urso, começando a se estressar com a situação que estava tendo de lidar.
Bonnie estancou no lugar, Freddy tinha razão, porém ficar ali parado não era a melhor opção de maneira alguma.
Isso não havia funcionado da última vez.
Cerrou os punhos com força, enquanto refletia sobre qual seria a melhor coisa a se fazer no momento.
Não teve tempo de pensar em uma solução razoável, um suposto cliente havia penetrado uma sala aos fundos do restaurante, porém segundo as regras de segurança do local, era proibida a entrada de clientes naquele cômodo, mas aquele senhor não parecia se importar muito com isso, saindo a procura de algum responsável pelo estabelecimento, já impaciente com as supostas falhas dos animatrônicos durante o show.
Em pouco tempo o mesmo retornou para o salão principal, acompanhado de um senhor de meia idade, um pouco calvo na região superior da cabeça, que sustentava uma expressão apreensiva e praticamente exausta.
Bonnie não pode ouvir muito bem o que falavam enquanto passavam pelo corredor, apesar de sua audição aguçada, mas pela expressão do cliente em questão, com certeza não era algo bom.
– Olhe eu disse! — o cilente que acompanhava um dos principais donos do estabelecimento apontou para o palco aonde os animatrônicos estavam localizados, enquanto gesticulava e conversava com um olhar sério com o senhor ao seu lado — este lugar não tem mais a menor condição de permanecer de pé, Scott! Eu te dei uma chance! Depois que aconteceu aquele acidente você sabe quantos problemas eu tive com reportes sensacionalistas e a mídia me seguindo por todo os lados, por causa do meu ´´suposto´´ envolvimento com esta espelunca?? Você sabe quanto suborno eu tive de pagar para a rede de segurança nacional impedir que estas pestes continuassem a me incriminar pelos erros que os seus animatrônicos cometeram nos últimos tempos?? — o mais novo estava se estressando cada vez mais a cada palavra que pronunciava, quase se exaltando e permitindo com que os outros clientes o escutassem discutindo com o senhor de meia idade ao seu lado, por sorte Bonnie conseguia ouvir razoavelmente o que diziam.
– Se acalme senhor, eu estou dizendo! Eu só preciso de alguns dias e poderemos pagar todas as nossas dívidas! Olhe! O número de clientes está aumentando novamente! — ele apontou rapidamente para o pequeno público ali presente, tentando expressar um ar otimista.
– Você realmente não enxerga, não é Scott? Depois daquele acidente, a família da vítima nos processou por: negligência pela manutenção dos animatrônicos, pela segurança dos clientes e várias outras coisas incluídas no processo judicial! E você por acaso já ficou sabendo quanto em indenização eles querem por tudo isso?! — perguntou com um olhar sério o suposto cliente, ao ruivo a seu lado.
– Eu pensei que eles não quissesem entrar com um processo contra nós, pelo fato do garoto ter sobrevivido, não é mesmo? Então por que de repente eles decidem nos processar? — perguntou o mais velho, se sentindo um tanto aflito.
O outro suspirou pesadamente.
– O garoto tinha entrado em um estado de coma, ele estava esse tempo todo hospitalizado na UTI de um hospital próximo daqui — esclareceu amargurado o moreno.
– Mas, então... — o outro deu iniciativa para ele prosseguir.
– As máquinas do garoto foram desligadas a esses dias... os médicos não podiam fazer mais nada por ele. — encerrou a frase, desviando seu olhar para o lado.
O senhor de meia idade apenas levou o olhar ao chão, mais uma vez ele havia ´´permitido´´ com que mais mortes ocorressem naquele local, por culpa de sua própria imprudência.
– Pois bem, e agora recentemente recebemos pedidos para que a inspeção sanitária venha verificar a nossa atual situação, devido a acusações de clientes que alegam que a situação deste lugar é... ´´podre´´, sem falar no forte odor de sangue que há em alguns pontos deste ´´estabelecimento´´, se é que eu ainda devo chamá-lo assim — se pronunciou dessa vez mais calmamente, porém ainda sustentando a mesma expressão de antes.
– Senhor, escute bem o que eu vou dizer, esse lugar ainda é especial para muitas crianças! Muitas delas ainda guardam um espaço em seus corações para esses animatrônicos. Foxy pode ser uma raposa velha, mas garanto que não fez aquilo porque sua programação o ordenava! Deve ter sido apenas um erro nos sistemas! — tentou justificar o mais velho, porém no fundo ele sabia que aquilo não convenceria o outro.
– Scott... se nós não conseguirmos ao menos a aprovação da inspeção sanitária... — pousou sua mão sobre o ombro do outro, na realidade ele sabia muito bem como o ruivo se sentia com relação a aquele local — ... seremos obrigados a fechar esse lugar... — encerrou sua frase com pesar.
Scott não teve coragem de pronunciar uma só palavra diante daquilo.
– Vou deixar você sozinho por enquanto, para poder pensar melhor em tudo isso, ok? — o mais novo deu a última a palavra, em seguida se afastando do outro indo em direção a saída.
– Freddy... — chamou tentando atrair a atenção do urso para si, se pronunciando quase em um tom de sussurro, as palavras praticamente presas em sua garganta — v-você ouviu isso? — perguntou já estarrecido o coelho.
– Em parte... — respondeu seriamente o vocalista.
– M-mas então o-o que nós vamos fa-fazer....? — perguntou minimamente, porém fora cortado bruscamente pelo urso.
– Bonnie! — o coelho quase se assustou com a reação do outro, que praticamente gritou consigo, porém sem lhe dirigir o olhar ainda.
Chica que pretendia intervir na situação, apenas se contentou em permanecer calada, diante de tal reação por parte do moreno.
– Apenas, siga, a programação — falou em um tom firme, ditando as palavras uma por uma, para que não houvessem objeções dessa vez por parte do outro.
Bonnie nunca ouviu Freddy usar aquele tom consigo ou com qualquer outra pessoa.
Se obrigou a continuar no lugar aonde estava, e apanhar sua guitarra novamente em mãos, teria de se controlar e esperar até a primeira oportunidade que tivesse de ir ver a atual situação de Foxy.
Se alguma coisa acontesse à aquela raposa mais uma vez, ele jamais poderia se perdoar novamente.
Porém, o que ele não sabia é que Foxy, havia escutado muito bem a conversa daqueles dois senhores perto do corredor, já que sua atração ficava um tanto próxima daquele pequeno local.
Tudo o que se passava na cabeça do pirata naquele momento, era de que a culpa de eles estarem naquela situação era dele, exclusivamente, e únicamente dele.
Bateu suas costas com força na parede de sua atração, enquanto permanecia com seu olhar perdido no vazio, ironicamente idêntico ao estado atual de sua própria alma.
Rangeu os dentes pontiagudos, se enfurecendo consigo mesmo. Elevou rapidamente seu punho para desferir um soco na fria parede de concreto atrás de si, porém ao desferir o golpe, suas forças se exilaram de si quase de imediato, e ele escorregou de maneira quase involúntaria por aquela parede, ao fim desabando sobre o chão de madeira lisa.
Depois de poucos segundos que aquela discussão fora dada por encerrada, ele conseguiu ouvir finalmente a banda que se localizava no palco, retomar a sincronizada melodia de antes.
Pode até ser que para aquele público ao qual era dedicado aquela música, se tratava exatemente da mesma cantiga a que se propagava naquele momento pelo pequeno salão que a anterior, que realizara a mesma fasanha.
Mas, para Foxy com certeza não era.
Não precisava nem mesmo olhar na direção daquele palco para perceber que a alegria que antes aqueles animatrônicos expressavam mais do que tudo em suas canções, havia desaparecido completamente.
Depois daquilo ele não ouviu mais um solo de guitarra sequer.
– Eu sou um monstro...
A única coisa que ele conseguiu sentir naquele momento, além da presente lacuna em seu peito, foi aquela gota de água quente escorrer por seu rosto, por fim caindo sobre aquele piso aonde ao final ele sempre permanecia a se lamentar, praticamente destruído, em todos os sentidos possíveis da palavra.
Mas... o que era aquilo? Ele estava... chorando?
´´Pare...´´
´´Pare...´´
´´Pare neste momento! ´´
´´Você não tem o direito de chorar! Foi você quem causou tudo isso! Você não tem o direito de se lamentar! Não tem!´´
As vozes em sua cabeça lhe acusavam a todo momento do fato de ele ser o único responsável por tudo aquilo, fazendo questão de apontar-lhe a todo momento os seus próprios erros, e lhe jogando na cara a criatura na qual ele havia se transformado.
Sem um caminho a seguir...
Sem um objetivo...
Sem uma única razão para continuar existindo...
Sem uma fonte de esperança sequer...
Mas... as vezes ele se perguntava, se aquilo na verdade não era... a sua própria consciência.
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