Assassin's Creed: Other Side

4 Desventuras em Londres


Notas iniciais
Boa leitura!

1 de Abril de 1764

— Como passaste a noite, Haytham?

O templário deixou apenas um bocejo escapar, em resposta. Mesmo com seu histórico de viagens a bordo de um navio em seus quase 40 anos, Haytham não poderia deixar de negar, com o orgulho de um verdadeiro nobre inglês, que ainda não se acostumara a passar muito tempo em alto mar. Uma ironia engraçada para o filho de um pirata, pensou ele.

Aos anos que seguiam, uma verdadeira enxurrada econômica ameaçava assolar ainda mais a America, tal país a qual muitos ousavam chamar de Novo Mundo, esperava, agora, de mãos amarradas, a crescente influencia britânica em suas terras. Como se não bastasse, mais uma lei prestes a ser decretada. Como membro do Parlamento – embora suas raízes de nascimento fossem bem longe de um sangue inglês – Nikolai ainda carregava o titulo de Lorde. Então, os afazeres para com o Parlamento o levaram a retornar uma vez mais à Londres.

— Foi agradável, Nikolai – ele mentiu, deslizando os olhos lentamente pelo navio – Onde estão a Srta Ivanov e as crianças?

— A pequena Anna está com Mary em seus aposentos. Kara deve estar se embrenhando pelo navio com Remy, você sabe como são aqueles dois, sempre em pé de guerra... Não me admira se empurrarem um ao outro ao mar. Mas acho que a viagem os fará bem, pelo menos. Eles irão adorar conhecer a magnifica Inglaterra! – ele exclamou, erguendo os braços — Anime-se, Haytham! É sua terra natal, afinal.

— Sim, deveras – ele disse, desgostoso — A Inglaterra tem lá seu encanto.

— Acha que tudo ficará bem com o Rito? De fato, o Expurgo fora muito bem sucedido, e as coisas parecem ter acalmado nas Colônias, mas tens certeza que é sábio nos acompanhar nesta viagem?

— Deixei Charles em meu lugar, por enquanto. Não se preocupe, os Assassinos não representam mais nenhum perigo. Alem disso – ele ponderou, friamente — tenho que me certificar de que a Ordem esteja com a mesma situação em Londres. De qualquer modo, não está atrasado para o Congresso, não é?

— De modo algum, Haytham. Só devo comparecer ao Parlamento daqui alguns dias.

— Hmm. Isso será benéfico para nossos afazeres na America – Haytham murmurou enquanto lia a carta.

— De fato. Se há de ocorrer uma revolução algum dia, isto será mais uma fagulha para a iniciativa dos colonos. Uma fagulha perto de um verdadeiro barril de pólvora...

O ano era 1764 e os colonos pareciam se encontrar em crescente consternação a cada ano que se seguia. O maldito rei– maldito como todo o governo inglês, pensou Haytham – decidira levar aos ouvidos do Parlamento a imposição de taxas sobre parte da mercadoria comercializada com as colônias. Café, vinho, seda – para piorar tal situação, agora não só esses produtos seriam vendidos a uma taxa exorbitante, como também os teriam de compra-los de nenhum outro país a não ser da própria Inglaterra.

Com tais decisões e tanta pressão em solo americano, não seria surpresa alguma se as forças britânicas estivessem discretamente pedindo para ser expulsa das colônias antes que sofressem uma represália do povo.

— Haytham – continuou Nikolai, tirando Haytham de suas divagações – Afinal, como vai teu amigo, o Sr. Cormac?

— Oh, infelizmente eu recebo poucas cartas a respeito de seu progresso, o que no minimo, devido ao fato de não haver muito avanço. Como bem sabíamos, a busca pela Caixa poderia tomar praticamente todo o tempo de sua vida. Apenas espero que tudo ocorra bem em sua missão.

— Entendo.

— Ainda assim, Remy é quem mais mantém contato com ele. O garoto parece ter criado um apreço enorme por Shay.

Nikolai pigarreou, encarando o Templário com um semblante levemente entristecido.

— Err... Falando nisso... E quanto a mãe dele? Sabe se Shay, em suas andanças, descobriu algo sobre a mulher?

— Na verdade, não. – Haytham apenas de ombros – Por enquanto, seus esforços se concentram na busca pela Caixa, apenas. Ora, não se preocupe. Decerto, vocês ainda terão muito tempo para passar com o rapaz.

— Papai!

Uma presença aproximou-se de ambos, seguida de uma voz feminina. A figura infantil de Kara Ivanov trazia um semblante vitorioso enquanto balançava uma pequena espada de madeira. Seus cabelos loiros eram parcialmente cobertos por um chapéu não tão diferente do usual chapéu tricorne que Haytham sempre mantinha. Na verdade, podia-se afirmar que a menina de 11 anos carregava a própria imagem austera e nobre do Kenway, reduzida em uma versão infantil.

— O que foi, querida?

— Eu venci o Remy! Pela TERCEIRA vez... – ela infatizou, convencida.

— Não mesmo! – Remy negou, enquanto se aproximava arfando, como se quisesse pular no pescoço da menina – Eu exijo uma revanche, sua fedelha!

— Revanche negada! Não tenho culpa se tu és tão ruim com uma espada!

— Quê!!?. Sorte sua que não tenho nenhuma experiência com essas coisas, pirralha! – ele exclamou, resignado. Haytham o encarava em sua usual pose austera — Err, falando nisso, Sr. Kenway, quando iremos começar a treinar?

— Na verdade, não tão cedo, eu receio em dizer, garoto. De fato, se bem me lembro, o acordo com Nikolai era apenas quando completasses 18. – ele explicou, neutro.

— O-o quê? Só com 18? Não é justo...

O velho Ivanov o olhou com afeto, passando a mão gigante nos cabelos negros do garoto.

— Ora, meu filho. Façamos assim: se te comportares, talvez eu possa pensar na possibilidade de adiantar o inicio de teu treinamento com Haytham. Que me diz?

Animado, Remy abriu um sorriso e junto de Kara, puseram-se a correr pelo navio novamente, sumindo aos olhos de Nikolai. Era assustador, pensou, Haytham. Tal disposição para ação devia ser mesmo hereditária, se o falecido pai do garoto tivera alguma relação com os Assassinos em sua vida. Era como aqueles malditos velhos do circulo Templário sussurrassem por suas costas outra vez.

Sangue chama sangue.” Eles diziam. "Que ironia."

A arquitetura inglesa um tanto gótica deixou tanto Kara quanto Remy embasbacados. Cada detalhe era algo novo aos seus olhos, limitados à visão monótona e raramente atraente das colônias.

Para sua surpresa, uma multidão parecia se formar na entrada do Great Queen’s Hotel. Alguns transeuntes curiosos eram afastados por soldados britânicos. Algumas mulheres gritavam horrorizadas e crianças observavam com olhos arregalados enquanto um mar de vozes sussurravam em meio a cena mórbida. eles notaram dois homens a carregar um corpo coberto por um tecido já tingido de um vermelho rubro.

— Com licença – Haytham aproximou-se de um guarda que parecia tragar um charuto despreocupadamente — O que aconteceu aqui?

— A pobre camareira teve o infortúnio de encontrar um homem morto em seus aposentos aqui no Great Queen... Imagino como isso vai trazer uma reputação horrível pro hotel... – ele segurou uma risada – Enfim, o sujeito não apresentava ferimentos a bala. Nenhum vestígio de envenenamento, muito menos suicídio, e o quarto estava impecável. Nem deve deve ter visto quem o matou, muito menos resistido a seu agressor. Ao que tudo indica, só mais um caso de assassinato.

Assassinato? murmurou o Templario.

— Por que?

— Vai saber, homem! – o guarda bufou, abanando ao vento — O homem não era nada menos que um dos lordes nomeados pelas mãos do próprio Rei George, que Deus o proteja! Um patriota, homem de bem, uma esposa linda e filhos, nadando em rios de dinheiro na mansão que decerto, custou bem mais do que todo meu salário em 10 anos! Já suicidio, está fora de questão, meu amigo. Homens como Alfred Brighttown devem ter muitos inimigos, se é que me entende...

A menção do nome fez Nikolai sobressaltar-se.

— Espere! Você disse... Sir Alfred Brighttown?

— Sim. Acaso és algum parente ou amigo?

— Não, não – ele murmurou, abanando a mão ao vento – Apenas um conhecido, um colega de trabalho, no máximo...

— Oh, minhas condolências, sir – o velho disse, apertando a mão de Nikolai, antes de juntar-se a outros companheiros. Com um semblante preocupado, Nikolai sentiu a mão gentil de Mary pousar em seu ombro.

— Tudo bem, querido? Pareces perturbado pela morte daquele homem.

— Oh, não, não é nada, meu amor – Nikolai assegurou, enquanto adentravam o hotel – É só que é curioso, no mínimo. Veja bem, assim como eu, Sir Brighttown também deveria comparecer ao Parlamento daqui alguns dias. E agora, essa tragédia acontece...

Curioso? Está mais para uma conspiração, pensou Haytham.

Assim que alcançaram a porta do quarto, Haytham não pode deixar de notar uma figura a percorrer um dos corredores do hotel. Embora andasse discretamente devagar e com um semblante calmo, havia uma peculiaridade em sua pessoa. O homem, de cabelos desgrenhados e barba feita, atravessou o corredor mancando levemente na ponta de um dos pés, como se carregasse alguma ferida. Então, antes de entrar no cômodo, a ultima coisa que Haytham viu foi o sujeito de olhos arregalados, enquanto parecia analisa-lo. Murmurando algo inaudível, ajeitou a cartola que cobria seus cabelos castanhos e dobrou o corredor, em passos pesados.

Haytham perturbou-se com um pequeno detalhe. Em seus pulsos, em uma braçadeira discretamente ornamentada, jazia o um símbolo característico que ele muito bem conhecia. Em meio ao bracelete escondido em sua manga, havia uma insignia estilizada em um relevo metálico, formando algo semelhante ao cranio de um pássaro. Uma águia, para ser exato.

O simbolo da Irmandade Britânica de Assassinos.

II

A manhã já trazia leves raios de sol quando Haytham acordou mais cedo. Escondia discretas olheiras em seu rosto, muito para sua irritação. O templário se permitiu dar um gole na xícara de café quando ele lembrou mais uma vez do homem misterioso na noite passada. Muito embora apresentasse vestimenta alguma que mantivesse semelhança com os Assassinos, ainda assim era algo a se considerar. Ele lembrou que sentiu um certo desconforto com a visão daquele sujeito; certa desconfiança, sem falar no pé manco e o olhar levemente incrédulo ao encarar Haytham. Decerto, ele teria alguma ligação com o incidente do hotel.

Ele decidiu então que deveria, ao menos, investigar alguma possível atividade Assassina pela cidade em sua pequena estadia. Ele deu mais um gole de café e em minutos trocou-se, vestindo o seu usual manto azulado e levando as suas mãos seu inseparável chapéu tricorne.

Encontrou Nikolai sentado em uma poltrona na sala de estar. O velho tirou os olhos do jornal em mãos e fitou Haytham, esboçando um sorriso.

— Oh, bom dia! Já tens algum plano para seu dia, meu jovem? Saindo agora, tão cedo?

— Sim, Nikolai. Receio que sim. Devo dizer que posso manter-me bem ocupado hoje – ele suspirou, cansado – Parece que para nosso infortúnio, há a possibilidade de que ainda existam... focos Assassinos atuando em Londres.

— Jura? — ele ergueu a sobrancelha – O que o leva a tal conclusão? Os Assassinos Ingleses já não foram literalmente extintos? Ou ao menos, dispersos?

— Tenho serias duvidas quanto a isso, Nikolai – ele cerrou os olhos, lembrando-se da noite passada – Além disso, cuidado nunca é pouco. Não podemos ficar zanzando pela cidade com a chance de cruzarmos com um deles por aí.

— Entendo. – ele desceu os olhos ao jornal — Bem, não posso dizer que isso não é preocupante, afinal –-

A sala silenciou, enquanto Nikolai mantinha um olhar atônito. Ele fitou novamente Haytham, e com um semblante atemorizado, estendeu o jornal amassado ao Kenway.

— Haytham, dê uma olhada nisto...

Curioso, o Templário tomou o jornal em mãos e pôs-se a ler:

Sir Darwin Hickbury fora encontrado morto na calçada da avenida Hiddleston. O corpo, embora livre de qualquer ferimento grave, apresentava leves lesões na região do pescoço, na artéria carótida.

A morte misteriosa, tal como vem ocorrendo na ultima semana em Londres, parece ser a ação de um novo serial killer em ativa. Outras duas vitimas – Sir Duncan Davidson e Sir Richard Busket – apresentavam lesões semelhantes anteriores ao recém falecido Sir Hickbury.”

O pescoço? Um ponto comum para um golpe com a lâmina oculta?...

— De fato – murmurou Haytham, abrindo um sorriso discreto – Isso valida minhas suspeitas. Sim. Então ainda existem Assassinos aqui em Londres.

Nikolai piscou, parecendo ignorar o Templario ao seu lado. Por fim, ele o olhou seriamente.

— Você não entendeu, Haytham. Vai bem alem disso. Eu conheço todos esses homens, inclusive o rapaz morto ontem, o sr. Brighttown. Não os conheci apenas pelos nomes, como também os conheci pessoalmente. São todos Ministros e como eu, trabalhavam para o Parlamento. Todos mortos. Embora não consiga bem entender a ligação entre tais assassinatos, além do que já lhe disse, o que me preocupa é que se todos foram alvos da Ordem, então...

— Você também é um alvo. – ele disse. Ele dirigiu-se a porta, ajeitando sua espada embainhada. Ejetou suas laminas como se as exercitasse.

— Bem então, é hora de caçar esses Assassinos.

III

O ranger da porta de madeira abrindo-se fez David pular da cadeira, ejetando prontamente sua lamina oculta e puxando seu revolver com a outra mão. Uma figura entrou na sala, uma expressão irritada. David baixou a arma, aliviado, ao reconhecer o amigo.

— Calma aí, Abberline – o homem sorriu debochadamente, tirando a cartola e jogando-se na mesa empoeirada no meio da sala. Então, ele passou os dedos entre os cabelos castanhos levemente desalinhados – Esse nervosismo ainda te mata um dia. Tem certeza que é mesmo um Assassino?

O jovem Assassino fez uma careta.

— E importa se sou só um Recruta? Pronto ou não, a Irmandade está quase extinta por aqui, não é? Cada membro a mais é de grande ajuda. E pensar que um dia já houve uma Guilda inteira... E por que? Por culpa de um único templário! A merda de um único templário! O maldito –

— Haytham Kenway – completou o outro, em asco – Deveras, aquele homem é uma pedra no sapato. Droga, David... Desde que nosso Mentor morreu, nós estamos em frangalhos, praticamente derrotados e andando em círculos por aqui, e tudo isso por que... – os olhos dele brilharam — Oh, falando no diabo, meu amigo! Adivinhe quem encontrei ontem, logo após cuidar do nosso amigo Sir Brighttown?

David abriu lentamente um sorriso ao entender o olhar sugestivo do companheiro.

— Você cruzou com o... o Kenway? Aqui? Em Londres? Mas que coincidência... Essa é a hora, Charles! Temos que matar o bastardo! – ele disse, ejetando sua lamina animadamente.

— Não, ainda não – Charles murmurou, pensativo – Não estamos aptos para enfrenta-lo diretamente, garoto. Aquele homem é simplesmente o “agente mais letal dos Templarios”. Palavras do Miko, não minhas. Olha, não podemos simplesmente sair por aí e tentar tirar a sorte com o desgraçado. Com a experiência de vocês, Recrutas — ou melhor dizendo, a falta dela, devo dizer — não duraríamos tanto tempo...

David Abberline era o que Charles gostava de chamar de “impulsivo suicida”, dadas as tendências de se jogar em meio ao perigo sem pensar duas vezes. Aquelas não eram as melhores características para um Assassino, ele sabia, mas na situação atual, não estava em seus direitos exigir perfeição em cada membro da Irmandade, ainda mais quando ela se encontrava em pedaços.

— Não – Charles continuou, enchendo um copo de vinho e levando a boca – Vamos continuar com o plano. Enfim, devemos eliminar os outros ministros relacionados a esse tal “Ato do Açúcar” antes que tal lei seja imposta nas Colonias. Os americanos estão afundando em desgraça e dividas desde que a Inglaterra decidiu pôr os pés por lá. Se eliminarmos os Ministros responsáveis por sanciona-la, e não só isso, proventos ao nosso "Amado Rei” um gostinho de ameaça para saber que estamos falando serio aqui, garantimos mais uma vitoria não só para os Assassinos, mas também para o povo.

— Entendo – David suspirou – Bem, quatro já foram. Nosso próximo alvo é Nikolai Rasputin Ivanov. Assim, como os outros, deve-se supor que ele está aqui, em Londres, embora nossas fontes ainda não tem pista alguma do homem.

— Isso não será um problema. Acredite ou não, Ivanov está no mesmo hotel que Haytham, no mesmo quarto, eu diria. Eu os vi quando saí de lá. Agora, o problema, meu amigo, é como vamos matar o velho com o Kenway por perto.

O Assassino tomou mais um gole, esquentando a garganta e limpando os lábios. Por um momento, David pensou ver seu rosto formar um sorriso malicioso. Charles Frye inclinou-se na mesa, e com o olhar cerrado, começou:

— O plano é o seguinte...

Notas finais
*Fiz uma pequena referência a uma incrível autora e que me deu belas ajudas por aqui no Spirit. Espero que não se sinta ofendida pela frase do Haytham, bWolf! Achei apropriado para o momento em questão, mas se for algum problema, eu retiro o trecho do cap XD Proximos capitulos : Haytham e Remy em ação juntos pela primeira vez! Sim, o pirralho dará seus primeiros passos em uma vida altamente perigosa! Reviews são sempre bem vindos! Até o próximo cap!