Até que a morte os una - (EM REVISÃO)
5 Capítulo 5
Notas iniciais
O silêncio dominava o local completamente, o único som que se ouvia era o tilintar de goteiras nos corredores, que se propagavam por todo o lugar, rebatendo nas paredes em forma de eco, originados da forte tempestade que castigava o exterior do estabelecimento.
O mesmo local agora preenchido pelo forte cheiro inebriante de sangue.
A escuridão da noite se fazia presente. Os relâmpagos cortavam o céu negro e nublado, sendo seguidos por seu som característico ricocheteando na superfície, fazendo quase com que a terra estremecesse perante as investidas daquele instigante fenômeno da natureza.
Chica tentava se tranquilizar aos poucos, enquanto deslizava suas mãos que se encontravam gélidas, gradualmente em seus braços, tentando de maneira quase involuntária se aquecer, apesar de não haver grande necessidade.
Freddy a abraçava por trás, enquanto os dois permaneciam agora sentados, escondidos por detrás de cortinas avermelhadas que decoravam o palco aonde eles realizavam os seus shows, os dois escorados sobre pilhas de sacos de areia.
– Freddy? — chamou-o de forma melancólica.
– Uh? — apenas murmurou em resposta, dando sinal de que ela poderia lhe dizer o que quisesse.
– Você... acha que vai demorar muito? — perguntou receosa ao amigo, usando o mesmo tom de antes, porém dessa vez com um toque a mais de preocupação, enquanto dirigia seu olhar de soslaio para seu colega de orelhas roxas, prostrado ao lado deles, no momento desativado.
Freddy olhou rapidamente na mesma direção da outra, constatando que ela falava da atual situação do guitarrista da banda de ambos.
Suspirou pesadamente.
– Eu não sei, Chica — respondeu minimamente, seu olhar se entristecendo cada vez mais.
– Você não acha que deveríamos ir ver a situação de Foxy? — perguntou a outra, se livrando de algo que achava que deveria ter perguntado ao urso há séculos.
– Duvido muito que seja diferente da situação de Bonnie — retrucou o maior, seu olhar se fixando na Pirate Cove durante alguns segundos, logo em seguida semicerrando os mesmos, deixando apenas parte de suas íris cerúleas visíveis.
– Mesmo assim eu não acho que deveríamos simplesmente esperar os dois se reativarem sozinhos, nós... demoramos horas até conseguirmos acordar — declarou um tanto aflita a loira, esperando o urso tomar alguma atitude.
– Eu disse que não, Chica! — respondeu franzindo o cenho, elevando gradualmente o tom de voz. Não sabia mais como lidar com aquela situação, ele realmente queria ajudar os seus amigos, mas, eles tinham o seu próprio tempo, não poderia esperar que eles simplesmente se reativassem de uma hora pra outra.
Desviou o olhar para o lado, constrangido ao ver o olhar de surpresa de Chica sobre si, provavelmente por ele elevar o tom de voz com ela.
– Que seja, Freddy — respondeu no mesmo tom que o moreno, porém, esta utilizando um ar um tanto mais sério, depois de ter se recuperado da aparente surpresa.
O urso logo sentiu aquilo pesar sobre sua consciência, todos esses conflitos em sua mente estavam o deixando cada vez mais atordoado, o que o fez consequentemente descontar isso em Chica. E isso não era justo com a outra, já que ele não era o único com problemas para ordenar os próprios pensamentos.
– Chica... me desculpe, e-eu estou confuso com tudo isso, eu não sei mais se estou realmente tomando as decisões mais corretas... ultimamente — declarou à outra, um tanto melancólico.
A galinha se sentiu ressentida ao ouvir o tom de voz que o outro havia utilizado, ela ouvira aquilo pouquíssimas vezes vindo do moreno desde que conhecera o mesmo. Se virou na direção do outro, ficando em frente ao urso, enquanto se sentava de joelhos no chão de madeira, desamarrotando o seu vestido amarelo.
– Eu te desculpo Freddy — deu uma pausa rápida e suspirou em seguida — mas nós temos que saber o que houve com Foxy... e também... ele não era o único a agir de maneira estranha — dirigiu seu olhar ao coelho ao pronunciar as últimas palavras, ditando a pequena frase de uma maneira um tanto vagarosa.
Freddy engoliu em seco, se lembrando rapidamente sobre o que a outra estava se referindo.
– Tudo bem, mas acho melhor conferirmos a situação de Bonnie primeiro, ele deve demorar menos tempo para voltar ao normal — a loira assentiu e se levantou do local aonde estava, caminhando em seguida na direção do coelho.
Se agachou ficando da altura de Bonnie, que no momento se encontrava sentado, encostado na fria parede do palco aonde eles se localizavam. Segurou com pesar o rosto do coelho com uma das mãos, lembranças dos acontecimentos daquele dia invadindo sua mente de maneira avassaladora.
Freddy parou de trás de si, apenas observando os movimentos da mesma.
Depois de alguns segundos ela respirou fundo, tomando coragem para tentar se comunicar com o coelho.
– Bonnie? Você está bem? — não houve resposta.
Ela suspirou, cerrando os olhos rapidamente, e apertando ligeiramente o rosto do arroxeado com a mão que ainda repousava sobre a bochecha do mesmo.
– Por favor, não demore muito para acordar... — pediu em súplica, seu tom de voz carregando cada vez mais a amargura que a dona desta sentia no presente momento.
– Não adianta Chica... — o moreno desviou o olhar para o lado — é melhor nós esperarmos mesmo... vamos ver a situação de Foxy, ele não deve estar nada bem com tudo isso e... — iniciou a frase, porém fora parado bruscamente em seguida.
Um trovão se fez ouvir, ricocheteando no horizonte estrondosamente, por algum motivo, aquela rachadura súbita no firmamento negro parecendo ter contido um impacto muito mais forte do que o daqueles que o antecederam.
Ouviram alguém puxar a respiração com força.
Os dois se viraram rapidamente na direção da onde, possivelmente, tal som teria se originado, ambos podendo avistar o guitarrista da pequena banda inspirar o ar profundamente pela boca, elevando a cabeça para cima no processo, como que tentando sobreviver nas profundezas do mais desesperador dos oceanos, em seguida o arroxeado puxando o oxigênio um tanto impuro do ambiente à sua volta diversas vezes, sem interromper o processo um segundo sequer, enquanto pressionava fortemente as duas mãos contra o próprio peito que subia e descia descompassadamente.
– BONNIE! — Chica se assustou com o movimento repentino e brusco do coelho, procurando socorrer o mesmo no instante em que ouvira aquilo.
Segurou as mãos do outro, ainda postadas sobre o peito do guitarrista.
– Isso respire.. — instruiu ao colega, enquanto o mesmo normalizava a respiração aos poucos, agora com a cabeça abaixada em direção ao chão.
Freddy apenas observava a cena com os dentes levemente cerrados, começando a compreender o que estava causando aquele comportamento diferenciado no outro nos últimos tempos.
Ao estabelecer a respiração em um ritmo normal, ele dirigiu o olhar discretamente na direção dos dois animatrônicos à sua frente, a expressão de confusão sendo bem visível em seu rosto pálido.
– O... o que houve? — perguntou depois de algum tempo, massageando as próprias têmporas com uma das mãos, enquanto tentava clarear a visão um tanto embaçada piscando diversas vezes os olhos cor de carmesim — e-eu tive um pesadelo horrível... Foxy saiu de sua atração... enquanto... nós nos apresentávamos... e ... — levou o olhar ao chão, não conseguiria encerrar a própria frase, mesmo se quisesse.
Os olhos obscuros da raposa invadiram sua mente subitamente, tomando seus pensamentos completamente, o incapacitando de raciocinar perfeitamente. O coelho passou a se encolher e estremecer ligeiramente, somente imaginar tais globos dourados preenchidos por tamanha escuridão, eram o suficiente para lhe fazerem sentir uma onda impiedosa de medo o invadir repentinamente.
– Bonnie — chamou de repente o urso engravatado, se ajoelhando ao lado de Chica, pousando uma das mãos sobre o ombro do amigo — me desculpe, mas... não foi um sonho — declarou pesadamente ao outro.
Os olhos de Bonnie se arregalaram de imediato, acompanhados de um par de pupilas que se dilataram praticamente ao mesmo tempo, enquanto o mesmo trancava a respiração, na tentativa de não permitir que as lágrimas escorressem por seu rosto novamente.
Abaixou o olhar em direção ao chão, naquele momento ele não poderia, mesmo se quisesse, olhar diretamente nos olhos dos dois animatrônicos a sua frente.
– E... Foxy! Onde está Foxy, Freddy? — perguntou de uma maneira um tanto desesperada, assim que se lembrara daquele ao qual se tratava praticamente do centro das atenções do acidente que ocorrera naquele dia, enquanto o coelho segurava os ombros do moreno com as duas mãos, quase chacoalhando o outro. Seus olhos tremeluzindo quando o mesmo imaginava o que poderiam ter feito a raposa.
Freddy quase se assustou com a reação do outro, achava que Chica seria a pessoa mais emotiva nessas situações, mas se enganou terrivelmente. Demorou alguns segundos para processar a pergunta do outro.
– Nós... ainda não fomos ver como ele está... — respondeu simplesmente à pergunta do outro, removendo lentamente e com certo receio, os pulsos do outro de cima de seus ombros.
– O QUE?! — a expressão no rosto do coelho se distorceu quase de imediato, transitando do temor e preocupação, para a raiva e desgosto. Rangeu os dentes, agarrando o colarinho do moreno.
– Me dê ao menos alguma justificativa pra isso! — bradou para o outro, exigindo que o mesmo lhe desse alguma explicação plausível para a possível negligência do urso perante a atual situação do pirata.
– Nós não achamos necessário Bonnie! A-ao menos... por enquanto! Veja bem! Ele pode querer... apenas... ficar sozinho por enquanto! — interviu Chica na situação, tentando justificar as ações, ou até mesmo a falta delas, dos dois ali presentes perante as circunstâncias — ele... sequer deve ter se reiniciado ainda! — falou por fim a loira, rezando internamente para que Bonnie a escutasse.
Bonnie apenas lhe dirigiu o olhar incrédulo, Chica poderia jurar que conseguiria enxergar de longe o desespero presente nos olhos daquele coelho.
– Vocês sequer sabem, se ele já se reiniciou?! — perguntou em fúria o arroxeado, quase se indignando com a situação, praticamente fora de si.
Não houve nenhuma resposta, na verdade, o único som aúdivel era o dos próprios relâmpagos, que naquele momento, permaneciam descontando sua fúria na súperficie terrestre, acompanhados das translúcidas gotas de chuva, que se desabavam em milhares sobre a região.
Levou o olhar ao chão, meditando sobre o que teria de fazer a seguir.
Freddy apenas obervava o comportamento do outro, não imaginava que o coelho reagiria daquela forma, talvez até se irritasse um pouco, mas a ídeia do guitarrista praticamente surtar não lhe ocorreu uma só vez a mente. Não moveu um único músculo enquanto Bonnie lhe segurava o colarinho.
– Vocês ao menos sabem aonde colocaram ele? — indagou a ambos, ainda sem lhes dirigir o olhar, tentando dessa vez não demonstrar a sua raiva, porém, com o pecado ainda um tanto evidente em seu tom de voz.
– Eu acho que eles o colocaram... — Chica inicou a frase, um tanto receosa.
– Na Pirate Cove — Freddy encerrou a fala da outra — eu... consegui ver antes de me desligarem — falou ao fim, com seu olhar se perdendo cada vez mais em qualquer outro ponto daquele salão que não fosse a galinha ou o coelho.
Sem dar quaisquer satisfações para os outros dois animatrônicos, Bonnie soltou o colarinho de Freddy, se levantando em seguida, caminhando em direção a Pirate Cove em passos um tanto vagarosos, pelo fato de seus sistemas ainda não terem estabelecido completamente todas as suas funções.
Ao passar ao lado de Chica, a mesma tentou interferir na situação, porém a menor não conseguia encontrar uma única abordagem para impedir o outro de prosseguir com o que quer que fosse que ele pretendia fazer, então a loira acabou apenas murmurando algo rapidamente, sendo repreendida por Freddy em seguida, que apenas girou a cabeça negativamente, ainda na mesma posição de quando pousou a mão sobre o ombro do amigo.
Mordeu o lábio inferior com força, não poderia fazer nada a não ser observar a cena que estava aos poucos, se formando diante dela.
Seu coração palpitava mais rapidamente a cada passo que era dado, seu olhar perdido entre as sombras, imponentes sobre a atração daquele que lhe provocava tantas sensações indistintas, e ao mesmo tempo indescritíveis.
De certa forma, ele temia pelo que poderia acabar vislumbrando quando cruzasse aquelas cortinas, porém não recuava nem por um só momento, tentando se manter ao máximo possível firme em sua decisão.
Ele não se importava se Foxy desejava ou não, a solidão para si naquele momento.
Ele não iria permitir que a raposa permanecesse só, depois do que ocorreu aquele dia.
Ele não iria o abandonar a própria sorte novamente.
Com certeza aquele havia sido o seu maior erro naquele dia.
E ele não iria cometê-lo mais uma vez.
Parou em frente a atração do outro, tentando reunir forças para o que teria de fazer em seguida. Engoliu em seco, elevando sua mão lentamente em direção a pequena fresta que havia entre o par de cortinas arroxeadas, enquanto estremecia internamente.
Não temia que o outro pudesse o machucar, mas sim pela situação a qual o pirata poderia se encontrar naquele momento.
E se ele tivesse se machucado?
Os guardas o teriam feito algum mal?
Como ele estava naquele momento?
Perguntas como aquelas eram as únicas que recebiam a sua devida atenção, qualquer assunto que não envolvesse a raposa naquele momento sempre parecia-lhe estranhamente vazio.
Poderiam lhe chamar de insensível naquele momento, pelo mesmo não se preocupar exclusivamente , com o garoto ao qual Foxy havia ferido tão brutalmente, ou chamarem-lhe de imprudente ou até mesmo inconsequente por se aproximar daquela criatura obscura depois do mesmo ter exibido tal ato de violência diante de tantas pessoas.
Mas, a verdade é que ele não se importava com nada daquilo naquele presente momento, tudo o que importava para si, parecia estar exclusivamente, e somente, concentrado naquela raposa.
Por que ele era o único a ocupar seus pensamentos?
Por que ele era o único a fazer-lhe se sentir daquela maneira?
Perguntas como aquelas o deixavam cada vez mais confuso e atordoado, perguntas tão simples, porém com respostas que poderiam ultrapassar a sua própria linha de raciocínio.
Apertou firmemente o tecido púrpura em mãos, pedindo a todos os deuses possíveis, para que ele encontrasse coragem o suficiente para enfrentar aquela situação. Respirou profundamente, enquanto dedilhava seus dedos rapidamente pelo tecido, admirando sem perceber, o brilho das estrelas que serviam como adornos naquelas cortinas.
Puxou o tecido arroxeado com apenas uma das mãos vagarosamente, buscando com o olhar, pela figura daquela raposa que sempre o fazia se sentir feliz, não importava qual situação fosse.
Mas, daquela vez ele temia, que talvez o outro não pudesse fazer o mesmo por ele.
Semicerrou os olhos com força, tentando em vão enxergar algo naquele cômodo negrume, apertando fortemente a cortina em mãos ao não conseguir visualizar nada além da penumbra, completamente predominante naquele pequeno espaço.
E ele permaneceu assim, até que se fez ouvir um trovão no exterior do local, o som do mesmo quase fazendo os ouvidos sénsiveis de Bonnie, agonizarem de dor.
Em seguida a aquele estrondo, veio a luz refletida de um relâmpago, penetrando o estabelecimento através das janelas, invadindo aquele local aonde a escuridão era soberana.
Incluindo a atração do pirata.
O olhar de Bonnie tremeluziu de imediato, e sua garganta doía de tão seca que se encontrava.
Estranhamente, aquele clarão havia iluminado por poucos segundos, especificamente a figura que o coelho procurava com tanto anseio naquele momento.
Suas pupilas se dilataram, e ele teve a sensação de que o ar lhe faltara naquele momento.
Não perdeu tempo, ao ter uma noção da localização do pirata, largou o tecido púrpura em mãos rapidamente, e correu em sua direção, sequer se importando se ele se encontrava, realmente preparado para a visão que teria logo em seguida.
Parou em frente ao outro, seus sistemas palpitavam rapidamente, e sua respiração era ofegante, não pela rápida corrida, mas sim pela ansiedade para poder verificar a atual situação do pirata.
Para poder ver a raposa de cabelos rubros novamente.
Se ajoelhou no chão, ficando da altura do outro, meditando sobre o que teria de fazer a seguir. Sua respiração martelando em seus ouvidos, sensíveis a qualquer movimentação, nunca sentira uma tremedeira tão grande quanto aquela que havia distribuída por todo o seu corpo naquele momento.
Chica, que não conseguira se conter tamanha a angústia que sentia, se aproximou da atração da raposa, espiando o que se passava ali dentro, com os olhos entre uma pequena brecha entre as cortinas, iluminando mesmo que parcialmente, os dois animatrônicos presentes naquele pequeno espaço.
Bonnie sequer se importou com aquilo, talvez nem mesmo tivesse reparado na fraca iluminação repentina, de tão inerte que estava, completamente preso a figura de Foxy, que se encontrava no momento, prostrado na parede se sua própria atração.
Freddy observava de longe as ações de Chica, que se mantinha na tentativa de espionar o que se passava com os seus dois amigos abatidos, enquanto o urso agora se encontrava sentado, encostado na parede do palco, próximo a onde Bonnie se localizava anteriormente, abraçado aos próprios joelhos.
Era uma situação um tanto incomum se tratando do moreno, já que ele dificilmente se abalava por qualquer coisa, até porque o ´´líder´´ era aquele que sempre consolava os outros, e que sempre deveria se manter firme em suas decisões, diante de qualquer ocorrência.
Pelo menos, foi isso o que ele sempre pensou.
Mas no final das contas, ele percebeu que aquele mesmo urso que sempre tentava sustentar aquela imagem de alguém forte, não era um ser totalmente inabalável.
Levou as duas mãos ao rosto, cobrindo-o quase completamente, enquanto se perguntava se aquela havia sido realmente, a decisão que um verdadeiro líder tomaria naquele tipo de situação.
Suspirou pesadamente.
Logo o cheiro de sangue alcançou o olfato de Bonnie, que espremeu os olhos ao sentir tal cheiro inebriar fortemente da região facial da raposa. Seu olhar cada vez mais melancólico.
A fraca iluminação não o permitia ver claramente a face do outro, com isso ele apoiou parte de seu peso sobre seu braço esquerdo, que buscava algum suporte no chão de madeira abaixo de si.
Se aproximou mais do outro, suas pernas ajoelhadas em meio as do pirata, e seu corpo rente ao inanimado tronco do ruivo.
Aproximou vagarosamente a mão que lhe restara do animatrônico a sua frente, buscando por sua face em meio a tamanha obscuridade.
Ao alcançar o rosto do outro, seus dedos se dedilharam lentamente pela bochecha do maior, o coelho logo sentindo algo marchar-lhe a mão rapidamente, porém o mesmo não se importou nem um pouco com aquilo, já sabendo muito bem do que se tratava aquele líquido rubro.
Em seguida levou a mão aos cabelos carmesim do outro, afagando os mesmos, enquanto tentava diminuir a dor que se fazia presente em seu peito.
O que ele estava fazendo?
Porque estava acariciando Foxy daquela maneira mesmo com o outro não estando acordado?
Queria tanto que o pirata estivesse ativado naquele momento, para ele poder simplesmente lhe confortar da maneira que realmente desejava.
Subiu mais os próprios dedos, chegando a base das orelhas da raposa, que eram praticamente da mesma coloração de seus cabelos.
Apalpou a ponta das orelhas do ruivo em movimentos circulares, quase como se ele fosse um gato pedindo por carinho.
– Foxy... — chamou pelo outro, na esperança de que o mesmo o escutasse.
Por que ele estava fazendo aquilo? Era bastante claro que o pirata não o ouviria em sua situação atual.
Porém, contra todas as probabilidades, o coelho pode ver rapidamente o outro realizar um movimento minúsculo no momento em que o arroxeado pronunciara seu nome, algo que poderia passar facilmente despercebido por alguém que não fosse atento aos detalhes mais minuciosos.
Não, com certeza o outro não estava se reativando novamente. Teria sido apenas um delírio de sua parte? Não duvidava dessa possibilidade, afinal, nada daquilo lhe parecia realmente real.
– F-Foxy... você pode me ouvir? — perguntou quase tropeçando nas próprias palavras, uma fraca chama de esperança nascendo em seu peito, será que o outro estava realmente se reanimando?
Rapidamente desceu as mãos novamente para o queixo do pirata, se aproximando cada vez mais do rosto do outro, quase sem perceber.
Não houve resposta, na verdade, ocorreu algo muito mais estranho do que aquilo. Bonnie sentiu aquele local ao qual segurava, sem sustentação alguma.
– O-o que? — perguntou, mais para si mesmo do que para qualquer outro alguém ali presente. Apurou ainda mais sua visão, na tentativa de enxergar melhor o que se passava com a raposa.
Não houve tempo para ele encontrar alguma explicação lógica para aquilo, mais uma vez os relâmpagos se fizeram presentes no exterior do restaurante, sua iluminação quase capaz de cegar, invadiu novamente aquele espaço, atravessando de maneira estranhamente precisa, a pequena fresta nas cortinas por onde Chica observava os dois animatrônicos humanoides prostrados naquela atração.
Atingindo curiosamente o rosto da raposa novamente.
Seus olhos se arregalaram de imediato, aquele grito agudo, nunca saindo de sua garganta, sua própria respiração implorando por arrego, e suas íris, refletindo escancaradamente, o seu próprio desespero.
Ao finalmente encontrar as próprias palavras, ainda assim, as pronunciou em tom praticamente não audível.
– Fo- Fo... Foxy... sua... boca...
Sim.
Ela estava... quebrada.
Um tanto semelhante ao seu próprio estado de espírito.
Chica levou as duas mãos a própria boca, dando em seguida dois passos para trás, se afastando rapidamente da atração daquele pirata, e largando a mercê do vento, as cortinas do mesmo.
Seus olhos, preenchidos somente pelo espanto... e... pelo temor.
Freddy notou rapidamente o movimento repentino e brusco da outra, se preocupando em seguida com o comportamento que ela exibiu a partir dali.
Sentiu uma estranha sensação invadir todo o seu corpo, quando chamou pela outra.
– Chica? — perguntou, se preocupando com o que a outra poderia ter visto.
Se virou imediatamente para o urso ao ter o seu nome pronunciado pelo mesmo, tendo um reflexo um tanto duvidoso.
Fitou o moreno de maneira fixa durante alguns poucos segundos, as lágrimas rapidamente irrompendo de seus olhos púrpuras, enquanto seu corpo estremecia de maneira impiedosa.
–Chica... — falou em tom de murmúrio, o que mais poderia ocorrer para a loira reagir daquela forma tão preocupante?
Fez menção de se levantar, porém antes mesmo que tivesse sequer a chance de se mover, a outra já havia corrido na direção oposta à dele, mais especificamente para o corredor leste, de preferência para o mais longe possível daquele local aonde parecia que a atmosfera de desespero desgraça e temor, envolvia a todo e qualquer um que ali cruzasse o caminho.
– Chica! — chamou pela outra, se levantando rapidamente do pequeno espaço ao qual se encontrava, e em seguida descendo a passos rápidos do mesmo.
Aquele mesmo local no qual eles já haviam tido momentos tão.. felizes, e que agora para a infelicidade dos mesmos, havia sido brutalmente profanado por lembranças, e acontecimentos dolorosos demais para serem sequer mencionados.
Estranhamente, ao passar em frente a Pirate Cove, dirigiu seu olhar de soslaio para o mesmo rapidamente, não contendo o reflexo involuntário de curiosidade que teve naquele momento, porém não conseguira enxergar nada muito além da silhueta de Bonnie e Foxy, dentro daquele espaço.
Seu olhar cada vez mais entristecido, finalmente cedeu as lágrimas, afinal, não havia ninguém para observar a sua fraqueza naquele momento.
Poderia simplesmente, expor os seus próprios sentimentos.
E assim foi a procura de Chica, rezando interiormente para que a mesma não tenha vislumbrado uma cena, um tanto traumatizante, a qual ele sabia muito bem do que se tratava.
Afinal, o moreno sabia muito bem que as condições da mandíbula do pirata não eram as melhores.
Mas realmente, o urso preferiu, pelo menos naquele momento, não contar isso a ninguém.
Fora o último a ser desligado, e também o único daqueles animatrônicos, que presenciara o momento em que um dos guardas da segurança abriu a boca da raposa além do permitido, fazendo sua mandíbula quase se partir em dois, apenas para procurar restos mortais da pequena criança, dentro do ruivo.
O moreno ficara realmente espantado com a cena, e seu peito chegara até mesmo a doer diante de tal ato expresso por um daqueles funcionários.
Eles haviam machucado aquele ao qual o moreno sempre considerara como irmão.
Aquilo não merecia perdão.
Poderia até mesmo parecer injustiça de sua parte considerar Foxy simplesmente uma vítima, perante os atos que o mesmo realizara aquele dia.
Mas, para ele, a verdade era que nem mesmo Foxy se tratava do real culpado do acidente que ocorreu naquele dia.
Não, aquela criança também não era a culpada, afinal, ela apenas estava tentando ajudar a raposa no momento em que fora ferida daquela maneira pelo mesmo.
Freddy sabia muito bem, que o culpado de tudo aquilo sequer era alguém ou alguma coisa realmente física, ou até mesmo apalpável.
E aquela escuridão, presente nos olhos do pirata no momento em que ele desferira aquela mordida naquela pequena criança, eram a maior prova que ele possuía disso.
Talvez isso estivesse até mesmo além de sua própria compreensão.
Por isso era compreensível, que ele simplesmente deixasse Bonnie lidar com a raposa, afinal, eles sempre pareciam ter uma conexão e entendimento bem maior e melhor um com o outro do que com qualquer um dos outros animatrônicos.
Aquilo era o certo a se fazer.
Correto.....?
Poderia parecer egoísta de sua parte, entregar toda a responsabilidade de interpretar os conflitos da raposa à Bonnie. Mas, isso havia acontecido na realidade, porque ele sabia muito bem que não poderia fazer muito pelo pirata naquele momento, ele com certeza se encontrava muito abatido, e o moreno não saberia como administrar a situação do outro, talvez até mesmo a piorasse em algum caso mais grave.
Irônico não? Ele, que era considerado o líder daquele grupo, não conseguia tomar sequer uma decisão sábia, ou até mesmo reunir forças o suficiente para encarar de frente aquela situação.
Ele havia colocado todo o peso nas costas de Bonnie, sem sequer pensar se o coelho realmente suportava toda aquela carga.
Que tipo de líder ele era? Não... que tipo de irmão ele era?
E foi com esses pensamentos, que ele permaneceu durante praticamente toda a noite, enquanto buscava pela única garota da família, em meio a aqueles corredores tenebrosos, preenchidos somente pela sua própria respiração descompassada, e pelo som dos trovões e gotas de chuvas atingindo o solo com considerável força, no exterior do local.
´´Por favor, eu só queria... que tudo voltasse... a ser como era antes... antes de toda essa tragédia.´´
– Isso não está acontecendo... não... não está — o coelho tentava se convencer de que tudo aquilo se tratava simplesmente de um pesadelo, iludindo a si mesmo na tentativa de se acalmar.
Aquilo não poderia ser real, afinal.
Agora, permanecia com o olhar fixo no outro, estranhamente, dessa vez enxergando com clareza, o enorme estrago que haviam feito na madíbula da raposa a sua frente.
Porém aquilo não durou muito tempo, já que sua visão se tornava cada vez mais embaçada e distorcida, graças as lágrimas translúcidas que irrompiam de seus olhos carmesim, em grande quantidade, já que o arroxeado sequer tentava interromper o trajeto que as mesmas realizavam ao deslizar por seu rosto pálido.
Parecia que até mesmo o seu corpo se negava a acreditar em tudo aquilo.
Parecia que ele se encontrava em meio a um verdadeiro terremoto arrebatador, tamanha era a tremedeira que se fazia presente em todo o seu ser.
Quase Involuntariamente, ele permanecia segurando o rosto do pirata em uma das mãos, na esperança de que sua visão o estivesse enganando ou algo do tipo.
Mordeu o lábio inferior com força, seus soluços se tornando a única coisa a qual ele realmente encontrou ao buscar as próprias palavras, em uma tentativa que se mostrou praticamente inútil naquele momento.
Sentindo as forças o abandonarem, desceu os dois punhos até a camiseta rasgada do ruivo, segurando-as com firmeza, quase rasgando o tecido fino no processo.
Deixou sua cabeça também se render a situação, abaixando o mesmo até praticamente a mesma altura em que suas mãos se encontravam, seu olhar sendo encoberto por parte de seus cabelos roxos, enquanto direcionava suas íris para o chão.
Suas lágrimas agora desabavam sobre o outro, enquanto ele encostava o topo de sua cabeça no peito do pirata, que ainda permanecia desativado. Sua pelugem arroxeada roçando na camiseta da raposa.
Tentava encontrar algum refúgio, ou até mesmo algum aconchego, no pirata, mesmo com o outro ainda desativado.
– Me... desculpe, Foxy..... eu.... eu — a altura de suas palavras parecia diminuir a cada segundo que se passava, e os soluços e lamúrias que as acompanhavam inevitavelmente, não ajudavam em nada a situação — eu... e-eu não sei se você pode me ouvir... mas... por favor, me perdoe por deixar i-isso acontecer com você... — pedia em súplica, possuindo a convicção de que a culpa de tudo aquilo ter acontecido pertencia a si, e somente a si.
– Eu... eu prometo, não... eu juro... eu vou te consertar e te tirar dessa situação, não me importa quanto tempo isso leve... não me importa — dizia ao outro, ainda com a fraca esperança de que o mesmo acordasse, e pudesse ouvir todas aquelas promessas que ele jurava diante dele.
Para ao menos saber, que tudo aquilo não havia sido em vão.
– Eu prometo, eu... eu nunca mais vou te abandonar..... nunca.... guarde essas palavras... por favor.... — se pronunciava diante da raposa, sem a coragem de vislumbrar o seu rosto novamente.
Aquilo, doía demais para si.
Nada, nem o mais mínimo movimento.... nada para ele criar alguma expectativa.
O seu próprio desespero se intensificou de imediato, o seu ser não suportava mais toda aquela situação.
Ele apenas queria que simplesmente, tudo voltasse a ser como era antes.
Isso era pedir demais?
Mas, mais uma vez a vida não respondia ao seus chamados, não respondia ao seu desespero e insistia em somente brincar consigo, como se ele fosse apenas um brinquedo qualquer.
Estranhamente semelhante, a uma marionete.
O ritmo de suas lágrimas se intensificavam de minuto em minuto, manchando aos poucos as roupas do pirata a sua frente. Suas mãos, pareciam mais necessitadas a cada segundo que se passava de contato com a raposa.
– Vai... ficar... tudo bem — tentava convencer a si mesmo, apesar de saber muito bem que se iludir não melhoraria a situação, somente o colocaria cada vez mais próximo da insanidade.
– Vai ficar tudo bem... tudo bem — desistira de tentar outra abordagem para acordar o outro, então ele simplesmente cedeu as súplicas de todo o seu corpo, e tornou o contato entre ambos maior, abraçando a raposa a sua frente por debaixo de seus braços com força, quase cravando as unhas em suas costas, descansando sua cabeça e tronco com pesar sobre o peito do outro, e dobrando em seguida suas pernas em meio as do pirata.
Suas lágrimas com certeza não cessariam tão cedo.
– Por favor.. fique bem... Foxy... — foram as últimas palavras que o coelho conseguiu pronunciar naquele dia, somente depois de um longo tempo conseguindo finalmente relaxar os próprios músculos e dormir naquela posição em que se encontrava mesmo.
Não iria permitir, que Foxy permanecesse sozinho aquela noite.
Seu olhar tremeluzindo de temor, preocupação e desespero, finalmente se rendeu ao cansaço e encerrou-se ali, pela última vez naquele dia, enquanto o coelho tentava imaginar como seria sua vida dali pra frente, se aquele ao qual ele tanto necessitava sem sequer ter o conhecimento, nunca mais pudesse voltar a vida.
Porém, o que ele não soube naquele momento, foi que suas palavras podiam não ter interferido em praticamente nada no lado exterior da raposa, mas, com certeza não se podia dizer o mesmo, de seu subconsciente.
Afinal de contas, qual é a verdadeira diferença entre sonhos, e pesadelos?
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