Através das barreiras do tempo
28 Amizade Perigosa.
Amizade Perigosa.
Faltava pouquíssimos dias para completar doze anos de idade, segunda metade do mês de junho, domingo, dia 21, duas horas da tarde, junto com o maninho Regis, passava sem destino pelo terreno no qual estava cravado o grande cruzeiro que se iluminava durante as noites e percebi, estando a rua toda deserta, a casa do senhor Décio lotada de gente, principalmente crianças na varanda.
Como onde têm crianças se pode entrar mais crianças, chegamos devagar e percebemos a televisão ligada em futebol. Foi aí que percebi o motivo da rua estar deserta: Brasil e Itália disputavam a final da copa do mundo de futebol de 1970 no estádio Azteca, cidade de Guadalajara, no México.
Mesmo sem ser convidado, nos acomodamos entre as dezenas de crianças e passamos a assistir, Pelé, tostão, Rivelino, Brito, o goleiro Félix, Carlos Alberto, Clodoaldo, Jairzinho, Everaldo, Piazza e o capitão Gerson, equipe que foram desacreditadas para esse campeonato, enfrentando a difícil Itália; sendo comandados por um carrancudo juiz alemão por nome Rudolf Gloöckner.
— Gosta de futebol, maninho? – especulei.
— Não sei! – balançou os ombros, ele. – Nunca vi isso!
— Quer que eu prove pra você de uma vez por todas que não sou um impostor?
— Como assim? – Não entendeu.
— Eu sei o resultado desta partida de futebol.
— Como assim?
— Deixa de ser desligado! Estou dizendo que sei quem vencerá este jogo! Quem ganhará a copa.
— O que importa?
— Você é mesmo ingênuo. Observe aquele homem negro com a camisa dez.
— Marcará o primeiro gol, logo depois dos vinte minutos.
Não deu outra, aos vinte e dois primeiros minutos, Pelé fez a rede balançar primeiro, colocando o Brasil em vantagem.
— Nem adianta comemorar muito, a Itália vai empatar daqui a pouquinho.
De fato a alegria não durou muito: alguns minutos depois, um tal de Boninsegna tornou a deixar tudo igual, permanecendo assim até o final do primeiro tempo.
— O Pelé vai marcar um gol que será anulado.
— Chega, cara – reclamou o maninho. –- Já sei que você sabe tudo. Diga logo quem vencerá este jogo?
— Não vou falar mais, senão perde a graça.
Aos quarenta e cinco minutos, Pelé marcara o segundo, porém o tal juiz carrancudo anulou, alegando já ter apitado o final.
Somente depois de mais vinte minutos do segundo tempo, Gerson colocava novamente o Brasil em vantagens e… trinta e tantos minutos, Jairzinho fez a rede balançar novamente. Agora o Brasil estava praticamente garantido; então… aos quarenta minutos, a coisa ficou… melhor, com Carlos Alberto levando nossos canarinhos e a torcida ao delírio, ao completar os quatro a um.
A televisão anunciava então: “traz outro caneco que esse já é nosso”. De fato, o Brasil conquistava o tricampeonato de futebol do mundo, trazendo em definitivo para nós, a taça Jules Rimet, que fora entregue às mãos do capitão Carlos Alberto.
Já na primeira época e confirmando então, a imagem que mais marcou a meus olhinhos de quase criança, foi a linda defesa de nosso goleiro Félix, que conseguiu saltar por cima de um jogador adversário (não vou citar nome de jogadores italianos, pois não sei nenhum, a não ser o tal de Boi Sega).
Ao final da partida, acompanhado por Regis, saí de fininho e ao retornar para casa encontramos nossa quase vizinha, dona Benedita (avó de nossos amigos de brincadeiras noturnas, Lourival, Leila, Vera…) que corria igual louca pela rua, abraçando mamãe, dizendo:
— Dona Maria! A senhora é brasileira?
Foi a primeira vez que assisti a uma partida de futebol de copa do mundo na vida (e mesmo outros, só ouvira pelo rádio) e como bom brasileiro, gostei; então passaria a assistir todas as demais, pelos próximos séculos.
Aproveitando a algazarra da vitória da seleção brasileira, todos soltavam fogos e nós crianças, como ainda tínhamos algumas bombinhas número cem, que talvez sobrara das comemorações de Santo Antônio, a poucos dias, que papai realizava todos os anos, aproveitamos a oportunidade para soltá-las junto com os adultos que soltavam rojões. A diferença era que nós usávamos latinhas de leite em pó ou massa de tomate vazia e colocávamos a bomba acesa embaixo; quando acontecia a explosão, a lata voava longe, com o fundo estufado para cima e muitas vezes até arrancado.
Como nosso cachorrinho preto Bilú estava viciado em apanhar objetos, devido ao treino recebido com uma famosa hélice de lata, invenção do irmão José, acabamos por ignorar esse perigo, acendendo uma bomba sob a lata e saindo correndo. Bilú também correu; porém em sentido da bomba.
Não adiantou gritarmos para sair dali. O animalzinho curioso, imaginando a mesma brincadeira de sempre, tentou apanhar a lata com a boca e como a bomba não era igual às de desenho animado, que demora em explodir, sua explosão foi rápida… a tragédia estava feita: Bilú, pobrezinho, teve muitos ferimentos nas patas e boca. Saiu gritando desesperado e nós, apoiado por mamãe e papai, corremos em seu socorro.
Mamãe providenciou mercúrio e curativos para cuidar dos ferimentos provocados pelos estilhaços da bomba; mas além dos externos, ouve ferimento dos ouvidos, provocado pelo estrondo da bomba, fazendo com isso com que o pobre animal, se sentindo muito ruim, permanecendo sempre deitado no banheiro.
Interessante que quem colocou a bomba sob a lata e ascendeu o pavio e quem viciou Bilú a apanhar objetos foi o irmão José; mesmo assim eu me sentia culpado pelo ocorrido. Tudo bem que eu estivesse junto; era conivente com tal tragédia.
— Você não disse que sabe tudo do futuro? — alegou meu irmão José. — Por que não disse que aconteceria isso com Bilú?
— Desculpe — pedi tão triste quanto a ele. — Não consigo alterar nada daquilo que está escrito.
— Não consegue porque você é só um farsante, como diz o Regis! Se fosse verdade teria me falado e eu não teria ascendido a bomba. Ou teria segurado o Bilú.
— Desculpe – pedi com lágrimas. – Devido ao longo tempo que fazia, eu me esquecera deste fato. Ele vai morrer.
O animalzinho, devido seu sofrimento, acabou ficando muito furioso e como criança é boba, tentando acariciá-lo, Rafael, José e Regis, acabaram sendo mordidos pelo enraivecido animal que, em poucos dias, não tendo solução acabou mesmo morrendo de tanta raiva, provocada pelo forte estampido da bomba junto a seu sensível ouvido.
Preocupado com o ocorrido, papai levou os filhos mordidos a um médico do centro de saúde, que receitou nove injeções para cada um, a ser aplicada em volta do umbigo. Com isto, todas as tardes, meus maninhos iam juntos à farmácia São Paulo, do senhor Otacílio, que os furava com prazer.
O conselho era: ou toma injeção no umbigo, ou fica louco igual a Bilú.
É®Ê
Estávamos então na melhor época do ano para se trabalhar na fábrica de garrafas. Não bem para quem trabalhava no mesmo setor em que eu. Mês de Julho, inverno. O inferno da fábrica se tornava mais ameno e nós, quando tínhamos nossos momentos de folga corríamos para tal lugar quentinho.
Nosso setor era aberto e muito ventilado na época do verão, porém, sofríamos todo o vento gelado do inverno rigoroso que sempre fazia em nossa cidade do interior de São Paulo. Ou seja: nosso privilégio em estar em um dos melhores locais da fábrica, para se trabalhar no período do verão, agora no inverno se invertia, sendo um dos piores.
Pior ainda, estando trabalhando no período da manhã, que teríamos que acordar as quatro horas da madrugada, onde teria mesmo que criar coragem para tal sacrilégio, senão não saia da cama.
O senhor Pedro que era feliz em só trabalhar no período da tarde.
Ainda bem que o inverno se limita a apenas três meses no ano.
Em casa eu sempre era o primeiro depois de mamãe a me levantar, depois era o José, para seu terrível trabalho de oleiro e como o maninho Regis se encolhia todo na cama, revidando em permanecer por lá, eu, ao me levantar, puxei seu cobertor, descobrindo-o todo.
— Filho da pu… — gritou ele, engolindo a última palavra com medo da cinta de mamãe e tentando reencontrar o cobertor que já fora parar em outra cama.
— Xinga mesmo, pra ver se mamãe não te esquenta logo cedo com algumas varadas nas pernas — ironizei.
— Nunca mais faça isso, seu safado!
— Chega de manha, meu! Levante logo que a hora não espera.
Na cozinha onde mamãe já estava com o fogo aceso preparando o café, lhe pedi:
— Mamãe, nessa época de frio a senhora não precisa levantar cedo. Deixe que a gente se vira sozinho.
— Acha! Como irão para o trabalho sem beber café?
— Deixa que eu mesmo faço o café.
— Se fosse assim você teria que acordar ainda mais cedo. Eu faço o café depois volto pra cama.
— Nem precisa bater no Regis por ele ter me xingado — pedi com certo sorriso, ao ver o maninho entrando na cozinha com a maior cara de preguiça. — Eu sou culpado, por ter puxado a coberta dele.
— Foi isso mesmo, mãe! — alegou o maninho. — É melhor que a senhora de umas cintadas nele.
— Bem que seria bom pra esquentar a bunda, não! — ironizou mamãe. — Dos dois.
— Esse safado não poderia apenas ter me chamado?
É®Ê
Já no trabalho, logo nos primeiros minutos da madrugada, Juvenal, gracejando, falou para Regis:
— É verdade que você tá transando com o Rony?
— O quê?! — protestou o maninho, enquanto eu fiquei apavorado. — Eeeeh!
— Os meninos estão falando que você tá saindo com Rony todos os dias!
— Sou homem, owh!
— Claro! — riu o Juvenal. — E tá fazendo dele sua mulherzinha! Sabia que quem transa com viado também vira viado?
Será que ele, não atendendo meus conselhos continuava indo à casa de tal menino mais velho?
Como crianças e adolescentes têm muitos assuntos, em poucos segundos aquela conversa chata se encerrou, me deixando assustado, permanecendo o tempo todo olhando para Regis, que sempre desviava seu olhar, evitando-me.
Por volta das seis horas da manhã, minha turminha de trabalho conseguiu sua primeira folga diária.
Regis foi o primeiro a fugir dali, ou…
— Regis, espere aqui! — intimei-o. — Quero falar com você!
— Vou descer na fábrica! — deu de ombros.
— Primeiro você vai me esperar pra gente conversar.
— Não vou mesmo! Estou morrendo de frio.
E me desobedecendo fugiu quase correndo, se aquecer pelos corredores da área de produção.
Menos de cinco minutos depois, também conseguindo minha folga, segui a seu encontro, que estava sentado a uma muretinha, junto a outros dois garotos.
Puxei-o pelo braço, pedindo:
— Venha comigo que temos o que conversar.
— Estou com frio — protestou ele.
— Se você quiser, te levo até dentro do forno pra não sentir frio, mas você falará comigo agora!
— Você não manda em mim!
— Mando tanto, que se você não me obedecer, te darei um monte de cintadas no lugar da mamãe.
Arrastei-o para próximo aos chuveiros, onde fiquei olhando-o em silêncio.
Ele permanecia de olhos baixos.
— E aí? O que tem pra falar? — especulei-o.
— É você que quer falar comigo! — deu de ombros.
— Sobre?
— Eu é que vou saber!
— Será?
— Você que me arrastou pra cá!
— Regis!…
Ele permaneceu de cabeça baixa.
— Eu não acredito que depois de eu ter recomendado tanto, você continua indo na casa de Ronival!
— Não vou mais! — negou ele.
— Não vai mais como? A pergunta minha é, você continua indo?
— Já disse que eu não vou mais! Chega de me atazanar!
— Vou atazanar sim senhor! — quase dei um tapa na cara dele, mas me contive. — Vou fazer você cuidar na marra desse seu corpo aí, pra esse meu corpo aqui não pagar consequências.
— Não tenho nada a ver com seu corpo!
— Eu pedi tanto pra você não ir na casa daquele moleque e você continua indo!
— Já disse que não vou mais! — gritou o maninho. — Ele pensa que é meu dono!
— Aí é que está, cara! Foi por isso que eu pedi tanto pra que não fosse mais lá! Você vai lá como amigo dele, mas ele te quer como… namorado!
— Credo! Já disse que sou homem!
— E é o que ele te quer! Homem! Maninho, existe homem que gosta de mulher! Mulher que gosta de homem! Mas também existe mulher que gosta de mulher e homem que gosta de homem! Ele se apaixonou por você, cara! Eu sabia que isso ia acontecer! Por isso eu lhe pedi tanto! O que eu vim fazer aqui não deu nada certo!
— O que você veio fazer aqui?
— Proteger você pra salvar meu futuro.
— Eu me protejo sozinho! — protestou o maninho. — Não volto mais na casa de Rony!
— Não! Agora você não pode mais fazer isso! Você terá que continuar indo e convencê-lo que não quer ele como namorado.
— Eu não! Não vou nunca mais! Já disse que ele pensa que é meu dono!
— Se você não voltar lá, acontecerá uma desgraça!
— Vire essa boca suja pra lá, meu! Se você pensa que eu transei com Rony, saiba que não!
— Eu sei que não! Te conheço melhor do que você se conhece! Mas os outros meninos pensam que sim!
— Que se dane os outros meninos! Não devo nada pra eles! Vou pro trabalho que já passou da hora.
O acompanhei ao longe de volta ao nosso setor.
Não se passou nem dez minutos e Fabrício, apesar do frio que os afastava dali, chegou abraçando o maninho, beliscando forte seu peito, caçoando:
— É verdade meu frangotinho, que você tá me traindo com outro mais jovem?
O maninho forçou-se para escapar do cara, sem, contudo conseguir:
— Deixa meu irmão em paz, cara! — gritei nervoso. — Pare com essas brincadeiras idiotas!
— Se esse frangotinho aqui me trocar por outro, eu corto o saco dele! E capo você também, se me trocar por outro.
— Você tinha que ir pra cadeia, por mexer com crianças, isso sim! Cresce cara! Deixa de ser moleque.
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