Notas iniciais
Um Feliz Natal super atrasado a todos!

Jenny passou a ajudar a Velha no recolhimento do que ainda tinha qualquer utilidade, como roupas, comida, armas etc. De certo fora uma tortura a parte revisar os restos de sua própria cabana. Ver brinquedos de Nala, roupas de Sexta-feira e tudo que ali estava, pois, cada coisa continha em si uma lembrança única. Ela dava seu último adeus em meio a lágrimas que escorriam e salpicavam o chão daquele que fora seu lar nos últimos anos. A Kenway reuniu tudo o que um dia pertenceu a sua filha e as enterrou ao redor da mesma. Fez o mesmo com as coisas de Sexta-feira enquanto a Velha continuava a colher nas plantações próximas para que ambas tivessem o que comer.

— A fumaça torna o calor ainda mais insuportável... – Com uma trouxa de raízes ela se aproximou com seus passos arrastados e cansados — O que está fazendo? – A Velha questionou ao se aproximar e prestar atenção no trabalho manual feito pela jovem.

— Uma cruz para Nala.

— Não usamos cruz aqui.

A Kenway não lhe respondeu e continuou a fazer nós entre os galhos que conseguira nas proximidades para fazer uma pobre e simples cruz. Não encontrando outra alternativa, a Velha mudou o assunto.

— Como se sente?

— Meu corpo está bem, se é o que quer saber. O trabalho me ocupa a mente...

— E o que irá fazer agora? Tenho certeza que não tenciona continuar a viver aqui...

— Não e você?

— Eu não sei. Para aonde eu poderia ir? Outras tribos devem estar em igual situação, não vejo para onde eu possa fugir.

Jenny se ergueu e com olhos fixos no horizonte sentiu o vento a balançar suas madeixas loiras naquele entardecer. – Além dos mares há tanto negros quanto você batalhando contra a escravidão. Eu sugeriria procurá-los, assim também poderá pedir ajuda para Mabuba.

— Você está mais perto dela, você pode ajudá-la.

A mais nova se virou e ficou frente a frente com a Velha por alguns instantes antes de se movimentar para longe desta. — Desista de mim.... Eu já lhe disse que não sou uma Assassina. E muito menos algum tipo de herói.

— Não estou pedindo para ser um, apenas que não feche olhos para pessoas inocentes.

Porém, Jenny não lhe respondeu e em seu silêncio voltou para os restos de seu lar. Ao seu redor a cama permanecia como a deixara, e alguns poucos de seus pertences estavam espalhados. Havia também algumas facas utilizadas por Sexta-feira para esfolar os animais que conseguia abater. Ela caminhou para frente do pequeno espelho a qual ela trouxe do Ashai e encarou seu reflexo magro e abatido. Seu rosto estava sujo de barro seco, os lábios rachados e os seus cabelos estavam embolados feito um ninho de pássaro.

— Jennifer Scott Kenway... Filha de Caroline Scott Kenway e Edward James Kenway.... Eu a declaro morta e enterrada neste lugar. – Seus olhos ardiam, mas ela recusava-se a chorar. – Pois aqui estou eu, papai, pagando com a minha família pelo infantil desejo de ser como você. E agora eu sou igual a você como nunca fui antes. Sem família, sem terras e sem amigos. Uma vida desgraçada que se divide entre ansiar pelo dia de minha morte e pela maldita sede de vingança. Mas eu, papai, não irei percorrer esse caminho. Porque a Jenny que sonhava em navegar morreu com Anne Bonny. A Jenny que foi mãe morreu. A Jenny esposa morreu. E o que sou agora se não uma sombra de alguém morto? – Ela agarrou uma das facas de Sexta-feira, com a outra mão apanhou uma mecha de seu próprio cabelo e o cortou, fio por fio. Até que suas madeixas a rodeassem e seu pescoço estivesse exposto como o de um homem. – Ainda há um Kenway vivo neste mundo e ele é tudo o que me restou de família.

Com a noite já a cair, Jenny foi se lavar no rio, levando junto a si algumas roupas de Sexta-feira. No caminho ela passou pelas únicas três cruzes naquele precário cemitério. O da esquerda estava escrito Sexta-feira, o do meio Nala e o da esquerda Edward. A jovem se lavou não apenas externamente, mas naquelas águas ela deixou as últimas lágrimas caírem, deixou para trás suas lembranças daquele lugar e todo e qualquer sonho que ela ainda poderia alimentar.

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Ela por fim se deitou pela última vez naquele lugar e com o primeiro raio de luz matinal desperto. Como fizera a muitos anos, ela prendeu duas facas em suas costas, na altura da corda que amarrava suas calças. No pulso direito ela prendeu sua Hidden Blade e a camisa de mangas longas e largas escondeu a lâmina oculta. Jenny deixou sua cabana sem olhar para trás e foi a procura da Velha logo cedo.

— Por que está vestida assim? – Ela lhe questionou assim que a viu. – O que houve com seu cabelo?

— Ainda que minha pele seja branca, ou amarela, como vocês costumavam dizer, ser uma mulher sem família é quase tão ruim quanto ser um escravo.

A Velha não tirou os olhos de si enquanto sua sobrancelha se arqueava. – O que quer dizer?

— Estou partindo e sugiro que faça o mesmo.

— Para onde vais?

— Para o porto em busca de alguma embarcação que vá para Nova York.

— Nova York?

A Kenway tinha a concentração voltada a pedaços de aipim e inhame que a Velha cozinhava para o próprio desjejum. Poderia estar descansada e limpa, mas não estava alimentada.

— Pare de secar e pegue logo algo para comer... – A Velha disse por entre resmungos à jovem.

Jenny não recusou e não lhe respondeu, mas pegou para si alguns pedaços do cozimento enquanto se permitiu sentar-se sobre a palha trançada que cobria o solo barroso. – Sim. Nova York. Há alguns velhos conhecidos meus lá atualmente.

— E quanto a Mabuba e os outros?

A loira, que já mastigava um pedaço do aipim, fitou a mulher a sua frente e ponderou naquele instante se o seu sofrimento era tão ruim quanto o dela. Não era. Jenny tinha a certeza que seus filhos e Sexta-feira estavam mortos. Ela viu seus túmulos e se enlutou por eles. Mas a Velha não poderia ter certeza de nada. Mabuba foi levada não se sabe para onde e nem mesmo se estava viva. A esperança é um sentimento bom quando se tem meios de alimentá-la, caso não, passa a lhe sugar a racionalidade por não aceitar o ato de desistir. Jenny teve pena dar velha mulher.

— Velha... – Ela respirou fundo e prosseguiu. – Nem você e nem eu sei para onde ela foi levada e nem ao menos se está viva...

— Ela está! – Interrompeu-a firmemente enquanto evitava deixar as lágrimas rolarem. A ideia de Mabuba estar morta era simplesmente inconcebível.

Jenny se ergueu e guardou na pequena bolsa tira colo que carregava alguns pedaços do café dá manhã simples, mas nutritivo o suficiente para lhe dar forças.

— Estou partindo, Velha e é bem-vinda para vir junto se quiseres.

— Eu irei ficar e esperar por Mabuba.

Sabendo que qualquer argumentação seria inútil com a negra, a Kenway apenas suspirou e aceitou sua escolha. Ela não poderia obrigar a ninguém de abdicar de suas esperanças, principalmente quando se tratava de alguém perdido. A Velha tinha o direito de poder ficar e Jenny iria respeitar sua escolha, ainda que não concordasse.

— Adeus, Velha. Espero que reencontre Mabuba e seu povo.

Ela se virou de costas e não viu o leve aceno que recebera em troca. O sol ainda estava baixo e o calor ameno, mas em poucas horas estes estariam quase insuportáveis e por isso a loira tratou de iniciar sua jornada margeando o Rio Kwanza que lhe renderia água até chegar à estrada. E assim ela o fez, atenta aos seus arredores e sons para evitar encontros desnecessários com crocodilos ou mesmo leões e leopardos.

A terra úmida aliviava o calor enquanto sua cabeça parecia torrar a cada passo, de tempos em tempos ela molhava o rosto e os braços, pois seu corpo parecia estar secando debaixo daquele sol escaldante e foi em um desses momentos de pausa que ela ouviu entre os sons típicos das matas o som de cascos. Ela se reergueu e analisou o terreno a volta. Não havia planícies grandes o suficiente e seguras para serem bois ou zebras. Além disso, apesar do som aumentar gradativamente era fácil deduzir que se tratava de poucos animais, provavelmente uma dupla. Acompanhado do galope estava o ruído de madeira e a voz de um homem a incentivar os animais.

Jenny correu, abrindo caminho por entre a vegetação ressecada e amarelada até chegar ao limite de uma pequena colina e daquele ponto ela visualizou uma carroça de carga na estrada que cortava a área à poucos metros de distância.

— Hey!

Ela gritou e assobiou, mas não houve e respostas, sendo assim ela desceu a pequena ribanceira, sujando-se de terra e poeira, contudo sem diminuir a velocidade até aquela que poderia ser sua chance de viagem.

— Hey! Você! — Esforçava-se ao máximo para evitar que sua voz parecesse fina demais para um rapaz enquanto seu português se arranjava para fora da garganta.

Por fim, o condutor puxou as rédeas dos cavalos e retirou o chapéu velho do topo da cabeça para ter uma melhor visão do jovem que corria afoito em sua direção.

— Santo Deus... – Proferiu o senhor quando o estranho parou ao seu lado. — O que faz em um lugar desses, rapaz?

Jenny respirava ofegante, uma de suas mãos repousava sobre o peito que se inflava. Seu rosto estava baixo e todo o seu corpo molhado de uma mistura com suor e água. – Obrigado.... Por parar.

— Não há de que meu jovem. Como se chama?

— James... James Kenway.

— Me chamo Joaquim. Como veio parar em um lugar tão perigoso quanto este?

Jenny ergueu a face, ainda ruborizada pelo esforço da corrida, e olhou no castanho dos olhos daquele homem. As rugas em seu rosto realçavam sua idade, provavelmente na casa dos quarenta, o cabelo estava queimado pelo sol, mas havia certa tendência à calvice. Em sua carroça havia uma pilha de abacaxis e os cavalos eram razoavelmente bonitos. Não se tratava de um miserável, contudo também não era alguém de muitas posses.

— Eu me perdi... – Ela fingiu ainda recuperar o fôlego e abaixou o rosto quando mentiu. – Eu estava indo ao porto. Pensei que não fosse tão longe e me perdi.

— E de onde vieste?

Novamente Jenny se viu sem uma resposta decente para ceder ao homem. Então, mais uma vez ela mentiu a ele. – De uma plantação pequena. – Ela olhou ao redor, como se a procura de algo em específico e completou. – Desculpe, já não consigo apontar a direção certa.

— Está tudo bem rapaz. Sorte sua eu estar indo para o porto. Suba aqui.

Joaquim cedeu algum espaço a ela ao se ajeitar no canto do banco de madeira e Jenny subiu muito agradecida pela carona recebida. Ele incitou os cavalos com as rédeas e logo estavam em movimento.

— Há quanto tempo está perdido?

— Algumas horas, senhor.

— Sabia que leões e cobras espreitam essas terras? Poderia estar morto agora rapaz.

— É verdade, senhor. Muito obrigado novamente.

— Eu já fui jovem como você e agia com certa imprudência também. Servirá como aprendizado...

— Certamente, senhor.

— Mas me diga, o que irás fazer no porto? De certo não irá vender, pois não carrega nada junto a ti

— Irei partir.

Joaquim soltou uma risada rouca ao ouvir a resposta de “James” e lhe respondeu. — Ingleses como você não estão preparados para o rigor dessas terras.

— Como sabes que sou inglês? – Ela arqueou a sobrancelha ao ouvir aquilo.

— Não para de repetir senhor feito um papagaio verde. – Joaquim voltou a rir de maneira esquisita. — Voltará para casa, meu jovem?

— É o plano, senhor.

— E o que lhe trouxe a essa terra de ninguém? Pensei que os ingleses estivessem ocupados com aquelas colônias no norte da América não? Plantando abóboras e milho.

— Há uma colônia inglesa ao sul da África também. Mas de fato, pretendo ir para as colônias inglesas na América antes.

— E sua família, rapaz? Onde estão?

— Longe demais, em outro mundo eu ouso dizer.

— Bom, comparado a este lugar acho que podemos chamar a Inglaterra de outro mundo não?

Jenny não lhe respondeu com palavras, apenas lhe confirmou levemente com a cabeça. Todavia, Joaquim pareceu notar seu entristecimento e tornou a mudar de assunto.

— Está com fome rapaz? Pode pegar um abacaxi se quiser. Há uma faca para descascar aí atrás. Jenny se virou para coletar um abacaxi e procurar a faca de descasque. Assim eles seguiram pela estrada conversando sobre abacaxis, seu plantio e colheita.

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O céu tornava-se uma aquarela de vermelho e laranja quando a dupla chegou ao porto. Os cavalos estavam completamente fatigados, pois Joaquim temia ser atacado em uma viagem noturna, por isso exigiu ao extremo dos animais.

O porto estava tão movimentado quanto qualquer outro, contudo este fosse um tanto mais precário quanto suas construções. Além disso a movimentação de negros aqui era notavelmente superior a qualquer outro lugar a qual ela já tenho visto antes. Infelizmente, a grande maioria carregava correntes que os identificavam como escravos. Homens armados espreitavam por quase todas as esquinas, não eram um exército, apenas homens responsáveis por manter aqueles negros em ordem.

Tão logo a carroça parou sobre a sombra de um pequeno edifício próximo ao mercado de especiarias, Jenny já descia do veículo quando Joaquim lhe chamou.

— Hey rapaz... – Jenny se virou para lhe dar atenção e ele prosseguiu. – Aconselho que consiga algumas roupas melhores antes de barganhar um lugar em um barco desses. – Ela assentiu e já se virava novamente, mas o homem não havia acabado. – Você tem dinheiro rapaz?

— Não, senhor. Pretendo pagar minha passagem com serviços a bordo.

— Foi o que pensei.

— Eu posso lhe pagar algumas moedas se ficar de olho em minha mercadoria enquanto arranjo uma cama para dormir e um armazém para deixar minha carroça.

— É muito gentil de sua parte, senhor.

— Não deixe ninguém roubar nada até eu voltar.

Joaquim desceu e acariciou um dos cavalos enquanto caminhava para longe e com a voz um pouco elevada proferiu. – Irei providenciar que tragam água e comida para os cavalos também!

Sua silhueta sumiu logo após em meio a multidão que perambulava pelo local, enquanto isso Jenny voltava a se aconchegar no banco do cocheiro e assistia à movimentação ao seu redor. Haviam escravos carregando de tudo um pouco por ali. Homens brancos que fumavam tranquilamente e observavam “seus” negros a trabalharem como condenados. Gritos de repreensão eram ouvidos de tempos e tempos, mas um lhe chamou a atenção, devido o agoniante grito de dor que se seguiu. Um branco chicoteava em meio a praça pública um homem já caído e com as costas sangrando graças a violência. O capataz gritava e xingava o pobre homem das piores coisas possíveis, porém quando viu que o negro não tinha forças para se levantar, ele se aproximou e o puxou para o alto pelos cabelos crespos. Foi com dor e espanto que a Kenway reconheceu aquele sofrido rosto. Era um dos companheiros de caça de Mabuba. Um habilidoso guerreiro que tinha os pés acorrentados um ao outro e carregava a coleira de ferro no pescoço feito um cão.

Ela se levantou e suas unhas feriram as palmas de suas mãos de tão forte que seu punho se fechava para de alguma forma reprimir sua revolta e acima de tudo sua vontade de agir, pois, seria no mínimo um ato suicida de sua parte. Aquele que carregava o chicote arrastou o negro para um tronco e o acorrentou ali junto a outros dois negros que ali já pendiam feito cadáveres.

A loira olhou para os abacaxis atrás de si, depois para a Hidden Blade que repousava em seu pulso e por fim para o homem que ainda reclamava de “seu” escravo recém comprado. Uma abordagem a ele quanto onde “comprou” o negro seria deveras suspeito, isso se não fosse ignorada, então por hora ela preferiu observar. Outros escravos continuaram a carregar caixotes de mercadorias desconhecidas a ela e quando aparentemente não havia mais nada a ser carregado, o dono dos escravos se foi, mas não antes de falar qualquer coisa com o antigo companheiro de Mabuba.

A noite caiu por completo e loira desceu e seguiu até o tronco onde estavam os três negros acorrentados pelos pulsos no topo da madeira, onde havia argolas grande por onde passavam as correntes e cadeados. Talvez não fosse pelo movimento causados por suas respectivas respirações, poderiam ser julgados como mortos devido aos ferimentos e ao fedor que emanavam.

— Landú, pode me ouvir? – Ela olhava para os outros capatazes que rondavam o perímetro, mas a noite havia uma quantidade menor destes a perambular pelas ruas.

O pobre homem abriu os olhos com muito esforço e focou na jovem que ele reconheceu de imediato.

— Jenny... – Ele disse quase como um suspiro.

— Xiii! Não diga o meu nome.

— Você está viva...

— Estou. E quantos aos outros? Estão com esse homem que lhe prendeu aqui?

Ele negou com a cabeça, falar parecia exigir muito de si naquele instante. – Este homem deu algumas moedas para me levar no mercado há alguns dias. Fomos divididos por entre alguns dos homens que nos atacaram.

— Alguém mais está com ele?

— Não que eu saiba. Alguns foram levados para navios e já devem estar no meio das águas salgadas agora. Mabuba e alguns outros ficaram com o líder da tropa.

— Você sabe onde ela está? — Mas ele negou mais uma vez e tornou a fechar os olhos. – Escute. – O negro lhe rendeu atenção mais uma vez e ela prosseguiu. – Consegue correr? Acha que consegue se esconder nas matas?

— O que você está dizendo? Esses homens podem lhe entender também. – Landú apontou para os outros dois homens ali acorrentados, mas eles não reagiram.

— Eles podem fugir também se assim o quiserem.

Ambos os homens abriram os olhos e encararam a jovem após sua declaração. Então Landú perguntou o que trio desejava saber. – O que pretende fazer?

— Reúnam a força que tiverem e se preparem.

Jenny os deixou e voltou para a carroça de abacaxis instantes antes do próprio Joaquim retornar ao local.

— Eu peço desculpas pela demora. Aqui está um saco de maçãs para os cavalos.

Algumas frutas rolaram ao chão quando o bom homem despejou uma sacola pequena próximo aos animais e em seguida ergueu uma das mãos até o jovem “James”. – Aqui está rapaz, duas moedas pelo serviço.

— Obrigado, senhor. – Jenny aceitou o dinheiro, ainda que fosse uma merreca.

— Me diga rapaz, aonde passará essa noite?

— Não sei ainda, senhor.

— Achei que diria isso.... Não irei dormir tranquilamente sabendo que deixei um jovem sem abrigo a noite, por isso venhas comigo. Não acredito que haverá problemas em dividir um quarto.

— Senhor, não que eu esteja sendo mal-agradecido pela sua gentileza, mas se me permite, por que está me ajudando? Sou um completo estranho.

De fato, Jenny estava deveras curiosa com aquela atitude que era tão rara de encontrar em meio a um lugar onde as pessoas podiam ser divididas entre as que subjugam e as que são subjugadas.

Mas o bom homem não lhe respondeu, correndo os dedos sobre seu cavalo e subindo por fim no lugar onde esteve sentado durante todo o dia. Ele olhou para “James” e indicou para que subisse também. Jenny assim o fez, mas sem tirar os olhos de Joaquim que já incentivava os animais a andarem.

— Eu tive quatro filhos um dia. Mas hoje tenho três.... Meu filho mais velho, Jorge, não tinha boas mãos para plantar abacaxi e ele sabia disso tão bem quanto eu. Mas isso não o tornava um inútil em minha casa. Oh não... Jorge era um habilidoso caçador e sempre nos trazia uma lebre uma ave gorda para nos saciar a fome. A verdade é que ele conseguia encontrar e rastrear suas presas e alguns fazendeiros vizinhos logo perceberam isso. – Joaquim fez uma pausa e respirou fundo antes de continuar. — Pois bem, logo alguns fazendeiros começaram a procurar meu filho para procurar por seus escravos fugidos e lhes pagavam bem, pois Jorge sempre os encontrava. Entenda James, eu tenho um par de escravos em casa, mas não tenho nenhum tronco como o da praça e muito menos um chicote. A senhora ajuda minha mulher com as coisas da casa enquanto seu marido me ajuda na plantação. Lhe cedemos um teto e um punhado de comida como pagamento. Nunca fomos uma família de muitas posses, mas com esse dinheiro pudemos enviar Miguel, meu outro filho para estudar na Inglaterra como ele sonhava. Pudemos comprar vestidos para Carlota e para a minha mulher. – Jenny o observava atenta e alheia às ruas ao seu redor. – Mas então um dia, percebemos que Jorge não havia retornado ainda, quando ele muito mal passava duas noites em suas buscas e o fazendeiro que o contratou chamou mais homens para ir atrás de seus escravos. Os homens não encontraram os fugidos, mas sim Jorge, morto. Havia perfurações em seu peito que poderiam ser tiros ou flechas, mas considerando o local onde o encontraram concluíram que ele foi atacado pelos negros que se escondem nas matas para pegarem e matarem os capatazes ou homens como Jorge.

— Eu sinto muito, senhor.

— Eu e minha família ainda estamos enlutados, mas sem o dinheiro de Jorge, preciso vir vender meus abacaxis para levar comida para casa. Por coincidência ou por talvez por eu estar ainda muito triste, seu rosto muito me lembra o do Jorge e simplesmente não pude lhe ignorar.

A Kenway nada respondeu e seus olhos estavam fixos em lugar nenhum, olhava para frente, mas seus pensamentos remoíam as lembranças de Mabuba e seu grupo de caça que certas vezes retornavam sem caça alguma. Sexta-feira sabia... Sexta-feira sempre soube. Suas conclusões foram interrompidas quando Joaquim voltou a falar.

— Veja, James, chegamos. É uma hospedagem com estábulo nos fundos. Irei deixar os cavalos e a mercadoria lá.

Jenny ajudou a reunir feno e a acomodar os cavalos enquanto Joaquim contava cada abacaxi de sua carroça para que na manhã seguinte ele conferisse se estava de fato tudo em seu devido lugar. Ele cobriu as frutas com um lençol velho e encardido. Dentro da estalagem, o homem se alimentou com uma sopa rala que Jenny recusou prontamente, estava cansada de tomar sopas. O quarto alugado era modesto e comum. Havia uma cama, uma bacia com água e um pinico abaixo da cama, para eventuais necessidades e nada mais que isso. Juntos, improvisaram uma “cama” no chão com algumas cobertas e um travesseiro fedido.

Foi com prazer que Joaquim lavou o rosto e as mãos antes de se deitar ao passo que ela já estava deitada e olhando fixamente para o teto de madeira do local.

— Descanse, James e boa noite.

— Boa noite...

O som do ronco de Joaquim se fez presente no recinto poucos minutos depois e diferente de sua esposa, Jenny não se incomodou com o mesmo, pois era a confirmação que precisava para se levantar e seguir para a janela que reclamou ruidosamente ao ser levantada, mas o sono de Joaquim não se abalou por isso.

Ela desceu sem dificuldades pela parte externa da construção feita inteiramente de madeira, a verdade é que aquele edifício muito provavelmente fora construído as pressas e sem muito capricho, pois havia falhas aqui e ali que lhe auxiliaram a chegar ao solo. Silenciosamente ela seguiu para o estábulo e lá encontrou os dois cavalos de Joaquim a descansarem. A loira se aproximou e acariciou o dorso de um deles para em seguida retirar-lhe a o arreio de sua boca. O equino relinchou e Jenny respondeu com um longo chiado.

— Não se empolgue tanto e fique quieto. Iremos dar um rápido passeio.

A Kenway se posicionou ao lado do cavalo e respirou fundo, afinal fazia anos que ela não montava e torcia para não ter perdido o jeito. O animal era manso o suficiente para permanecer parado enquanto ela subia e já acomodada ela apertou os calcanhares nas costelas do alazão e este iniciou um leve trote. O breu noturno lhe cedia bons esconderijos, mesmo que caminhando pelas ruas, e sem alarde algum ela chegou até a praça onde estava o tronco com os três escravos. Haviam apenas meia dúzia de capatazes nos arredores e ainda que tentasse pegar um a um, estava há muito tempo sem praticar e certamente daria mais trabalho.

Com os pés ela indicava a direção ao cavalo e assim ambos deram algumas voltas pelas ruas próximas, evitando cruzar com os homens que faziam ronda. E assim como a escuridão lhe auxiliava, ela também lhe atrapalhava a achar o que queria, o quartel Português daquele porto. Contudo, sua paciência e cautela lhe foram gratificantes, pois a cerca de madeira alta e com portões vigiados por homens armados iria lhe servir.

Se havia guardas, então algo valioso deveria ser guardado e sabendo disso ela circundou o local e um pouco escondido por alguns arbustos encontrou uma brecha próxima ao solo na cerca. Jenny desmontou e tirou a corda do animal, que estava a tira colo em sua cintura para amarrar este em uma árvore.

— Me espere aqui e não se assuste certo? – A loira deu alguns tapinhas no cavalo e seguiu para sua “entrada”.

Feito uma criança, ela engatinhou por debaixo das tábuas quebradas e permaneceu escondida no arbusto do outro lado. Ficou ali, aguardando por um tempo, mas era sua noite de sorte, pois nenhum homem parecia fazer a guarda no interior. Contudo havia uma torre e lá sim havia um atirador.

Jenny aproveitou o momento em que ele ficou de costas e correu para torre, subindo a escada vertical. Há poucos degraus do topo ela pôde ouvir com clareza os passos do homem sobre a madeira. Mais alguns segundos e ele se afastou da escada novamente e ela aproveitou e se ergueu atrás dele, envolveu seus braços no pescoço dele e lhe tapou completamente a boca. Houve alguma resistência e alguns resmungos, mas logo a falta de oxigênio lhe promoveu um desmaio e ele caiu.

A Kenway aproveitou para dar uma boa olhada no local que tinha lampiões espalhados em pontos estratégicos, que cediam luminosidade para se andar a noite sem perigos. Ela localizou mais dois guardas na frente das portas de um armazém e optou por começar sua procura por ali. Para sua sorte, havia uma carroça cheia de palha e folhagens secas logo abaixo da torre e sem pensar duas vezes ela saltou com seus braços abertos e olhos fechados.

A queda não era algo indolor, mas a vegetação aliviava a pontada nas costas e permitia repetir o feito mais vezes. Com cautela, ela abriu uma passagem pequena o suficiente para seus olhos serem capazes de enxergar os dois guardas mais a frente. Ambos estavam armados, mas desatentos demais, muito provavelmente não esperavam qualquer movimentação ali tão tarde da noite.

Um assobio, porém, fora o suficiente para lhes chamar a atenção. Eles ficaram confusos em um primeiro instante, olhando para os lados e para cima. Um outro assobio foi necessário para encontrarem seu local de origem. Um deles se aproximou tranquilamente e falando em um tom cansado.

— Luiz, pare com essas brincadeiras à essa hora da noite, estou morto de sono...

Sem pensar, ele enfiou o braço pela folhagem e Jenny aproveitou para puxá-lo para dentro com uma mão e lhe enfiar a lâmina oculta com a outra. Com um engasgo quase animalesco ele morreu sem saber como tudo acontecera. Ela mantinha os olhos no outro guarda que se alertou e se aproximava com mais cautela que o anterior e a arma engatilhada.

— Luiz? Manuel? O que estão armando?

Com o cano e a fina agulha presa em seu mosquete, ele afastou a folhagem do topo do amontoado, fazendo uma bagunça no chão e revelando uma cabeleira loira que não pertencia à Luiz. Percebendo-se da ameaça de um intruso aqui ele tentou gritar, mas a Kenway lhe puxou o mosquete e com a madeira no outro extremo do mesmo lhe acertou o maxilar, lhe aturdindo por tempo suficiente para que ela saltasse da carroça e com mais um golpe da empunhadura o colocou inconsciente.

Com pressa, ela se abaixou para lhe vasculhar os bolsos e encontrou um molho de chaves preso a seu cinto. Com um puxão, Jenny tomou as mesmas para si e seguiu até as portas do armazém que antes estavam vigiadas.

Quando as portas se abriram, a claridade do luar foi o suficiente para lhe apresentar um pequeno estoque de barris e seu olfato logo captou o aroma preso pelas paredes de madeira. Era pólvora. A loira alcançou um lampião pendurado do lado de fora e procurou pelo interior algum pequeno barril que ela poderia carregar com facilidade e de fato havia um punhado desses. Não era de se espantar que o exército português mantivesse tamanha quantidade de pólvora em meio uma guerra civil contra os povos nativos e ela estava prestas a dar uma pequena ajuda ao lado Africano.

Com a lâmina ela fez um pequeno buraco do barril e iniciou uma trilha negra e brilhosa para fora do armazém, percorrendo todo o quartel até a passagem por onde entrara. Chegando na passagem, ela deixou o barril quase vazio ali e retornou por onde vieram apenas com o lampião. Já do outro lado, ela quebrou o vidro do lampião e incendiou a moita que escondia o barril. De seguida ela correu o mais veloz possível para o tronco onde amarrou o alazão e com a Hidden Blade cortou a corda para montar livre no animal. Seus calcanhares apertaram com força o equino e este partiu instantes antes da explosão.

Jenny abraçou o pescoço de sua montaria com força, para evitar uma queda que lhe renderia alguns ossos quebrados no mínimo. Com as mãos ela tentava afagar o animal para lhe acalmar. A claridade também permitiu à Jenny visualizar a movimentação que se dava no sentido contrário ao dela. Homens montados corriam em direção ao fogo e janelas eram abertas por curiosos que ansiavam descobrir o que era tamanha explosão àquela hora da noite.

Com a distância para com o fogo aumentando, o cavalo diminuía o ritmo, em partes devido o cansaço, o que permitiu a jovem a conseguir guiar de fato sua montaria. Com o caos momentâneo, ela levou algum tempo para conseguir localizar os três escravos presos, porém em meio a confusão ninguém pareceu ter reparado qualquer atitude suspeita de sua parte, o que lhe deu tempo suficiente para encontrar o tronco que agora estava desguarnecido e esquecido pelo frenesi causado pela explosão.

Os três estavam lá, exatamente iguais como antes e foi quando Jenny se questionou se aqueles homens seriam capazes de fugir e se esconderem ou não. O bom cavalo a deixou ao lado deles e sem muito tempo a perder, a Kenway transpassou a corda por dentro das argolas que prendiam às correntes ao tronco. Seus dedos hábeis deram nós reforçados, iguais aos que ela dava às velas quando embarcada.

Os negros a olhava curiosos, mas ao mesmo tempo esperançosos de serem novamente livres. Com tudo pronto, ela voltou a montar e antes de qualquer coisa encarou o trio.

— Preparem-se para correr.

Não houve resposta alguma, contudo a jovem não aguardou pela mesma, pois no instante seguinte seus calcanhares apertaram as costelas do pobre animal já exaurido, mas que uma vez mais se pôs a correr na direção contrária ao tronco. A força de arranque forçou as chapas de ferro a se desprenderem do pedaço de madeira e desse modo, ainda que acorrentados, os três homens estavam aptos a partirem dali. E foi o que fizeram, separaram-se e corriam em diferentes direções quando ela deu meia volta à procura de Landú. A loira atiçou o cavalo até ele e o freou quando já próxima, para que o negro montasse atrás de si.

Jenny já se sentia mal pelo esforço que estava exigindo do azalão, mas ela não podia simplesmente libertar Landú, precisava encontrar um local seguro antes de o deixar a própria sorte. Sendo assim, ela percorreu o mesmo caminho que fizera naquele dia mais cedo, alcançando a mata que estava ainda segura.

O negro desmontou e já iniciava sua corrida para dentro da vegetação quando sua até então salvadora saltou sobre suas costas e o levou ao chão. O rapaz estava confuso e se virou para encarar um rosto na escuridão.

— Agora que me deve a sua liberdade, responda-me com sinceridade ou eu mesma te carrego de volta. – Jenny ejetou sua Hidden Blade e a encostou ameaçadoramente no pescoço dele. – O grupo de caçada de Mabuba perseguia homens além de animais?

— Depende do que você acha ser animais ou não.

— Então é verdade? Matavam homens que entravam nas matas?

— Mabuba temia que nos descobrissem, mas sua avó não tomava medidas para evitar isso, por isso Mabuba começou a criar armadilhas para homens brancos que iam atrás de negros fugidos. Se os libertarmos, eles retornarão, era o que ela sempre dizia.

— Sexta-feira sabia?

— Mabuba revelou tudo a ele, achando que ele aceitaria de bom grado, mas seu homem recusou. Ela ainda sim estava decidida a tê-lo ao seu lado e por isso ela lhe propôs que se juntasse a ela e ela pararia com as tentativas de lhe expulsar da tribo e lhe aceitaria. Claro que sendo ela a guerreira e filha da líder de nossa tribo, se você fosse aceita por ela então todos lhe aceitariam também. Sexta-feira aceitou quando você ficou grávida, ele temia ser separado de você e da criança.

Jenny recolheu a lâmina e se levantou, Landú fez o mesmo e sem esperar por permissão correu mata adentro enquanto a Kenway parecia absorta em seus pensamentos. Seus olhos se atentaram à lua que já descia pelos céus para dar lugar ao sol. Ela deu alguns tapas amigáveis no equino que aproveitou a conversa para se alimentar do capim que crescia ali e o montou de seguida. Por fim olhou na direção para onde Landú fugia.

— Velha, eu irei atrás de Mabuba, mas não para salvá-la e sim para acertar as contas.

A um trote lento ela retornou pelo mesmo percurso até a hospedaria onde estava Joaquim antes do sol nascer por completo.

Notas finais
É provável que este seja o último capítulo por isso irei adiantar um Feliz Ano Novo também ;*