Assassin's Creed: Other Side
2 Encruzilhadas do Destino
JUNHO DE 1758
O vento gelado do Norte era ainda mais açoitante quando o inverno culminava naquela época do ano. As arvores, tão logo cobertas de uma coloração esbranquiçada, mexiam-se levemente com a brisa invernal. Porem, ainda era visível, mesmo com tanta beleza, que restos e destroços de embarcações escureciam um pouco as águas do mar Atlântico. Há anos, no entanto, o tom acinzentado de fumaça e fogo eram cada vez mais constantes no céu norte americano.
As águas pareciam dançar enquanto o som ensurdecedor de canhões e madeira destruída cantavam em meio a tanto caos. Primeiro, foram as balas metálicas esvoaçando pelo mar. Depois, o som de gritos de homens feridos. Para um marujo de primeira viagem, estar em meio a tanta morte e gritos não seria nada menos do que enlouquecedor. Mas Shay não era um marujo de primeira viagem.
Longe de ser um iniciante, o irlandês manejava o timão com maestria, enquanto tentava deslizar Morrigan para longe dos projeteis incandescentes de quem o templário, incessantemente, mantinha seu foco. Friamente, ele fitou o Experto Crede e seu capitão encapuzado e, calculando mentalmente, adivinhou a rota a qual o brigue tentaria seguir.
Ele lembrara então, do que Christopher Gist havia sugerido; e o velho quartel-mestre gargalhou quando percebeu a veracidade de suas palavras. Parece que o plano de seguir um caminho afunilado pelo trecho do mar Atlântico fora mesmo a melhor aposta de Adewalé. Logo, estaria encurralado. Mas se o que fosse necessário para alcança-lo era habilidade com uma embarcação e uma pitada de coragem, então Shay era o candidato certo.
Ao que ele lembrava das historias quando partilhava do mesmo lado de Adewalé – ou ao menos, do pouco que ele havia escutado sobre tais contos – o velho Assassino já fora, há muito tempo, quartel mestre e, tão logo depois, capitão. Com tal experiência, derrota-lo naquele ambiente tão comum quanto o céu é para um pássaro não seria nada fácil.
Por outro lado, a possibilidade de o deixar escapar era algo que o incomodava. Se aquela ainda não fosse a derradeira batalha, Shay pensou, então o templário tinha de assegurar que ela seria.
— Canhões prontos, senhor! – um dos tripulantes gritou.
— A toda vela! – outro marujo afirmou, enquanto que parecia esperar ordens do capitão.
Retraído em seu pensamentos, uma mão fria tocou seu ombro, e o puxou de seus devaneios. Haytham estava parado ao seu lado. Calmamente, ajeitou seu chapéu tricorne e encarou Shay, com seus braços cruzados para trás.
— Devo lembrá-lo, Shay, que é de extrema importância que vençamos esse conflito. Do modo que vejo, temos de assegurar que o cerco à Louisburg seja bem sucedido para que presenciemos a derrota francesa. E, antes de mais nada, devemos eliminar aquele maldito Assassino esguio. Estou contando com você.
Confiante, Shay assentiu, abrindo um leve sorriso.
— Isso acaba aqui, senhor. Disparar, homens! – o templário ergueu o punho, enquanto os tripulantes da Morrigan obedeciam prontamente.
A batalha seguia, tomando um ritmo mais acelerado, e a força das águas faziam ambos os combatentes balançarem; gritos de homens eram ouvidos enquanto eram arremessados para fora dos barcos, e os marujos corriam como loucos recarregando e acionando os canhões. Assim, a súbita mudança na velocidade a qual Morrigan alcançou fez Haytham perder levemente o equilíbrio, e o grão templário parecia estar levemente nervoso, para a diversão de Gist.
— Pelos céus... Esse rio está ficando inconfortavelmente apertado — reclamou Haytham, buscando apoio na lateral do navio, para a diversão de um Christopher Gist descontraído;
— Não se preocupe, senhor! – o velho quartel mestre gargalhou, enquanto abria um sorriso e uma confiança sobrenatural para o amigo. – O Shay aqui já nos tirou de situações bem piores antes!
— Ali, capitão! Ele está perdendo velocidade! – ele logo urrou, fechando o sorriso que havia se formado. Com seus olhos tão ágeis quanto de uma águia, ele chamou atenção de Shay, apontando para um ponto à tempo de romper a qualquer segundo no lado esquerdo do casco do Experto Crede.
Atento a situação do brigue, Shay entendeu e concordou, acenando silenciosamente. Forçando os punhos no timão, ele manobrou para que Morrigan encontrasse o lado próximo de Experto Crede, enquanto um a um, os marujos encheram as bocas dos canhões. Gist cruzou os braços e, em sincronia com seu capitão, esbravejou para que os canhoneiros disparassem.
— Fogo! Vamos ensinar algo para aqueles bastardos, rapazes!-
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E foi o fim. Com o casco já inteiramente destroçado e as velas caindo, fumegantes, a única saída do velho assassino fora uma entrada em terra firme, no forte de Vieille Carrieré. Claro, ainda estavam em terras hostis, e a guerra ainda não acabara. Ainda assim, não havia mais para onde correr. Logo que pôs os pés para fora navio já debilitado, a primeira ação de Adewalé fora avançar para dentro de Vieille, seus tripulantes o seguiram desengonçados, tossindo e se afastando da carcaça em chamas do brigue francês. Afastando-se cada vez mais da visão de Shay. O templário largou o timão e esbravejou, enquanto a tripulação comemorava com a vitoria.
Olhando de volta para a posição de Adewalé, Shay franziu o cenho, curioso.
— Ele está salvando sua tripulação. Sem sua embarcação e em terra firme, ele perde a vantagem contra nós – exclamou, e Gist assumiu prontamente o comando do navio.
Haytham observava como uma águia observa sua presa. Ele se aproximou e fitou Shay, em um semblante claramente satisfeito:
— Não. Ele está de pé para um ultimo confronto – o templário ajustou suas laminas ocultas e fez um leve gesto para que Shay o acompanhasse. – Bem, então, não vamos decepciona-lo.
Shay ergueu o capuz e cobriu o rosto, atrás de Haytham. Então, aproveitando da plena forma e juventude, pulou do navio. Com um suspiro, adentrou o forte franco-canadense, deixando suas pegadas na terra úmida enquanto afastava-se de Morrigan.
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O Forte de Vieille Carriére era fortemente protegido, isso Shay percebeu. A atenção dos guardas havia praticamente dobrado, decerto com o aviso de Adewalé sobre o ocorrido. Em polvorosa, as forças francesas se mobilizaram rapidamente, e mais soldados trajados de um amarelo escuro corriam de lado a outro, reduzindo a liberdade de movimentação dos templários. E como as coisas já não fossem trabalhosas o bastante, eles eram apenas dois. E apenas dois homens – ainda que altamente treinados – não seriam suficientes para invadir aquela base em plena vista.
Ainda assim, fizeram seu caminho pelo forte; Shay deslizou pelas sombras, tal seu conhecimento assassino, mantendo-se oculto por entre as folhagens do terreno, enquanto seguia Haytham, cuja lamina silenciosa liderava o caminho. Embora não tivesse treinado tanto com Kesegowaase, escalar arvores já não era um problema para Shay; uma habilidade, ao que parece, exclusivamente sua naquele momento, muito para o infortúnio de Haytham, que teve de seguir caminho pelo chão.
Limpar a base, porem, não fora tão trabalhoso assim como pensaram. Seus sentidos aguçados os permitiam distinguir levas de soldados a distancias, e com cuidado, nunca eram pegos de surpresa. Atrás de seu mestre, Shay eliminou quem pudesse quando tinha oportunidade, cravando sua lamina suavemente em meio a gritos e urros de pobres homens; Haytham, por outro lado, era menos condescendente com relação à situação em que suas vitimas se encontravam após o abate. Para não deixar pistas, ele sugeriu que arrastassem os cadáveres até a grama alta.
Quando retirou sua espada cravada em um guarda nocauteado, a atenção de Shay foi levada para as vozes de dois guardas que se aproximavam, separados do resto. Ele fitou Haytham, que detrás de uma parede desgastada de madeira, pareceu ler sua mente. Com um aceno combinado, os dois esconderam os soldados abatidos recentemente, e voltando a se esconder, mantiveram-se ocultos, até que os passos dos soldados desatentos estivessem próximos o bastante para que só então, atacassem.
— Droga! Quando é que essa maldita guerra vai acabar? – resmungou um deles; o jovem segurava seu rifle como que por obrigação, enquanto o outro o ouvia pacientemente – Mon Diéu! Esses bastardos ingleses não desistem?
As reclamações constantes do rapaz pareciam já ter acostumado o companheiro, que revirava os olhos, em diversão.
— Deixe disso, homem! As coisas não estão tão ruins, assim! – o velho deu de ombros, conformado – Apesar de tudo, olhe pelo lado bom: se tu morreres aqui, ninguém sentirás tua falta. Não me recordo de teres mulher para te esquentar a noite! Nem mesmo... tem filhos, não é? Diferente daquele pobre recém chegado capitão. Deste, sim, eu dedico minhas preces! Ouviu dizer que o homem foi abandonado pela esposa? Como se não bastasse, ele ainda te dividir sua vida em comandar nesta maldita guerra e cuidar dos filhos.
O jovem ouvia, curioso, e o velho soldado, coçando a cabeça, continuou a falar.
— E agora ele está por aquelas águas, combatendo aqueles malditos britânicos! Como era o nome dele mesmo? François... De La Cruz? DeVoilá? – ele gargalhou, esquecido – Enfim, chegou a meus ouvidos que o homem teve de trazer os filhos para cá, tal a falta de mãe para aquelas crianças! Imagino como estão os pequenos agora enquanto tudo por estas bandas está em polvorosa! Se aqueles cães ingleses vencerem esta guerra, Deus sabe o que pode acontecer a eles! – ele bufou, quase rosnando, e o companheiro concordou, enojado com o mero pensamento.
Os dois continuaram seguindo, chegando ao ponto de baixarem as armas, tão distraídos estavam com a conversa. Fora um erro fatal. Em sincronia, Shay saltou da copa de uma árvore onde se posicionara, e com um golpe rápido, levou a lamina ao pescoço do rapaz, matando-o instantaneamente.
Aturdido e sujo com o sangue do companheiro, as mãos do outro mal tiveram tempo de alcançar o rifle, pois antes que reagisse, Haytham o agarrou por trás e fincou sua lamina oculta na jugular do veterano de guerra. O templário sentiu a vida daquele soldado se esvair em suas mãos, enquanto o homem se contorcia. Após alguns segundos, o velho parou quieto e morbidamente silencioso, deitado no solo tingido com seu próprio sangue.
Elegantemente limpando as laminas no casaco da vitima, Haytham gestuou para que Shay o seguisse. Após uma breve caminhada, chegaram à área central da base francesa. Por todo lado, pequenas barracas militares compunham a área, e alguns equipamentos de guerra se encontravam dispersos pelo chão; caixas e algumas cabanas civis davam na vista, normalizando um pouco a imagem militar daquelas terras.
Não demoraram muito, porem, para notar que o território já não continha quase nenhum soldado a patrulhar. Decerto, grande parte já haviam caído por terra; a outra, desperdiçavam esforços nas águas contra o Exercito Real. Em busca de Adewalé, os templários decidiram apressar o passo, madeira rangendo sob seus pés, enquanto eles respiravam silenciosamente, tentando não chamar atenção.
Então, o rompante de um disparo ecoou no , e o céu escureceu com bater de asas dos pássaros . Sem fôlego, Shay foi puxado bruscamente pela gola da jaqueta, e Haytham tentou esconde-los atrás de uma cabana velha. Aturdido, ele se recompôs e fitou o Grão templário.
— Hnf. Acho que não precisaremos mais procurá-lo. – Calmamente, Haytham retirou um revolver do coldre e começou a carrega-lo.
Shay franziu o cenho, em tom de negação. Não seria tão fácil.
— Eu conheço bem aquele homem, Mestre Kenway. Com todo respeito, mas tenho minhas duvidas se apenas um revolver é o bastante para resolver isso, dada a experiência de Adewalé. Temos que buscar outra alter...
Haytham pigarreou, limpando a garganta, e o olhou de volta com um leve sorriso malicioso no rosto.
— Exatamente, Shay. Eu providenciarei uma distração. Enquanto isso, procure uma oportunidade para mata-lo. Faça... – ele balançou a arma , gesticulando para que Shay se apressasse – como você mesmo diz? Trate de “Fazer a sua sorte”.
Ele assentiu, baixando o capuz. Então, esperou alguns segundos. O som da bala destroçando a madeira da velha cabana alcançou seus ouvidos, e num suspiro, Shay flexionou os joelhos e evacuou pela janela quebrada do estabelecimento, desviando habilmente dos disparos que o tentavam atingi-lo. Visando se proteger, com um impulso, ele saltou e se jogou atrás de algumas caixas empilhadas com frutas ali perto, e o cheiro podre chegou as suas narinas. O cheiro lhe causou uma leve náusea , levando-o a tampar o nariz. Então, ele olhou para trás, preocupado como Haytham estava se saindo; o grão Templário parecia estar se saindo bem, disparando contra Adewalé de tempos em tempos, enquanto farpas de madeira dá velha voavam sobre si.
Shay correu sempre que encontrava uma janela de tempo suficiente para que evitasse ser acertado, esperando que Haytham lhe desse uma oportunidade de se locomover pelo terreno. Shay juntou fôlego e, enquanto o velho assassino recarregava sua pistola, o irlandês alcançou, incógnito, uma posição privilegiada atrás de Adewalé, pegando cobertura com o uso de várias caixas empilhadas; um amontoado de fardas militares, munição e alguns mosquetes.
Uma cobertura rústica o suficiente para esconder sua presença do Assassino. Com a descarga de adrenalina em meio ao som de disparos ao fundo, ele tratou de silenciar seus passos ao máximo. Então, seus dedos flexionaram, prontos para acionar a lâmina em seus pulsos. Tudo que precisava era de mais uma distração; um segundo a mais, para que seu alvo se esquecesse o suficiente de sua presença.
Ao tempo que passava, aquele embate mais parecia uma guerra de provocações do que uma luta propriamente dita, pensou Shay.
— Eu lutei ao lado de teu pai, Haytham – urrou Adewalé, e uma expressão enojada marcou seu rosto enquanto disparava contra o Templário. – Ele terias vergonha de ver o que tu se tornaste!
Revirando os olhos, Haytham tentou ignorar a provocação do velho.
— Oh, jura? Não sabia que meu pai tinha algum senso de vergonha!
— Não falas pouco de teu pai, criança! Será abençado se te tornares metade do homem que ele foi! – Adewalé rebateu, furioso com as provocações do Kenway. Furioso o bastante para concentrar toda sua atenção em Haytham. Furioso o bastante para esquecer que, em algum lugar nos arredores, alguém o estava caçando.
Isso. Era tudo o que Shay precisava; uma oportunidade. De longe, Haytham tratava de recarregar lentamente seu revolver, e com um leve aceno, ele assentiu silenciosamente para Shay.
Agora. Com um movimento rápido, as botas de couro de Shay contra o chão de madeira eram o único som naquele momento; inaudíveis o suficiente para qualquer um que não fosse treinado, mas que ainda assim, não escapara aos ouvidos de Adewalé.
Ele virou e ignorou Haytham, tornando sua visão para suas costas; ele puxou o facão improvisado de sua bainha para impedir o golpe letal de Shay. Porém, antes que o assassino pudesse bloquear o golpe, já era tarde demais.
Rápido como um gato, Shay saltou e chutou sua perna esquerda, fazendo-o cair e, por fim, cravando sua laminas ocultas contra o peito do Assassino. Adewalé grunhiu e sangue espirrou de sua boca. Ele sentiu o ar expelir de seus pulmões; sua visão começava a ficar turva. Ele pigarreou, amaldiçoando os olhos templários que o olhavam de volta. Então, sentiu seu fim a caminho.
Arfando, Shay escondeu novamente suas laminas de pulso, e se levantou, baixando o capuz. Ele fitou Haytham, a distância; o templario guardou sua arma, e, após alguns segundos, se dirigiu até o irlandês, em sua usual pose imponente. Estava acabado. Eles haviam vencido.
Você se tornou um monstro. As palavras de finais de Adewalé pareciam ter doído mais do que o disparo que havia sofrido de Liam na noite em que deixara os Assassinos. Teria ele mesmo se tornado, de fato, um monstro? Não. Não, como podiam dizer isso? Eles o haviam traído. Se alguém, naquele mundo, devia pagar, eram os Assassinos. Aqueles monstros brincavam de destruir cidades à seu bel prazer. Eles...
— Vamos. – Haytham chamou sua atenção, fazendo seus pensamentos se dispersarem. Com um aceno, ele concordou e o irlandês se afastou do já caído Adewalé. Ele levou as mãos à boca e começou a esquenta-las do frio que só começava a piorar. Atrás do grão templario, ele tornou a caminhar lentamente, desejando sair daquele lugar o mais rápido possível. Antes que se afastasse o suficiente, porem, ele ouviu uma voz fraca clamando seu nome. Era Adewalé.
Por alguns segundos, ele permaneceu ali, indeciso se lhe daria ouvidos e perderia mais tempo com um velho já a beira da morte. Mas antes que ele mesmo negasse, ele deu um leve suspiro e apressou os passos novamente até alcança-lo. Ele se aproximou, os dedos dançando enquanto sua lamina era ejetada, em segurança.
Seus olhos enojados fitaram o rosto do assassino moribundo, e Haytham revirou os olhos, soltando um pesado suspiro quando percebeu que tinha de refazer todo o caminho até Shay. O que quer que fosse, o templário não guardava mais paciência se tratando de possiveis insultos; então ele gesticulou impacientemente, parecendo exigir a declaração do assassino o mais rápido possível.
Então, Adewalé falou.
— Esqueça esse seu maldito amigo por um segundo, Shay. Faça-me um ultimo favor, e prove a si mesmo que ainda tens bondade em ti – ele murmurou – Faça isso por mim, não como homens de visões diferentes. Mas como homens, apenas...
— Ah, por favor, sem formalidades – Haytham disse, sarcasticamente polido. – Diga logo o que quer, para que sigamos com nossas vidas. Se me permite, Sir, temos uma guerra a travar contra sua laia.
Não custaria nada, Shay pensou. Um favor em troca da gratidão de um homem moribundo. E alem de tudo, uma forma de provar a si mesmo que ele não era um monstro. Não. Ele era um homem, nada menos que isso.
Ele pareceu ponderar por alguns segundos, até que olhou para Adewalé outra vez. Seus olhos castanhos encararam o velho assassino, até que ele assentiu, silenciosamente.
— Eu... peço-te que corrija seus erros... – ele tossiu sangue, agarrando o braço de Shay firmemente. – E pague pelo preço de uma vida que você tirou deste mundo, já que é o que buscas ao ter deixado a nossa Ordem. Nesta vila, moram duas crianças, alheias a guerra que travamos neste exato momento. Essas crianças são filhos de um velho amigo meu, um capitão chamado François.. Ele era um homem de bem, respeitado. Um bom pai. Esse mesmo homem lutou ao meu lado há algumas horas, contra ti e o Exercito Real, ao cerco de Louisburg, lembra? No calor da batalha, eu tive de presenciar com horror tu fundar a embarcação a qual ele comandava. Agora... agora graças as tuas ações, duas crianças inocentes perderam seu único pai. Shay, tudo que eu peço é que trate de tirá-las daqui, dessa guerra... E as leve para sua família novamente. Eu confio em ti, uma última vez. Faça o que é certo.
Ele encarou Shay, enquanto os olhos pensativos de Haytham pareciam também ponderar por alguns segundos. Então, o grão templario suspirou.
— É justo. – ele deu de ombros. Então, retirou seu chapéu e balançou contra o vento, retirando a neve que o cobria – Para que ao menos morra com conhecimento de que não somos tiranos, como devem ensinar os velhos que lhe repassaram suas crenças, ou o que quer que os ensinam. Vamos, conte-nos onde encontrar essas pobres crianças para que possamos seguir com nossas vidas.
Ao ouvir aquilo, os olhos de Adewalé brilharam de alivio e, ironicamente, furiosos com o fato de que ali estavam eles, os assassinos do único pai daquelas crianças. Uma duvida lhe percorreu rapidamente: seria sabia aquela decisão?
Não importava, afinal. não havia mais nenhuma. Atormentado por aqueles pensamentos, ele fez um ultimo esforço e agarrou a mão de Shay, esperando que aquela estivesse certo. Certo de que o homem que buscava redenção pela chacina que ele mesmo causara em Lisboa teria virtude suficiente para cumprir aquele único pedido. Ele não era como aqueles cães Templários. Não ainda.
— François era um bom amigo... E ele acabou sendo tirado do mundo pelas tuas mãos templárias... – seus olhos fecharam, entristecidos — Faça isto, Shay. Eu devo isso a ele, e tu deves também... se quer provar que ainda tens humanidade.
Ao ouvir aquilo, Shay não precisou mais pensar. Os olhos castanhos do irlandês encararam-no firmemente. Então, ele assentiu.
— Eu prometo.
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Aparentemente, a caminhada até a velha cabana não demorou tanto, quando ambos os templários perceberam um amontoado de casas ao andar alguns quilômetros depois de falar com o velho Assassino; com as informações fornecidas por Adewalé, eles logo encontraram a residência do capitão.
. Ela se encontrava no extremo leste daquelas terras franco-canadenses, num pequeno vilarejo, a beira do mar. A neve começava a cair mais intensamente, e eles tiveram de apressar os passos em meio à neve alta; a possibilidade de que algo pior acontecera aos filhos do capitão era algo que perturbava Shay.
Eles observaram ao redor, procurando quaisquer sinais de perigo de algum soldado remanescente. Se utilizando de sua visão aquilina, Shay averiguou os arredores calmamente. Logo, ele guardou a lamina oculta quando notou que não haviam mais ninguém por ali. Em meio aquela imensidão silenciosa, notaram um pequeno chalé com uma leve onda de fumaça escapando da chaminé. Aquela era, decerto, onde estavam as crianças a quem tanto procuravam.
Com um leve suspiro, Shay se aproximou lentamente de uma das janelas laterais da cabana e espiou pela janela, procurando quaisquer sinais de vida. Haytham, por sua vez, se apressou e agachou-se, puxando um pequeno clip do bolso, na tentativa de destrancar a porta. Em alguns segundos, um pequeno clic vindo da maçaneta alcançou seus ouvidos.
— Faça as honras, Shay... – o grão templário sorriu, satisfeito. Em seguida, gesticulou cordialmente para que Shay fosse o primeiro a entrar.
Eles não precisaram mais aguçar seus sentidos para que encontrassem ninguém. La estavam eles, os filhos do capitão, acuados perto de uma cama; mantendo-se abraçados sabe-se lá por quanto tempo. Seus rostos estavam claramente úmidos, e sua respiração acelerada denunciava que deviam estar chorando ali por horas, enquanto ouviam disparos e explosões não tão longe da própria casa. Quando o som das botas se chocaram contra o chão de madeira, um garoto, o que imaginaram ter pouco menos que cinco anos, os encarou corajosamente.
Ele agarrava a irmã, tão assustada quanto. Então, tentando manter a voz firme, ele falou.
— Qu- Quem são vocês? Não os conheço... são... Amigos do meu pai?
Os templários se entreolharam, mentalmente decidindo quem responderia. Por fim, Haytham negou, revirando os olhos.
— Não olhe pra mim. Não tenho nenhuma experiência com crianças – ele se limitou a falar.
— Tudo bem, Mestre Kenway, eu cuido disso – Ele se aproximou do garoto lentamente, com suas mãos em sinal amistoso – Sim, eu... Somos amigos do seu pai – mentiu. — Eu o asseguro de que pode confiar em mim, garoto. Meu nome é Shay. E aquele homem atrás de mim é meu amigo, Haytham. Qual seu nome?
Com um olhar desconfiado, para o leve incomodo de Shay, o garoto se retraiu, não ousando dizer nada. Logo, a criança pareceu se perder em pensamentos por alguns segundos, como se tentasse assimilar aqueles dois estranhos ao seu pai; como se já os tivesse visto antes. Então, ele fitou Shay novamente, como se lembrasse de algo que havia esquecido a tanto tempo.
— Meu pai! – ele gritou – Então... Vocês são amigos dele, não são? Ele é um capitão muito conhecido! Ele nos deixou horas atrás, antes de partir a bordo de seu navio! Nós voltamos pra casa, ele pediu para permanecermos aqui... E então... – ele baixou os olhos – Já fazem horas que ele não volta. E essa guerra lá fora... Os tiros...
O coração de Shay pesou com aquilo. Não simplesmente porque aquelas crianças haviam perdido o pai; por mais triste que parecesse, aquilo era uma guerra, e guerras não distinguiam quem vivia ou morria. Era outra coisa. Era o fato de que, de todos lá fora, foi exatamente ele quem eliminou a vida do pai daquelas crianças. E aquilo acabaria, sem duvida, por arruinar a vida delas. Ora, não tinha sido assim com a população de Lisboa?
E ali estava. O destino ria na cara daquele jovem irlandês. Aquilo nada mais era do que uma piada suja e sem graça. Ele compensaria por aquilo, de algum modo. Com força, ele fechou os punhos e prometeu em silencio a si mesmo. Ele prometeu que compensaria com aquelas crianças.
O irlandês ergueu o rosto novamente, e suavemente, limpou as lagrimas já secas do rosto daquele garotinho. Com um leve sorriso, Shay pegou no ombro da criança e se viu na sua juventude novamente, quando seu pai fora tirado de sua vida.
— Vamos, garoto – ele disse, ficando de pé – Vamos dar um jeito em vocês. Vamos cuidar de você e sua irmã. – ele sorriu para os olhos esverdeados da garotinha. Assustada, ela se enfiou nos braços do irmão. – Meu nome é Shay. Shay Cormac. Eu sou um amigo do seu pai, ele... ele pediu para que procurássemos por você. Esta tudo bem. Qual seu nome?
Calmamente, o garoto sussurrou em um francês num tom quase que inaudivel no ouvido da irmã, e Shay franziu o cenho, curioso. Logo, eles se levantaram lentamente do chão empoeirado, e Shay olhou para Haytham, que se aproximou, percebendo a já adquirida confiança das crianças. O garoto ergueu-se e limpou o rosto com o braço. Fitando-os, após uma longa pausa, ele finalmente falou:
— Meu nome é Remy, senhor. Remy DeLacroix.
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