Assassin's Creed High School
6 Capítulo 6-Decisão e adaptação
Notas iniciais
Por pouco não deixo o celular cair no chão. Altaïr ainda chora do outro lado da linha.
–Eu já estou indo. Eu já... Ah meu Deus. –não consigo chorar imediatamente. –Meu Deus. Eu levo Kadar?
–Sim. Foi última coisa de Malik pediu: que eu não o deixasse e que você e Kadar viessem.
–Ok, eu já estou indo. Chego em vinte minutos. –desligo o celular a tempo de ouvir um último soluço de Altaïr.
Tento pensar. Não posso deixar que o desespero me vença. Malik precisa da minha mente funcionando. Pego uma nota de cinquenta que havia deixado e esquecido entre as páginas de um livro, calço uma sapatilha, vou para o quarto de Kadar e digo a ele que vista em casaco que precisamos sair. Não lhe digo o que está acontecendo. Só que precisamos sair. Ele vê meu desespero, mas não faz perguntas.
Pego um casaco no cabresto e só percebo tarde demais que pertence a Altaïr, o que quer dizer que virou um sobretudo em mim. Mas até que foi bom, já que eu estou usando um short no meio das coxas e uma blusa azul com uma mancha de molho de tomate que nunca saiu realmente.
Seguimos pela rua com cuidado. Quando vejo um táxi quase me jogo na frente do carro.
–Meu Deus, moça, alguém morreu?
–Não sei dizer. Por favor, General Hospital, rápido. –imploro.
Kadar entra rapidamente. O motorista acelera.
–Meu... Olive, o que está acontecendo? Diga-me.
–Kadar, eu... Não sei como começar. Eu não tenho todas as informações. Só falei com Altaïr por trinta segundos no celular eu... Não...
–Diga-me o que sabe.
–Malik. –Um soluço me interrompe e de repente estou me debulhando em lágrimas. –Ele foi atropelado.
Kadar me abraça com força. Enfiou o rosto em seu pescoço, querendo me esconder do motorista do táxi.
–Desculpe Kadar. Eu não queria... Não queria chorar.
–Tudo bem. Tudo bem, Olive. Eu entendo.
–Eu sinto tanto, Kadar. –choro baixinho.
–Meu irmão não está morto. Não perca a fé em Malik.
Assinto e tento me acalmar. Quando consigo olho para Kadar. A semelhança entre os dois me acalmar e ao mesmo tempo faz meu coração doer. O A-syaf mais novo está com os olhos vermelhos, mas não derramado uma lágrima. Ele quer me passar força. Não vai se mostrar fraco até que tenha mais alguém para cuidar de mim. Ele é um homem forte agora. Eu só não percebi quando ele se tornou essa pessoa tão madura e controlada.
–Obrigada, Kadar.
Saltamos do táxi assim que chegamos. O motorista é rápido em nos dar o troco.
–Boa sorte. –ele desejara quando saímos. Agradeci e continuei meu caminho.
Corro para a recepção. A mulher jovem ergue o olhar para mim.
–Malik A-syaf. Ele sofreu um acidente. Onde ele está?
–Certo. Espere um pouco.
–Moça, caso não tenha percebido, eu não estou com humor para esperar um pouco, então se apresse ou eu sairei procurando por ele eu mesma. –Apoio a cabeça na bancada de mármore e tento respirar. –Eu sinto muito. Eu não estou muito controlada agora.
–Tudo bem, garota. Já fizeram coisa bem pior e não pediram desculpas. Só me deem seus nomes completos para que eu lhes dê os crachás.
–Olivia Kalima:hen Baungarten.
–Desculpe, qual é o nome do meio?
–K-A-L-I-M-A dois pontos H-E-N.
–Ok, e o seu, meu querido?
–Kadar A-syaf. A hífen S-Y-A-F.
–Tudo certo. Aqui está. –ela passa dois crachás em uma máquina e nos entrega. –Quarto 412. Boa sorte.
–Obrigada. Quarto andar? –pergunto.
–Exatamente.
Corremos para o elevador. Quando este demorar cinco segundos eu disparo escada acima. Kadar me segue de perto. Sigo os números anexados às portas e encontro Malik e Altaïr.
–Altaïr, está bem?! –vou até ele. Seus olhos estão vermelhos, o braço engessado. Não quero olhar para Malik. Não ainda. Não quero confirmar meus medos.
–Sim, só quebrei o braço. Malik... –ele volta a chorar. Nós nos abraçamos.
–Malik? Malik? Irmão, Malik? – Kadar chama repetidas vezes.
Solto-me de Altaïr e finalmente crio coragem olhar para meu amigo. Ele está com alguns pontos e curativos pelo rosto. Um tubo de oxigênio dá a volta por seu nariz. Uma bolsa de sangue está pingando rapidamente. Seu braço esquerdo está enfaixado. O tecido branco levemente sujo de vermelho.
–Eles disseram que não vão conseguir salvar o braço dele. –Altaïr informa com pesar evidente. –É tudo minha culpa. Se eu não tivesse insistido tanto para ele vir comigo ao Starbucks, nada disso teria acontecido.
Viro-me para o árabe de olhos dourados.
–Conte-me o que aconteceu.
–Um motorista bêbado avançou o sinal vermelho. Malik me empurrou só o suficiente para que eu não fosse acertado em cheio, mas ele... –Altaïr volta a chorar.
–E diz que é sua culpa? O único culpado é aquele bêbado, não você. –Kadar é quem fala. –Não se martirize. Malik não ia querer isso. –Kadar se vira para nós. Os olhos estão mais vermelhos do que antes. –Vou ligar para o Haytham. Ele vai saber o que fazer.
–Haytham? –digo confusa.
–Ele é... –Kadar falha na respiração. –quem ficou responsável por essas decisões quando nossos pais não estão conosco. Ele é um amigo de longa data. Posso confiar nele. Vai cuidar bem de Malik. –Ele se inclinado e beija a testa do irmão. –Já volto.
Kadar me deixa sozinha com Altaïr. Este se senta na poltrona do quarto e enfia o rosto entre as mãos. Ajoelho-me ao seu lado e coloco a mão sobre suas pernas. Ele olha para mim.
–Ei, não fique assim.
–Se ele morrer...
–Malik não vai morrer.
–Como pode ter certeza disso?
–Malik é a pessoa mais teimosa que conheço. Não vai morrer antes da hora. Ele não vai nos deixar. –meus olhos ardem com as lágrimas e minha voz fica embargada. –Não perca as esperanças nele. –levanto-me e vou até o corpo inconsciente de Malik. Seguro sua mão boa com suavidade e abaixo-me, encostando minha testa na dele. –Não desista, ok? Não ouse desistir. Eu não vou desistir de você. Nunca. MalMal. –sorrio e parte de mim espera que ele também o faça. Mas não acontece. É claro.
Kadar volta para o quarto e diz que Haytham e Ezio estão vindo. Connor não virá porque uma mulher nova começará a trabalhar no Starbucks e alguém precisa ir lá recebe-la. Kadar fica perto do irmão o tempo todo e eu lhe dou espaço. Sento-me no chão mesmo. Ao lado de Altaïr, que ainda derrama algumas lágrimas de vez em quando. Ele segura minha mão com força. Sinto que treme. Sinto que se culpa. Não há nada que eu diga agora que vá mudar qualquer coisa. Ele precisa ouvir isso de Malik, não de mim.
Uma enfermeira aparece para checar Malik. Ela tem um olhar preocupado.
–A bolsa de sangue está acabando. –ela diz.
–Posso doar de novo. –Altaïr se candidata.
–Desculpe, mas não pode doar novamente. Não agora.
–Malik é AB- não é? Eu também sou. E Kadar. Podemos doar. –proponho.
–Vamos precisar fazer um questionário para ver se podem.
–Então vamos começar. –Kadar dá um passo a frente. A mulher de meia idade faz sinal para que ele a siga e é o que o pequeno A-Sayf faz sem hesitação.
–Não sabia que vocês tinham o mesmo tipo sanguíneo. –digo tentando iniciar uma conversa.
–Sim. Nós temos. Somos os únicos da região onde nascemos com sangue AB-. Eu fiquei surpreso com você. Malik adora rir dizendo que você tinha pavor de agulhas.
–E tenho. Mas é Malik, não é? Aposto que faria o mesmo na minha situação.
Ele assente.
–Eu o amo, sabia? –na verdade, eu já suspeitava. Mas ouvir Altaïr dizê-lo em voz alta e com palavras tão fortes me espanta. –Não ligo se dizem que é errado, se dizem que eu não devia ser homossexual, mas eu realmente o amo. Nossa cultura nunca permitiria algo entre nós dois. Essa foi a principal razão de ter vindo para cá quando os dois vieram. Aqui eu poderia tentar. Não sei o que você pensa sobre isso, mas...
–Não. –sorrio para ele. –Eu não ligo. Se você quiser ficar com Malik, fique. Eu nunca te julgaria ou condenaria, Altaïr. Você é livre para amar quem quiser e como quiser. Quem sou eu para julgar? Quem sou eu para ir contra você? Estou feliz por alguém ama-lo de um jeito diferente que eu amo. E, se você fez o que fez por mim, alguém que mal conhece, só posso imaginar o que faria por Malik. –ele consegue sorrir. –Se precisar de alguém, eu estarei aqui. Pode ter certeza.
–Obrigado, Olive. Muito obrigado.
Ezio e Haytham entram. Eu e Altaïr nos levantamos. Ezio me abraça com força. Haytham segura meu ombro e faz o mesmo com Altaïr.
–Eu vou ver o que precisa ser resolvido. Tentem ficar tranquilos. Ezio, cuide dos dois, ok?
–Pode deixar, tio. –o italiano diz, ainda me abraçando.
Haytham sai do quarto.
–Como você está indo, Altaïr? –Ezio pergunta sem me soltar.
–Melhor do que antes. Olive me ajudou.
–Ok. Estão com fome? –ele pergunta. –Posso pegar algo na lanchonete do hospital.
–Não estou com vontade de comer. –Altaïr diz.
–Pegue algo para nós. –peço separando-me de Ezio. –Precisamos comer. Mesmo sem estarmos com vontade.
–Pode deixar.
Volto a ficar sozinha com Altaïr.
–Vocês ficam bem juntos.
–Quem?
–Não seja tola. Você e Ezio.
–O que? Você está bem?
–É verdade. Um casal mestiço. Eu acho muito bonito.
–Você está se projetando. Eu e Ezio? Só nos meus sonhos mais obscuros.
–Então você gostaria.
–Não. Por isso disso obscuros. –dou de ombros. –Não é hora de falar sobre isso.
Ezio volta com nossa comida nós comemos ali mesmo, com cuidado para não sujar o lugar. Ninguém nos incomoda.
Kadar volta e Haytham também. Meu amigo parece pálido. Haytham também.
–Kadar, venha aqui.– chamo-o e ele se senta ao meu lado, apoiando a cabeça em meu peito. Ele fecha os olhos, cansado. –O que aconteceu? –pergunto a Haytham.
–Eles estão dizendo que amputar é a única chance. Que o membro já está morto.
Meu coração acelera e eu fico com uma expressão de espanto divina.
–O quê? –Kadar ergue a cabeça lentamente. Deito-o novamente com o máximo de delicadeza possível.
–Não. Deve haver outro jeito, tio. –Ezio murmura.
–Desculpe, crianças, mas eles me mostraram os exames. Se não amputarmos o braço vai apodrecer, não sarar. Não pensem que eu quero que ele fique mal. Que quero só terminar com isso. Eu também me importo muito com Malik. Eu só... não tenho outra opção. É o braço ou a vida dele. –ficamos em silencio. Kadar também. –Kadar, tem algo a dizer?
–É meu irmão. Eu o amarei com ou sem o braço. Eu só o quero vivo e ao meu lado de novo, tio. –Kadar murmura fracamente. Abraço-o contra o meu corpo.
–Eu também. –Altaïr diz.
Haytham assente e sai. Provavelmente para assinar os papéis.
Perto da noite, Haytham e Ezio saem para buscar roupas para mim, Kadar e Altaïr. Connor apareceu no meio da tarde e nos fez companhia desde então.
Sr. Kenway conseguiu burlar algumas diretrizes do hospital e fez arranjos para que nós três pudéssemos ficar com Malik o quanto quiséssemos.
Kadar e eu dividimos a poltrona reclinável, Connor está do meu lado, no chão e Altaïr faz vigília ao lado de Malik. Quase não dormimos. Não queremos faze-lo. Malik entrará no pré-operatório em três horas, às sete da manhã, e nós não conseguimos sair do lado dele. Tento não pensar em como ele vai reagir. Se ele vai nos culpar, nos odiar, entender, ficar deprimido, se odiar. Eu não quero nada disso. Eu só quero que ele fique bem. Se meu querido Malik não gostar de si mesmo, farei o meu melhor para lembra-lo de que nós o amamos e que isso não mudou com a cirurgia. Que ele ainda é lindo. Que ainda é meu herói e meu melhor amigo.
Ezio me acorda com calma. Abro os olhos lentamente. Não vi quando dormi.
–Eles já vão leva-lo. Quer dizer alguma coisa?
Assinto.
Tiro Kadar do meu colo com cuidado para não acordá-lo. Meu braço está adormecido por ter ficado muito tempo na mesma posição e sob o peso da cabeça do pequeno. Vou até a cama de Malik e o abraço. Sussurro ao seu ouvido:
–Volte pra mim, ok? E tenha certeza que eu te amo.
Afasto-me, dando espaço para Altaïr fazer o mesmo. Depois Kadar.
Um grupo de enfermeiros entra, arruma Malik e o leva. Nós seguimos a maca até não podermos mais.
Passamos horas na sala de espera perto da sala de cirurgia. Estou com roupas limpas e tomei um banho na casa de Connor, que é aqui perto (lugar adorável, sinto que devo dizer. A mãe dele é um amor de pessoa. Ela até me emprestou as roupas que estou usando e se ofereceu para ficar conosco no hospital), comi uma refeição quente e voltei, sem me importar com a escola. Connor e Ezio permaneceram. Connor e Ziio dão apoio ao amigo e Ezio fica comigo e Kadar.
Quando a sonolência começa a se envolver a mim, o italiano me permite deitar em suas pernas, o que não faço sem um pouco de hesitação. Ezio acaricia meus cabelos, tornando a tarefa de ficar acordada ainda mais difícil, mas eu consigo. Só fecho os olhos para descansá-los.
Quando o médio aparece nós seis nos levantamos. Ziio dá um passo à frente, indicando que ela é a responsável por esse grupo de adolescentes. Seu olhar levemente selvagem deixa claro que o cirurgião não que dar más notícias a nós.
–Ele está bem. Se recuperará mais rápido do que pensava. A cirurgia ocorreu livre de complicações e vocês poderão vê-lo em meia hora. O efeito da anestesia deve passar em um par de horas e seu amigo vai acordar. Ele não teve danos neurológicos e tirando o infortúnio do braço, estará em perfeitas condições em menos de uma semana.
–Certo. –Ziio suspira e nós a acompanhamos. –Obrigada, doutor.
O homem assente e sai.
–Esta tudo bem. –ela diz. –Ele vai ficar bem.
Eu abraço Kadar e depois Altaïr, então Ezio, Connor e Ziio. Se pudesse eu abraçava até o medico que saiu, mas ele já foi embora, então não deu.
No tempo que não podemos ver Malik, Ziio nos leva para almoçar, o que confirma a minha ideia de que Connor é na verdade muito bem de vida, porque a casa dele é um espetáculo e a mãe dele pode levar cinco adolescentes, sendo quatro deles homens, para almoçar.
Finalmente consigo sorri após tanto tempo entorpecida e simplesmente triste. Altaïr também solta algumas risadinhas durante o almoço. Mas não tem como resistir, Ezio tem o dom de fazer os outros rirem, não importa a situação.
Em quase duas horas, Ziio nos leva de volta para o hospital em sua minivan. Praticamente corremos para o quarto de Malik. Ele ainda dorme. Parte de mim fica grata. Não queria que ele acordasse sozinho.
Ziio leva o filho e Ezio para o Starbucks, em parte porque eles precisam trabalhar e ajudar a novata, em parte para que Malik não se sinta desconfortável com tantas pessoas o vendo em seu pior dia.
Meia hora se passa e Malik finalmente abre os olhos. Eu, Kadar e Altaïr nos assomamos sobre ele.
–Malik. –dizemos ao mesmo tempo.
–Ei. Ai, estou dolorido pra caramba. –ele faz uma expressão confusa de repente. –Mas o que...? o que? Meu braço!
–Ma...
–Olive, onde está meu braço?!
–O acidente. Lembra disso? –começo.
–Sim. O carro atravessou o sinal. Eu empurrei Altaïr para longe. Sangue, mas não dor. Eu queria você e Kadar. Kadar! –ele puxa o irmão para perto de si. –Você está bem?
Ele assente.
–Seu braço. Não conseguiram salvar. –Kadar diz. –Eu sinto muito irmão. Mas não se atenha a isso! Você está vivo. Está bem. Está de novo comigo e Olive.
–Mas eu... –Malik fica com lágrimas nos olhos. –Meu braço...
–Isso não muda nada. Nós te amamos. –digo. –Vamos te ajudar a superar. A se adaptar.
–Eu sou uma aberração.
–Não diga isso. –Altaïr avança. –Nunca mais ouse sequer pensar nisso, ouviu bem? –o árabe o pega nos braços e o beija na nossa frente. Malik fica tão chocado quanto o resto de nós, mas não luta ou tenta se soltar. Altaïr se afasta. –Eu te amo, idiota. Não importa como você esteja. Nunca se odeie, ouviu? Todos que realmente importam, não ligam se você tem um ou dois braços. Só nos importamos com você, e nada mais.
Malik não diz nada. Só desvia o olhar para mim. Ele me encontra sorrindo e isso parece acalmá-lo.
–Eu vou precisar da ajuda de vocês.
–E terá. – Kadar assegura.
Eu o abraço com mais força do que qualquer abraço que já lhe dei e depois ficamos ao seu lado.
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