At The Ballet
22 Estreias
Notas iniciais
As nuvens cinzentas cobriam o céu de toda a região central. Já passava das duas da tarde e a pintura seria aquela mesma: nuvens cinzas cobrindo a Inglaterra. Santana desceu dois lances de escada pulando dois degraus de cada vez. Joanne a olhou, a reprovou com os olhos e se manifestou.
–Eu já disse, Santana. -começou Joanne. Santana assentiu. -Uma menina não desce a escada pulando.
–Eu só estava...
–Tudo bem. -interrompeu Joanne suspirando. -Eu sei como você está se sentindo, mas não precisa ficar pulando a escada como um animal estúpido apenas para não pensar sobre hoje. Sua estreia vai ser algo lembrado com carinho, mas a casa não precisa ser marcada também.
Santana se desculpou, mas começou a mexer o pé impaciente. Ela havia ensaiado novamente a peça com as suas irmãs, decorado e redecorado as falas, mas uma sensação nauseante lhe consumia. E ela repassava em sua cabeça a importância de ficar calma e a sensação sumia por alguns minutos. Ela inspirava profundamente e soltava. Em um dos momentos de total aconchego da mente, ela se lembrou de duas noites atras quando Brittany havia dormido em sua casa. E ela própria havia escolhido ir embora no dia seguinte para Santana se preparar sem que ela a distraísse, mas ela não sabia o quanto Santana precisava ser distraída.
–Por que você não se senta um pouco e não pensa em nada? Faça isso por alguns minutos, tudo ficará melhor. -disse Joanne puxando Santana pelos ombros até o sofá. -Eu fiz isso na minha estreia, melhorei em questão de nervosismo.
–A senhora pode me contar sobre isso? -perguntou Santana. -Um pouco de conversa faria eu me acalmar.
–Claro. Por que não? -disse Joanne.
Santana começou a pensar, deixando sua estreia de lado, na investigação do passado de sua mãe. Qual era o motivo de Joanne ter desistido?
–Estou apenas avisando. -alarmou Joanne. -A história é meio frustante.
–Estou prestando atenção. -disse Santana sorrindo.
"Eu acho que tinha treze anos a primeira vez que vi um espetáculo de ballet. Não durou mais que cinco minutos. Mamãe apenas olhou para o palco e percebeu que ninguém falava e apenas dançava, me tirou de lá rapidamente. E ela deixou essa parte bem clara quando me explicou o motivo. Enfim, eu me lembro das cortinas abrindo e os primeiros passos e eu decidi que queria fazer aquilo também. Eu me forcei numa aula de ballet, sem a mamãe saber, é claro. Na estreia, eu estava horrível! Ninguém da minha família estava lá, até porque ninguém sabia, eu estava com um furo enorme no figurino. Eu tinha vomitado umas três vezes. E quase um hora antes de entrar, a maldita daquela professora pediu para eu repassar alguns saltos. Ela fez uma cara emburrada, pediu para eu amassar os peitos e tentar a sorte sendo uma fracassada. E eu fui mesmo assim, fiz a coreografia inteira e nunca mais voltei a aquela escola. Me matriculei numa outra escola, ainda sem a mamãe saber, mas pela minha quantidade de faltas na escola, chamaram a sua avó até a diretora. Acho que nunca apanhei tanto na minha vida... Enfim, tentei uma vaga na faculdade de ballet. Quando a primeira carta chegou dizendo que eu iria passar para teste contra outras cinquenta meninas para conseguir uma vaga, eu tive que contar para a mamãe. Ela me expulsou de casa e dividi por três meses um apartamento com uma outra bailarina. Eu recebia uma pequena contia em dinheiro da minha mãe que ainda esperava meu fracasso, pelo menos por aquela época. Eu não passei no teste, voltei para Londres, mamãe me aceitou novamente. Me apaixonei pelo seu pai, tivemos vocês e estou feliz desde então."
–Por que você não continuou? Por que desistiu?
–Porque eu não era boa o suficiente. E hoje eu reconheço que não nasci para dançar. -disse Joanne. -Eu querer ser e ser de verdade são duas situações distintas. É como se eu quisesse ser um pintor sem ter braços.
–Você poderia se tornar o primeiro pintor sem braços! -disse Santana relacionando. -Você poderia ter sido o que quisesse ser. E ainda pode.
–Não, não posso.
–Sim, você pode. -disse Santana. -Você mal sentiu o sonho ser realizado.
–Santana. -disse Joanne suavemente e segurou o seu rosto. -As pessoas criam novos sonhos. E sabe porquê?
Santana apenas olhava para os olhos da mãe. Eles dilatavam quando contavam mentiras, mas agora os olhos estavam perfeitamente normais.
–Porque as pessoas começam a aceitar partes que não existiam quando um outro sonho fora construído. Quando eu falhei com um sonho bobo, descobri possíveis infinidades de sonhos que eu poderia seguir. Falhar com um sonho que não era meu, me ajudou a achar o meu grande sonho que eu não pude perceber na época. Quando você nasceu, meu sonho apareceu. Eu descobri que havia nascido para ser mãe.
–Você é a melhor mãe do mundo. -disse Santana baixinho.
–E escutar você falando algo como isso, apenas confirma meus sonhos. -disse Joanne. -Existem pessoas que nasceram sabendo do que são capazes. Assim como Catarina, que nasceu para criar cidadãos e melhorar o mundo, de um jeito meio peculiar, mas do seu jeito certo. Assim como Elizabeth, que vai se tornar uma médica, ou um piloto de avião, ou qualquer maluquice que ela queira. Assim como Rachel, que vai ser cantora ou ter uma banda de uma mulher só. Assim como a Brittany, que vai ser uma primeira bailarina de todos os espetáculos que queira. Assim como você, querida, que nasceu para ser quem quiser ser.
Santana a abraçou e Joanne sorriu. Ela falava a verdade, não tinha motivos para se lamentar sobre o passado.
–Talvez eu ainda desenhe uma linha de roupas. -disse Joanne ainda abraçada com a filha.
–Eu acredito em você, mamãe.
–Eu também.
Santana teve que comparecer pelo menos duas horas de antecedência ao Teatro. Fizeram marcações, ensaiaram mais algumas cenas importantes e a diretora os liberou para o camarim. Santana estava sentada de frente para o espelho pensando alto, a sensação de náusea passava e voltava religiosamente. Ela olhou para o lado e viu Dolores, a atriz que interpretava Catarina, se olhando intensamente no espelho enquanto pintava os lábios.
–Nervosa, querida? -ela perguntou para Santana.
–Um pouco. -disse Santana. -Você?
–Toda vez. -disse Dolores sorrindo. -A melhor sensação do mundo é quando seu estômago aperta e sua respiração falha um minuto antes de entrar. Como se você fosse morrer, vomitar, desmaiar. Mas então você pisa no palco e tudo se transforma aos seus olhos. Você sente uma pequena ligação com cada par de olhos. Essa sensação que você está sentindo será substituída pela a melhor sensação do mundo.
–Quando você fala parece assustador e depois magnífico.
A mulher riu e se virou para Santana.
–É normal se sentir assim. E você vai continuar a se sentir assim em todas as peças que fizer.
–Acontece com você?
–Toda a vez. Faz com que nós, atores, se sintam vivos.
–Dez minutos. -avisou o assistente de palco. -A senhorita King está esperando vocês.
–Céus! -disse Santana e seu coração disparou.
–Respira fundo, querida. -disse Dolores e se levantou. Santana voltou a se fitar no espelho quando a visão de Dolores apareceu no espelho, em suas costas. -Você é uma ótima atriz, Santana. Uma dica: sua reações faciais e linguagem corporal são esplêndidas, mas se dariam melhor no cinema. Você é totalmente cinematográfica, pense nisso. Você pode ser a próxima estrela de um filme americano.
Dolores piscou para ela e saiu rebolando um pouco o quadril, como as mulheres solteiras gostavam de fazer. Santana agradeceu e Dolores a ouviu, se virou e correu os braços pelo ombro de Santana. As duas faces olhando para o espelho.
–Se algum dia você tiver medo de tentar, se lembre da maravilhosa pessoa que você é. -disse Santana. Ela não havia falado muito com Dolores, mas um dia ela havia chegado bêbada durante os ensaios e contado tudo para Santana que a havia lhe tirado do palco. Dolores bebia, muitas mulheres também. Dolores não era casada, muitas mulheres também. Dolores era atriz, muitas mulheres também. E era assim que Dolores se via, uma comum sem qualquer particularidade que a deixasse interessante ou desejável ou aturável. -Porque você tem algo que a maioria mataria para ter: talento.
–Obrigada, querida! -disse Dolores apertando Santana antes de solta-la. -É bom saber que alguém acredita em mim.
–As pessoas lá fora também acreditam. -Dolores sorriu e deixou o camarim.
Santana colocou a mão no peito e deitou a cabeça sobre o balcão de madeira. Ela voltou a pensar em Brittany sentada na plateia usando um vestido amarelo que, por suas palavras, diriam exatamente onde estava sentada. Ela sorriu. Um par de mãos lhe atacou, fazendo-a pular da cadeira e quase deslocar o ombro.
–Te assustei?
–Você sempre me assusta. -disse Santana sorrindo. -Está nervoso?
–Um pouco. -disse Patrick. -Te assustar me faz esquecer um pouco das outra preocupações.
–Fico feliz em ajudar. -disse Santana com ironia. -Temos que ir até a senhorita King.
–Sim, temos. -disse Patrick e deu o braço para Santana que aceitou rindo e revirando os olhos.
–Tenho boas notícias. -disse Patrick. Santana o olhou. Eles estavam a alguns metros da aglomeração dos atores que ainda esperavam a senhorita King.
–Você curou seu coração? -perguntou Santana rindo.
–O que? Não, esse problema está longe de acabar. As meninas não gostam de ficar perto de mim. Com exceção de vossa graça. -disse Patrick rindo.
–Que gentil. -comentou Santana ainda rindo.
–Com você é diferente. -comentou Patrick. -É como se eu não precisasse impressionar você, você me conhece de verdade. E você não corre atrás de mim...
–Espera. As meninas correm atrás de você? -Santana riu. -Você realmente está quebrado.
–Ei! Vai dizer que você namoraria um menino que dormiu na sua varanda apenas para ser a primeira pessoa a te dizer bom dia.
–Ela estava tentando ser romântica, senhor frio e calculista.
–Tudo bem. -disse Patrick. -Mas eu não conhecia a menina.
–Isso foi estranho. -disse Santana rindo de Patrick. -Como... Esquece, é estranho demais pensar sobre.
–Enfim, por alguma razão não sou estranho perto de você.
–Concordo, existe um razão para essa tese. Talvez você seja tão estranho perto de mim que faz com que se sinta normal e se isso acontece, quem somos de verdade? -disse Santana gesticulando com as mãos. -E qual é a novidade?
–Boa noite. -disse Sarah King, a diretora, se posicionando em uma roda com os outros atores e assistentes de palco.
–Depois. -sussurrou Patrick.
–Primeiro, queria agradecer pelo esforço e cooperação de vocês com essa peça. -disse Sarah, que sorria, surpreendentemente. -Sabem de uma de coisa?! Minha antiga professora de teatro disse que quando pessoas talentosas se juntam elas causam dois tipos de reações: elas se confrontam e destroem o que construíram. Ou elas se juntam e formam algo maior, compartilham talento.
Os atores abaixaram suas mãos e agarram a da pessoa ao seu lado. Eles entrariam em poucos minutos.
–Dirigir essa peça foi maravilhoso. Vocês são pessoas maravilhosas e talentosas. E foi um dos, se não o melhor, elenco com qual já trabalhei. A harmonia e presença naquele palco, quando vocês entram, podem ser sentidas na última cadeira. E por trabalharmos na indústria que trabalhamos, conseguir algo perto, que é tão longe na verdade, é raro. E eu consegui, nós conseguimos.
"Eu digo nessa indústria, porque é claro que todos tivemos restrições na carreira. Essa é a décima oitava peça que dirijo e tudo porque quando eu me formei, mulheres não poderiam mandar em homens. Mulheres não poderiam ter controle sobre nenhuma experiência, ação ou ato. Me negaram exercer o diploma que havia duramente, conseguido. Eu comecei a trabalhar apenas com peças femininas e aos poucos me aceitaram em peças com personagens fortes masculinos. Minha vida está cheia de restrições! E a de vocês, também. Não sei como, não sei porque e não sei quando, mas as restrições aparecem. Contudo, mais importante do que saber o motivo das restrições é saber como você vai acabar com elas."
–A verdade é que foi prazer trabalhar com vocês. E tenho total confiança em vocês. -Os atores ao seu redor sorriram para ela. Ela sorriu e levantou uma sobrancelha. -Merda para vocês.
–Merda! -o coral de vozes graves e agudas ecoou ainda perto do camarim.
–Um minuto! -exclamou o assistente que estava vermelho e nervoso.
Os atores correram do camarim até a coxia e ouviram o guardião do tearo ditar as regras, como normalmente. O cenário era primeiramente uma árvore no canto, fazendo sombra para os dois primeiros personagens a entrar. Uma senhora e um moço, que brigavam por dinheiro e bebidas. Santana esperava com a maioria dos atores. Todos continuavam em silêncio, os dois atores entraram no palco e o guardião parou de falar. Seguindo pela esquerda, acompanhado pela cortina de veludo vermelha. Santana conseguia ver a maioria das cadeiras e estavam lotados! Era impressionante, as pessoas olhavam atentas para a interação que se surgia em cima do palco. Santana estremeceu um pouco e Patrick a puxou para trás.
–Você tem que ficar calma! -ele disse sorrindo. -Respira. Sorri.
Santana seguia tudo que ela falava.
–Muito bem, e o mais importante: seja a Bianca. -ele sussurrou no ouvido dela.
Santana pensou assim. Ela seria Bianca até a peça acabar, até o último segundo antes do pano cair. Porém, um pouco antes de ser totalmente Bianca, ela olhou para a plateia buscando pela cor vibrante de um vestido amarelo. O holofote estava forte e claro, ela mal enxergava o fim do palco. Ela conseguiu ver a orquestra em defronte ao palco e as pessoas das três primeiras fileiras. Brittany estava sentada na segunda fileira e conseguia apenas ver o palco, ambas não se enxergaram. Mas então...
Santana entrou, junto de Patrick e Dolores e mais dois atores. Nos primeiros minutos, a personagem de Santana ficava calada e Santana pode sentir cada momento sem o nervosismo de falar. Ela era a Bianca.
No momento em que ela pisou no palco, o holofote pareceu lhe dar graças. Os olhos que a assistiam não pareciam lhe julgar, mesmo os que estavam fazendo. Ela conseguia ouvir as pessoas respirando e seus corações batendo. E ela esqueceu! Por algum momento perdido, ela esqueceu que estava enlouquecida a poucos segundos. Ela esqueceu! Porque estar naquele palco era vivenciar algo esplêndido e inexplicável. Ela já havia dançado em um palco, mas a pressão era diferente. Porque quando dançou, ela dançou com o amor de sua vida e nada poderia dar errado. Mas naquele palco, tudo poderia, mas nada nadaria. Porque naquele palco, ela viu o amor da vida sentada na segunda fileira sorrindo. Porque naquele palco, tudo era diferente da dança. Naquele palco, ou em qualquer outro palco que fosse, ela estaria atuando. E atuar era a paixão que ela ainda não havia descoberto até subir naquele palco.
Brittany olhou impressionada para Santana, ela apenas tinha entrado no palco, mas seu coração correu. Um sorriso imenso surgiu em seus lábios. Ela mal ouvia a peça, ficou apenas admirando-a. Ela sentiu um toque de seu pai e pressionou os lábios, tentando esconder o sorriso que crescia gradativamente. Howard riu baixinho da filha e apontou para o palco.
–Bonequinha mimada! Melhor fora nos olhos dela enfiar dedos logo. Saberia porquê.
–Meu infortúnio, mana, te deixa alegre. Humildemente, senhor, subscrevo quanto decidistes. Os meus instrumentos e meu livro hão de fazer-me companhia.
Bianca, ou Santana, falava espirituosamente e esportivamente. Ela tinha que ser a irmã correta, sem vergonhas, orgulhosamente apresentada pelo pais e primeira escolha dos pretendentes. Mas quando Santana leu o texto e estudou-o notou algo a mais em Bianca. Algo que ela fazia para que pensassem dela uma boa moça, quando na verdade apenas esperava sua carta de alforria da vida que lhe escolheram. Ela queria ter sua própria vida. Sarah ficou tão entusiasmada com o trabalho do entendimento de Santana que dirigiu Santana em cima da sua visão.
Algumas cenas que dividia com Dolores as duas vivenciam o papel. Dolores parecia uma verdadeira megera, batendo-lhe, gritando-lhe, esperneando-lhe. As cenas corriam, os atos invadiam o espaço. As pessoas não conseguiam conter emoção ao ver o primeiro beijo de Catarina e Petrúquio, quase pulavam da cadeira. A orquestra fazia com o sentimento dos atores, e da plateia pois bem, crescessem. A última cena corria, Dolores estava ditando seu monólogo sobre como a megera fora domada e caíra apaixonada por o único homem que a amou. E fim, a peça havia terminado. Pouco mais de uma hora, quinhentas pessoas levantaram e aplaudiram e assobiavam para a cortina fechada de onde sairia o elenco. Quando juntos, as cortinas vermelhas de veludo se abriram mais um vez e as palmas se tornaram ainda mais fortes.
Santana olhou diretamente em direção a segunda fileira, estava um pouco suado pelo figurino e um pouco tonta pelo calor, Brittany estava em pé e aplaudia sem pestanejar. Seus olhos se encontraram e Brittany sorriu, orgulhosamente. Dolores empurrou Santana até o camarim e começou a rir.
–Eu falei para você! -disse Dolores rindo.
–Você estava certa. -concordou Santana rindo da animação de Dolores. -Aquela é a melhor sensação do mundo.
–Você vai sair? -perguntou Dolores.
–Eu vou ter um jantar com a minha família. -disse Santana sorrindo.
–É minha tradição sair para beber com alguns amigos, sempre funciona. -disse Dolores desfazendo o cabelo. -Se você quiser ir.
–Eu não posso beber. -disse Santana olhando-a, um sentimento estranho percorria seu corpo. -Eu agradeço, mas se minha mãe soubesse que eu ingeri algo diferente de chá ou café. Eu prefiro não pensar nas consequências.
–Eu tinha uma mãe parecida. -comentou Dolores sorrindo. -Um dia ela havia percebido que eu cresci e que poderia fazer minha próprias escolhas, e me levou para beber. Me deixou em casa e cuidou de mim. Ela me embebeu apenas para me deixar com uma mentalidade parecida com a de uma criança. Sabia que a bebida tem esse poder? Te deixar horas sem que penses sobre assuntos que te aborrecem. Ela cuidou de mim, porque apenas naquele momento ela sentiu que sua filha estava de volta. Totalmente dependente dela. Então, querida, se um dia estiveres buscando qualquer refugio da vida, não beba. Porque minha mãe estava lá para cuidar de mim, mas ela não estava quando a bebida havia desaparecido e foi substituída pela dor do outro dia.
Santana arregalou os olhos um pouco. Dolores riu, Santana notou seu corpo meio mole na cadeira e quando ela tirou o vestido, preso na cinta da sua perna estava uma garrafa de aço. Santana ouviu uma batida na porta do camarim que tinha algumas se trocando perto dos espelhos.
–Espere um pouco! -avisou Santana. -Dolores, você vai até o banheiro. Tem uma escada saindo do camarim, primeira porta a direita. Lave o rosto e me espere lá.
Dolores saiu do camarim e Santana abriu a porta. Ela ainda vestia o figurino de Bianca, mas seus cabelos e maquiagem já estavam normais.
–Santana! Você conseguiu! -disse Sarah entrando no camarim. -O público amou! Esperem as três próximas lotadas.
–Isso é ótimo, Sarah. -disse Santana sorrindo.
–Antes de vocês saírem, tem um homem que quer falar com você e Dolores. Você sabe onde ela está?
–Ela foi ao banheiro, começou a falar sobre algo que comeu no almoço e passou mal. -invetou Santana enquanto tentava buscar pelo vestido prateado de Dolores em cima da cadeira. -E ela não vomitou no figurino.
–Menos mal. Mas peça para ela se apressar. -disse Sarah. -Ela está bem? Eu deveria ir ver como ela está...
–Não! Ela não quer que você a veja vomitando, você deveria ir receber os cumprimentos.
Santana sabia que Sarah não toleraria Dolores bêbada outra vez sem que levantasse a história e Dolores não precisava que sua história fosse tão aberta.
–Tudo bem, eu acho que conheci sua família. -comentou Sarah sorrindo. -Não sabia que você era sobrinha de Catarina.
–Sou, sim.
–Isso é engraçado. -disse Sarah. -Eu estou indo até a parte externa. Quando Dolores sair, vocês duas vão até a parte externa. Todo mundo está lá.
Santana assentiu e inspirou. Sarah saiu do camarim e Santana trocou de roupa rapidamente. Correu até o banheiro e entrou. Dolores estava chorando sobre o vaso. Uma coloração alaranjada caída sobre o vaso e parte da sua perna.
–Você está bem? -perguntou Santana. Dolores negou com a cabeça. -Você bebeu?
Dolores, para a surpresa de Santana, negou novamente.
–Eu...
–Você tem certeza que não bebeu? Essa garrafinha na sua perna...
–Não tem bebida nessa garrafa. -disse Dolores baixinho. Ela começou a chorar novamente. -Tem um remédio diluído. Eu estou vomitando a quase dois meses.
Santana pegou a toalha branca e molhou na pia. Limpou a perna de Dolores enquanto a outra chorava.
–Eu vou ficar gorda! -disse Dolores histérica.
Santana suspirou e buscou o rosto de Dolores.
–Você tem a escolha de fazer o certo, mas não sou eu que vai decidir para você. -Santana levantou a sobrancelha. -Você está grávida?
Dolores assentiu com um ruido vindo de sua boca.
–Eu não sei o que fazer...
–Você tem escolha de fazer o que quiser. O corpo é seu. -disse Santana. -Mas você deveria ver um médico antes, conversar com o pai da criança. Você deveria apenas considerar apenas opiniões importantes.
Dolores fechou os olhos. Se levantou e ajudou Santana a se levantar.
–Obrigada. -disse Dolores pressionando os lábios um contra o outro. -Você já me viu em situações péssimos, não é?
–Lamentáveis, se quer saber. -disse Santana limpando as lágrimas que escorriam pelo rosto de Dolores. -Mas o importante é o modo como vinte minutos depois, você parece esquecer e se tornar a mulher mais feliz do mundo. Isso é o que me faz te admirar, Dolores.
–É, eu sou uma boa atriz.
–Ainda assim, acho que suas emoções fazem parte de quem você é. -disse Santana e sorriu um pouco. -Se você quiser ir para casa e descansar, eu inventei uma história sobre almoço ruim.
–Não, tudo bem. Eu vou fazer o que sempre faço. -disse Dolores sorrindo e colocando o vestido prateado e um sorriso. -Fingir que sou outra pessoa. Uma Dolores mais feliz.
As duas deixaram o banheiro e saíram do camarim. Dolores preferiu esquecer, por momento, e Santana preferiu pular aquela parte da noite. Sarah as viu saindo e as arrastou até um crítico muito famoso por suas formas brutas e simpáticas, o único que conseguia junta-las.
–Bela peça, moças. -disse o crítico que não tirava os olhos de Dolores, principalmente dos seios um pouco a mostra. -Minha crítica estará amanhã no jornal, coluna de críticas.
Santana agradeceu, mas achou que o homem mal a ouviu e saiu rindo indo até a parte externa, procurando por vestidos amarelos.
Brittany estava de costas, conversando com Catarina sobre a forma da mulher utilizada na peça. Ela sentiu olhos fixos na sua nuca e se sentiu um pouco incomodada. Ela se virou e viu o menino que atuava com Santana, Patrick. Ele desviou o olhar e saiu caminhando. Brittany respirou profundamente e tentou encontrar Santana que demorava, na sua concepção.
Santana bateu contra um corpo que a segurou antes que caísse.
–Eu não fiz de propósito. -disse Patrick rindo.
–Tudo bem, acho que a culpa foi minha. -concordou Santana. -Estou procurando Bri... Minha família!
–Eu acho que vi sua família naquela direção. -ele apontou de onde estava vindo. -Você tem uma irmã loira?
–Loira? -perguntou Santana séria, mas sorriu e riu. -Ela é minha... melhor amiga.
–Então, posso te contar minha novidade?
–Se for rápida.
–Estou contando... -disse Patrick. -Eu... Eu passei num teste que fiz para o cinema!
–Patrick! -disse Santana abraçando-o. -Isso é ótimo! Espera, você vai sair da peça?
–Vou cumprir a temporada, três meses inteiros. -disse Patrick. -Ainda tenho que te assustar muito.
Santana revirou os olhos e o abraçou mais um vez.
–Parabéns! -disse Santana sorrindo. -Agora, acho melhor ir embora. Meu pai tem reservas e ele não gosta de esperar muito tempo.
–Tudo bem, estou procurando minha mãe também. -disse Patrick rindo e olhou para o vão de onde os carros saiam. Apontou para o vestido chamativo de Dolores. -Parece que alguém encontrou alguém hoje.
Dolores estava com o casaco do crítico por cima do vestido e sorria. Correu até Santana e Patrick que estavam pouco metros diante dela e abraçou os dois de uma vez.
–Vamos tomar um café. -ela disse para Santana sorrindo. -Parece que tradições mudam. Podem se tornar melhores.
Ela caminhou de volta ao lugar e entrou no carro. Patrick avistou a mãe e se despediu de Santana. Ela viu várias pessoas ainda, mas dentre todas apenas uma usava o vestido amarelo.
Santana seguiu o caminho até os corpos que conhecia. Estavam de costas pedindo que John trouxesse o carro. Ela ouviu Brittany sussurrar para Catarina.
–Onde Santana está? Será que ela está bem? -Santana olhou para os cabelos loiros soltos, viu o pescoço e sentiu vontade de morde-lo. Brittany sentiu novamente a sensação de estar sendo vigiada e se virou. Ela viu Santana a dois passos de distância e a abraçou.
–Você foi tão bem! Estou tão orgulhosa de você! -sussurrava Brittany no ouvido de Santana que a apertava contra seu corpo.
–Você está tão linda! -sussurrou Santana no ouvido de Brittany, antes que todos se voltassem para elas e abraçassem e parabenizassem Santana.
Brittany lhe entregou um buquê de lírios ao caminho do carro. Ela beijou uma flor e entregou para Brittany sorrindo.
Eles foram novamente para o Plaza. "Acho que eu tenho uma tradição, afinal." pensou Santana sorrindo olhando para todos ao redor da mesa. Brittany apertou sua mão de baixo da mesa.
–Você foi perfeita. -sussurrou Brittany sorrindo. -Eu vou repetir isso sempre.
–Estou animada, sabia? Estar naquele palco foi... a sensação é maravilhosa. -disse Santana sorrindo.
–Você deveria fazer isso. -disse Brittany olhando-a mais a fundo, capitando seus detalhes como gostava de fazer. -Você parecia tão feliz naquele palco.
–Talvez. -pensou Santana sorrindo. -E você?
–Ainda tenho uma última sensação para experimentar antes de tirar conclusões.
–Minha mãe comentou que você será a bailarina que todos terão o prazer de contratar. E eu concordo.
Brittany ficou vermelha e Santana sorriu.
–Obrigada.
–Britt, você acha que é muito cedo para escolhermos o que queremos fazer na nossa vida?
–Acho que não. -comentou Brittany e apertou a mão de Santana. -Existem algumas coisas que já escolhi ter pra sempre.
–Sem murmúrios na mesa. -disse Joanne rindo e olhando para as duas que foram obrigadas a entrar na conversa. Santana mordeu o lábio inferior e apertou a mão de Brittany.
No fim do jantar, Catarina murmurou algo no ouvido de Joanne que balançou a cabeça freneticamente. Veio até Brittany e murmurou em seu ouvido que balançou a cabeça freneticamente e sorriu para Catarina, agradecendo por parte nem querendo imaginar o que aconteceriam na outra casa.
–Você vai dormir na minha casa. -afirmou Santana com uma sobrancelha levantada. -O melhor dia da minha vida.
–Bem, você deveria agradecer Catarina. -disse Brittany sorrindo. -Eu vou ao banheiro.
Howard e George estavam fazendo o que faziam sempre que podiam, discutiam tudo que podem. E na maioria das vezes, concordavam. Elizabeth, Rachel e Joanne estavam conversando sobre moda e tudo que haviam preparado para o aniversário de Elizabeth que não ligava muito, mas ainda tentava convencer a sua mãe para que guardasse o dinheiro que ela usaria para uma viagem quando mais velha. Diane e Catarina conversam sobre visões da sociedade, independência e todos os assuntos que interessam Catarina e ultimamente Diane que comentava sempre de Lalita, jornalista admirada por Catarina. Um ciclo de conversas que antes incluía as duas bailarinas, mas que agora não se importavam que a segunda bailarina se dirigisse ao banheiro.
O banheiro não estava vazio, a maioria eram mulheres na frente de espelhos arrumando os cabelos e se tranquilizando para quando voltassem para o jantar que estava um fracasso. Ninguém estava na região dos banheiros, que ficava afastada. Brittany estava sentada no sofá vermelho, olhando fixamente para a porta. Quando Santana entrou, ela apontou para a região afastada e Santana se caminhou para lá. Um minuto depois, talvez menos, Brittany procurou as pernas de Santana e entrou no espaço, trancando a porta e se virando em Santana. Ela invadiu os lábios de Santana com fúria e vontade, Santana segurou o rosto de Brittany e prendeu suas mãos nos cabelos loiros. A magia, eletricidade que corria por seus corpos de juntou tornando tudo maior. Brittany já tinha a língua em contato com a de Santana. A maciez das línguas e dos lábios fizeram Santana levar uma mão até o ombro de Brittany e abaixar a alça do vestido amarelo e apertar o seio de Brittany ainda por cima do tecido. Brittany gemeu com o toque e pressionou
Santana contra a parede do lado e parou de lhe beijar e beijou sua clavícula. Santana abriu um pouco as pernas e Brittany apenas pressionou os lábios nos de Santana.
–No banheiro... não. -disse Brittany com dificuldade, mas ela sorriu. A eletricidade ainda saia de seu corpo e percorria pelo de Santana, eles tinham que ficar quietas até que a eletricidade abaixasse apenas para se mexer. Era como se sentiam, fogos de artifício saiam de seus corpos quando se beijavam.
–Eu concordo. -disse Santana respirando pesadamente. As pernas ainda um pouco abertas. Ela beijou a clavícula a mostra de Brittany e subiu a alça do vestido amarelo.
As duas voltaram, sendo notadas por Catarina o que fez Diane olhar, ela sorriu como se fosse uma piada. E ficaram na mesa até irem embora. Onde Catarina e Howard foram levar Diane que não gostou de ser acompanhada até em casa se tinha um carro novo em sua garagem, mas entrou no carro de Howard sem discutir.
A família Kutterin acompanhada de Brittany, entraram no carro e George e Joanne começaram a conversar com Santana enquanto Brittany ouvia as piadas de Beth, enquanto Rachel revirava os olhos nas mais ridículas. Era perto da uma da manhã, quando todos já estavam deitados e a maioria adormecido.
–Sant. -disse Brittany que a tinha nos braços descansando. -Eu não me sinto bem.
–Você está bem? -perguntou Santana rapidamente se levantando.
–Estou. -sussurrou Brittany pela preocupação de Santana. -Queria dizer que não me sinto bem atuando. Não como você pareceu.
–Você não precisa fazer isso, Britt. -disse Santana sentando na cama e tocando o rosto branco. -Você tem que fazer aquilo que ama.
–Eu só tenho uma certeza do que amo. -disse Brittany sorrindo.
–Então, escolha isso. -disse Santana sorrindo. -Mas eu acho que você deveria tentar, pelo menos tentando você terá certeza do que ama.
–Eu amo você. -disse Brittany lhe beijando os lábios.
–E eu amo você. -Santana foi deitando Brittany na cama, fogos de artifício explodiam pelo quarto.
Na manhã seguinte, Santana correu até seu pai e buscou pelo jornal que seu pai ainda lia.
–Eu já li a coluna. -disse George sem olha-la. -Acho melhor você ler.
–É algo ruim? -perguntou Santana sem conseguir olhar para o papel. -Não! Eu não posso ler aqui! Mas é algo ruim?
–Porque você mesma não lê? -disse George virando as páginas. Santana correu escada acima e George começou a rir e tomou um gole de café. Ela não fazia ideia do que tinha nas mãos.
–Sant? -perguntou Brittany sonolenta sentando-se na cama. -Você está a quanto tempo andando em círculos?
–Eu não faço ideia. -disse Santana batendo o pé por ficar parada encarando Brittany nervosa. -Eu não posso ler, Britt. E se for algo muito ruim?
–E se não for? -disse Brittany sorrindo. -Você foi muito bem! E eu não digo isso apenas porque sou sua namorada, digo porque sei que você é muito boa!
–Você acha? -disse Santana sentando-se na cama com os joelhos. Brittany segurou suas mãos e confirmou com a cabeça. -Obrigada.
–Por que não lemos juntas? E se não gostarmos do que ouvimos paramos de ler. -perguntou Brittany, Santana buscou pelo jornal e entregou a Brittany que abriu na coluna. Santana sentou-se ao seu lado e as vozes em uni som começaram a ler:
"Santana Kutterin, a revelação criada por King, interpretou Bianca, um dos papeis mais fáceis de Shakespeare, incluindo os de uma única fala. Minha visão de Bianca era: 'sem graça, um coração disputado.' Cinco palavras e está ótimo! Na noite de ontem, Santana Kutterin (faço questão de digitar seu nome duas vezes) me trouxe uma nova versão de Bianca, onde cinco palavras não descreveriam nem o primeiro ato. Trouxe a vida que Bianca escrita por Shakespeare, sempre pensou em ter. A menina fez que com escutássemos os pedidos profundos de Bianca com apenas um olhar ou frase. Ela fez bom uso de todas as falas e expressões. Bianca não pareceu uma dama agonizante em busca do homem que sobrevivesse na luta pelo seu coração. Bianca, se tornaria independente no momento em que Catarina fosse embora. Bianca não estava esperando para que o homem vitorioso a levasse com ela, ela esperava que fosse embora buscando aquilo que lhe fora privado. Bravo, Santana Kutterin, por trazer a Bianca que nunca conhecemos e amamos. (E eu
nunca digito três vezes o mesmo nome). Bravo."
–Sant! -disse Brittany sorrindo e abraçou o corpo moreno rindo. -Ele não disse uma palavra negativa sobre você! Isso é ótimo!
–Eu li direito? -perguntou Santana contra o ombro de Brittany. Santana começou a rir e beijou os lábios de Brittany.
–Estou tão orgulhosa de você. -Brittany contornou os detalhes do rosto de Santana.
Dois meses depois
Brittany estava errando falas e tremia toda vez que Brandon ia beija-la, não o fazia e recuava. Charlie estava enlouquecendo, mas tranquilizou todos e pediu cinco minutos de descanso.
–Brittany! -disse Charlie com as mãos nas têmporas. -O que você... Onde você está?
–Me desculpe, Charlie. -disse Brittany com as mãos nos quadris. Respirava profundamente. -Eu vou me sair bem hoje a noite, preciso apenas me acalmar.
–O problema é que você ainda é a Brittany. -disse Charlie sorrindo para ela. Ele aprendeu que a tratando bem, tudo funcionava melhor. -No momento em que eu disser "luz", você é a Cinderela.
Brittany assentiu e acomodou seu corpo no palco. Deitou no centro do palco e fechou os olhos. Ela sentiu uma gota de água caindo em seu nariz e ela se imaginou no bosque onde seu pai a levava quando mais jovem, chovia todos os dias e Brittany deitava na grama com a chuva castigando seu corpo pequeno. Outra gota, alguém havia lhe chamado.
–Você está bem? -perguntou Brandon lhe entregando um copo com água. -Você está tão pálida e errante.
–Acho que estou nervosa. -disse Brittany rindo. -Eu vou me concentrar nesse ensaio. Prometo, deve ser difícil para você. Trabalhar alguém sem experiência.
–Brittany, isso não quer dizer que você não seja boa. -disse Brandon. -Eu acho que você está apenas com medo de palco. Isso passa no primeiro show.
–Espero que sim. -comentou Brittany ficando de pé. -Eu vou até o camarim, obrigada por me ajudar Brandon.
–Sabe, Brittany. Eu vi você dançando, você é muito boa. -disse Brandon sorrindo. -Eu conheço uma menina que me disse que tudo aquilo que atrapalha pelo que somos apaixonados deveria ser ignorado, devemos fazer aquilo que nos agrada e tentar.
Brittany sorriu e concordou.
–Ela parece uma menina inteligente. -comentou Brittany sorrindo. -Eu estou pensando nisso.
–Merda pra você. -disse Brandon rindo.
–Posso perguntar porque as pessoa ficam repetindo isso para mim? -perguntou Brittany baixinho. -Nas minha apresentações de dança também, mas fiquei com vergonha de perguntar o motivo.
Brandon começou a caminhar com ela até o camarim.
–Antigamente, quando um show fazia muito sucesso, significava muitas pessoas. Muitas pessoas significavam muitas carruagens que significavam muitos cavalos. Diziam que os atores iam até a entrada do teatro e ficavam olhando a quantidade de merda, se tivessem muita merda significava um show lotado. Onde surgiu a expressão.
–Isso é fascinante! -disse Brittany rindo. -Estou grata que inventaram os carros.
Brandon riu e ouviu Charlie lhe chamando pela escada e foi até ela. Brittany entrou no camarim que dividia com Morgana, sua substituta. Ela estava escorada num canto, sentada numa caixa de verduras.
–Morgana, eu já disse que não precisa se sentar numa caixa de verduras. Você pode usar minha cadeira. -disse Brittany sorrindo. A menina não sorriu de volta e começou a tossir. -Você está bem?
–Não. -disse Morgana, os cabelos loiros quase brancos de tão claros e quebrados. -Brittany, você sabia que tem um fantasma zangado com você nesse camarim? Ele não gosta que roubem o camarim dele.
Qualquer outra pessoa riria na cara de Morgana e diria para cuidar da saúde que começava a atacar sua cabeça, mas não Brittany que tratava todos bem.
"É uma moça e ela foi morta pelo marido. O corpo estava nessa camarim, ensanguentado e morto. O homem a odiava e a traia, quando ele descobriu que ela sabia, ficou furioso e descontou sua fúria em sua esposa. Até hoje, ela odeia que usem seu camarim."
Brittany olhava para tudo rapidamente, a luz do corredor se apagou e fez Brittany sair correndo do camarim.
–Menina estúpida. -disse Morgana.
Outras dançarinas olhavam para Brittany como se ela fosse diferente delas. Ninguém gostava de que ela fosse tão perfeita, a inveja fazia com que suas faces ficassem verdes. Brittany só conseguia falar com Brandon, Charlie e Pollyanna. Todos pareciam lhe odiar e superestimar o motivo de te-la ali. Ela estava nervosa, escorada num canto qualquer. Ela estava desde as três horas repassando falas, expressões faciais e movimentos. Ela queria chorar, mas não poderia. Ela queria um abraço. Ela precisava de um abraço. Ela pediu, para quem a lhe escutasse que alguém lhe abraçasse e dissesse que estava tudo bem, mas não poderiam ser qualquer braços.
–Brittany? -perguntou uma voz conhecida. Ela olhou para o corpo da loira escorado no canto da coxia. Caminhou rapidamente até ela e a pegou nos braços. -Vai ficar tudo bem...
–Não, não vai! -disse Brittany permitindo-se chorar. -Eu odeio estar aqui!
–Querida, então por que ainda está? -disse Catarina apertando forte o abraço. -Você não precisa estar aqui ou ficar triste para vir aqui.
–Achei que se eu conseguisse mostrar que posso fazer outra coisa além de dançar, as pessoas não falariam que sou inútil.
–As pessoas falam isso? -perguntou Catarina, realmente surpresa. -Então, elas nunca viriam você dançar. Ou comentar sobre os livros que lê. Só porque você teve a sorte de ter um dom e desde pequena saber que tinha esse dom, não te faz o que as pessoas falam. Faz com que as pessoas, elas sim, estúpidas! Você é inteligente, Brittany.
–Santana diz que eu sou um gênio. -disse Brittany baixinho, mas abrindo um sorriso.
–Ela esta correta. -disse Catarina limpando as lágrimas que escorriam pela face de Brittany. -Você nunca se preocupou com a opinião alheia.
–Eu nunca me preocupei com a opinião que diz respeito a Santana. -disse Brittany sorrindo. -Quando as pessoa diziam que eu não estava dançando como antes, eu fiquei aterrorizada! Era a única coisa que minha queria que eu fizesse! Se eu não tivesse isso, não poderia faze-la feliz. Quando uma das meninas comentou que eu não havia ganhado o solo porque estava dançando mal, me prendi a qualquer outra coisa que não fosse a dança, porque se eu voltasse a fracassar lá, nunca seria um total fracasso.
–Você não é um fracasso. -disse Catarina. -Seu pai comentou que você estava nervosa e pediu que ele encontrasse audições. Foi por isso que você inscreveu Santana?
–Se ela estivesse aqui, eu nunca estaria triste. -disse Brittany. -Não era para ficarmos separadas, mas aconteceu. E Santana adora atuar, consigo ver em seus olhos. Mas eu não! Eu odeio!
–Então, o que ainda estamos fazendo aqui? -perguntou Catarina sorrindo e se levantou. -Eu vou jogar o almoço que seu pai fez fora, porque nós vamos até o seu restaurante preferido. Você vai dizer que está saindo da peça para o Charlie enquanto eu busco o carro. Se lembre, desistir de um sonho que não é seu, não é desistir.
Brittany entrou no palco e todos os risinhos das bailarinas começaram, ela viu Brandon dando em cima de uma bailarina e riu.
–Podemos recomeçar? -perguntou Charlie.
–Posso conversar com você? -perguntou Brittany, os olhos em cima dela. -É importante.
–Claro. -disse Charlie preocupado. Os dois saíram e foram até a coxia. -Não precisa falar nada, Brittany. Eu sei.
–Você sabe? -perguntou Brittany. -Acho que não estamos falando sobre a mesma...
–Você não quer fazer. -disse Charlie. -Eu entendo, você parece um pouco com a minha esposa. Ela descobriu que não tinha vocação para atriz. Eu entendo o que você está passando. Eu não vou marcar você, pode ter certeza. É exatamente para esse tipo de situação que temos uma substituta.
–Você é melhor do que as pessoa falam. -disse Brittany abraçando o corpo de Charlie. -Eu serei muito grata pela oportunidade, mas isso não sou quem eu quero ser! Nunca foi! Quando eu danço, é apenas eu e meus sentimentos.
–Tudo bem, Brittany. -disse Charlie. -Mas você vai me dever um favor, quando eu precisar de uma bailarina tão boa quanto você, promete dançar?
Brittany riu e concordou com a cabeça. Ela subiu até seu camarim e buscou tudo que era seu. Olhou para Morgana e saiu, então voltou.
–Obrigada. -disse Brittany. Colocou os óculos no rosto e desceu as escadas. O carro de Catarina a esperava na porta do teatro.
–Como se sente? -perguntou Catarina sorrindo.
–Como se eu tivesse asas e pudesse voar. -disse Brittany rindo. -Céus! Eu esqueci que meus avós vem apenas para me ver, o que eu vou fazer?
–Eles já chegaram. Eu dei alguns telefonemas enquanto você estava buscando suas coisas. O que você acha de fazer um jantar na casa da minha mãe?
–A senhora Carmel? Não, não... Eu nem sei se ela gosta de mim.
–Eu sei que ela gosta, mas sabe o que mais? Ela odeia o clube de leitura, e quando eu liguei perguntando, ela disse que faria qualquer coisa para se livrar daquelas... moças. -disse Catarina rindo e parando num estrada afastada. -E sabe o que mais? Ela tem um jardim colossal! Você poderia dançar! Mostre para seus avós aquilo que você nasceu para fazer.
–E a Santana? E a sua família?
–Eu vou ligar para Joanne, e você pode fazer uma surpresa para Santana. -disse Catarina sorrindo. O carro fez uma curva e entrou no movimento novamente. -Você tem apenas que se lembrar que você se sentiu livre. Respire fundo! Eu posso tocar piano e eu descobri que seu pai toca instrumentos de corda.
–Ele o que? -Brittany começou a rir. Ela respirou fundo. Ela estava mais relaxada. -Você quer dizer violão?
–Todo o tipo! -disse Catarina parando o carro e rindo com Brittany durante uns dois minutos inteiros. -Eu estou o amando mais.
Catarina se calou. Ela nunca havia falado tão certamente, principalmente para Brittany. Brittany olhou-a e a abraçou.
–Você também tem que abrir suas asas. -sussurrou Brittany, as duas saíram do carro e entraram num restaurante que servia o melhor prato francês em Londres.
Umas quatro horas depois.
Santana estava na sala rindo com uma carta em mãos. Dolores havia decidido ficar com o bebê e saiu da peça, ela estava noiva do crítico que aceitou o bebê que Dolores esperava. Ela havia escrito para Santana gradecendo sua paciência, sem julgamentos, e cuidados. Contando como Santana a havia feito perceber que tinha que cuidar melhor da sua vida e que não sabia pra aonde estava indo. E que ela havia descoberto o motivo de ser diferente e original, sua vida inteira. Isso a fazia diferente. Santana vestia o vestido branco que ganhara de Brittany.
–Por que bebês crescem tão rápido? -perguntou Joanne olhando para Santana. -Você mal cabia nos meu braços quando nasceu!
Santana riu. George entrou e começou a falar da primeira vez que segurou Santana.
–Vocês combinaram isso?
–Não. -disseram juntos. Alguns minutos depois, estavam saindo de casa, junto de Rachel e Elizabeth. Eles passaram pelo teatro que tinha uma fila grande. O carro passou direto e Santana olhou assustada para seus pais.
–O teatro... Passamos o teatro. -disse Santana.
–Eu sei. -disse Joanne calmamente. -Tivemos uma troca de planos.
–Não, mãe! -disse Santana baixinho. -Eu prometi para Brittany que eu estaria lá.
–Eu sei. -disse Joanne a olhando estranho, respirando pela boca. -Estamos indo para a sua avó.
–A vovó está bem? -perguntou Beth.
–Está. -foi tudo que Joanne disse. E sua mente flutuou para a parte da qual vinha tendo medo desde sempre: a verdade.
Eles chegaram na casa de Diane que estava totalmente iluminada, alguns risos eram ouvidos da varanda. Santana estava preocupada e a imagem de Brittany a procurando no teatro não saia de sua cabeça. Catarina, que estava vestindo um de seus melhores vestidos, saiu da casa e ainda ria. Joanne apenas a cumprimentou e entrou na casa, ainda pensando.
–Estou feliz que estejam aqui! -disse Catarina abraçando as sobrinhas e George. -Santana, posso falar com você?
–Tia Catarina, o que está acontecendo? Por que ninguém está no teatro? Aconteceu algo com a Britt? Por que ninguém quer me contar nada?
–Espere um pouco, Santana. -disse Catarina rindo e sussurrou enquanto conduzia Santana pela casa. -Ela está bem. Santana! Você conhece Oliver e Belle? São os avós de Brittany.
Santana viu três mesas de quatro lugares cada ao redor do piso de madeira baixo onde ficava o sofá e que agora estava vazio. O piano de calda branco estava no fundo, junto com alguns instrumentos antigos.
–Santana! -chamou Diane rindo. -Querida, você está pálida!
–Estou nervosa. -disse Santana sorrindo para avó. -A senhora pode me contar o que está acontecendo?
–Infelizmente, não. Eu também não sei na verdade. -disse Diane rindo. -Os avós da Brittany são o meu estilo de gente. Estou a ponto de ir para o hospital de tanto rir. Mas é claro que não poderia estar melhor. Santana, essa é a minha amiga: Lalita.
–A jornalista? -perguntou Santana para Diane que assentiu. -É um prazer!
–Diane! Ela é realmente linda! -disse Lalita sorrindo e beijando a bochecha de Santana. -Meu crítico ama a peça que você está atuando. Simplesmente, qualquer peça que ele vá ver, usa Megera Domada como escala de boa ou ruim.
–Obrigada. -disse Santana rindo. -Meu pai adora seu jornal, principalmente as colunas sobre invenções.
–Vamos buscar algo para você comer. -disse Lalita sorrindo. -Hoje é uma grande noite, não é?
–Se eu soubesse do que se trata. -comentou Santana rindo, mas juntando todo o tipo de informações, ela sabia o que esperar e respirou aliviada por Brittany estar bem.
–Você irá gostar, eu acho. -disse Lalita que entrou na cozinha com Santana. -Em, você pode buscar algo para Santana? Ela está meio pálida.
Anna, Felícia e Emily conversaram e pelo barulho da porta, voltaram a fazer seus afazeres. Emily concordou e separou algo com frutas para Santana que agradeceu.
–Como é vivenciar o teatro? -perguntou Lalita sorrindo.
–É a melhor coisa do mundo. -disse Santana sorrindo.
–Eu ainda quero ir na sua peça, sua avó estava comentando o quão boa você é. -disse Lalita mordiscando uma uva. -Eu tenho alguns interessados em novas atrizes. O mundo do cinemas vai mudar, querida! E vai precisar saber falar para sobreviver. Mas vamos falar disso depois... Como vai a escola?
–Minha tia me dá aulas, são para que eu consiga ter as aulas de ballet. -disse Santana percebendo que não comia nada desde o café da manhã.
–E você também dança? -perguntou Lalita impressionada. -Eu vou te entregar umas informações que são confidenciais sobre cinema. Qualquer pessoa que saiba, se dará bem. Temos que falar melhor, Santana.
–Eu também acho. -disse Santana rindo.
As duas voltavam e muitos conversavam, Santana notou que Julieta olhava para tudo, um pouco mau-humorada, mas preferiu não perceber. Ela notava uma força estranha vindo dela e preferia ignorar.
–Você é a famosa Santana! -disse Oliver com um copo de bebida vazio na mão. -Brittany não parava de falar de você! Bell, é a Santana!
Santana riu.
–Ela está aqui? -perguntou Santana disfarçadamente.
–Está. -sussurrou Oliver. -Mas não fui eu quem lhe contei.
–Que menina mais linda! -disse Belle chegando perto dos dois. -Você é muito parecida com a sua mãe!
–Obrigada. -disse Santana sorrindo. -Brittany tem a energia de vocês.
–Ouvimos muito isso. -disse Oliver fazendo as duas rirem.
As luzes da sala começaram a acender e apagar. Fazendo com que todos olhassem para o interruptor onde Emily e Anna abaixavam e levantavam. Catarina chamou a atenção de todos.
–Vamos sentar, Olly. -disse Belle. -Vem, Santana. Vamos sentar!
As três mesas se ocuparam e Howard se levantou. Catarina e Howard estavam no centro do palco improvisado e todos ficaram quietos. Santana olhava para os lados procurando Brittany, o buquê que havia comprado para lhe entregar no fim da peça estava numa cadeira vaga ao seu lado.
–A maioria conhece o motivo de estarmos aqui, mas para aqueles que desconhecem, viemos explicar. -começou Catarina. -Todos sabem que hoje, nesse exato momento, seria a estreia de uma peça chamada "Cinderella". Contudo, nem todo o elenco está lá. Um menina especial, ligada a todos nós, percebeu que havia cometido um erro. E nesta noite, ela veio mostrar o quão certo ela está de ter deixado o erro partir. Digo de antemão, que a bailarina prestes a entrar, quer apenas ser uma bailarina e é isso que ela nasceu para fazer.
–Com vocês, Brittany Grant! -disse Howard rindo. Catarina e Howard sentaram no banco do piano enquanto Catarina tocava as teclas lentamente do piano e Howard dedilhava o violão. Brittany entrou pela porta branca da sala vestindo uma de suas roupas de apresentação. Percorreu os olhos e achou Santana olhando, orgulhosa para ela. E era com aquele olhar que ela se importava, porque não importava quantas pessoas a olhassem, aquele olhar fazia com que Brittany se sentisse a melhor e de fato era, pelos olhos de Santana.
Os movimentos de Brittany seguiram as notas musicais. Ela dançava com o amor que tinha no peito. Ela se sentia a pessoa mais feliz do mundo quando dançava e era aquilo que queria. Santana se sentia bem atuando e Brittany dançando. Brittany se sentia bem mostrando para todos, através de seus movimentos, como era por dentro, o que sentia. Aquele era a verdadeira Brittany.
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