Todos estavam tensos na estreita sala. Diego se localizava sério e cabisbaixo, já Douglas estava apoiado com ambas as mãos em sua escrivaninha, enquanto Sebastian andava de um lado para o outro com uma mão encostada ao queixo e apoiava este braço por sobre o outro. Todos pensando juntos, com o mesmo objetivo, uma forma de derrotar os templários.

– Talvez... – Começou Sebastian – Devêssemos nos aprofundar mais nisto, interrogando templários ao invés de mata-los. Depois de termos o que precisarmos, poderemos mata-los!

– E, se alguns não falarem e tiver de mantê-los vivos, como garantiremos que não informem seus aliados? – Indagou Douglas.

– Eles não terão este tempo – Retrucou Sebastian – Não daremos a eles nada mais que... – Por um momento olhou para baixo e franziu as sobrancelhas e começou a pensar – Nada mais que um dia. Se eles não nos derem a informação que queremos em um dia, estarão mortos, e enquanto viverem estarão sobre nossa supervisão.

– Creio que o plano pode funcionar. E inclusive, Sebastian tem grande conhecimento dos planos templários devido ao fato de seu pai ser um grande templário. – Disse Diego.

– A propósito, peço para que não ataquemos meu pai, não ainda – Pediu Sebastian –, ele é a única fonte de informação que tenho sobre os templários.

Douglas franziu as sobrancelhas e não hesitou em demonstrar seu comportamento explosivo.

– Pedes para não matarmos um maldito torturador?!

– Pai, acalme-se! – Interveio Diego.

– Sei que isto é um absurdo, porém, é necessário para que nossa missão seja bem-sucedida. – Apesar da tensão e da discussão que estava quase acontecendo, Sebastian parecia, como sempre, calmo. Era como se visse tudo superficialmente, isso era estranho perto de Diego e Douglas, que tinham temperamentos explosivos.

– Escute-me pai, de há nós tempo! Quando ele for descartável, será o primeiro alvo! – Disse Diego.

Douglas manteve-se em silêncio por um instante, olhando para sua escrivaninha.

– Escutem-me. Se não o matarem, eu mesmo o farei! – Disse.

Sebastian o fitou com certo tom de desprezo.

– Os planos são os seguintes – Sebastian continuou – O nosso primeiro alvo será Manoel Enriques, um templário português. Ele é um dos principais transportadores de escravos. Por consequência ele provavelmente entra em contato direto com os demais templários compradores de escravos. Ele deve ter um pouco de informação.

– Quando o atacaremos? – Perguntou Diego.

– Provavelmente daqui três dias. Estará vendendo escravos publicamente. O fato de nossa Ordem estar fora de cogitação como os assassinos de Drummond e meu avô nos dá uma pequena vantagem, e além do mais, eles acreditam que nossa Ordem nem sequer existe. Teremos mais vantagem.

– E o que faremos durante o tempo que passarmos aqui?

– Você e eu treinaremos – Logo Sebastian riu um pouco.

Douglas ainda se manteve em silêncio. Logo depois, Diego e Sebastian saíram do esconderijo e foram para fora, ficando no largo beco. Cada um pegou um pequeno bastão de madeira fina. Sebastian tinha uma excelente postura de combate, mantendo sua coluna ereta e segurava a “espada” com uma de suas mãos, enquanto a outra mão ficava encostada em suas costas. Diego, porém, estava desajeitadamente posicionado. Sua coluna ficava um pouco curvada, com o braço direito erguido com a “espada” erguida, apontando para cima e posicionava seu braço esquerdo, mais precisamente sua mão esquerda, próxima do queixo, como se estivesse se preparando para uma briga de bar, e seus joelhos, que deveriam estar levemente flexionados, estavam exageradamente flexionados fazendo-o ficar com quase metade de seu tamanho normal. Sebastian se contém para não rir, mas acaba dando uma risada abafada. Logo Sebastian dá o primeiro golpe, investindo diretamente, como se fosse enfiar a ponta da espada no peito de Diego. Diego tentou defender-se, mas foi lento demais. Logo Sebastian ataca em um golpe horizontal, que raspa a ponta do bastão no tórax de Diego, e depois, para finalizar, Sebastian encosta suavemente a ponta do bastão abaixo da caixa torácica e depois de encostar a ponta do bastão, Sebastian da um pequeno empurrão, fazendo Diego dar um passo para trás. Diego aproveita do espaço que conquistou e ataca de cima para baixo diagonalmente, mas Sebastian defende e o empurra com um chute no abdômen. Diego cambaleia para trás e ataca desnorteadamente antes de se recuperar, fazendo o bastão passar no vazio. O golpe fora horizontal, então Diego aproveitou-se e com o embalo do pesado golpe, Diego girou e acertou a coxa de Sebastian. Sebastian emitiu um abafado grito de dor, e quando Diego atacou-o novamente, Sebastian desviou jogando-se para o lado e rolando no chão, e logo depois se reerguendo.

– Não ataque desnorteadamente – Disse Sebastian – Analise seu inimigo, veja seus pontos fortes e fracos.

Diego passou a analisar Sebastian. Sebastian tinha uma excelente base para o combate, sendo difícil achar um ponto realmente fraco. Sua coxa pensou Diego. Diego fingiu uma investida contra o peito de Sebastian, fazendo-o tentar defender esta parte de seu tronco, mas Diego jogou sua “espada” para o lado e a trouxe de volta, abaixando-a enquanto a puxava de volta e logo acertando precisamente a coxa de Sebastian, desta vez fazendo-o gritar de dor. Depois Diego chutou seu joelho da mesma perna aonde o feriu, fazendo o apoiar-se sobre um joelho e então Diego o finalizou, simulando um corte na garganta de Sebastian.

– Muito bom! – disse Sebastian sorrindo enquanto se levantava.

Logo Sebastian pôs a mão sobre sua coxa ferida e mancou um pouco, mas logo se recuperou.

– Que tal tentarmos uma escalada e perseguição? – Sugeriu Sebastian.

– Por que não? – Respondeu Diego rindo.

Sebastian logo correu e escalou a maior das casas abandonadas, subindo com tanta graciosidade e velocidade que Diego nem sabia se tinha imaginado aquilo ou realmente acontecera. Diego começou a escalar quando Sebastian já estava no topo. Sebastian olhava para Diego enquanto escalava, e o dizia maneiras de escalar mais rápido. Diego seguiu as instruções e começou a tentar, e conseguiu realizar a escalada mais rápido do que nunca conseguiu antes. Estava tão concentrado em sua escalada que nem reparou que Sebastian parara de falar. Quando subiu ao topo, Sebastian não estava ali. Diego olhou para todos os lados e o viu correndo, um pouco longe, por cima de telhados, e Diego correu atrás dele pelo mesmo percurso. Sebastian tinha uma escalada incrivelmente mais suave e graciosa do que a de Diego, e também era mais rápido. Não só na escalada quanto nas corridas de telhado em telhado. Com o tempo, de tanto pularem em linha reta de casa em casa, Sebastian aproveitou-se de uma corda fina que se estendia de uma casa a outra. Sebastian passou por ela com suavidade e equilíbrio. Sebastian era esguio e não era pesado, pois apesar da boa forma, ainda era magro. Diego, porém, tentou o mesmo percurso, mas seus músculos avantajados o fazem mais pesado e acabou por fazer a corda arrebentar, e então, caiu no meio da multidão da cidade, logo abaixo dele. Esquecera-se de pôr o capuz, então sua etnia estava á amostra. Havia guardas-portugueses lá, mas não o tinham visto por que estavam ocupados demais discutindo com comerciantes ou dando em cima de mulheres, ou até mesmo perdidos observando os vestidos decotados de algumas mulheres. Quando Diego estava pondo o capuz ouviu um grito. Um negro! Ouviu uma mulher gritar. Logo cinco guardas viraram para ele, mas Diego foi rápido. Assim que pôs o capuz aproveitou que estava apoiado sobre um joelho, mas apoiado de uma forma que pôde pegar impulso e correr. Os guardas tentaram segui-lo, mas acabavam chocando-se contra cidadãos e acabavam perdendo velocidade, e até mesmo caindo. Diego escalou um bar quando os guardas o perderam de vista, ou quando Diego pensou que o haviam perdido de vista. Diego correu e saltou, e no momento em que o fez, ouviu o som de um tiro e no mesmo instante sentiu uma imensa dor em seu braço esquerdo. Acabou por bater seu tórax contra o telhado da casa ao lado do bar e caiu ao chão, com uma bala presa ao braço ensanguentado e com a visão turva. Logo os que eram apenas cinco guardas tornaram-se treze, e todos o cercaram e o arrastaram até a frente das pessoas. Crianças esconderam-se atrás dos vestidos de suas mães, mulheres ficaram amedrontadas e homens estremeceram perante a visão dos homens maltratando o negro. Mas enquanto alguns tiveram esta reação, outros zombaram de Diego e até mesmo cuspiram nele por alguma brecha entre os guardas. Os guardas o chutaram, socaram e puxaram-no pelo capuz até Diego vomitar sangue, e toda vez que Diego tentava ataca-los algum deles o chutava no ferimento do braço, fazendo-o se contorcer.

– Homens! – Ouviu-se uma voz familiar e os homens abriram o circulo que haviam fechado sobre Diego – Meu nome é Sebastian Ducaste, e creio que devemos levar este... Animal até minha mansão – O olhar de Sebastian era severo para Diego.

Dois dos guardas levantaram Diego pelos braços para carrega-lo, e um deles propositalmente cutucava seu ferimento. Depois de um longo caminho sendo arrastado pelos guardas, Sebastian parou. Estavam longe dos olhos do povo e longe da mira dos franco-atiradores da mansão Ducaste, foi então que Sebastian atacou. Rápido e mortal, Sebastian liberou ambas de suas lâminas-ocultas e matou todos os guardas, um por um, sem piedade. Diego caiu no chão, ferido, quando os homens que lhe seguravam morreram. Diego estava ferido e respirava pesadamente, cuspindo sangue com frequência. Levantou a cabeça e limpou a boca e tentou se apoiar no pé direito, que estava bem. Ergueu-se e mancou, pois se machucou demais, e perdera o equilíbrio e quase caiu, mas Sebastian lhe deu apoio.

– Por um momento achei que tinha me traído – Disse Diego, logo tossindo e tapando a boca para não deixar sair sangue.

– Jamais eu trairia a Ordem! – Retrucou Sebastian.

Depois de um longo tempo tentando voltar em segurança, passando por becos e assassinando alguns guardas aqui e ali, Sebastian e Diego conseguiram chegar até o esconderijo. Sebastian abriu o alçapão e ajudou Diego a descer as escadas. Quando desceram, Douglas os aguardava preparado para atacar, como sempre fazia por medidas de segurança. Ao ver o ferimento de Diego, Douglas fica imediatamente preocupado. Logo tentam retirar a bala de seu braço, e logo colocam um pano quente sobre seu ferimento. Depois, o enfaixam e deixam que Diego descanse sobre uma cama, para tentar se recuperar da surra que levara. Sua cabeça estava tão ferida que nem mesmo em um travesseiro conseguia escapar da dor. Durante uma longa noite, Diego descansou. Sebastian e Douglas acertaram planos e mais planos, até Sebastian ir para casa. No dia seguinte, Diego levantou-se ás nove da manhã, ainda dolorido, mas com o braço um pouco menos dolorido, mas o corpo inteiro doía. Deu alguns passos desajeitados, um pouco mancando e até cambaleando, mas logo se apoiando contra a parede e andando até a saída. Desta vez não vestia com o seu traje assassino. Estava vestindo uma camisa vermelha quase sem cor, fazendo parecer um bordô, e estava rasgada em ambas as mangas. Era presa a culotes brancos por uma faixa vermelha que serviria como um cinto. Quando abriu o alçapão, viu Douglas e Sebastian treinando. Os dois eram excelentes lutadores tanto com punhos quanto com espadas. Era estranho para Diego ver aquilo, já que Douglas e Sebastian há pouco tempo atrás se tratavam um tanto quanto mal; mas logo percebeu que Douglas não dirigia um olhar tão simpático e até mesmo um pouco severo para Sebastian, e lhe cobrava muitas vezes uma melhoria de golpes. Sebastian era mais gracioso e tinha golpes mais mortais e precisos, já Douglas era mais rápido e com golpes mais “descontrolados” e explosivos.

– Veja só quem se reuniu conosco! – Exclamou Sebastian, sorrindo.

Diego esqueceu-se um pouco da dor e conseguiu esboçar um pequeno sorriso. Mancou um pouco mais, mas logo conseguiu se aproximar com passos normais até os dois Assassinos. O que seria mais um treinamento tornou-se um tumulto desnecessário, mas com sorte a noticia não chegara aos ouvidos templários, pois se descobrirem o sumiço dos guardas que levavam Diego poderia acabar comprometendo a Ordem. Depois de um tempo sentado descansando, Diego lembrou-se da missão de matar mais um templário, e sentiu-se empolgado.

Diego não media esforços para ajudar a Ordem... E agora, sentiu que era o começo de algo grandioso... E na verdade, este era o começo de tudo.

Notas finais
Comentem! :)