Notas iniciais
Ola! Hoje não é dia de Thor, mas é dia de Frigga e ta valendo. Como prometido, trago-lhes as resposta sobre como ficou Jenny após esse ataque. É um cap bem pequeno, confesso, mas ele é POV dela ♥ A nova vida de Jenny começa agora!

O gosto amargo e a quentura em minha boca despertaram-me. Meus olhos estavam turvos e eu mal podia a abri-los devido à claridade, mas eu logo os fechei quando senti aquela pontada de dor em meu ventre. Era terrível, como se estivesse sendo perfurada de dentro pra fora. Eu não conseguia pensar e foi a voz da Velha que me trouxe a tona todas as lembranças... Eu estava grávida... Havia um incêndio... Então novamente a dor dilacerante tirou minha concentração.

— Lembre-se garota, você precisa empurrar com toda a sua força. – Ela me dizia em português.

Eu não estava em condições de questionar qualquer coisa, por isso confiei meu destino e a vida do meu filho em suas mãos e lá estava eu, respirando pela boca, pernas abertas e empurrando. Mas algo estava diferente, sim, as dores não eram como na primeira vez.

— Continue garota. Isso depende apenas de você...

Apenas de mim? E quanto ao meu bebê? Tenho certeza que aquele momento era um trabalho conjunto. Mas continuei com a minha parte e desta vez não demorou para que eu sentisse algo quente a me escapar e molhar. Era sangue e eu confirmei ao ver minhas mãos que se agarravam às minhas coxas se mancharem de rubro. Contudo, não ouvi o choro. Eu tinha certeza que o havia sentido passar, sim tudo estava lá, exceto o choro. Entretanto, eu não tive tempo para averiguar o que havia ocorrido, pois meus olhos ficaram novamente turvos e a escuridão me tomou para si uma vez mais.

Não sei quanto tempo fiquei desacordada, mas quando reabri os olhos procurei pelo bebê que deveria estar ao meu lado. Mas não estava. Nem Sexta-feira e nem Nala. Não havia ninguém e nem mesmo uma voz era audível dali. No ar ainda pairava o cheiro de queimado que me alertou instintivamente. Levantei-me, mesmo sabendo que estava fraca e a tontura me levou ao chão logo em seguida. Meus braços e pernas tremiam enquanto eu tentava me reerguer. Foi quando a Velha adentrou a cabana e se deparou com essa cena deplorável.

— O que pensa que está fazendo?

Ela se abaixou e com a dificuldade que sua idade lhe impunha, conseguiu com muito esforço me sentar na cama.

— Indo atrás de respostas, foi a única alternativa deixada a mim... – Eu a fitava diretamente em seus olhos cansados, mas ela não ousou fazer o mesmo. Levou sua atenção até um prato de sopa que só então notei em suas mãos.

— Fazendo uma estupidez, é o que acho que estava fazendo. Tome, estou cansada de lhe dar de comer. – Ela parecia a mesma de sempre, com o mesmo lenço lhe envolvendo a cabeça, o mesmo tom de voz, a mesma postura... Mas suas roupas estavam sujas. Manchadas de preto e terra aqui e ali.

Sem olhar para mim um instante se quer, ela deixou a comida e se ergueu para ir embora, mas eu não pretendia permitir.

— Não fuja de mim sua Velha ranzinza. Onde está o meu bebê?

Ela parou e de costas para mim respondeu secamente. – Lá fora. Ao lado de Sexta-feira e Nala.

— E o leite? Quem está lhe dando leite?

— Seu filho não precisa de leite, pois veio morto a esse mundo. Um menino da sua cor, como sua filha havia sonhado.

O ar fugiu de mim e nada mais existia ao meu redor. O único som que eu podia ouvir era o do meu coração. As lágrimas chegaram e transbordaram sem qualquer alarde. Acho que no fundo eu já sabia. Eu já podia prever.

— E Sexta-feira? E Nala? Como estão?

— São muitas perguntas garota, recupere as suas forças primeiro e... – Eu a interrompi antes que ela pudesse terminar a sua frase.

— Como eles estão?!

Foi só então que ela se virou e seus olhos encararam os meus com a mais profunda tristeza que eu já havia visto naquela mulher. – Eles estão mortos. Foram baleados durante o ataque e eu e você somos as únicas que aqui restou. Nessa terra de mortos.

Com um dos braços ela abriu a paliçada que recaia na entrada da porta, quase como uma cortina, e eu vi a mata queimada, as pedras que demarcavam os locais onde os mortos estavam enterrados e o céu que insistia em ser azul diante de tamanho massacre.

— Quando eu a encontrei, você ardia em febre alta e já perdia sangue.

— Eu vi o fogo e ouvi gritos misturados a disparos. Eu queria ir lá porque eu sabia o que estava acontecendo. Eu precisava pegar a minha filha, mas minhas pernas fraquejaram e eu caí... – Minha voz era um sussurro abafado.

Minhas mãos tocavam minha barriga flácida, procurei tolamente pela vida que antes havia ali, mas agora restava apenas um espaço vazio.

— Você se feriu gravemente e julgando pelo sangue que lhe escorria por entre as pernas, soube que algo precisava ser feito ou você morreria junto ao bebê. Chás de cor escura são fortes e as escravas costumam beber para evitar crianças frutos de estupros. Foi o que dei a você para lhe curar da febre. Em poucas horas seu corpo começou o processo para a saída da criança, antes que ela pudesse apodrecer dentro de você. Lembra-se disso não?

Era uma lembrança vaga, quase como um sonho ou delírio, mas eu me lembrava. Sim, estava tudo lá. A dor, a Velha e o cheiro de sangue acompanhado de morte. Uma morte causada por mim.

— Eu matei meu filho ao decidir me levantar... – Eu olhava o solo seco e rachado sob os meus pés empoeirados tão descrente e ao mesmo tempo tão consciente que minha vida havia acabado, que eu mal passava de casca vazia agora.

— Nas condições em que você estava, não tenho certeza se conseguiria se recuperar sozinha. – A Velha se calou e esperou por uma resposta, uma confirmação ou qualquer reação minha, todavia, eu estava tão morta quanto a minha família. Então ela continuou. — Você dormiu por mais três dias após isso, não há ferimentos em sua pele, mas temo que seus ferimentos internos nunca se curem.

Ela continuou sem qualquer resposta e decidiu me deixar sozinha, provavelmente perdera as esperanças em manter aquele relato a mim. Não importava mais como ou quando aconteceu, nada mais traria Sexta-feira e meus filhos de volta.

A sopa ainda exalava fumaça e um aroma bom, mas eu não encontrei nenhum motivo para comer. Naquele momento eu desejei ter morrido junto ao meu filho. Desejei não ter acordado para aquela realidade que não fazia mais sentido para mim.

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A sopa já era uma pasta quando a Velha retornou ao anoitecer e me encontrou exatamente como me deixou. — Se você não comer, não irá conseguir recuperar suas forças e irá definhar. – Ela tentava me alertar, mas meus ouvidos estavam surdos a qualquer coisa.

— Eu já estou morta, Velha. Você não vê? Apenas não fui enterrada.

— Estou cansada de cavar. Sou velha demais para isso. – Somente então eu voltei a lhe olhar. Ela estava nitidamente cansada e seus olhos inchados e vermelhos denunciavam as lágrimas que por ali rolaram. A morte é sempre pior para os que ficam.

— Como você sobreviveu?

Ela me encarou e caladamente desenrolou o lenço que lhe escondia o topo da cabeça, na lateral desta eu vi um longo corte que se iniciava em sua testa e terminava um pouco atrás da orelha.

— Eu caí e bati essa cabeça dura em alguma coisa. Com sangue espalhado por todo o lado, não devem ter me julgado como viva. Mas minha cabeça resistiu e o corte não foi profundo o suficiente para me matar. – Ela tornou a esconder a ferida e prosseguiu. – Quando acordei eu estava tão sozinha quanto você. Sem meus amigos, sem minha tribo e sem minha amada Mabuba.

— Então resolveu me acordar para dividir o seu sofrimento. Para ter alguém com quem chorar ou para aliviar a culpa.

— Não seja mesquinha e muito menos idiota. Salvei-te porque você é a única que pode fazer alguma coisa. – Ela jogou em meus pés minha antiga lâmina oculta. A mesma lâmina que Anne Bonny me deu antes de morrer.

— Onde encontrou isso? – Perguntei completamente abismada ao ver algo que há muito tempo eu havia esquecido.

— Enterrado na sua cabana. Mabuba a encontrou quando soube que você pegou o arco dela escondido. Ela estava disposta a encontrar um motivo para lhe expulsar daqui.

— Por causa de Sexta-feira? – Voltei meus olhos para a Velha e sem relutar ela me respondeu.

— Sim, por causa de Sexta-feira.

— E por que não me expulsou?

— Aguardamos e observamos você, esperando qualquer movimento, qualquer contato com o mundo de fora. Mas nada ocorreu e concluí que essa era apenas uma peça velha.

— Não sei que achava que eu iria fazer ao me dar isso, mas eu já te disse Velha, eu não pertenço à irmandade dos Assassinos.

Ela se aproximou de mim e repentinamente se ajoelhou a minha frente para tomar minhas mãos entre as dela. – Nossa tribo não era grande, mas foram poucos os corpos que encontrei. Eu vi Mabuba lutar e não encontrei seu corpo. Eu sei que ela ainda está viva, assim como muitos outros. Somos mais valiosos a eles estando vivos e por isso estou aqui, implorando à uma garota branca pra libertar o meu povo e a minha Mabuba.

— Pare com isso, Velha. Não sou nenhuma rainha para ter alguém ajoelhado aos meus pés. – Eu a ajudei a se reerguer e ela mantinha seus olhos firmes a espera de uma resposta minha.

Eu me levantei e fui até a sopa, a qual as moscas rodeavam e pousavam livremente. Logo aquela comida iria feder a podre e eu não ousaria tocar nela, então me virei com o prato em mãos enquanto ela ainda me observava.

— Ainda tem comida?

Notas finais
Curiosidade: A Velha é um personagem baseada em uma velha ex-escrava que existiu de verdade. Eu não a conheci pessoalmente, apenas através de relatos da minha sábia vovó. Curiosidade nº 2 : Sim, chás de cores escuras são perigosos e podem ser abortivos até certo período da gravidez. Eu, graças a Deus, nunca abortei. Então desta vez não posso dizer que o relato foi de uma experiência própria. Então escrevi conforme já li de depoimentos pela internet a fora. Nos vemos na semana que vem para comemorar o natal! Uhul! Beijos e até XOXO