Notas iniciais
Desculpem-me por não ter postado antes. Infelizmente só consegui postar o capítulo hoje.
E é nesse aqui que Lyanna finalmente conhece Daryl c:
Boa leitura!

Cheguei como se estivesse pisando em um lago congelado e esse estivesse prestes a derreter. Hoje a calmaria não me convence. Fiquei atrás de uma árvore, há uns 50 metros da casinha, e observei cuidadosamente. Se houvesse perigo, qualquer passo seria a minha passagem só de ida para o inferno. Tudo de mais horrível no mundo poderia estar naquela casa, ali e agora.

Com o passar dos anos aprendi a me defender e a defender as pessoas ao meu redor, mas o que com certeza não me ensinaram foi autoconfiança. Ninguém colocou uma coisinha chamada “coragem” na minha cabeça, talvez até pelo fato da minha personalidade rígida e séria, por pensarem que o fato de eu estar defendendo seria motivo demais para ser a pessoa mais corajosa do mundo. Mas a verdade é que a dor me fez perder a autoestima, o autocontrole, os sentimentos ou pelo menos boa parte deles. Se eu já não tenho chances para amar e proteger as pessoas que mais amei, porque não desperdiçar o tempo protegendo outras pessoas? Isso é uma maneira interessante de refletir sobre a vida, Bernadete me disse uma vez.

Eu a protegi, dei proteção ao grupo, eu protegia todos e agora que mais preciso desse ânimo ele não aparece. Andei o que pareceu a eternidade para chegar aqui e minhas pernas não param de tremer. E o fato de eu estar seminua e apenas com uma faquinha na mão piora tudo. Tiro a faca do meu bolso e a encaro. Ela é tão bonita para algo tão perigoso. Respiro fundo e começo a andar em direção a casa, posicionando-me de árvore em árvore, sempre com a faca nas mãos. Fico frente a frente com a porta e suspiro.

A casa é tão velha... Feita de uma madeira que um dia foi extremamente resistente e hoje não passa de alimento para cupins; as duas janelas ao lado da porta estão quebradas, o que me fez pensar que alguém já esteve ou até mesmo está ali; do lado esquerdo, onde parecia ter sido um jardim, tinha três zumbis mortos, e pelo avanço da desintegração já estão ali há algum tempo. Olho novamente para eles e imediatamente acho estranho. Aproximo-me e vejo que boa parte de seus membros foram comidos. É... Acho que não chegaram a viver novamente. Esqueço aquilo e volto minha atenção para a porta. Eu preciso entrar. Vim até aqui para isso. Você não é mulherzinha, digo para mim mesma. A porta não tinha maçaneta, então o jeito seria empurrar. E foi isso que eu fiz. Empurrei-a lentamente com o pé, fazendo toda aquela escuridão criar vida com a luz do sol. Levo um pouco de tempo parar adaptar minha visão àquilo e só então entro. Tudo em silêncio. A sala é bem pior que a parte de fora da casa. Uma pequena TV tinha sido jogada no chão e desgastada com o tempo; o carpete está rasgado em partes e algo me diz que não foram zumbis, muito menos cupins; há sangue em boa parte do chão e se não me engano tem uma perna próxima ao cômodo ao lado. Meu Deus..., penso nervosa.

Vou aproximando-me e girando meu olhar pela sala até dar de cara com alguém sentado em uma cadeira de balanço. Tenho um susto. Volto em silêncio para fora da casa e respiro profundamente. Será que me viu?, penso assustada enquanto coloco a mão no peito. O que está lá parece ser uma mulher. Talvez ela esteja morta... Talvez não. Volto novamente para a casa e dessa vez em passos 10x mais lentos que da primeira vez. Olho para ela e noto que a cadeira está voltada para a parede, ou seja, com certeza ela não me viu. Fico atrás de um sofá, frente a frente com ela até que vejo uma sombra do lado de fora da casa e me abaixo. Meu coração está à mil e ele acelera ainda mais quando escuto uma pisada forte de alguém entrando. É tão forte que a madeira começa a ringir. Levanto só um pouquinho a cabeça para ver o que estava acontecendo e vejo um homem muito alto, talvez 2,10m, com braços gordos e a cabeça um pouco torta, levando em seus braços um cervo morto. Ele está mancando. Quando menos espero a mulher começa a se balançar na cadeira, fazendo um som alto e aterrorizante, devido a madeira pobre. Outra sombra aparece na porta e abaixo minha cabeça imediatamente. Temo que seja outro homem alto e sombrio até que entra um menininho, de quatro ou cinco anos, arrastando pelas orelhas um coelho cinza com manchas brancas. Paro para observar sua face e me amedronto. Metade do seu rosto está sem a pele e... Seu maxilar... Que maxilar? Ele não tem!

Onde eu fui me meter?, penso em um mar de nervosismo. Volto a encarar aqueles seres estranhos e tenho um susto ao ver a mulher se levantar. Ela usa um vestido branco, ou pelo menos era, porque agora está sujo, rasgado e ensopado de sangue. Para surpreender ainda mais ela só possui um braço. Era só o que faltava. Os três andam em direção ao cômodo ao lado onde a perna estava próxima, e à medida que vão andando eu vou girando em torno do sofá, com receio de alguém me ver. Quando os três já estão no outro cômodo, passo a engatinhar para fora da casa. Olho para os meus seios e lembro que preciso de uma camisa. Droga..., penso enquanto volto a engatinhar pela sala, quase vomitando devido a imensidade de sangue espalhado pelo chão. Noto que tem outra porta, frente a frente com o cômodo que aquelas pessoas entraram. Sim, pessoas. Revolto-me ao pensar que aquilo são zumbis. Zumbis não são quietos, não trazem comida para outros, eles não têm sentimentos, estão mortos! Começou assim e é assim que vai acabar.

Direciono-me para a porta a mais silenciosa possível. Esqueço-me da vastidão de sangue no tapete e sem querer passo a mão no rosto. Quase vomito novamente, mas logo esqueço isso. Chego ao quarto e quase pulo de alegria ao ver um guarda-roupa caindo aos pedaços. Vou até lá e de imediato vejo uma camiseta cinza jogada no chão. Pego-a e assim que olho para o lado vejo outra criança daquelas, dessa vez uma menina, olhando para mim. E ela é bem pior que o que vi pela primeira vez. Meu coração volta a dilacerar meu corpo com as batidas fortes. Recuo uns passos e bato sem querer na porta do guarda-roupa, fazendo-a cair e emitir um som altíssimo.

- Ah, não... – Falo, já sabendo que todos escutaram.

Dou um pulo de susto ao ver a cabeça do enorme homem vindo em minha direção. Logo em seguida a mulher e o menino. Eles começam a gemer e a fazer sons estranhos e de imediato amoleço minhas dúvidas, já tendo certeza de que são zumbis. A menina que estava bem próxima começa a avançar e à medida que isso acontece vou recuando, procurando um lugar, uma saída.

Vejo uma janela de madeira atrás da cama e pulo sobre o colchão. Vou até ela e a empurro com força, fazendo a tranca se quebrar. E antes que pudesse pular, um dos zumbis me puxa pelos ombros, outro pelos cabelos, e quando menos espero estou sendo aspirada por aquelas sanguessugas. Grito intensamente enquanto seguro-me com força à barra da janela, tentando ao máximo não ser mordida. Solto uma das mãos com um pouco de dificuldade e pego minha faca. Tento me soltar mais uma vez e vejo que não tem saída. Enfio com força a faca na cabeça do que estava segurando meus ombros e sem querer derrubo-a no lado de fora da casa.

- DROGA! – Grito altíssimo enquanto dou uma cotovelada em alguém.

Inclino-me tentando pega-la e assim que levanto a lâmina, escorrego. Ela acaba penetrando minha coxa, fazendo-me sentir uma dor absurda, e o zumbi que estava segurando meus cabelos cai em cima de mim. Era a menininha. Soco sua cara enquanto tento tira-la de cima do meu ferimento, mas nada disso é suficiente. Grito mais uma vez e dessa vez pedindo ajuda, mesmo sabendo que é inútil. Logo a mulher sem o braço cai em cima de mim também e vejo que tudo está perdido, que já não tenho mais chances, e assim que baixo meus braços prestes a desistir de lutar, uma flecha atravessa a cabeça das duas ao mesmo tempo. Logo em seguida é o menino.

Assusto-me ao ver aquilo e puxo minha perna ferida, afastando-a daquilo. Qualquer infecção seria motivo de morte. Arrasto-me de bruços até ficar paralisada ao ver um homem alto, branco e de cabelos castanhos. Ele está armado com uma besta. Esqueço-o rapidamente e volto a atenção para minha perna. Outra vez..., penso enquanto tento tirar a faca de lá. Inclino-me com a maior dificuldade do mundo e a puxo. Grito mais alto à medida que vou retirando e desisto ao ver que não vou conseguir tira-la inteiramente. A dor é insuportável. Estou ofegando bastante e logo me lembro do homem estranho com a besta.

Procuro-o e já não vejo mais ninguém. O suor está escorrendo pelo meu rosto e passando pela minha boca, e junto com ele o sangue. Cuspo em cima de mim mesma ao sentir aquele gosto horrível. Fecho os olhos tentando equilibrar minha respiração e assim que os abro vejo aquele homem à minha frente. Tento gritar, mas já não tenho forças. Ou talvez tenha... Talvez não queira gritar. Eu preciso de ajuda. Lembro-me dos seios à mostra e tento colocar uma das mãos em cima deles, mas meu corpo está dolorido demais para que eu consiga pelos menos metade disso. Ele se ajoelha ao meu lado e meio que examina o ferimento. Começa a procurar algo em meus braços, minhas pernas, barriga, ombros, em todo o corpo e de imediato percebo o que é.

- Não fui mordida... – Digo entre suspiros, ainda com a respiração irregular. Ele me encara e balança a cabeça, confirmando.

Então ele inclina a cabeça rapidamente como se tivesse escutado algo, levanta-se, pega as duas flechas que lançara e volta a atenção para mim – Precisamos sair daqui – Diz enquanto me pega nos braços. Escuto um “desculpa” assim que gemo de dor e então ele começa a andar.

Minhas pálpebras estão cansadas, não consigo mais abri-las. Preciso dormir, mas não posso fazer isso agora. Tento cobrir meus seios mais uma vez, pois a situação está um pouco constrangedora e logo percebo que isso vai ser impossível.

- Tudo bem, ninguém está olhando – Ele fala, fazendo-me encostar a cabeça em seu ombro com um pouco de dificuldade.

- Só você – Respondo e escuto uma risada abafada.

- Não se preocupe comigo – Ele finaliza e essa, por hora, pareceu nossa última conversa até ele se apresentar – Daryl Dixon.

Abro um pouco os olhos para observa-lo cautelosamente e logos os fecho, sem forças – Lyanna – Digo, tentando parecer formal – Lyanna Stark.

Notas finais
O que acharam? Não esqueçam de comentar ♥