Através das barreiras do tempo
29 Aconteceu
— Você tinha que ir pra cadeia, por mexer com crianças, isso sim! Cresce cara! Deixa de ser moleque.
Aconteceu.
Na manhã seguinte, Percival passou por Regis, dando-lhe um recado:
— O Rony pediu pra você ir lá em casa hoje à tarde.
Assim que o homem se afastou, o maninho resmungou para que eu ouvisse:
— Não vou nunca mais.
Na quinta-feira ele tornou a se aproximar do maninho, especulando:
— O Rony fez alguma coisa pra você?
— Não! — deu de ombros o menino.
— É que você não tem ido mais lá! E ele quer que você vá! Quer conversar contigo.
— Não posso ir lá! Tenho que ajudar minha mãe em casa.
Assim que o homem voltou ao seu setor, fui até ele, puxando assunto:
— Percival, espero que não me leve a mal. Precisamos conversar.
— De homem pra homem! — brincou ele, por eu dizer, precisamos conversar.
— Acho que o senhor tenha razão. De homem pra homem!
— Não vai pedir minha filha em namoro, vai?
— Nem a conheço! Mas precisamos falar sobre nossos filhos. Quer dizer… seu filho e meu irmão.
— O que há com eles?
— O senhor conhece o filho do senhor?
— Claro! Como não!?
— O que ele é? Do que ele gosta? O que ele faz?
— Fica o dia todo preso do quarto. Adora ouvir músicas e ler. Só tem um amigo… seu irmão!
— Que ele quer mais do que um amigo.
— O quê?
— Eles ficam o tempo todo trancado no quarto. Não sei se reparou isso.
— De fato eles ficam! Ouvindo música.
— Ouvindo música pode acontecer outras coisas!
— O que você quer insinuar?
— Meu irmão é inocente e tem seu filho como um amigo, parceiro de leitura ou conversa fiada. Aliás, seu filho não gosta de conversa fiada. Ele já é… adolescente. Ele vê meu irmão com outros olhos.
— O quê?
— Namorado. Sem ofensa, mas seu filho é homossexual! Meu irmão nem sabe direito o que é essas coisas. Não quer mais ir ver ele.
— Eu acredito em você! O Rony é mesmo bicha! Sempre teve jeito disso. Acho que a culpa foi nossa mesmo.
— Está na hora do senhor dar apoio pra ele. Regis não irá mais à sua casa. Embora sempre foi muito querido por sua família, ele prefere assim. Ainda é muito criança para o amor, só que, quando chegar a hora dele, vai preferir garotas.
—Nós mesmos gostamos da presença de seu irmão em nossa casa. Ele é um menino carismático. Que apoio eu vou dar pro Roni?
— Não sei! Mas ele precisa, pois essa paixão doentia poderá trazer consequências drásticas… pra ele.
— Consequências drásticas! — ironizou o homem. — Falta de cinta quando era crianças! Isso sim que foi tais consequências.
— Pode ser que tenha sido mesmo falta de cinta. Agora imagino que seja tarde pra isso.
— É!
— O seu filho era o caçula da casa, único menino, paparicado por duas irmãs, a mãe e o pai coruja; cresceu assim em ambiente que distorceu suas, que seria futuras opções sexuais. Portanto, a culpa dele gostar de meninos ao invés de garotas, é da própria família.
— Você não se acha muito pequeno pra falar essas coisas comigo? Querer me dar conselhos…
— Sim! Me acho mesmo! Mas tenho razão naquilo que falo. Talvez eu nem seja só uma criança.
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Acreditando que o pai de Rony não fosse fazer nada em prol do filho, naquela mesma tarde, antes mesmo dele ter encerrado seu dia profissional (seu horário de trabalho era das sete até as dezesseis horas e trinta minutos), bati palmas em seu portão, sendo recebido por uma jovem morena, de seus vinte anos de idade.
— Regis! — admirou-se ela. — Que bom que veio! Entre! O Rony está em seu quarto.
Levou-me consigo, passando pela mãe que estava na copa, que também me cumprimentou com carinho:
— Que legal Regis que você veio! A gente estava com saudades!
— Obrigado pelo carinho que tem por… Regis.
A irmã bateu na porta do quarto, que foi aberta quase que imediatamente.
O rapaz de seus quatorze anos de idade, respirou com certo alívio, me segurou pela mão direita, me arrastando para dentro e fechando a porta, inclusive com chave, me fazendo sentar-se em sua cama, o qual sentou-se encostado à mim, que forcei para me afastar um pouco; colocou a mão em minha perna que ainda vestia calça curta, depois, me olhando direito insinuou meio surpreso:
— Você não é o Regis!
— Não! — Evitei sua mão sobre minha perna. — Sou Arthur! Irmão dele!
— Igualzinho a ele. Quase me tapeia.
— Não vim com essa intenção.
— E o que você veio fazer? Cadê o Regis?
— Vim exatamente falar sobre ele. Vim pra lhe dizer que ele não virá mais aqui.
— Por quê? — sentiu lágrimas tal rapaz. — O que fiz de mal pra ele?
— Fez ele descobrir… que você está apaixonado por ele.
— Mas… isso é ser mal? Eu gosto dele! Quero ele ao meu lado.
— Ele só tem doze anos de idade! É uma criança.
— Claro que eu sei!
— O que você está sentindo por ele, ele nem sabe o que significa. Tinha em você, apenas um dos melhores amigos. Nunca te olhava com olhos diferentes.
— Eu nunca fiz nada de diferente com ele. Apesar de gostar dele, estava tentando fazê-lo entender aos poucos.
— Não adianta. Hoje ele é só uma criança. Nem pensa em amor ou namorar. Daqui a pouco, quando chegar a hora do coração dele se apaixonar, ele vai preferir um amor hétero.
— O que é isso?
— Ele vai se apaixonar por uma garota.
O rapaz abaixou os olhos e estava deveras chorando, ao qual me pediu:
— Me desculpe.
— Não tenho que desculpar você em nada. Aliás, você também é muito jovem para pensar em coisas assim. Se eu conseguisse lhe dar conselho, lhe diria, experimente arranjar pessoas do sexo feminino para passear e cultivar amizades, quem sabe seu coração se apaixonaria por uma delas. Mas sei que não é bem assim. Com quatorze anos sua mente já está praticamente formada e sabe de suas preferências sexuais. Eu não tenho nada contra. Meu irmão gosta de você… como amigo. Acho que o melhor amigo da vida dele. Já te disse isso a poucos minutos.
— Fala pra ele vir conversar comigo.
— Acho que ele não virá.
— Por quê? Não vou relar as mãos no corpo dele. Nunca fiz isso!
— Eu acredito.
— Você acha errado eu gostar dele? — ainda sentia lágrimas.
— Dele, eu acho! — fui incisivo. — Não que eu ache errado você gostar de homem! Embora você queria ser padre e os caminhos de Deus condene sua preferência…
— Deus não condena nada! — protestou ele bravo. — As pessoas condena e alegam ser Deus.
— Não vim aqui para discutir isso com você! Não tenho argumentos. Tenho só doze anos de idade. Dizem que Deus criou o homem e a mulher para se unirem e se tornarem apenas um e o relacionamento sexual, como algo sagrado para a proliferação das espécies. Homem com homem não gera filhos.
— Você tem doze anos e é irmão gêmeo de Regis? Como aprendeu a falar coisas esquisitas? Ele é tão puro. Tão ingênuo.
— Ou seja… sou diferente dele! Por mim você jamais se apaixonaria.
— Não disse isso! — riu ele. — Se eu tivesse conhecido você ao invés dele. Se a gente tivesse criado amizade, provavelmente eu sentiria por você o que hoje sinto por ele. O amor é criado a partir do relacionamento. Um homem, por exemplo, não casa com uma mulher porque a ama, casa por uma paixão, o amor vem com o conviver.
— Ouça, o Regis não voltará mais aqui. Você jamais o verá novamente. Por favor, não sofra por ele. Não vale a pena. Ele é só um menino pequeno e a única coisa que ele gosta mesmo, é de jogar bola.
— Gosta também de ler – riu o rapaz.
— É! Como não será padre, deverá ser escritor.
— Diga pra ele voltar aqui apenas mais uma vez. Apenas pra dizer tchau.
— Ele não virá! — fui cruel, mas era real. — Não sou eu quem não quero. Sou igual a ele. Diga tchau pra mim e é a mesma coisa.
— Não é a mesma coisa!
— Eu sei que vou sair daqui e você vai se desesperar nessa cama e vai pensar milhões de asneiras. Pensará em cravar um punhal no peito de meu irmão. Pensará em se pendurar em uma corda pra ele sofrer se sentindo culpado.
— Uhm! — estranhou ele.
— Eu sei coisas, garoto! Digamos que sou uma espécie de clarividente. Você ainda nem pensou nisso que estou falando. E eu não estou sugerindo, estou apenas prevendo. Por favor, nunca faça o que sua mente em estado doentio, por um amor ainda mais doentio almejar leva-lo a fazer. Antes de qualquer coisa, pense na vida bela que terás para a frente.
— Não vou fazer o que está insinuando! — negou ele revoltado. — Acha que almejaria matar o menino que eu gosto? Acha que me suicidaria?
— Se o amor será impossível em sua vida, siga os caminhos do sacerdócio que almejava ser. Pelo menos será de grande ajuda para a humanidade. E você pode! Está prestes aos quinze anos. Continua estudando…
— Diga ao Regis que eu serei padre.
— Tomara — não acreditei muito na sua promessa.
É®Ê
Antes das nove horas da manhã seguinte, um homem chegou às pressas na fábrica de garrafas, procurando o senhor Percival, para que ele fosse correndo à sua casa, pois seu filho Ronival teria pulado em uma corda, tentando suicídio.
O maninho Regis se desesperou. Não por ter amor pelo rapaz, mas por se sentir culpado por tal atitude.
Eu o abracei, saindo de perto dos colegas de trabalho, para evitar comentários do tipo… sarcasmo.
— Não te condenes, maninho. Você não é obrigado a se enamorar de um homem, se seu coração prefere uma garota. Tentei explicar isso a ele.
— Você tentou? — estranhou Regis, evitando meu abraço fraternal. — Como?
— Estive com ele ontem à tarde!
— Por quê?
— Tentar evitar coisas drásticas.
— Então… agora você se sente culpado dele ter feito isso!
— Não! — fui convicto. — Eu tentei evitar! Eu já sabia o que aconteceria. Esse é o meu objetivo de estar aqui. Já lhe falei várias vezes. Mas não consigo nada. Não consigo alterar o destino que de alguma forma está escrito.
— Você sabe mesmo tudo o que vai acontecer?
— Sei! Eu sabia mesmo do acidente sobre nosso cachorrinho Bilú. Embora no entusiasmo das brincadeiras eu tenha esquecido. Sabia também que você seria mordido por ele.
— E não fez nada?!
— Não consigo. Eu sabia da morte do vovô Alfredo — embora eu não tenha relatado, vovô faleceu a quase dois anos. — Sabe o Caíque?
— Da olaria?
— Ele morrerá muito novo. No dia do aniversário dele.
— Como assim? O tio dele fará algo terrível com ele?
— Não! Ele sofrerá um acidente fatal. Um carro passará em cima da bicicleta dele.
— Credo! Que terrível! Você pode evitar isso! Você sabe até que será no aniversário dele. É só avisar para que ele se proteja.
— Não adianta.
— Você veio mesmo lá do futuro, só pra me proteger?
— Essa era a ideia — dei de ombros com leve sorriso. — Mas até agora não consegui nada. Vim aqui com intuito de tirá-lo das mãos de pedófilos, brincadeiras cretinas… ser amor impossível de uma pessoa homossexual, namorar uma garota que será mãe com onze anos de idade. Quem sabe ao menos isso eu consiga!
— Claro que vai conseguir! Não vou ser pai tão novo! Aliás, eu não quero casar! Queria mesmo ser padre.
— Não será padre! Senão eu não terei três filhos!
— Por que você veio aqui? Por que não deixou as coisas acontecerem normalmente?
— Porque o que está acontecendo com sua vidinha sagrada aqui, afeta a minha vida sagrada lá no futuro.
— Não te preocupes, maninho — riu ele de um jeito sapeca, embora ainda com seu jeito assustado com o acontecido a pouco. — Sei me cuidar.
— No futuro, criança será considerado um ser especial. Quem mexer com este ser especial no futuro irá pra cadeia.
— E hoje? Não vai?
— Infelizmente não! Se você ir na delegacia e dizer que um adulto mexeu com você, provavelmente lhes dirão assim “E você? Não gostou?”
Regis, ainda preocupado, retornava a seu ambiente de trabalho acompanhado por mim, pois, se o setor dele, que tinha diversos companheiros trabalhando por ele enquanto conversávamos, o meu, que não tinha ajuda de outros, estava abalroado de garrafas para seres analisadas, o que seria um prato cheio para os adultos comissionados que aparecessem naquele instante por ali, me concedendo sua indesejável e interesseira ajuda.
— A propósito — chamei o maninho, enquanto voltávamos ao trabalho. — Não se preocupe tanto, pois o Rony foi socorrido a tempo, já deve estar no hospital e vai sobreviver, com certeza.
— Jura?!
— Juro! E vê se da próxima vez siga os conselhos desse seu maninho aqui. Por que ele te ama de verdade.
— Ieca! Sou homem!
— Eu também! E esse homem aqui você pode amar!
É®Ê
Menos de meia hora depois, Dorival apareceu ali em nosso setor, de onde chegou gracejando:
— O que aconteceu com seu amante, Regis? Não quis dar seu pirulitinho pra ele chupar?
Ouvindo aquilo, o maninho começou a chorar; meu sangue ferveu nas veias, bati uma garrafa na borda do tambor de aço, quebrando-a e avançando contra o salafrário, que, em sobressalto conseguiu tomar-me o pedaço pontiagudo de vidro, me dominando e me jogando de costas sobre uma das mesas de classificação, forçando aquela arma sobre meu peito, gritando:
— Se você me ameaçar mais uma vez, vou enfiar sua própria arma em sua barriga e arrancar suas tripas pra fora, seu moleque encrenqueiro.
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