Assassin's Creed: Other Side
3 Um Novo Começo
Notas iniciais
1758
Era uma madrugada de fato agradável, pensou Gist, enquanto deslizava Morrigan pelas aguas. Não só isso, mas o mero pensamento de que aquela guerra que já durava quase 7 anos estava em seu pleno fim era reconfortante. O clima entre a tripulação era dos melhores; em meio a garrafas de rum, alguns marujos jogavam conversa fora e cantarolavam, e outros, alheios as festividades, dormiam jogados entre caixas e até mesmo no chão do navio.
Ele coçou o pescoço imaginando como estavam aquelas crianças a qual vira mais cedo, acompanhados de Shay e Haytham. Ou melhor: quem eram aqueles dois? Durante toda a viagem, na verdade, eles haviam permanecido em suas cabines, escoltados e instruídos pelo mestre Kenway.
E ali ficaram, vez ou outra, atraindo olhares curiosos da tripulação. De hora em hora, sem o melhor dos humores, Gist encontrava Shay caminhando de lado a outro, pensativo; outra vez, o irlandês subiu até o convés com Haytham ao seu lado. Então, se puseram a discutir ali mesmo, intencionalmente em sussurros. Os assuntos das conversas, porém, não alcançavam os ouvidos de Gist. Logo, ele se pôs a assobiar e voltou seu olhar ao mar.
O ranger da madeira chacoalhando contra as aguas gerava um som tão calmante que não tardou para que sua irmã tivesse caído no sono. Ela se encontrava deitada, com sua respiração quase que inaudível preenchendo a cabine a qual, horas atrás, aquele homem usando um chapéu azul curioso os havia levado. Pelo menos, agora ela estava segura, dormindo tranquilamente ao lado de Remy, enquanto ele se encontrava sentado no chão.
Não era o melhor dos alojamentos, mas pelo menos era quente e seguro, ele deu de ombros. Após traze-los aos aposentos temporários, aquele homem a quem Remy lembrou vagamente se chamar Haytham subiu para a parte superior do navio. Então, com um olhar de confiança, o outro homem o acompanhando o seguiu.
Desde então, não havia mais falado com eles.
O teto de madeira úmida pesou com alguns passos acima de sua cabeça. Depois, ele ouviu o som de vozes. não era difícil reconhecer que os donos daquelas vozes eram claramente os dois homens que os encontraram em sua casa.
— O que acontecerá aos garotos?
— Bem, eu já me perguntava isso bem depois de tu terminares tua conversa com Adewalé, Shay.
— Não nego a promessa que fiz a Adewalé, mesmo que relutante em ajuda-lo a principio, mr Kenway – Shay explicou. Então, se inclinou na borda da balaustrada, enquanto seus olhos se perdiam entre as ondas que batiam no navio – Mas admito que estou incerto sobre o futuro daqueles dois.
O irlandês pareceu pensar por alguns segundos. Então, ele voltou a falar.
— Devo procurar algum remanescente da família deles? Uma tia ou tio talvez? Quem sabe eles tenham algum parente a quem possamos confia-los?
— Isso irá exigir tempo e recursos, decerto – Haytham negou, dando de de ombros – Devemos buscar uma solução eficiente. Sinceramente, não vejo de que modo nos colocaríamos em tal objetivo sem atrair negatividade para nós mesmos. Sejamos realistas, Shay, não baseamos nossa Ordem em ajudar crianças órfãs com suas famílias.
Ao ouvir aquilo, Shay parecia relutante em simplesmente pensar daquela forma. Ele fechou os punhos, incrédulo. Ele andou de um lado a outro, e ao notar que Gist os espiava com o canto do olho, ele disfarçou, mantendo sua compostura.
— E a mãe? De fato, aqueles dois soldados a quem ouvimos conversar em Veielle Riveirré mencionaram a ausência da mulher, mas... não creio que uma mãe negaria seus próprios filhos, ainda mais em tal situação.
Haytham deixou escapar um sorriso. Ah, Shay, não sabes até onde uma mãe pode chegar. Se tu tivesses conhecido a minha...
Os olhos de Haytham andaram de lado a outro. Pensativo, ele caminhou de lado a outro com seus braços cruzados, como um verdadeiro nobre inglês. Por fim, seus olhos brilharam.
— Bem, acho que tenho uma solução. Por hora – ele conteve Shay – Há uma família residindo em Boston, atualmente. Para ser mais exato, um membro da Ordem a quem mantenho contato, Nikolai Ivanov. Ele vive com sua esposa e filha não tao distantes do pub onde costumavamos nos encontrar.
— O Green Dragon?
Haytham assentiu. – Exato. Acontece que esse membro é um velho conhecido a quem tenho a impressão que posso recorrer dadas as circunstancias. Seu filho e eu já partilhamos de alguns trabalhos, no passado. Desde então, sou bastante conhecido da família.
— Entao, achas que esse homem pode ajudar? – Shay inquiriu.
— Até tudo se resolver, eu suponho. Quando eliminarmos Achilles e seus Assassinos, voltamos a este caso. Até lá, acredito que Nikolai possa manter o garoto e sua irmã em sua casa por um algum tempo.
Satisfeito, o irlandês sorriu em assentimento. O sol matutino já começava a raiar lentamente em seus rostos, trazendo um calor agradável. Um a um, a tripulação despertava para cumprirem suas funções em meio aos urros de Gist. Uma brisa fria banhou o rosto do templário e ele olhou para o horizonte, decidido.
—Bem, então. Boston é nossa próxima parada.
II
— Como você está, garoto?
Claro, embora os tribulados acontecimentos recentes ainda pareciam transparecer em seu olhar, não foi nada menos que um sorriso fraco que Shay recebera do garoto. Então, com as mesmas feições abatidas, ele voltou os olhos cuidadosos para a irmã, que ainda dormia tranquilamente embrulhada em cobertas convidativas.
Ora, não para menos, na verdade. Se após perder o pai, conviver constantemente em meio a guerras e agora, estar ali em meio a estranhos indo sabe-se lá para onde não fosse o suficiente para que uma criança absorvesse um semblante abatido, então o que seria?
Ainda assim, era notável a frieza e a paciência que Remy fazia transparecer naquele momento. Talvez a morte do pai já se tornara um evento esperado pelo garoto. Talvez a ausência de uma mãe e apenas uma presença paterna – agora, igualmente ausente – já o haviam amargurado. No fim, ele já havia se conformado. Ele estava praticamente só, não fosse sua única irmã.
— Qual o nome dela? – Shay perguntou, sentando-se lentamente ao seu lado. Com a cabeça, ele apontou para a garotinha.
— Anna.
Ele sorriu suavemente. – É um belo nome. Quantos anos el—
— Para onde estamos indo? – ele interrompeu, impaciente. Seu semblante porém, continuava irredutível – Sei que meu pai morreu. E talvez... De-de certo modo, eu já esperava isso. Claro. Eu não sou tão inocente assim, senhor. Agora, se tu e aquele teu amigo são mesmo conhecidos de meu pai, como disseram, então podem me contar onde nos levarão?
— Boston – ele disse, simplesmente. – Encontraremos um... – ele pigarreou, tentando criar alguma mentira. – bom amigo de François, seu pai, para mantê-los seguros até que possamos leva-los de volta para tua mãe. Eu não mentirei. Isso pode levar algum tempo. Mas até lá, vocês estarão seguros em Boston. Vocês têm a minha palavra.
Remy concordou com um aceno, então voltou seu olhar para a janela da cabine. Os feixes de luz já atravessavam o vidro úmido da janela, iluminando o cenário. O templário soltou um leve suspiro ao passo que partia até o leme.
— O senhor não devia estar no comando deste navio? — murmurou baixinho, chamando atenção do irlandês.
Shay não deixou de franzir o cenho.
— Como?
— Ora, não és o capitão deste navio? Acaso já se meteste em alguma batalha?
De fato, ele era o capitão. Mas como aquela criança de apenas 8 anos sabia de seu posto? Decerto, ele não o vira no comando de Morrigan, muito menos o havia contado.
— Sim, eu sou – ele respondeu, sentando-se novamente – Como sabes?
— Ora, tuas mãos. Elas são típicas de mãos de um capitão, tão calejadas – Remy afirmou, como se aquilo fosse algo obvio. – Sem falar na luneta guardada aí, em teu bolso.
— Entendo. – o irlandês estava pasmo.
— E, ah claro, também tem as chaves, a quais conheço muito bem o formato de esse tipo de material, dado o tempo que passei em um navio. Isto é, com meu pai, certa vez. Com certeza, estas aqui pertencem a tua cabine pessoal.
Os olhos de Shay arregalaram ao ouvir aquilo. Rapidamente, ele tateou seus bolsos, a qual ele imaginava estarem as ditas chaves. O esforço foi, claro, em vão. Novamente, ele não conseguir guardar um olhar impressionado quando viu Remy a balançar as chaves a sua frente enquanto esboçava um sorriso.
— Ora, vejam só, se não temos um ladrãozinho por aqui – o templário gargalhou – Então, és mesmo um garoto esperto, pelo visto. Tens um olhar bem analítico, admito. E tuas mãos são deveras ligeiras. Onde aprendeste esse tipo de coisa?
Remy deu de ombros. Já amanhecia, então ele acordou suavemente a irmã, e a pôs no colo, caminhando atrás de Shay rumo a parte superior do navio. Educadamente, Shay cumprimentava os marujos que os encaravam, ao passo que a garotinha Anna parecia se entreter ao mostrar a língua aqueles marujos fedidos a rum e peixe, para o divertimento do irlandês.
Logo, eles encontravam-se próximo a Gist, quando Remy voltou a falar.
— Na verdade, isso e algumas coisas mais acabei por aprender com um velho amigo de meu pai, sr. Cormac. Eu o conheci há algum tempo atrás quando ele realizara alguns... testes estranhos – ele riu.
— Deveras? – Shay inquiriu, cruzando os braços. Seu semblante não era nenhum outro a não ser de curiosidade. – Interessante, que tipo de testes, Remy?
— Ah, vários tipos de coisas – ele coçou a cabeça. Ele tomou Anna no colo e voltou-se a Shay – Primeiro, tive de escalar em algumas coisas, como caixas e a parede da nossa cabana. Outra vez, ele me desafiara a recuperar um documento dos bolsos de um senhor sem que ele se desse conta. E certa vez, tive de me esconder na floresta o máximo de tempo até que ele me encontrasse.
Os olhos de Shay arregalaram. – Entendo...
Não, não pode ser isso... não ESSE tipo de treinamento.
— E esse homem? Ele acaso explicara a finalidade de tal testes?
Remy negou com a cabeça.
— Só disse que algum dia me contaria do que se tratava. Não entendo bem o proposito daquele tipo de coisa, sr. Cormac, mas admito que era deveras divertido.
Correr? Escalar? Esconder-se? Não. Aquele tipo de coisa não era tão trivial quanto parecia, Shay amargurou-se. Em outra época, talvez. Ou até mesmo em outro mundo. Pelo menos, não quando se tinha pleno conhecimento de organizações centenárias secretas que homens como Shay e Haytham bem entendiam. Seus pensamentos mergulharam em um turbilhão de duvidas. Era mesmo o que ele imaginava?
Se fosse, era claramente algo a se discutir com Haytham, outra hora. Apenas por enquanto, era melhor deixar as coisas como estavam. O garoto não precisava saber do que se tratava, e era melhor que não soubesse. Na verdade, o próprio irlandês não mais tinha certeza se suas constatações eram certeiras.
O mestre Kenway, por outro lado, ficará interessado em saber disso...
— Posso... tomar controle do teu navio? Alguma hora destas? — ele perguntou, tirando Shay de seus pensamentos.
—Morrigan? – Shay franziu o cenho, em tom de humor – Não sei. Não tenho certeza se tens o que precisa para manejar esta belezinha. Tuas mãos não parecem as ideais para dominar tal navio.
— Talvez – Remy riu – Mas são boas o suficientes para dar um fim as tuas chaves? – disse, com as chaves novamente furtadas dos bolsos do irlandês.
— Ora, seu –
— Terra a vista, capitão! – esbravejou Gist, chamando atenção de Shay.
Os primeiros sinais de prédios e fumaça foram avistados, tingindo a paisagem ao fundo e deixando os garotos boquiabertos. Com lentidão, Gist conduziu Morrigan ao porto habilmente, e a friagem da cidade atingiu seus rostos, bem como uma enxurrada de outros odores urbanos.
Ouviram uma onda de vozes de cidadãos caminhando lado a outro, acompanhados do som de soldados ingleses marchando no solo lamacento.
Então, lentamente, adentraram Boston.
III
Durante o percurso até a residência do tal velho Nikolai, Shay ficara sabendo na verdade que o templário era um amigo e aliado de longa data de Haytham. Tao logo o inglês entrara na Ordem, em sua juventude, não demorou para que o Kenway ganhasse destaque e consideração aos olhos do russo e sua família. Além de tudo, pelo que o irlandês também descobrira, Nikolai tinha um filho a qual Haytham prestara apoio em determinadas ocasiões. Embora a relação entre Haytham e a família se baseasse, ultimamente, através de cartas formais e voltadas aos assuntos Templários, ainda era notável a parceria existente entre os dois.
Assim, após alguns minutos de caminhada e alguns pés exaustos, para a irritação de Remy, eles alcançaram a tal casa. Para sua surpresa, na verdade, a “casa” mais se tratava de uma mansão, afinal de contas.
Recebidos por uma mulher, A dama trajava um caro vestido e tinha os dedos repletos de joias. Ao fita-los, sua reação não fora outra a não ser de pasmo.
— Oh, vejam se não é o sr. Kenway!
— É um prazer revê-la, sra. Ivanov – o templário disse, trocando um educado aperto de mão – Espero não estar incomodando no momento. Er, gostaria de falar com o seu marido, se possível?
— Não é incomodo algum. Sabes que prezamos por demais tua presença, sr. Kenway – ela afirmou, levando Haytham a sorrir em assentimento – Nikolai está lá dentro, cuidando dos negócios, como sempre. Mas posso chama-lo, sem problemas e... Oh, quem és teu amigo?
— Shay Cormac, senhora – o irlandês apresentou-se com uma leve reverencia – É um prazer conhece-la.
— Charmoso, jovem e com um belo sotaque – ela olhou maliciosamente para Haytham, deixando Shay enrubescido – Achas que tenho alguma sorte, sr Kenway?
Haytham pigarreou, deixando um sorriso escapar. – Talvez, sra. Ivanov. “Sorte” é, de fato, uma palavra que Shay conhece muito bem.
Tanto Remy quanto Anna observavam, confusos, aquela troca de conversas. O semblante de Haytham logo voltou a seriedade outra vez. Inclinando-se, o inglês sussurrou aos ouvidos da mulher, que logo pareceu ponderar por alguns segundos. Ao ouvir um suspiro entristecido, Shay constatara que sem dúvidas, ela já tinha conhecimento do porque estavam ali. Ele só esperava que aquela família acatasse ao pedido de Haytham, mesmo que apenas por algum tempo.
Ao voltar-se a Remy, o semblante da senhora assumiu um leve sorriso e com um gesto, ela pediu que entrassem. Ela dirigir-se ao segundo andar ao passo em que esperavam pacientemente sentados numa ampla de sala, iluminada fortemente por luzes de velas.
Logo, eles tornaram seus olhares ao ouvir passos descendo das escadas.
— Haytham! – um homem corpulento, aparentando estar na casa dos 50, esboçou um enorme sorriso. Seus cabelos já tinham um tom grisalho e suas feições joviais ate demais para sua idade – Há quanto tempo, rapaz! O que o traz aqui?
— De fato, já faz muito tempo, Nikolai – Haytham disse, o cumprimentando –Infelizmente, esta visita não se trata apenas de uma coincidência. Na verdade, é um favor que venho lhe pedir, Nikolai. Isto é, se puderes me ajudar, claro...
— Oh, tens minha palavra, Haytham – o velho afirmou – No que puder te ajudar, farei o possível.
Haytham sorriu, em consentimento. Então, ele pigarreou, indicando a direção da cozinha. – Err... Podemos?
Longe dali, Haytham contava minuciosamente a situação para Nikolai que, com a paciência garantida pela idade, ouvia atentamente. O templário informara sobre a situação praticamente órfã das crianças; contara também sobre o comprometimento de Shay com elas e sua já ocupada atuação na Ordem. Por fim, pedira-lhe seu auxilio inestimável naquele momento, a qual, com a mão levada ao queixo, Nikolai nada falou por alguns segundos. O velho templário logo ouviu as vozes vindas da sala e fitou sua esposa, sentada formalmente ao lado de Remy enquanto parecia lhe perguntar inúmeras coisas.
Aquela simples visao parecia o ter deixado feliz.
Ora, será ótimo para Mary, bem como minha pequena Kara. Algumas presenças a mais nesta casa, decerto, farão algum bem...
Na sala de estar, longe dali, Shay tinha os ouvidos perturbados com o tic-tac de um relógio. O irlandês voltava os olhos ora para Haytham, ora para Remy. Era mais que visível sua ânsia em ter conhecimento da resposta de Nikolai, afinal. O templario suspirou aliviado quando Haytham adentrou novamente o comodo ao lado de um Nikolai sorridente. Suas duvidas dissiparam-se completamente com o aceno positivo de Haytham. Tudo havia dado certo.
— E então, mestre Kenway? Por quanto tempo estão dispostos a mantê-los aqui?
Haytham apenas deu de ombros.
— Por quanto tempo precisarmos. Acredito que – ele sussurrou a medida que falava – a.. digamos... recente perda de seu primogênito, a qual lhe mencionei, contribuíra para tal decisão. Além de tudo, pelo tanto que conheço deles, a visão de crianças muito os agrada. Não teremos problema algum em mantê-los aqui pelo tempo que for necessário, acredito.
— Ótimo. – ele suspirou. Seus olhos brilharam por um segundo e educadamente, arrastou Haytham para fora dali.
Já fora da residência, recostados próximos a uma das janelas, Shay voltou a falar.
— Temos de conversar sobre algo. Algo que diz respeito a quem possa ter tido contato com aquele garoto.
IV
A casa – ou melhor, mansão – como Remy ficara impressionado, estava longe de ser pior do que dormir em uma cabine de um navio, por melhor que fosse o navio. Com o passar do dia, e com o ceu escurecendo lentamente permitindo a entrada de uma noite estrelada, foram acompanhados pelo velho casal que, exageradamente animados, os apresentaram a seus cômodos. Remy percebera também um quarto livre, devidamente ocupado por alguma mobília e uma coleção de bonecas; decerto, pertencia alguma filha dos velhos, ele pensou.
O som de cavalos nas ruas ainda podiam ser ouvidos, e também o reclamar de alguns bêbados sem rumo a caminhar por Boston. O irlandês se despedira de tarde, acompanhando fielmente Haytham. Antes de montarem nos cavalos, eles o fitaram estranhamente e se entreolharam, como se soubessem de algo. Então, sem nada mais a dizer, deram meia volta e partiram.
Shay o prometera, com convicção, que após o fim das suas viagens, o qual o mesmo limitou-se que tratavam-se de “negócios”, eles se veriam novamente. E após isso, o levaria de volta a sua mãe. Quem sabe nesse dia, ele insistiria ao menos na possibilidade de tomar o timão de Morrigan por alguns minutos, Remy riu baixinho.
Shay, Haytham, Nikolai... E a lista seguia-se ao tentar imaginar quais outros amigos estranhos e misteriosos seu pai tinha. Não demorara muito, porem, para que sua visão se cansasse e um bocejo anunciasse seu sono. Com um suspiro, ele fechou os olhos e mergulhou em uma onda de lembranças...
Tantos amigos estranhos... Meu pai...Como aquele... naquele dia? Qual era mesmo seu nome?
“Remy!” exclamou François, enquanto gargalhava com um homem a seu lado “Venha cá um instante, meu filho. Tens um amigo meu a quem deseja conhecer-te!”
Rolando os olhos, Remy se afastou, com um leve suspiro, de outras crinças que pareciam se divertir cutucando uma pequena tartaruga. Em alguns segundos, ele correu até o pai. François sorriu e bagunçou o cabelo do filho.
“Diga oi, Remy. Esse velho maluco aqui quer conversar um pouco com você. Se tudo se seguir bem, você poderá, algum dia, fazer parte de algo grande! Assim como seu pai aqui.”
“Ah, pare com isso, François” o homem rolou os olhos. Ele trajava uma vestimenta branca com detalhes azulados, trazendo consigo um revolver em sua cintura e uma espada embainhada. “De fato, fazemos algo grande. Mas admita, você nunca foi lá um dos grandes!”
“Pode ser. Mas sabes bem o que me fez deixar esta vida. Se não fosse a responsabilidade de ter filhos... Enfim...” o capitão riu, batendo amigavelmente no ombro do outro. ”Isso é coisa do passado. Agora, veremos o que tens a dizer do meu filho aqui!”
“Espero muito desse garoto, meu amigo. Se ele se mostrar de algum valor, então com certeza nos veremos novamente no futuro. “ ele virou-se para Remy e o observou dos pés a cabeça, como se o analisasse.
“Olá, senhor!” Remy estendeu a mão, sendo retribuído pelo homem.
Então, ele ajeitou-se e baixou a si mesmo a altura de Remy. Ele baixou o estranho capuz que cobria parcialmente seu rosto.
“É um prazer conhecer-lo, Remy. Meu nome é Achilles."
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