At The Ballet
21 Limites
Notas iniciais
–Como ele conseguiu escrever um livro? -perguntou Santana. Ela estava sentada na biblioteca acompanhada de Catarina com um livro em cima da mesa.
–Boatos dizem que ele narrava enquanto outro homem escrevia. -comentou Catarina. -Eu particularmente acho possível, mas há tantas mentiras que envolvem esse autor. Existe um furo temporal entre seus livros de maior sucesso. Um furo de quase duzentos anos. Ele não poderia ter escrito os dois.
–Ele não poderia ter guardado-o? -perguntou Santana encarando a capa de couro sem nome.
–Ele não poderia. -disse Catarina. Ela inclinou seu corpo um pouco, demonstrando interesse com a conversa. -Sua casa fora revistada minutos após sua morte. A única pessoa que poderia ter guardado essa cópia seria o escriba dele, cuja a morte fora datada dois meses depois.
–Você está supondo que alguém matou os dois? -perguntou Santana.
–Não... -disse Catarina.
–Por que não? -comentou Santana. -O escriba poderia ter o segundo livro, mas antes de entregar para uma entidade com maior valor intelectual, fora morto. Poderia ser um concorrente cheio de raiva!
Catarina riu e tentou pensar nas possibilidades. Relaxou seu corpo na cadeira, trazendo-o para trás. Santana olhava para aquela imensidão de páginas sobre uma teoria escrita por um cego no início do milênio.
–Você consegue deixar esses livros imensos parecerem tão divertidos. -disse Catarina rindo.
–Eu não conseguiria fazer isso. -disse Santana. -Nem com todos os circos itinerantes do mundo ao meu redor enquanto eu leio.
–Eu sei que você não gosta dos livros de teoria. -disse Catarina. -Vou fazer algo. Você pode ler algo que lhe agrade e voltamos a leitura desse livro aos poucos. Um comentário por aula?
–Seria ótimo. -confirmou Santana empurrando o livro. Ela se levantou e começou a olhar os títulos.
–Quando eu me formei em literatura, minha classe era apaixonada pelos livros de teoria, livros antigos escritos em latim. Eu era apaixonada por Shakespeare. Eles diziam que eu não entendia a beleza de um livro de verdade. Acho que eles tinham razão: eu odeio livros de teoria! Eles são lentos. Eu tenho a consciência de que eles são essenciais, mas eles não fazem seu estômago pular quando o fiel escudeiro encontra o caminho certo para matar o dragão.
Santana riu. Ela conhecia a sua tia, mas sua imaginação sobre ela ia além. Ela imaginava Catarina dominando a classe para falar sobre paixões. Ela não precisava influenciar as boas almas de estudantes de literatura, quando Catarina falava até os céus paravam para ouvir.
–E esse livro marrom, tia Catarina? -perguntou Santana. Ela retirou o livro da estante. Estava meio empoeirado e sujo cheirava a folhas molhadas e poeira.
–É de um dramaturgo francês bem famoso. -Catarina levantou os olhos com prazer para o livro. -Eu sugiro outro livro. Este arca com temas um pouco pesados para a sua idade.
–Como o que? -perguntou Santana curiosa. A sobrancelha em questionamento e as mãos se coçando para abri-lo.
–Pobreza. Morte. Perseguição. Ganância. Ciúmes. -começou Catarina. Ela se levantou e tirou o gigantesco livro das mãos de Santana. -E prostituição.
–E ele é bom? Porque parece apenas uma junção de todas as coisas horríveis no mundo. -comentou Santana olhando feio para o livro.
–Ele é... atemporal. Os acontecimentos datados nos livros poderiam se encaixar perfeitamente até nos dias de hoje. -disse Catarina passando sua mão delicadamente sobre a capa. -Ele é um livro real. Ele fala sobre amor e como o amor pode sobreviver nas piores horas. Ele não deixa que o mal vença, mas nem tão pouco o bem. É como se ambos fossem apenas evoluindo, sendo introduzidos nas novas sociedades. Ele é magnífico.
–Mas? -conformou-se.
–Mas ele não é para nosso momento. -disse Catarina guardando-o. -Eu ganhei do meu professor preferido. Algo sobre a faculdade não poder abordar o desenvolvimento político criado em meio a trama. Como um livro banido no século doze.
Um toque apressado na porta aberta fez as duas se virarem naquela direção. Poucas vezes eram interrompidas, mas quando eram a aula praticamente acabava naquele momento.
–Me desculpem. -disse Anna. Ela tinha as bochechas vermelhas de subir as escadas com pressa. -A senhora solicitou a presença da senhorita Catarina na sala de estar nesse momento. E a senhorita Santana deve ir imediatamente para o banho.
–O que é tão urgente, Anna? -perguntou Catarina. Ela gostava da arrumadeira, quando tinha insônia e Anna estava na cozinha ainda limpando algo, ficavam zonzas de tanta risada e sono.
–A senhora Diane está de visita. -disse Anna sorrindo. -Mas ela não pretende ficar tanto tempo e por isso solicita sua presença na sala de estar. E a senhorita, seu vestido está no cabide do banheiro. Seu banho já está pronto.
Catarina sorriu para Santana e desceu. Ao pé da escada, que dava um visão aérea da sala de estar, Catarina pode ver a mãe sentada de frente para a lareira com uma xícara em mãos. Ela ajeitou suas calças antes de descer as escadas. Santana foi diretamente para o banheiro, mas antes de trancar a porta chamou Anna.
–Anna, você poderia separar aquele prendedor que eu costumo usar? -Anna assentiu se dirigindo ao quarto de Santana. Ela tomou o banho tendo o luxo de demorar, boiando na banheira. Brittany estava fora da cidade com o seu pai. Eles estavam indo visitar os avós paternos de Brittany, mas não ficariam mais que dois dias. Santana parou de se banhar e ficou um pouco deitada, com apenas sua cabeça para fora da banheira. Ela fazia ondas com a mão e o barulho de água era o que preenchia o banheiro, os pensamentos centrados em uma única pessoa.
–Mamãe! -disse Catarina sorrindo. -Que bela visita.
–Eu sei! -disse Diane rindo. Catarina não havia se acostumado com a mãe risonha que havia acabado com a mãe perversa. Ela esperava que a antiga mãe fosse esquecida. -Calças! Eu soube que as mulheres querem se tornar independentes e o símbolo na moda é a calça.
–Eu acredito que sim, mamãe. -disse Catarina sorrindo. -E espero mais do que independentes.
–Por que, não? -disse Diane e olhou para Joanne. -Você não concorda, Joanne?
–Concordo e discordo. -disse Joanne. -Algo foi feito exclusivamente para o homem, como ser advogado. E algo fora feito apenas para as mulheres, como filmes chatos de romance!
As três riram. A ironia da situação as faz a piada. Suas próprias piadas.
–E nos veio visitar por algum motivo em especial? -perguntou Joanne.
–Claro que sim! -disse Diane. -Quando eu venho, tudo se torna especial.
–Essa é, na verdade, uma ótima palavra para descrever suas visitas inusitadas. -comentou Catarina.
–Eu vim buscar Santana para fazermos compras. -disse Diane sorrindo.
Catarina sorriu também, mas Joanne ficou um pouco surpresa. Ela também poderia não ter se acostumado com a mãe.
Depois de alguns minutos, Santana desceu pronta com um vestido simples. Cumprimentou a sua avó e quando se sentou, ela levantou.
–Nem se acomode, querida. -disse Diane. -Vamos sair em cinco minutos.
–Sair? Onde vamos? -perguntou Santana.
–Em tudo.
Pontualmente, um táxi reservado para o dia havia chegado. Elas embarcaram e Diane cumprimentou o rapaz. Era um homem jovem, cabelos negros e encaracolados.
–Vovó, como você está? -perguntou Santana.
–Me pergunte daqui a algumas horas. -disse Diane sorrindo. Ela virou o rosto para Santana e notou o prendedor. -Você está usando o prendedor. Eu nunca vi algo tão bonito na minha vida.
–Obrigada. -disse Santana. Ela levou a mão até o prendedor e tocou duas vezes para senti-lo.
–Quando eu tenho um dia ruim, fazer compras me ajuda a ficar melhor. -disse Diane olhando para a rua. —
–A senhora teve um dia ruim? -perguntou Santana.
–Acho que não. -disse Diane. Os olhos ainda em direção a rua.
–Acha?
–Eu prefiro acreditar que não foi.
–A senhora não precisa ter medo de sentir triste. -disse Santana.
Diane olhou-a. Deu uma pequena risada para dentro e suspirou.
–Eu tenho medo é não sentir nada. -disse Diane. -Eu estou me envolvendo com vários tipos de grupos. Grupo de leitura. Grupo de culinária. Grupo de conversa. Grupo de ciências. Mas eu estou apenas desperdiçando o meu tempo. Eu ocupo meu tempo inteiro com coisas que odeio para esquecer do que amo.
–E porque a senhora não faz o que ama? -perguntou Santana. Era uma pergunta fácil, mas era tão complicada de ser respondida.
–Eu tenho medo. -disse Diane com a voz fraca. Durante sua vida inteira ela teve que ser forte. Forte para ser ignorada pelos pais. Forte por ser rejeitada pela primeira vez que tentou entrar numa faculdade. Forte para não se tornar sua mãe. Forte para não deixar que os fantasmas do passado a assombrassem. Ela fora forte, como as melhores muralharas são, mas muralharas quebram e são reerguidas, eventualmente.
–Você tem medo de fazer o que gosta e por esse motivo você se ocupa com o que não gosta porque tem medo de sentir do gosta? -perguntou Santana um pouco confusa. Ela tentaria ajudar sua avó, principalmente depois de ouvir sua voz daquela forma.
–Mais ou menos. Eu não quero pensar sobre o sentimento que eu tive enquanto fazia o que eu gosto. -disse Diane.
–Posso perguntar o que aconteceu? A senhora não é muito aberta com o passado. -disse Santana baixinho.
–Eu não sou muito fã do meu passado. -disse Diane.
–Você deveria. -disse Santana. -É o único que a senhora vai ter.
Diane a olhou e por um segundo ambas sentiam a presença da antiga Diane. Ambas se arrepiaram.
–Desculpa. -disse Santana. Sua avó hesitou, mas buscou a mão de sua neta.
–Eu entendi o que você falou. E eu concordo. -disse Diane. -Mas voltar para o hospital seria... errado. Eu ganhei uma carta de afastamento. Eu não preciso que algo parecido aconteça novamente.
Santana compreendia quando alguém queria falar sobre algo, mas não citar algo.
–A senhora não precisa falar disso se machuca, mas eu posso falar algo? -Diane concordou, aliviada por esquecer o inesquecível. -Você deveria tentar. Não porque você está cansada de participar de grupos que odeia. Mas porque você acha que não consegue e você só tem a si mesma para provar.
–Eu acho que vou voltar... -comentou Diane como uma brincadeira. -Mas não no momento, eu preciso pensar melhor.
–Se serve de apoio, mude de hospital. Menos chance de encontrar seu passado. -disse Santana olhando para as nuvens. Ela não entendia muito bem a amargura do passado. Ela tinha um passado ótimo, mas tudo se ligava a ideia de que ela ainda tinha dezesseis anos.
Diane, como um filme de cinema, fora voltando as cenas de sua vida. Imagens dela sorrindo em um brilhante dia no parque, imagens dela chorando escorada em um canto de uma sala de cirurgia. Ela parou o filme de sua cabeça e a cena seguiu, detalhe por detalhe. Ela até sabia o número de inspirações durante aquela cena, nenhuma.
"Senhor! -chamou Diane, um pouco mais nova e boba. -Você pode abrir os olhos?
O homem abriu os olhos. Verdes, eles eram verdes claros. Os cabelos morenos amassados pelo tempo que havia passado dormindo.
–Eu posso até falar se você precisar. -murmurou o homem com a voz falha pela falta de uso.
–Ótimo! -disse Diane. -Você lembra seu nome? E porque veio parar aqui?
–Vagamente. -disse o homem. -Eu tenho que voltar.
–Desculpe, voltar para onde? -perguntou Diane se interessando pelo desenvolvimento rápido do homem. Ele estava no trem que ela havia monitorado. Ele estava entre os soldados que haviam saído da guerra. Ele fez uma cara de dor e levantou o lençol. Ele havia perdido a perna. -Como eu vou voltar para a guerra em uma perna!?
–Você pode ir pulando se quiser. Você não vai poder voltar tão cedo. Nem sei porque chamam aquilo de guerra. Umas trocas de tiros entre dois países. Como se França e Inglaterra nunca estivessem brigado nesses anos de história. -disse Diane sorrindo. -Você precisa me informar seu nome.
–Eu me chamo... Napoleão. -disse o homem. Ele chegou até sorrir.
–Você não parece certo quanto a isso. -disse Diane. -Bela homenagem à o pior homem já conhecido.
–Pode se dizer que sim, mas você é inglesa. Não entenderia.
–Sou e você veio da sua cidade até a Inglaterra dizer para uma inglesa que está cuidando da sua saúde o quanto ela não entende de história.
–Não digo de história, digo da adoração do povo francês por Napoleão. Vocês também marcam na história por pessoas que o mundo odeia, mas vocês idolatram. Como aquela mulher que se casou com o rei Luís. Ela foi odiada pelo povo da frança.
–Maria Antonieta não era inglesa. -disse Diane rindo. -Era austríaca, e odiada até pelo próprio povo. Você tem que pensar um pouco mais se quiser achar alguém cujo idolatramos e o mundo odeia.
–Eu posso pensar. Acho que tenho tempo agora que não posso voltar ao... conflito. -disse o homem rindo.
–Muito bem, Napoleão. -disse Diane anotando o nome num papel. -Você tem que me contar o motivo de ter vindo parar aqui. Não somos muito receptivos com franceses, mas eu posso te ajudar.
–Eu não poderia voltar para casa. A humilhação seria enorme. Eu prefiro me esconder nessa cidade até que tudo acabe. -disse o homem. -Você irá mesmo me ajudar?
–Por que não? Conte-me sua história. -disse Diane. Ela havia gostado do homem desde que seus olhos bateram com os dele no trem.
–Você não tem nada melhor para fazer? -perguntou o homem. Ele sorriu de volta, ele sentia uma conexão com aquela mulher. Ela tinha olhos escuros e ele havia decorado sua cor.
–Eu tinha. -disse Diane. -Mas estou monitorando os soldados essa semana. E você veio num trem de soldados.
–Você não acredita que eu sou um soldado?
–Se você me contar sua história até o dia de hoje, eu vou acreditar.
–Ou você pode olhar minha identificação e nos polpar tempo. -disse o homem sorrindo. Eles estavam brincando, essa era a palavra que passava por sua mente.
–Eu já olhei. -disse Diane em tom de desafio. -Não quero ouvir sua história para me divertir, quero que você conte porque preciso saber.
Ela na verdade não precisava escutar história nenhuma, mas precisa saber sobre o homem do trem. Ela queria conhece-lo. Sem uma razão específica, ela apenas queria... Ele sabia que ele não precisa contar aquela história. Ele já fora hospitalizado antes, ele conhecia o processo. Porém, ele gostou de brincar com a mulher. Gostou de faze-la sorrir.
–Ela se dá início ao meu nascimento...
–Não precisa começar desde do início literal. -disse Diane sorrindo.
–Mas é um dia importante. Foi nesse dia que recebi meu nome e vinte anos depois, eu estaria num hospital inglês mentindo sobre esse nome que me fora dado.
–Napoleão, qual é o seu verdadeiro nome? -perguntou Diane.
–Pode me chamar de Jean. -disse Jean sorrindo. -E esse é o meu verdadeiro nome.
–Eu sei. Eu disse que havia lido sua identificação."
–Vovó! -chamou Santana, chegou até a chacoalhar o corpo de Diane. Ela despertou de repente.
–Me chamou? -perguntou Diane, como se estivesse ocupada.
–Já chegamos. -disse Santana e colocou uma mão na boca para abafar o riso. Diane deu uma risada também.
–Então, vamos! -disse Diane saindo do carro. Ela arrumou as luvas na mão enquanto esperava Santana.
Santana estava no carro alisando o vestido e saiu do carro. O taxista fez um sinal para ela, enquanto os olhos devoravam as colunas do jornal.
–Tudo bem. -disse Diane para o taxista. -Santana, eu tenho uma regra para quando eu for fazer compras. Enquanto não atingir mais que três dígitos, não é suficiente.
Santana riu, achando que era apenas uma brincadeira de sua avó. Quando percebeu que não era, ela pode ver a semelhança entre sua avó e sua mãe.
–Bom dia, senhorita Carmel. -disse um menino. -Alguma preferência específica para hoje?
–Brandon? -perguntou Santana olhando para o menino.
–Santana? -disse o menino.
–Vocês se conhecessem? -perguntou Diane curiosa. -Você não faz ballet com ela, faz?
–Não, ele atua na peça em que a Britt está. -disse Santana ainda olhando-o. -O que você está fazendo aqui?
–Eu tenho que trabalhar e não posso viver atuando. -disse Brandon num tom desgastado, mas engraçado. Tentando ser engraçado, pelo menos.
–Relação correta. -disse Diane. -Vestidos. Preciso de um novo para a estreia de Santana.
–Cor específica? -perguntou Brandon.
–Azul. -disse Diane.
–Acho que tenho algo. -disse Brandon.
–Espere! -disse Santana acompanhando-o pelas araras.
–Você também deseja algum vestido? -perguntou Brandon olhando para as araras.
–Sim, mas... -disse Santana. Ela ficou surpresa com a presença de Brandon. -Achei que você fosse ator integral.
–Eu sou, mas trabalho aqui nos dias de folga e fora das temporadas de peças. -disse Brandon sorrindo.
–Você deveria se dedicar. Britt fala que você é bom. Daria um ótimo ator de cinema. -comentou Santana.
–Acho que sim. -disse Brandon rindo. -Mas por enquanto, preciso pagar meu aluguel.
–Se você não arriscar enquanto pode, vai pagar aluguel para o resto da vida. -disse Santana. Ela sentiu impulso de falar, mas logo calou a boca. -Me desculpe. Foi insensível.
–Foi... -disse Brandon. -Mas as verdades são assim. Eu vou pensar no que você disse. E se quiser escolher um vestido... Que tal vermelho?
–Não! -disse Diane caminhando até os dois. -Nada vermelho.
–Que tal um variante, como o rosa. -disse Brandon. Depois de algumas anos trabalhando com moças e patrões exigentes, ele não decorava apenas falas.
–Podemos ver? -perguntou Diane.
–Me sigam. -disse Brandon levando para a parte principal da loja. Uma enorme sala estava repleta de vestidos e manequins. Um candelabro mesclado de cristal e diamante estava posicionado nas alturas iluminado a maior parte da sala, que era fechada, e que precisava de algumas luzes de apoio.
Santana e Diane deixaram a loja um tempo longo depois. Entraram no táxi e deixaram as sacolas no fundo do carro. O carro começou a andar, como se magicamente ele soubesse para onde estavam indo. Ele parou numa loja de sapatos, quase um quarteirão de distância das lojas de vestidos.
–Os melhores sapatos estão nessa loja. -comentou Diane e depois olhou para um pequeno cabaré no final da rua. -Só odeio a localização.
Santana não havia entendido. A loja estava rodeada por outras lojas. Aquele era o centro comercial de moda, o segundo melhor, mas sua avó estava olhando cinicamente para o cabaré como se a qualquer momento ele pudesse virar uma pessoa. Ela lembrou que sua avó odiava dançarinas e bailarinas, mas ninguém nunca descobriu o motivo. Talvez o motivo estivesse diante de seus olhos.
–Por que você odeia o cabaré? -perguntou Santana. Ela se jogou contra a porta para que sua avó não saísse.
–Eu não odeio. -disse Diane. -Odiava quem trabalha, mas ela já fora despedida. Eu fiz questão.
–Essa pessoa é motivo de você odiar dança, não é? -perguntou Santana. Ela não pensava que voltar ao passado, mesmo que de outra pessoa, fosse doloroso.
–Talvez. Ela era uma mulher fácil... Não foi difícil fazer uma ligação. -comentou Diane. Santana abriu a porta do carro. -Mas, eu aceito que você queira ser bailarina. Porque sei que uma menina de classe não acabaria num buraco como aquele.
–Obrigada? -disse Santana incerta.
–Eu me arrependo do que fiz com ela e me arrependo do que eu não fiz com ele. -disse Diane. Outra cena de seu passado estava passando, havia desligado as luzes do mundo exterior e Santana tinha que puxar a avó até a loja enquanto ela pensava sobre aquela cena.
"-Eu vi ele entrando naquela espelunca! -disse Giulia, uma amiga de Diane. Elas estavam sentadas tomando chá, como todo os dias.
–Eu sei que você não gosta dele, mas temos duas filhas e eu estou esperando um terceiro filho. Não posso simplesmente fazer especulações. Ele vai me mandar embora.
–Você é forte. -disse Giulia. -Mas você deveria investigar.
–Ele é um soldado e eu sou uma mulher grávida. -disse Diane.
–Isso não é desculpa! -disse Giulia sorrindo. -Vou me casar pela terceira vez, simplesmente porque todos haviam me traído.
–Você não se importa com a opinião alheia? -perguntou Diane.
–Na verdade, não. -disse Giulia sorrindo. -Eu parei de me importar na escola. Só estou falando, talvez possa ser algo que vocês possam resolver.
–Você acha?
–Acho.
Ela escolheu um dia específico para segui-lo. Ele foi, diretamente, para o cabaré no fim da rua. Ele entrou e se sentou numa mesa. Ela entrou, alguns olhares a seguiram e a estranharam, mas ela estava com as roupas mais pobres que tinha. Ela foi assisti-lo de longe. E lá estava ele. Sentado com um copo de cerveja olhando para as cantoras com vestidos curtos. Diane achou repugnante, mas não se levantou, nem mexeu o dedo que fosse. Ela apenas respirava. Depois de um tempo, ele se levantou e caminhou para os fundos. Diane o seguiu e descobriu que além de cabaré, era um bordel. Duas espeluncas em um único lugar. Ela ainda se continha. Uma das mulheres que esperavam fora do quarto foi até ela.
–O que uma mulher grávida está fazendo aqui? -perguntou a mulher, ela fumava um cigarro e vestia um vestido pretos deixando suas coxas a mostra.
–Perseguindo meu marido. -disse Diane. -Como vocês conseguem se olhar no espelho sabendo que eles tem mulheres e filhos?
–A maioria mente sobre as mulheres. Dizem que não conseguem andar, falar ou ver. -disse a mulher. -E eu sentiria culpa, mas felizmente onde eu durmo eu não tenho espelho. Eu faço pelo dinheiro.
–Eu posso comprar um espelho para você. -disse Diane, um pouco irônica e séria.
–Sério? -perguntou a mulher irônica. -Você é casada com quem?
–Jean. -disse Diane.
–Você consegue andar, então. -disse a mulher. -Eu sabia que ele estava mentindo.
–Você não é a cadela com qual ele fornica, é? -perguntou Diane. -Porque eu pretendo te dar um espelho.
–Não e nunca... forniquei com ele. -disse a mulher. -Mas eu sei quem... fornica com ele. Ele está na porta dois. Lá no começo, perto da escada. E você não ouviu de mim e não precisa mata-la, como eu disse fazemos apenas pelo dinheiro.
–Tudo bem, obrigada. -disse Diane. A mulher olhou para ela estranho e lhe beijou os lábios. Diane a empurrou rapidamente limpando os lábios. -Por que você fez isso?
–Para você ficar irada com outra situação. A cena que você está para ver pode ser chocante. -disse a mulher rindo.
Diane lhe entregou algumas notas em papel.
–É para o espelho. Acho que não pretendo voltar aqui tão cedo.
–Tudo bem, obrigada querida. -disse a mulher prendendo o dinheiro nos peitos. -Ah, e o seu marido é um canalha. Porque você tem o melhor beijo que eu já vi.
Diane enrubesceu e saindo andando até a porta número dois. Ela olhou para a mulher que sorriu e piscou para ela, voltando para a frente de sua porta. Ela abriu de supetão encontrando os dois gemendo em cima de uma cama. A mulher era morena, um retrato perfeito de pintura. Linda. Ela se levantou assustada e Jean olhou para Diane.
–Olá, serviço público. -disse Diane para a mulher. Ela fechou a porta atrás de si.
–Diane, o que você está fazendo...
–Cala a boca! -disse Diane. -Você não precisa falar.
A moça estava escorada do canto do quarto, não era a primeira vez que uma esposa entrava no quarto.
–Eu só quero saber o porque.
–Eu...
–Ele se sente sozinho. -disse a moça. -Ele vem aqui porque você está grávida.
–Isso faria eu me sentir melhor? -perguntou Diane irada. -Eu nem quero saber. Eu não quero saber.
–Eu vou entender se você quiser me deixar, mas não leve as minhas filhas.
–Suas... Merda que são suas. -disse Diane. -Escuta, eu não vou me separar de você. E para o seu bem, ninguém vai ficar sabendo disso. Você vai dizer para a porra do mundo que você veio assistir a merda do show de cabaré.
Diane pegou uma garrafa de cerveja que estava no quarto e quebrou o fundo. A moça buscou por seu vestido preto no chão.
–Você vai ter que lembrar desse dia, não vai? -perguntou Diane. Ela raspou a garrafa na coxa da perna sem pé. Jean urrou de dor. A moça levantou e se caminhou até a porta, em silêncio.
–Está trancada. -disse Diane. -Eu não vou machucar você.
–Não, vai? -perguntou a moça.
Diane não respondeu. Apenas olhou para o rosto do marido e um frio tomou conta de seu corpo. Ela não gostava do que estava fazendo, mas precisava que ele soubesse. Ela até havia escolhido a parte que ele geralmente não sentia para deixar uma cicatriz. Ela estava sendo manipulada, como um boneco, por Giulia, mas apenas anos depois quando aquilo já fora esquecido e resolvido, era percebera.
–Eu entendo que você esteja com raiva dele, você não é a única. -disse a moça tentando acalma-la. -Mas eu sugiro que vocês resolvam seus problemas em casa, sentados, sem sangue. E eu realmente preciso cantar agora.
A moça estava com os ouvidos na porta ruida de cupim, fraca. Ouviu paços pesados e batidas na porta.
–Mais cindo minutos. -disse a moça. E ouviu os paços indo embora.
–Você vai cantar? -perguntou Diane. -Então, você não trabalha para o bordel.
A moça se encolheu um puco, Diane se virou para ela.
–Eu só atendo seu marido. -disse a moça. -Eu estou apenas tentando ganhar dinheiro. Eu preciso de dinheiro para comer e pagar o aluguel e...
–Você também quer um espelho? -perguntou Diane.
–Como?
Diane apenas a empurrou contra a porta, mas a porta cedeu contra os dois corpos fazendo com que além de ultrapassassem o minúsculo corredor, rolassem um lance inteiro de escada. Diane bateu a cabeça forte, mas ficou acordada e dolorida. Não queria se mover. A moça se levantou rápido e começou a gritar para as pessoas do último andar.
–Ela está grávida! -ela gritou e foi a última coisa que Diane lembra antes de desmaiar."
–Ela vai testar os sapatos pretos, obrigada. -disse Santana. Sua avó entrara em outro transe e a fez provar pelo menos dez pares de sapatos.
–Pretos? -perguntou Diane balançando a cabeça.
–Sapatos. -disse Santana. Ela escolhera um par azul, mas ainda olhava as vitrines. Ela caminhou até uma vitrine e encontrou um sapato lilás, diferente de tudo que ela já havia visto. Uma mulher apareceu atrás, assustando-a.
–Desculpe. -disse a mulher. -Você deseja experimentar o sapato?
–Não, eu só... Ele é lindo. -disse Santana.
–É sim. Ele veio de Paris. Feito exclusivamente para a moda inglesa. -disse a mulher. -Você deveria experimentar.
–Eu vou levar, mas não é para mim.
–Santana. -chamou Diane baixinho. -Você viu os sapatos pretos que me trouxeram?
–Vi, eu mandei que trouxessem. -disse Santana.
–Você tem um belo gosto para sapatos. -disse Diane.
–Não, eu só estou acostumada a ver mamãe comprando-os. -disse Santana. -Vovó, você acha que poderíamos passar em outra loja de vestidos? Eu não encontrei o meu vestido para a estreia da Britt.
–Sim. -confirmou Diane. -E se você perceber que talvez eu esteja dormindo, me acorde.
Elas deixaram a loja minutos depois. Santana segurou o par de sapatos lilás sorrindo. Ela abriu a caixa apenas para imaginar qual seria sua reação. Ela se virou para a sua avó, mas ela novamente havia ligado o filme de sua mente. E Santana não poderia fazer nada, com exceção de imaginar Brittany embarcando no trem com o destino a Londres, quase nesse momento.
"Diane havia perdido o filho. Era um menino. Ela havia perdido no lance de escada. Ela chorou durante semanas, Jean prometeu que nunca a faria passar por tal situação novamente. Ele realmente cumpriu sua promessa. Mas ela havia voltado naquele bordel com três presentes. Ela entregou um espelho de mão para a mulher que havia a beijado e caminhou até a porta número dois, com os dois presentes que chacoalhavam em seu bolso.
–Ela não trabalha mais nesse quarto. -disse a mulher. -Ela está aqui. No seis.
–Graças aos céus. -disse Diane sem conseguir olhar para escada, mas sentiu uma imensa vontade de vomitar. -Ela não está... acompanhada?
–Não, ela está apenas se trocando para o show. -disse a mulher.
Diane bateu na porta e esperou por trinta segundos. A moça abriu a porta e seu sorriso se dissolveu. Ela se sentia culpada pelo que havia acontecido com Diane, mesmo que não fosse.
–Eu posso entrar? -perguntou Diane.
–Pode, mas eu tenho uma apresentação em dez minutos.
–Eu sei. -disse Diane fechando a porta, mas não havia trancado-a. -Eu só vim te dar uma coisa.
–Espera! -disse a moça. -Eu preciso que você me perdoe. Eu não posso olhar para você e imaginar que nada aquilo teria acontecido se não fosse pro mim. Eu não queria, mas que estava precisando do dinheiro e você parece uma mulher tão boa. Por favor, me desculpe!
–Eu que peço desculpa. -disse Diane. -Eu me descontrolei. Aquela não era eu.
–Eu entendo. Estamos perdoadas? -perguntou a moça. Devido a outras circunstâncias, poderiam até ser amigas.
–Sim, mas antes eu preciso falar algo. -disse Diane. -Primeiro eu preciso te entregar isso.
Ela estendeu para a mulher um espelho de mão. A mulher pegou sem entender, mas agradeceu.
–E que hoje será seu último show. -disse Diane.
–Como? Você me demitiu? Eu preciso do dinheiro! -disse a moça aterrorizada.
–Eu pedi que demitissem-na. -disse Diane suave.
Ela realmente havia demitido a moça, como contara para Santana, mas ela não havia contado a parte humanitária da história. A cena que apenas ela e a moça sabiam que existiam.
–Eu entendo que você está com raiva de mim, mas...
–Espere. Eu não terminei. -disse Diane. -Eu acredito que existe algo melhor para você. Você não merece ficar nessa espelunca pelo resto da vida. Eu precisava me redimir com você. Amanhã, você pode ir até esse escritório e a vaga de secretária será sua. Eles me deviam um favor, por favor aceite. É mais dinheiro do que você ganha aqui.
–Por que você está fazendo isso? -perguntou a moça.
–Porque eu não gosto de ver ninguém nessa situação. Eu acredito que nenhum ser humano deveria ser tratado do jeito que eu te tratei.
A moça sorriu e pegou o cartão.
–Eu me chamo Lalita. -disse a mulher.
–Diane.
–Obrigada, Diane. Acho que ninguém nunca fez isso por mim. -disse Lalita.
–E eu espero que eu não seja a única. Você pode escolher o que quer fazer.
–Eu acho que vou aceitar sua oferta. -disse Lalita.
–Coração, você tem cinco minutos. -disse uma voz pela porta. Parecia um homem.
–Acho que você não vai ficar para assistir.
–Eu acharia interessante, mas eu tenho duas filhas em casa. -disse Diane sorrindo. -Boa sorte, Lalita.
–Para você também.
Ela deixou o bordel e nunca mais pisou o pé naquele lugar. Ela não voltou a falar com Lalita, mas preferia pensar que estava bem. Talvez a tivesse encontrado na rua, mas não tivesse a reconhecido. Ela poderia estar diferente. A história de como Diane se tornara uma estranha com raiva para as filhas e início da vida das netas era mais complicado do que parecia. Envolvia ainda mais raiva e arrogância, mas não partira de Lalita. Fora outra dançarina, sua vida era literalmente cheia delas. Mas aquela em especial havia a transformado por completo. Depois de mudar tanto, crescendo e diminuindo em escalas, Diane se perdeu. Sua personalidade era uma pedaço de cada estágio de sua vida. No momento, ela sentia que estava recuperando sua genuinidade novamente."
Elas entraram na última loja e Santana achou um vestido, apesar de não ter certeza se ele seria perfeito. A estreia de Santana seria em uma semana e ela quase não dormia direito. Brittany a havia chamado para dormir na casa dos Grant no dia que chegasse da casa dos avós. O dia havia escurecido mais cedo e quando viraram a tão famosa curva, Santana pode ver as luzes acesas e ela não sabia porque sentiu uma enorme vontade de correr até, de abraçar, de beijar Brittany. Ela suspirou aliviada, ela viu Howard colocando o lixo na rua e quando ele notou o carro e viu Santana, ele acenou sorrindo. Diane saiu do carro e cumprimentou o homem que havia conhecido num jantar organizado por Catarina.
–Boa noite, senhora Carmel. -disse Howard, um pouco cansado.
–Olá, Howard. -disse Diane. -Eu vim trazer a Santana, ela comentou que dormira aqui.
–É verdade, elas costumam dormir uma na casa da outra. -disse Howard sorrindo para Santana. -A senhora aceitaria uma xícara de chá?
–Não, obrigada. Eu tenho que ir para a casa. Acho que um dos clubes que me inscrevi vão aparecer na minha casa. Ainda bem que deixei Emily cuidando de tudo. Confio nela mais que minha própria consciência.
Howard riu. Santana estava batendo o pé devagar.
–Você pegou as suas coisas, Santana? -perguntou Diane. Santana voltou até o carro buscando pelas sacolas e caixas cor de rosa.
–Eu te ajudo com isso. -disse Howard pegando as sacolas.
Santana foi surpreendida com um abraçado de sua avó. Ela conseguiu colocar um braço na região do estômago e aperta-la.
–Obrigada. -sussurrou Diane.
–Eu que agradeço, vovó. -disse Santana. -E pense no que lhe disse mais cedo.
–Se divirta. -disse Diane sorrindo. Ela entrou no carro. -Adeus, Howard.
Ele acenou com a cabeça e o carro seguiu pela estrada escura.
–Brittany está alimentando a gata. -disse Howard rindo.
–Será que ela precisa de ajuda? -perguntou Santana.
–Acho que não. -disse Howard abrindo a porta para que Santana passasse.
–Pai! -disse Brittany na cozinha. -Eu consegui! Ela gostou!
Brittany entrou na sala pulando e parou quando viu Santana sorrindo para ela. Ela correu até ela e a abraçou, colocando suas pernas ao redor da cintura de Santana.
–Você veio cedo! -disse Brittany esmagando o corpo de Santana contra o seu.
–Acho que sim. -disse Santana rindo. -E fico feliz de ter o feito.
Brittany beijou a ponta do nariz de Santana e a puxou para a cozinha.
–Espera! -ela disse. -Eu preciso ajudar seu pai com as...
–Tudo bem. -disse Brittany. Ela segurou Santana pela cintura e beijou seus lábios, desarmando Santana. Brittany levou uma mão até os cabelos de Santana soltando um dos grampos metálicos.
–Eu volto rápido. -disse Santana com os lábios colados nos de Brittany.
–Não! -disse Brittany de repente. -Eu vou. Você fica olhando a Dorothy.
Brittany voou pela porta e subiu com as sacolas e caixas colocando em cima da cama. Desceu correndo, ouviu um pequeno sermão do seu pai por descer correndo e entrou na cozinha. Santana estava de joelhos acariciando a gata que tinha acabado de comer. Brittany apenas juntou seus lábios novamente. Santana se sentou sobre as pernas e passou as mãos nos cabelos de Brittany. Brittany separou o beijo e beijou novamente a ponta do nariz de Santana.
–Você está com fome? -perguntou Brittany.
Howard entrou na cozinha e as meninas se levantaram.
–Eu posso fazer a sopa. -disse Howard com o tom assustador. Fazendo as meninas rirem. -A senhora Belle mandou que trouxéssemos legumes para até o mês que vem.
–Como está sua avó, Britt? -perguntou Santana tentando arrumar o cabelo.
–Está bem. Ela está gostando de morar em Oxford. -disse Brittany rindo. -Ela queria conhecer você, acho que não parei de dizer seu nome um segundo.
–É verdade. Ela ficou bem curiosa para saber quem era "Santana!" -disse Howard rindo. -Eu chamo vocês quando estiver pronto. Eu prometo.
As meninas subiram para o quarto e deixaram a porta aberta, como as regras ditavam. Dois minutos depois, Dorothy estava na porta miando. Santana a pegou no colo e se sentou na cama.
–Eu tenho uma surpresa para você. -disse Santana. Ela pegou a caixa rosa e entregou para Brittany. Brittany começou a rir.
–Você tem que parar com isso, Sant. -disse Brittany ainda rindo. Ela deixou a caixa em cima da cama e beijou os lábios de Santana suavemente.
–Eu só gosto de ouvir sua risada. -disse Santana passando a mão pelos cabelos de Brittany.
–Você me faz rir. -disse Brittany. Ela se sentou ao lado de Santana e abriu a caixa cor de rosa. O par de sapatos lilás preenchia a caixa. Brittany arregalou os olhos e abriu a boca um pouco. -Ob-obrigada. Eu nem sei o...
Santana se levantou e beijou. Apenas um toque. Brittany sorriu.
–Obrigada, Sant. De verdade, eles são lindos. -disse Brittany colocando cuidadosamente os sapatos na caixa, depois de experimenta-los. -E eu também tenho algo para você.
–Por favor que seja um torta. -disse Santana animada. Brittany riu.
–Feche os olhos. -disse Brittany. Santana fechou os olhos e Dorothy pulou para seu colo. Ela ouviu um barulho de papel de seda. -Pode abrir.
Santana abriu os olhos e sua boca abriu totalmente com que Brittany tinha nas mãos. Um vestido branco que ia até os tornozelos, marcando a cintura. Solto nos ombros e no quadril. Era simplesmente magnífico.
–Brittany. -disse Santana séria fazendo Brittany rir.
–Você estava falando que não tinha achado um vestido para ir na minha estreia e eu estava passando numa das lojas afastadas com a minha avó e percebi o quanto ele seria perfeito. -disse Brittany olhando para Santana. -Você gostou?
–Claro que gostei! -disse Santana, ela estava tão feliz que tinha que sussurrar para não gritar. Ela se jogou nos braços de Brittany com as pernas ao redor da cintura. -Obrigada.
Brittany começou a rir e uma lágrima escorreu pelo seu rosto. Santana beijou sua bochecha e voltou ao chão.
–Achei que você viesse com Catarina. -Brittany falou e tirou as sacolas decima da cama e colocando no pequeno sofá. -Meu pai também achou.
–Eu passei o dia com a minha avó. -disse Santana sendo puxada por Brittany. Deitaram na cama, abraçadas. Brittany estava cansada e seus olhos diziam isso, mas ela queria ficar acordada.
–Sua avó? -perguntou Brittany. -Isso é algo bom, não é?
–Claro, mas ela estava estranha. -disse Santana. -Acho que só estava com pensamentos altos. Mas me conta como foi a sua viagem! Você parecia animada para ir.
–Minha avó é uma ótima pessoa, mas... Existem limites que avós não deveriam ultrapassar. -disse Brittany rindo baixinho.
–Talvez ela apenas queira ter um laço mais forte com você. -comentou Santana rindo.
–Falar sobre calcinhas...
–Mas isso é normal. -interrompeu Santana.
–No meio de um jantar de família.
Santana começou a rir e Brittany olhou para ela com uma sobrancelha levantada, se entregando em segundos depois. Santana sabia que sua risada era a o que fazia mais efeito em Brittany.
–Eu te amo. -disse Brittany, contornando os traços do rosto de Santana.
–Eu também te amo. -disse Santana sorrindo. Com o seu nariz, acariciava o de Brittany. -Sempre vou amar, Britt.
–Para sempre? -perguntou Brittany, a inocência na voz. O cansaço levando-a.
–Para sempre. -respondeu Santana, acariciando os cabelos de Brittany que fechou os olhos.
Diane pagou o taxista e entrou em casa. Em sua cabeça, o filme havia parado de passar. Havia acabado a sessão do passado, mas ela não sabia se sentia livre ou presa. Ela ainda não havia decidido e esse era o fato que a surpreendia tanto. Ela não se importava tanto com o passado quanto achava, ela nunca poderia muda-lo, de qualquer forma.
–Senhora Diane! -disse Emily. -Esperava a senhora mais cedo.
–Emily, eu marquei algo para hoje? -perguntou Diane tirando os sapatos e jogando-os em frente ao sofá antes de se deitar.
–A senhora tem um encontro de leitura hoje. -disse Emily arrumando o corpo de Diane no sofá.
–Será aqui? -perguntou Diane abrindo os olhos.
–Claro que não. -disse Emily. -A senhora não suporta aquelas mulheres.
Diane começou a rir e continuou, riu como nunca havia feito. Emily começou a rir e as duas risadas eram os únicos sons que ecoavam pela imensa casa. Riam por ser uma das únicas coisas que ainda poderiam fazer ser se perguntarem o motivo. Diane riu tanto que por um segundo achou que riria para sempre. Elas foram cessando e Diane levantou os olhos.
–Emily, prepare dois Martínis. Esqueça aquelas vadias, vamos levar essa comida para o lugar certo. -disse Diane colocando os sapatos. -Eu vou tirar o carro.
–A senhora sabe dirigir? -perguntou Emily impressionada.
–Claro que sim. -disse Diane. -Não pergunte... Vamos, eu preciso ver alguém hoje.
–A senhora tem um encontro? -perguntou Emily animada.
–Emily, acho que se fosse um encontro, o fato de você está mais animada que eu, seria um mal sinal. -disse Diane sorrindo.
–Senhora... -começou Emily.
–Não precisa, hoje eu estou bem. -disse Diane. -Eu preciso ver essa pessoa hoje, uma velha amiga. E você, Emily, nunca vai sair dessa casa. Você é a minha melhor amiga.
Emily sorriu. Ela conhecia todos os lados de Diane, presenciara todas as suas fases, mas ultimamente Diane estava diferente. Ele estava mais quente, amável, carinhosa e viva!
–O que a senhora acha de levarmos a comida amanhã para um abrigo? -perguntou Emily. -E podemos ir ver a amiga da senhora. Você sabe onde ela mora?
–Sei onde ela trabalha.
–Ela está trabalhando agora? -perguntou Emily. -Já escureceu, senhora.
–É quando ela sai para trabalhar. -disse Diane se levantando. -Vou te esperar lá fora.
Aparentemente, dois anos depois de Diane lhe entregar o cartão, Lalita havia percebido que não nascera para ser secretária. Ela havia ficado perdida durante seis meses antes de descobrir o motivo de sua vida. Aquilo por qual era apaixonada. Não, é claro que ela não voltou para o Bordel. Nem naquele tempo, nem agora. Ela achou seu valor e tudo que ela precisou ter feito foi se olhar duas vezes no espelho.
Diane parou o carro e respirou fundo. Ela sentiu que um limite estava sendo cruzado, mas ela também sentia que era um limite que precisava ser cruzado. Emily olhou encantada para as luzes. Milhões de jornalistas faziam cobertura do local. O ar especial com a junção do momento fazia daquela noite especial. Era um laçamento de um filme, o tapete vermelho estava esticado, poucos convidados ainda esperavam pelo lado de fora. Diane olhou-a, não era muito difícil olhar para ela.
–Aquela é a sua amiga? -perguntou Emily.
–Espero que sim. -disse Diane, as mãos ainda presas ao volante.
–E o que você está esperando? -disse Emily empolgada.
–Eu não sei... -disse Diane. -Talvez o limite existe por uma razão.
–Não. -disse Emily sorrindo. -Ninguém se importa com os limites e por isso as pessoas continuam quebrando-os. Limites são apenas barreiras que as pessoas precisam ultrapassar, novas descobertas. Como a América!
Diane olhou Emily e saiu do carro. Cruzou a rua em direção ao tapete vermelho. As luzes cegavam-na, mas ela continuou o caminho. Os jornalistas foram até a ponta do tapete vermelho para arrancar alguma notícia importante do verdadeiro ator estrela daquele filme. E Lalita ainda estava lá. A atriz que entrevistava agradeceu e foi embora. Lalita se virou e encontrou uma mulher a sua frente. Franziu o cenho, como se a tivesse reconhecido. Diane olhou-a e ela parecia ótima, uma das melhores jornalistas inglesas daquele século, o que era estranho porque ela era metade indiana mas o mundo era confuso naquela época. Diane sorriu e se virou, deixando tudo as suas costas. Emily fazia sinais com a mão, mas ela queria apenas atravessar a rua. Ela atravessou, sem olhar para as luzes.
–Diane! -gritou Lalita. Ela correu até Diane sorrindo. -Eu lembro de você, meu Deus é claro que lembro.
–Eu só pensei... É ótimo ver você. -disse Diane. -Anos, anos depois.
–Vamos conversar! -disse Lalita sorrindo.
–Você não precisa entrevistar os outros atores? -perguntou Diane.
–Eu consegui arrancar daquela senhorita: "Ela está grávida!". Tenho uma notícia. -disse Lalita. -E eu tenho um coruja recuperando minha notícias nesse exato momento... Vamos!
–Tudo bem, eu estou com o meu carro. -disse Diane sorrindo. Ela viu Emily saindo do carro correndo até ela.
–Eu estou indo, tudo bem? -disse Emily sorrindo. -Vou pegar um táxi aqui.
Diane lhe entregou o dinheiro e agradeceu por lhe emprestar a coragem.
–Quem era? -perguntou Lalita.
–Minha melhor amiga. -disse Diane sorrindo. Lalita correspondeu e entrou no carro.
–E você dirige um carro! -disse Lalita. -Um carro!
–Eu aprendi a dirigir, por que as pessoas ainda duvidam disso?
–Porque elas ainda se surpreendem com pessoas maravilhosas fazendo coisas maravilhosas. -respondeu Lalita.
–E você é uma jornalista! -disse Diane sorrindo.
–Sou e estou feliz que você tenha aparecido porque eu nunca te agradeci devidamente por te me dado uma segunda chance.
–Você me deu uma segunda chance também. -disse Diane. -Você parecia ser a única parte humana que viveu dentro de mim durante quarenta anos.
–Empatadas. -disse Lalita como diria no passado. -Temos tanto para nos conhecer ainda.
–Família? -perguntou Diane parando o carro em frente a um café movimentado.
–Não. -disse Lalita. -E você? Quero dizer, como vão?
–Bem. Eu voltei a me contactar com eles, parecia que antes eu era um monstro ou algo do gênero, e eu não discordava disso.
–Eu me recuso a acreditar. -disse Lalita.
–Acho que ouve um tempo que eu recusei a acreditar também. -disse Diane.
–E, me desculpa perguntar, mas o que aconteceu?
–Com o que? -perguntou Diane. Afinal, havia sido um milagre ela apenas te-la reconhecido.
–Com tudo! Você me procurar depois de quarenta anos! -disse Lalita. -E o seu marido? Suas filhas? Com você? Eu quero saber!
–Do começo? -Lalita riu e confirmou com a cabeça.
Diane contou tudo. Lalita contou tudo. Elas sentiam que nem precisavam esconder nada uma da outra, não depois da noite que se conheceram que acabou sendo motivo de risada quarenta anos depois. Ficaram horas naquela café e quando fecharam, as duas foram foram para o bar do Plaza, ainda conversavam. Por um momento, se sentiram ainda mais vivas. Como se a Terra estivesse girando ao contrário, lhes dando o tempo que lhes fora tirado. E a cada hora passada, parecia um ano que voltavam. Lalita abriu sua bolsa e colocou o espelho em cima do balcão.
–Você guardou. -disse Diane deixando sua taça no balcão e pegando o espelho, no perfeito estado.
–Obrigada. -disse Lalita e abraçou Diane. Poderia ser as emoções imersas, poderia ser o efeito do alcool, poderia ser a força de passado, poderia ser a consequência de terem ultrapassado o limite, mas ela chorou.
–Não chore. -disse Diane sorrindo, limpando as lágrimas. -Você não tem ideias de quão estranha as pessoas velhas ficam quando choram.
Lalita sorriu e Diane a abraçou.
–Você é muito corajosa, Lalita. -disse Diane. -Você tem ideia, não tem? Porque se tiver dúvida...
Diane levantou o espelho na direção de Lalita. O reflexo estava um pouco manchado, mas ela ainda conseguia se ver.
–Você tinha razão, ficamos horríveis chorando. -Diane riu
–Quero que você olhe para você. -disse Diane.
Lalita abraçou Diane novamente. Ela nunca saberia como agradecer, assim como Diane. Elas voltaram a beber e a falar, como se nos próximos quarenta anos elas fossem falar daquele momento. Felizmente, não precisou levar quarenta anos para se vissem novamente. Diane achara uma amiga que ela nem sabia que procurava.
Santana cantarolou até Brittany adormecer. Brittany afrouxou os braços, mas Santana ainda a segurava, como se ela pudesse cair e quebrar a qualquer momento. Beijou sua testa e a mão acariciando os cabelos loiros. Um sorriso involuntário surgiu em sua face. Ela suspirava bobadamente apaixonada.
–Eu te amo, Britt. -sussurrou Santana fechando os olhos, a respiração suave de Brittany acompanhada com a sua. -E sempre amarei.
Santana adormeceu logo depois.
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