Assassin's Creed: Other Side

7 Destino... Ou Escolhas?


20 de Setembro de 1764

Boston

Decidi, por mais estranho que me parecesse no inicio, tomar um diário para mim e registrar o que quer que viesse a minha cabeça. Por recomendação do próprio sr. Kenway, devo dizer. Segundo ele, seria algo a tomar meu tempo, e a escrita não só acabou por ser sua sugestão, como descobri que ele também a tem por habito. Devo concordar com ele, admito, ainda mais depois do que aconteceu, e sinto que ainda posso ver o sangue fresco em minhas mãos, mesmo enquanto escrevo estas palavras.

Eu matei alguem, afinal.

Um homem. Sim, eu tomei uma espada em mãos e cravei em seu peito. Sem hesitar, devo dizer. Não, eu não posso afirmar que pensei de primeira vista a fazer aquilo. Não, mata-lo não foi meu primeiro desejo e muito menos como queria ter encerrado aquele dia. E embora ainda tenha pesadelos com aquilo as vezes, ainda vejo aquele homem em meus sonhos – raramente, mas vejo – eu não me arrependo nenhum momento de ter feito isso. Ora, ele teria feito o mesmo com o sr. Ivanov, Kara e minha irmã, não? Pois eles provaram-se capazes de fazer aquilo antes. Assim foi, ainda me lembro bem, com a senhora Ivanov.

Embora tenham se passado meses desde sua morte, devo dizer que o humor entre minha família não é dos melhores, obviamente devido as ações desses tal chamados “Assassinos” desde que partimos de Londres. Sinceramente, não vejo como consigo esquecer tal assunto desde então. Assassinos, Templarios e tudo que aquele tal de Charles mencionou quando nos tinha capturados. Para falar a verdade, sinto que o mestre Kenway poderá me dar as respostas quando o vê-lo novamente, embora tenho sérias dúvidas se receberei, de fato, alguma resposta.

Kara mudou o humor completamente – não que exista tanta diferença quando se trata dela. Claro, se eu já a enxergava como uma versão infatil do Mestre Kenway – ele que não saiba – mas agora, mais do que nunca, sinto que ela fechou-se para todos nós, mesmo que discretamente. E receio em dizer que sinto falta do sorriso dela, mesmo quando era um sorriso projetado para gabar-se de algo para mim. Passamos o tempo um pouco distantes, e não posso culpa-la nem um pouco. Desde que sua mãe partiu, o clima soturno em nosso lar é frequente, não fosse minha irmã a nos trazer um pouco de alegria nesses dias obscuros.

Quanto a minha irmã, fico feliz no fato de que de todos nós, a tristeza parece não te-la atingido tão intensamente. Se minhas manhãs eram reservadas para deixa-la de lado e discutir dia após dia com Kara – algo que me arrependo profundamente – agora, adotamos nossa convivência original, antes de virmos para Boston, anos atrás. Nossas manhãs são prenchidas pelas minhas tentativas de ajuda-la a cavalgar em uma das eguas pertencentes a nossa família. Embora a paisagem de Boston seja monotonamente urbana e suja, temos sorte de morarmos próximo a áreas mais naturais, e de vez em quando, tomo-me na liberdade de visitarmos alem dos limites de nossa residência. Ela parece possuir um apreço pela natureza, e constantemente, ainda que para minha própria duvida, questiona sobre a possibilidade de encontrarmos algum nativo pelas redondezas. Duvido sinceramente, na verdade, até mesmo na simples chance de conhecermos um indio. Não quando há tanta insatisfação — ou intolerancia, melhor dizendo — repleta de olhares em asco quando há presença dos chamados nativos em meio a colonos.

Nessa manhã, porem, decidi acordar mais cedo do que todos. Deixando nossa casa silenciosamente, pus-me a praticar, mesmo que achando constrangedor demais para minha idade, com uma boba e devo ressaltar, infantil, espada de madeira. Não consigo explicar, porem, minha ânsia de tocar numa espada de verdade, uma feita de aço, e sentir alguma ação de verdade. Sinto que o sangue de meu pai realmente corre forte em minhas veias.

Enquanto respirava de mais um golpe desferido em uma arvore, logo avistei a fonte de minhas respostas a me observar, ajeitando seu usual chapéu tricorne.

— Bom dia, sr. Kenway.

Ele acenou levemente, descendo do cavalo e aproximando-se de mim.

— Vejo que ainda tem uma fibra para essas coisas, rapaz.

— Sim, embora admito não ser tão divertido sem a Kara por perto. Ela está meio indisposta para essas coisas. Acho que não posso culpa-la, na verdade.

— E você não, Remy? – ele perguntou , recostando-se ao cercado – Acredito que ... todos vocês devem encontrar-se inconsoláveis nestes dias, não é?

— Não mesmo, Sir. Digo – eu disfarcei, abrindo um sorriso fraco – Não que não me sinta mal com o que aconteceu, mas acho que já me acostumei a isso.

Olhei-o de soslaio. Se quisesse tocar naquele assunto outra vez – assunto o qual sei que ele provavelmente evitaria a todo custo – deveria aproveitar o momento.

— E o senhor? – questionei, forçando inocência na voz.

— Que tem eu?

— Já... deves ter perdido muitos amigos, não? – disse, pouco importando-se com meu tom brusco, quanto menos com um assunto tão delicado para uma criança discutir.

Ele riu secamente.

— Sinto em dizer que não, rapaz. Não, nunca tive muitos a quem pude verdadeiramente chamar de amigos, exceção de um ou outro. Mas por que a pergunta?

— Sabes bem como é... Esses Assassinos por aí, devem ter causado tantos problemas para ti, mestre...

— O que sabes sobre isso, rapaz? – ele me sondou friamente, esperando qualquer reação.

Decerto, imaginava que eu tinha algum conhecimento sobre o assunto. Não podia culpa-lo na verdade, já que não era possível que ele soubesse sobre tudo que aquele tal Charles conversara comigo, é claro. Ele não presenciou cada momento de nossas interações.

— Err, nada, Sir. Mas aqueles homens em Londres mencionaram essas coisas sobre Templários, inclusive chamando o senhor disso, lembra-se? Do que se tratam esses... Templários?

— Esqueça isso – ele suspirou, virando o rosto – São coisas que Nikolai julgou melhor esconder de vocês, e com bons motivos. Essa vida, menino, não é um caminho fácil a seguir, e alem disso – ele abanou as mãos — é uma longa historia.

— Ora, então conte-me. Me explique, por favor, senhor Kenway! — insisti, no que pensei ser minha única chance de convence-lo.

Notei que ele parecia hesitante, diria até que com o olhar perdido, decerto lembrando de algo, como se ponderasse se era valido me contar mais. Lembrando bem, suas interações com o Sr Cormac – o qual agora entendo completamente estas tais viagens a “negócios” como ele sempre dizia se tratar suas viagens – entregavam o que imaginei estar pensando. Talvez eles já haviam calculado a ideia de eu descobrir algo. Ou quem sabe até mesmo, nas mais assombrosas possibilidades, de que eu tivesse contato com o que tanto queriam desejavam ter evitado.

— Ora, não é um clube de brincadeiras, rapaz – disse, seriamente – Não é algo a qual deves dizer sem muito considerar, e menos ainda entrar de cabeça tão repentinamente. Além disso, não é tão simples de explicar, menino.

Decidi ir direto ao ponto, mesmo que eliminassem toda e qualquer chance que me restava de descobrir algo.

— O que vocês, Templarios, fazem? O que são vocês?

Ele suspirou, ficando de costas para mim.

— Uma Ordem. Uma sociedade, Remy. Nós buscamos propósito. Disciplina. Direção. Nada mais do que isso – disse, categoricamente — Para tornar essas terras, um lugar ideal. Um Novo Mundo, onde algum dia, rapaz, todos possam viver como iguais, sejam colonos ou nativos. Para que o mundo não se instaure em uma era de caos e que tragédias como a da sra. Ivanov não mais se repitam.

Posso jurar que naquele momento, tudo que senti fora nada menos do que fascínio. Ouso dizer até mesmo que aquelas palavras foram o que pareciam ter me guiado para a minha decisão final. Ouvindo aquilo, eu sabia que o que quer que me esperasse, era como se meu coração havia desejado aquilo desde que sujei minhas mãos com o sangue daquele dito Assassino meses atrás.

Claro que naquele ponto, já não mais sabia se aquilo era meu coração clamando por justiça ou minha mente infantil com sede de vingança contra os Assassinos. Tudo que eu sabia era que não importassem as consequências de minhas decisões, eu já sabia o que fazer. Restava apenas rezar — embora, claro, nunca havia gostado de práticas tão passivas. Se eu quisesse algo, eu devia agir.

E foi o que eu fiz.

— Eu posso ser um de vocês, mestre Kenway? – disse, com convicção, na esperança de que aquele apelo feito por uma mera criança não o fizesse rir ali mesmo e tomar-me como piada. – Ser um Templário? É... Possível?

De costas, ele parecia inquieto, diria até que surpreso por aquele pedido. Então montando no cavalo novamente, me fitou seriamente. Quando deu sua resposta, mal consegui segurar um sorriso.

— Muito bem, se é o que deseja – ele disse, parecendo relevar – Tente dormir cedo hoje, rapaz. Já vou avisando, não será um caminho fácil a seguir. Mas... se estás tão disposto a isso, saiba então, que anteciparemos seu treinamento para amanhã.

Assenti, solenemente, enquanto ele galopava para longe, ao passo que uma pontada de ansiedade percorria pelo meu corpo.