Assassin's Creed: Other Side
1 Retaliação
"Em certos momentos, os homens são donos dos seus próprios destinos."
— William Shakespeare
A Fronteira — Março de 1770
Aquela era, sem dúvidas, uma noite de inverno rigorosa. Tão logo passaram as estações, a floresta jazia coberta de branco, dando uma sensação de vazio e paz a qualquer transeunte pelas redondezas.
E, de fato, aquela sensação de paz logo fora quebrada quando os passos pesados de uma figura jovem ecoaram por entre as árvores. Suas botas de couro pareciam cantar para que ele atraísse alguma alcateia de lobos famintos que, para seu infortúnio, tivesse a oportunidade de encontra-lo.
Mas lobos estavam longe de ser a menor de suas preocupações no momento.
Sentiu o gosto de ferro quando a cicatriz aberta vazou sobre sua boca. Permanecer em pé parecia um esforço sobre humano e seus ombros faziam força para se manter em pé. Para piorar, a respiração de Remy acelerou quando ele enxergou a queda para o rio gelado à sua frente, dando um fim as suas chances de escapar dali vivo.
A ideia de pular era uma opção nada agradável, e qualquer um que tivesse a sorte de sobreviver, no mínimo, seria morto por uma hipotermia tão cedo saísse das águas.
Passos silenciosos esmagaram o solo coberto de neve e ele virou-se pra trás, com suas laminas em mãos, pronto para qualquer possível ataque. Embora tentava dizer a si mesmo que ainda conseguiria lutar, suas mãos estremeciam demais com o simples ato de manter-se acordado, e o frio que assolava sua pele era mais um empecilho.
Droga, praguejou a si mesmo ao olhar pra trás e ver quem se aproximava era
Haytham. E ele não estava só.
Uma figura encapuzada se juntou a ele. O olhar estóico de Kara Ivanov — a quem ele já não sabia se ainda chamava de amiga — o repreendeu, enquanto se aproximava dos dois.
— Mestre Kenway — ele sussurrou, quase que em asco.
— Não faça nenhuma tolice – Haytham ergueu as mãos vazias, indicando que não atacaria – não vamos cometer nenhum erro por aqui, garoto. Chega de atitudes impensadas por hoje.
Ele percebeu que o templário não carregava sua espada em mãos, mas seria um erro se descuidar por um segundo sequer. Então deslizou os olhos sobre Kara, que permanecia ali parada, silenciosa como uma tigresa pronta para pular na sua presa, e Remy sentiu uma pontada em si mesmo ao notar que ela empunhava sua lamina. Ele recuou um pouco para trás, assumindo uma pose defensiva.
— Até mesmo você – suspirou, ar gélido expelindo de sua boca sempre que respirava. — Eu não esperava isso. Não de você.
— Você escolheu seu caminho, Remy – a moça retrucou – Se escolhe trair nossa Ordem, o preço é pago com sangue. Você já foi um membro, sim, e ainda pode ser – e estendeu a mão, como se o chamasse para voltar para casa. – Se escolher voltar e corrigir seus erros.
A risada cansada de Remy ecoou por entre as árvores, levando alguns pássaros acima deles a alçar voo.
— Erros... Fala disso como se fosse um jogo, mas hoje, fui eu quem senti o gosto da traição! — vociferou, enquanto seu traje era tingido de um vermelho escuro – Sou eu quem está aqui, marcado pelo meu próprio sangue!
Kara engoliu em seco, sentindo o desapontamento na voz de Remy e calmamente, ela baixou o capuz, fitando-o nos olhos. Um leve sorriso nostálgico se formou em seu rosto, como se lembrasse de uma época distante, mas ainda tão próxima em seus pensamentos. Ela falou suavemente:
— Sua retaliação não foi algo que escolhemos. Eu o prometo que se escolher se render aqui e agora, tenho certeza que não será morto.
Ela olhou de relance para Haytham, e o mesmo assentiu silenciosamente.
Remy bufou, irritado. — Então quer dizer que por escolher fazer o certo, é isso que acontece?
Kara pareceu hesitar por um instante, e ela tornou a olha-lo, incrédula.
— Fala sobre o que é certo? Por acaso esse frio está lhe fazendo mal? Seu tolo! Nunca acreditou no que faziamos? Na nossa causa? Em nosso propósito?
— Devíamos fazer aquilo que é certo! O que estavam planejando... O que vocês fizeram... Quem somos nós pra decidir sobre a vida de outros?
— Nao vejo muita diferença nos métodos daqueles tolos que se dizem libertadores!! Eles também matam, Remy! Não seja hipócrita!
— Se trata de limites, Kara! Se trata de quem eliminamos! Pelo menos nisso, os nossos tão odiados Assassinos tem um código a seguir!
— Nyet! – ela ousou rir, seu forte sotaque russo ainda mais acentuado. – Você ainda é inocente. Nem toda vida pode ser poupada. Olhe ao redor. Não vivemos num mundo de fantasias! Mas saiba que tudo que fazemos, é por nossos objetivos, isso eu garanto! Mas e quanto a você? Suas ações até aqui... Você nos nega explicações! A menos que... Não... Não me diga que logo agora, tu mudaste tua forma de pensar?
Remy sabia que aquela discussão não levaria a nada; eles não se dariam por vencidos, quanto mais Kara, tão impassiva quanto ele. Ele só se agarrava no fato de que ainda significava algo para eles. Se fosse capturado, ele seria, no mínimo, deixado vivo.
— Eu não mudei em nada meu pensamento. Tudo que precisei hoje foi de um vislumbre. Uma visão de até onde nó... Não. Vocês. Agora sei até onde estão dispostos à cruzar essa linha. Suas palavras não me farão voltar atrás – ele anunciou. – Eu já me decidi.
Haytham bufou impaciente, e Remy se preparou para lutar. Recuou os pés um pouco, e suas mãos tremulas levantaram sua espada, que agora parecia pesar toneladas. Seu coração bateu tão forte que parecia que iria saltar do peito a cada segundo.
Não poderia deixar tudo acabar ali. A morte não era um luxo que o jovem templário abraçaria naquele momento. Ele tinha de voltar para sua irmã. Deus sabe o que aconteceria com ela se a fúria dos templários também recaísse sobre a jovem inocente, e Remy conhecia bem como a Ordem agia; ele era um deles, afinal.
Kara permaneceu impassiva. Seu olhar estóico o encarava de volta. Ao ouvir o som metálico da lamina oculta do Grão Templário, Remy lembrou o estado em que se encontrava, e se por algum momento ele pensou que poderia lutar contra o homem que lhe ensinou tudo que sabia, então estava muito enganado. Mesmo que estivesse em um estado saudável, não havia dúvidas de que Remy ainda estava em clara desvantagem.
Haytham deu passos largos e parou a alguns metros a sua frente, com sua habitual postura formal.
— Então, senhor Delacroix, como resolveremos isto? Saiba, rapaz, que a ultima coisa que desejo é eliminar um membro com potencial como você. Mas se você tornar-se um problema, não lhe concederei piedade alguma.
Deus, pra que tanto teatro? Me mate logo de uma vez...
O jovem Templário revirou os olhos.
— Eu não pedi sua piedade, Mestre Kenway. Além disso, eu o conheço bem o suficiente pra saber que se fosse me matar, já o teria feito.
Haytham abriu um leve sorriso.
— Ah, como sempre, perspicaz. De fato, não é a toa que Shay viu algo em você. Ainda assim, não se iluda. A primeiro plano, não desejo elimina-lo, mas lembra dessas palavras, Remy? "Faze-lo até a morte"? Alguém não pode simplesmente deixar a Ordem a seu bel prazer; existe um preço, meu jovem. Se não com sua lealdade, que seja com sua vida.
— Olho por olho, Mestre. Tambem estou de olho no seu pescoço – a voz de Remy soou nada convincente ao pronunciar “mestre”. – Isso não acabará aqui. Eu ainda vou voltar, e vou banhar minhas mãos com o sangue de todos vocês. Todos.
Ele deu um ultimo suspiro, esperando que aquelas palavras tivessem seu valor a mais a frente. Recuou lentamente para trás, e parou quando sentiu o chão acabar a seus pés.
Tudo pareceu parar aos olhos de Remy, e ele sentiu a brisa gelada de inverno em seu rosto, secando o sangue em seu corpo. Quando lembrou que seus braços e pernas ainda pesavam, ponderou se seria tão ruim assim se entregar à morte. Para si mesmo, ele se amaldiçoou por pensar daquela forma.
Ele ainda tinha para quem voltar. Ele não podia simplesmente abandonar Anna. Não a sua própria irmã.
Se rendendo ao cansaço, ele lentamente se jogou penhasco abaixo, o vento balançando seus cabelos quanto mais se aproximava do trecho de rio que jazia abaixo de onde estava. Ao se chocar contra as águas, Remy deixou o frio o envolver. Era frio demais para resistir, e estava cansado demais para se manter em pé.
Com o sono o consumindo, Remy dormiu, e seus pensamentos foram tragados para memórias de muito tempo atrás... filosofia de um não é melhor expressada em palavras; é expressada nas escolhas que aquele indivíduo faz...
As escolhas que fazemos são de nossa total responsabilidade."
— Eleanor Roosevelt
A Fronteira — Março de 1770
Aquela era, sem dúvidas, uma noite de inverno rigorosa. Tão logo passaram as estações, a floresta jazia coberta de branco, dando uma sensação de vazio e paz a qualquer transeunte pelas redondezas.
E, de fato, aquela sensação de paz logo fora quebrada quando os passos pesados de uma figura jovem ecoaram por entre as árvores. Suas botas de couro pareciam cantar para que ele atraísse alguma alcateia de lobos famintos que, para seu infortúnio, tivesse a oportunidade de encontra-lo.
Mas lobos estavam longe de ser a menor de suas preocupações no momento.
Sentiu o gosto de ferro quando a cicatriz aberta vazou sobre sua boca. Permanecer em pé parecia um esforço sobre humano e seus ombros faziam força para se manter em pé. Para piorar, a respiração de Remy acelerou quando ele enxergou a queda para o rio gelado à sua frente, dando um fim as suas chances de escapar dali vivo.
A ideia de pular era uma opção nada agradável, e qualquer um que tivesse a sorte de sobreviver, no mínimo, seria morto por uma hipotermia tão cedo saísse das águas.
Passos silenciosos esmagaram o solo coberto de neve e ele virou-se pra trás, com suas laminas em mãos, pronto para qualquer possível ataque. Embora tentava dizer a si mesmo que ainda conseguiria lutar, suas mãos estremeciam demais com o simples ato de manter-se acordado, e o frio que assolava sua pele era mais um empecilho.
Droga, praguejou a si mesmo ao olhar pra trás e ver quem se aproximava era
Haytham. E ele não estava só.
Uma figura encapuzada se juntou a ele. O olhar estóico de Kara Ivanov — a quem ele já não sabia se ainda chamava de amiga — o repreendeu, enquanto se aproximava dos dois.
— Mestre Kenway — ele sussurrou, quase que em asco.
— Não faça nenhuma tolice – Haytham ergueu as mãos vazias, indicando que não atacaria – não vamos cometer nenhum erro por aqui, garoto. Chega de atitudes impensadas por hoje.
Ele percebeu que o templário não carregava sua espada em mãos, mas seria um erro se descuidar por um segundo sequer. Então deslizou os olhos sobre Kara, que permanecia ali parada, silenciosa como uma tigresa pronta para pular na sua presa, e Remy sentiu uma pontada em si mesmo ao notar que ela empunhava sua lamina. Ele recuou um pouco para trás, assumindo uma pose defensiva.
— Até mesmo você – suspirou, ar gélido expelindo de sua boca sempre que respirava. — Eu não esperava isso. Não de você.
— Você escolheu seu caminho, Remy – a moça retrucou – Se escolhe trair nossa Ordem, o preço é pago com sangue. Você já foi um membro, sim, e ainda pode ser – e estendeu a mão, como se o chamasse para voltar para casa. – Se escolher voltar e corrigir seus erros.
A risada cansada de Remy ecoou por entre as árvores, levando alguns pássaros acima deles a alçar voo.
— Erros... Fala disso como se fosse um jogo, mas hoje, fui eu quem senti o gosto da traição! — vociferou, enquanto seu traje era tingido de um vermelho escuro – Sou eu quem está aqui, marcado pelo meu próprio sangue!
Kara engoliu em seco, sentindo o desapontamento na voz de Remy e calmamente, ela baixou o capuz, fitando-o nos olhos. Um leve sorriso nostálgico se formou em seu rosto, como se lembrasse de uma época distante, mas ainda tão próxima em seus pensamentos. Ela falou suavemente:
— Sua retaliação não foi algo que escolhemos. Eu o prometo que se escolher se render aqui e agora, tenho certeza que não será morto.
Ela olhou de relance para Haytham, e o mesmo assentiu silenciosamente.
Remy bufou, irritado. — Então quer dizer que por escolher fazer o certo, é isso que acontece?
Kara pareceu hesitar por um instante, e ela tornou a olha-lo, incrédula.
— Fala sobre o que é certo? Por acaso esse frio está lhe fazendo mal? Seu tolo! Nunca acreditou no que faziamos? Na nossa causa? Em nosso propósito?
— Devíamos fazer aquilo que é certo! O que estavam planejando... O que vocês fizeram... Quem somos nós pra decidir sobre a vida de outros?
— Nao vejo muita diferença nos métodos daqueles tolos que se dizem libertadores!! Eles também matam, Remy! Não seja hipócrita!
— Se trata de limites, Kara! Se trata de quem eliminamos! Pelo menos nisso, os nossos tão odiados Assassinos tem um código a seguir!
— Nyet! – ela ousou rir, seu forte sotaque russo ainda mais acentuado. – Você ainda é inocente. Nem toda vida pode ser poupada. Olhe ao redor. Não vivemos num mundo de fantasias! Mas saiba que tudo que fazemos, é por nossos objetivos, isso eu garanto! Mas e quanto a você? Suas ações até aqui... Você nos nega explicações! A menos que... Não... Não me diga que logo agora, tu mudaste tua forma de pensar?
Remy sabia que aquela discussão não levaria a nada; eles não se dariam por vencidos, quanto mais Kara, tão impassiva quanto ele. Ele só se agarrava no fato de que ainda significava algo para eles. Se fosse capturado, ele seria, no mínimo, deixado vivo.
— Eu não mudei em nada meu pensamento. Tudo que precisei hoje foi de um vislumbre. Uma visão de até onde nó... Não. Vocês. Agora sei até onde estão dispostos à cruzar essa linha. Suas palavras não me farão voltar atrás – ele anunciou. – Eu já me decidi.
Haytham bufou impaciente, e Remy se preparou para lutar. Recuou os pés um pouco, e suas mãos tremulas levantaram sua espada, que agora parecia pesar toneladas. Seu coração bateu tão forte que parecia que iria saltar do peito a cada segundo.
Não poderia deixar tudo acabar ali. A morte não era um luxo que o jovem templário abraçaria naquele momento. Ele tinha de voltar para sua irmã. Deus sabe o que aconteceria com ela se a fúria dos templários também recaísse sobre a jovem inocente, e Remy conhecia bem como a Ordem agia; ele era um deles, afinal.
Kara permaneceu impassiva. Seu olhar estóico o encarava de volta. Ao ouvir o som metálico da lamina oculta do Grão Templário, Remy lembrou o estado em que se encontrava, e se por algum momento ele pensou que poderia lutar contra o homem que lhe ensinou tudo que sabia, então estava muito enganado. Mesmo que estivesse em um estado saudável, não havia dúvidas de que Remy ainda estava em clara desvantagem.
Haytham deu passos largos e parou a alguns metros a sua frente, com sua habitual postura formal.
— Então, senhor Delacroix, como resolveremos isto? Saiba, rapaz, que a ultima coisa que desejo é eliminar um membro com potencial como você. Mas se você tornar-se um problema, não lhe concederei piedade alguma.
Deus, pra que tanto teatro? Me mate logo de uma vez...
O jovem Templário revirou os olhos.
— Eu não pedi sua piedade, Mestre Kenway. Além disso, eu o conheço bem o suficiente pra saber que se fosse me matar, já o teria feito.
Haytham abriu um leve sorriso.
— Ah, como sempre, perspicaz. De fato, não é a toa que Shay viu algo em você. Ainda assim, não se iluda. A primeiro plano, não desejo elimina-lo, mas lembra dessas palavras, Remy? "Faze-lo até a morte"? Alguém não pode simplesmente deixar a Ordem a seu bel prazer; existe um preço, meu jovem. Se não com sua lealdade, que seja com sua vida.
— Olho por olho, Mestre. Tambem estou de olho no seu pescoço – a voz de Remy soou nada convincente ao pronunciar “mestre”. – Isso não acabará aqui. Eu ainda vou voltar, e vou banhar minhas mãos com o sangue de todos vocês. Todos.
Ele deu um ultimo suspiro, esperando que aquelas palavras tivessem seu valor a mais a frente. Recuou lentamente para trás, e parou quando sentiu o chão acabar a seus pés.
Tudo pareceu parar aos olhos de Remy, e ele sentiu a brisa gelada de inverno em seu rosto, secando o sangue em seu corpo. Quando lembrou que seus braços e pernas ainda pesavam, ponderou se seria tão ruim assim se entregar à morte. Para si mesmo, ele se amaldiçoou por pensar daquela forma.
Ele ainda tinha para quem voltar. Ele não podia simplesmente abandonar sua própria irmã.
Se rendendo ao cansaço, ele lentamente se jogou penhasco abaixo, o vento balançando seus cabelos quanto mais se aproximava do trecho de rio que jazia abaixo de onde estava. Ao se chocar contra as águas, Remy deixou o frio o envolver. Era frio demais para resistir, e estava cansado demais para se manter em pé.
Com o sono o consumindo, Remy dormiu, e seus pensamentos foram tragados para memórias de muito tempo atrás...
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