Assassins
24 Star City || 2018
Notas iniciais
Star City – EUA
Junho de 2018
Felicity se remexeu sobre mim, mas por sua respiração constante e rosto tranquilo, eu sabia que ela ainda estava dormindo. Minha mão acariciou suas costas, e eu precisei lutar contra todos meus instintos para deixar aquilo o mais platônico possível.
Minha garota estava deitada de bruços em cima de mim, não sei como isso pareceu confortável a ela, vez ou outra soltando gemidinhos baixos, bem do jeito que adormeceu na noite anterior. Seria fofo e até adorável, se não estivéssemos inteiramente nus.
No dia anterior eu havia recebido uma surpreendente ligação de Tommy, dizendo que ela precisava de mim, pois estava perdendo o controle. Ele só precisou falar mais uma palavra e eu já estava dentro do avião para Star City. Eu, mais do que ninguém entendia o que aquele nome significava para ela e como isso poderia fazê-la perder o rumo.
Bertinelli.
Eu não tinha noção que sentia tantas saudades até ela atender a porta e sorrir para mim. Fizemos amor a noite toda, mas nunca era o suficiente, os dois sendo levado apenas pela exaustão.
Só que agora eu já estava acordado há quase uma hora, havia descansado, e ter seu corpo quente colado não meu não estava ajudando a controlar minha ereção que teimava em se mostrar aos poucos. Sua pele era tão macia, que não resisti a deslizar a mão das costas até seu traseiro empinado em carícias leves.
― Suas mãos não têm controle pela manhã ― sua voz sonolenta encheu o quarto e seu sorriso chegou aos lábios antes que ela sequer abrisse os olhos. Freei na hora o que estava fazendo. ― Quem te mandou parar, Queen?
― Não ganho nem um bom dia antes? ― Ergui as duas mãos, e Felicity finalmente abriu os olhos e aquela visão me deixou sem palavras. Suas orbes azuis ainda eram mais lindas pela manhã, os olhos inchados de sono, os cabelos que assumo parte da culpa por estarem uma bagunça. Deus, eu nunca me acostumaria a acordar com aquela mulher!
― Bom dia. ― Ela deixou um beijo rápido em meu pescoço. ― Agora volte ao trabalho. ― A loira sorriu com lascívia, e levou minhas duas mãos até sua bunda, a apertando, suas pernas se abrindo um pouco mais e aumentando ainda mais o atrito entre nossos quadris.
― Eu adoro o quanto você não se cansa! ― Meu pau já roçava seu baixo ventre, e ela gemeu quando o sentiu.
― Qual é, Oliver?! Mal temos a oportunidade de nos ver, devemos aproveitar cada segundo. ― Sua gargalhada saiu gostosa quando girei nossos corpos a deixando embaixo de mim. ― Eu nunca vou ter o suficiente de você. ― A pequena confissão colocou um sorriso automático em meu rosto, porque eu sentia exatamente o mesmo.
― Conheço o sentimento.
Tomei seus lábios para mim em um beijo intenso e de roubar o fôlego. Nossas línguas trabalhavam em conjunto dando prazer uma à outra e minha mão escorregou por cintura até sua coxa, a trazendo para envolver meu quadril.
Decidi então explorar seu pescoço não tão mais alvo com as marcas que eu havia deixado ali da noite anterior e ainda surgiam discretas. Sorri quando um gemido surpreso escapou de seus lábios quando coloquei dois dedos dentro dela, meu polegar massageando seu clitóris.
― É disso que estou falando! ― Felicity começou a jogar o quadril na minha mão quando eu a penetrava mais rápido, agora com três dedos. ― Oh, isso é tão bom!
Seu líquido de prazer escorria por minha mão e eu sabia que ela estava próximo de alcançar um orgasmo pelas paredes da sua vagina que se contraíam ferozmente. Ela estava tão molhada que me deixou louco para chupá-la.
― Desculpe, querida, mas não quero que goze na minha mão dessa vez. ― Ela fez um bico lindo de insatisfação, enquanto friccionava as pernas uma contra a outra.
― E o que diabos você quer? Provoca e me deixa na mão! Ou pior, sem suas mãos! ― reclamou.
― Relaxe, só quero que faça na minha boca.
Um sorriso malicioso preencheu seus lábios vermelhos e inchados de nosso beijo e em seus olhos um brilho a mais pela antecipação surgiu.
Apertei a carne de sua bunda entre os dedos e meus lábios chegaram primeiro em seus mamilos rígidos, chupando e mordiscando, para em seguida descer para seu abdômen definido. Felicity arqueou as costas e segurou os lençóis com força quando lambi seu umbigo, abrindo mais suas pernas para me receber entre elas. Nesse ponto, eu já estava duro e levemente arrependido por estar gastando tanto tempo em preliminares quando eu já queria estar fodendo com ela desde o minuto que acordei.
― Oliv... Oliver? ― ela me chamou entre gemidos, e percebi quando não era a primeira vez. ― A porta.
― Que tem a porta?
― Estão batendo ― explicou. ― Atende lá, deve ser Tommy.
― A mulher mais linda do mundo está nua numa cama comigo e eu vou levantar pra atender Tommy Merlyn? De jeito nenhum! Uma hora ele desiste e vai embora.
― Você sabe que não vai rolar, é o Tommy!
― Empata foda do caralho! ― reclamei descendo da cama. ― Ele vai me pagar por mais essa! ― Felicity rolou olhos, mas sorriu.
― Pega isso! ― Me jogou um dos travesseiros. ― Não sei quão íntima era a amizade de vocês, mas duvido que ele queira te ver de pau duro a essa hora da manhã. Eu iria até ele, mas... ― Ela apontou para si mesma e sua falta de roupas.
― Não, pode deixar que eu atendo o imbecil. Como você ainda quer que façamos as pazes?! ― resmunguei, cobrindo minha nudez com o objeto e a vendo se enfiar debaixo das cobertas. ― Seja rápido, Merlyn! ― falei de mal humor quando abri a porta.
― Cara, vocês são algum tipo novo de coelho? Quase não me deixaram dormir noite passada, e hoje de manhã já começaram cedo. Eu preciso das minhas horas de sono para manter essa aparência espetacular! ― Fez círculos amplos com palma direcionada ao seu rosto.
― Você quer realmente algo aqui além de encher o saco?
― Sim, falar com você. ― Ele baixou a altura da voz para que apenas eu o escutasse. ― Sobre o motivo que te trouxe aqui.
― Péssima hora para colocar o papo em dia, Tommyzito ― Felicity reclamou atrás de mim. ― Vou te esperar no chuveiro, Oliver. ― Quando percebi que ela ia levantar ali na frente de nós dois, me apressei em empurrar Tommy para fora e fechar a porta nas minhas costas.
― Essa garota é realmente especial, você tem uma sorte do caralho, sabia?
― Dá pra dizer o que quer? Tem uma garota nua no chuveiro esperando por mim e eu estou aqui com você, vestindo apenas um travesseiro.
― Falando nisso... Podendo evitar, você evita aparecer de novo assim na minha frente? Ela pode gostar disso, eu não. ― Fez uma careta como se fosse vomitar. ― Mas enfim, eu preciso te falar... O que você está fazendo sobre o caso Bertinelli?
― Felicity parece bem normal pra mim, então não há com o que se preocupar.
― Ela não está normal e sei que você consegue sentir isso, por isso a está distraindo com sexo e essas coisas. Eu conheço Felicity, e...
― Não, eu conheço a Felicity! ― o interrompi. ― A conheço desde que tinha dezesseis anos, e não apenas há alguns meses.
― Ok, eu não convivi com ela por tanto tempo, mas ficamos bem próximos nos últimos tempos. E você só conhece a Felicity antes dela ser tomada por toda essa vingança contra Ra's, e tudo piorou quando esbarramos no sobrenome Bertinelli. Não sei o que rolou no passado, mas ela está perdendo o controle, Oliver. Você precisa trazê-la de volta, porque acho que você sabe os motivos dela. Por isso te chamei aqui.
Eu evitava até pensar sobre aquela missão que matei Frank Bertinelli. Eu ainda me culpava pelo que aconteceu com Felicity na época, e sabia que ela não tinha superado inteiramente o estupro. Ninguém podia cobrar que ela o fizesse algum dia.
Mas desde que eu estava aqui, ela parecia bem tranquila para mim. Talvez estivéssemos mesmo usando o sexo para nos distrair e ignorar um problema real, mas não podia dar o braço a torcer para Tommy.
― Sabe o que você deveria fazer? Ir comprar café da manhã, já que se apropriou de um dos quartos de Felicity. Sabe o que eu vou fazer? Entrar naquele banheiro e transar com minha namorada. Podemos resolver esses problemas mais tarde ― afirmei com convicção.
― Namorada, uh? ― questionou com uma sobrancelha erguida e seu típico tom de piada. ― Só não demore, ou pode perdê-la. E eu posso nem estar apaixonado por ela, mas aprendi a amá-la, como amo Thea. Odiaria ter que abrir mão dessa pessoa porque ela foi consumida por vingança.
― Só faz a droga do café!
Era estranho ter de ouvir lições de moral justamente de Tommy Merlyn, o inconsequente e irresponsável Tommy Merlyn, mas não poderia negar a verdade nas palavras dele, muito menos ignorá-las. Eu usaria mais esses minutos com ela, então conversaríamos. Felicity era teimosa como o diabo, provavelmente haveria briga, mas eu compartilhava da frase de Tommy ao dizer que odiaria perdê-la.
~
Era tão esquisito e tão infinitamente bom estar tão relaxado com Felicity. Nossa vida nunca pôde ser definida como monótona, mas confesso que aquela tranquilidade de fazer apostas infantis para quem chegava primeiro à cozinha me agradava mais do que deveria fazer com um homem de mais de trinta.
― Você perdeu! ― O barulho da gargalhada dela enquanto contava vantagem era com certeza um dos melhores sons do mundo.
― Você anunciou a corrida quando já estava na metade da escada! Trapaceira. ― Envolvi meus braços em torno de sua cintura.
― Eu te compenso por isso. ― Felicity apertou minha nuca entre os dedos enquanto aproximava a boca da minha.
― Por favor, deem um minuto de descanso para os quadris de vocês. E para meus ouvidos. ― Tommy apareceu de trás da porta aberta da geladeira, a fechando em seguida. ― É, ainda estou aqui. ― Felicity rolou olhos, me deu um selinho rápido e me soltou. ― Comprei café da manhã.
― Tô sem fome ― ela gritou já voltando para a sala.
― Se ela está sem fome, você não está fazendo o serviço direito, hein, Queen? ― O idiota cutucou meu braço repetidas vezes, testando minha paciência.
― Tem certeza que não quer nada, Felicity? ― falei a ela, decidindo exercitar minha tolência e o ignorar.
― Café!
Enquanto enchia duas xícaras para nós e separava alguns dos pães que Tommy havia comprado, ele chegou sorrateiro ao meu lado, com a própria dose de cafeína em mãos.
― Então, falou com ela?
― Sobre?
― Oliver, pelo amor de Deus, sua namorada precisa de ajuda! Desde que ouviu sobre essa Helena Bertinelli, ela não está bem, dá pra ver no olhar!
― Eu vou ignorar que você anda trocando olhares com ela e vou te mandar a real: Felicity está ótima, e você está exagerando como sempre.
― Ok, eu não vou falar mais nada. ― Ergueu as duas mãos em rendição. ― Pelo menos vou ter o prazer de te dizer de novo, depois de tantos anos, um "eu te avisei". ― Balancei a cabeça, deixando aquilo para lá.
Claro que eu jamais ignoraria um problema que Felicity, mas eu realmente não via. Diggle mais de uma vez já havia dito que eu tinha um ponto cego em relação à ela, e isso poderia até afetar um pouco meu julgamento, mas não tanto. Não era possível.
― Obrigada, você é um anjo ― ela agradeceu quando deixei a xícara de café ao lado do computador em que ela digitava com agilidade.
― O que está fazendo? ― Apoiei uma mão ao lado do teclado e outra em suas costas, encostando nela para ver mais de perto do que se tratava.
― Identidades falsas, como quando eu tinha quinze anos. O que acha de Lineu Diehl, um agrônomo alemão? Lineu significa lindo, acho que é literalmente sua cara. ― Felicity se virou apenas para deixar um beijo em meu queixo, então voltou ao seu trabalho. Na tela do computador havia um documento com minha foto e os dados que ela havia falado.
― Por que precisamos de identidades falsas?
― Para pegar um avião, oras ― falou como se fosse óbvio.
― Um avião pra onde?
― Sul da Itália.
― E o que vamos fazer na Itália? ― continuei a perguntar, puxei um baquinho para sentar ao seu lado.
― É onde a sede da máfia da família Bertinelli está.
― HA! Mais cedo do que previ. ― A gargalhada de Tommy ecoou pela sala, atraindo nosso olhar para ele. Em sua cabeça, apenas aquilo o deixava com a razão absoluta sobre tudo.
― Felicity, por que precisamos ter alguma coisa a ver com a família Bertinelli? ― Ela me olhou em reprimenda, como se eu tivesse falado algum absurdo.
― Você sabe o porquê. ― Decidi mudar de estratégia, já que um confronto direto não funcionaria com ela.
― Como sabe para que lugar da Itália ir?
― Fiz algumas pesquisas ontem à noite.
― Em que momento? Eu estava com você todo o tempo!
― Você dormiu, baby. Me deu alguns minutos para achar, não é um lugar muito escondido para ser da máfia. Partimos em... Três horas. Acabei de comprar as passagens.
― Eu te avisei. ― Tommy deu dois tapinhas em meu ombro e cochichou apenas para mim ― Então, não precisamos comprar passagens, capisce?!
― Nem pensar, Merlyn. Não vamos no avião da Liga, muito menos no seu jatinho. Não queremos chamar a atenção para nossa chegada lá. ― Ele abriu a boca para falar, quando ela já ergueu o dedo para ele. ― Nada de primeira classe, vamos de econômica.
― Mas eu não ando de econômica. Tipo, nunca.
― Não, não, não, sem discussões. E a propósito, melhor treinar esse seu italiano, tá bem ruinzinho.
― Você tira mesmo a diversão das coisas, Smoak. Mas se não tem jeito, vou procurar algumas coisas baratas para vestir. Ci vediamo più tardi, paio.
― Ainda precisa treinar! ― ela gritou para a porta já fechada. ― Oh não, você está fazendo "a cara". ― Só percebi que ela falava para mim, quando ela tocou o ponta do meu nariz.
― Que cara?
― Essa de que quer falar alguma que não vou gostar e nem fazer. Provavelmente.
― A gente pode conversar um minuto, Felicity?
― Precisamos mesmo? ― Ela fez uma careta.
― Por favor. ― Peguei sua mão e a conduzi ao sofá, sentando na ponta da mesinha de centro em frente a ela. ― Você está bem?
― Eu não tenho tempo para isso, Oliver. ― Ela tentou levantar, mas não soltei sua mão.
― Só fala comigo um minuto. Me diz que você está com a cabeça fria e que não tem um plano de vingança contra um homem morto. ― Todo aquele calor que eu sempre via por trás do azul de seus olhos sumiu em apenas um segundo.
― Você estava lá há oito anos, Oliver, você sabe que não são boas pessoas. E Helena está comandando tudo agora no lugar do pai, a máfia mais forte do que nunca.
― Eu sei, amor, só pensei que...
― Se quiser pegar seu avião e voltar para a Liga, pode ir, Oliver. Tommy vai comigo, damos conta.
Não podia negar que senti ciúmes de Tommy naquele momento. Não era o mesmo tipo que sentia quando o via flertar com Laurel, mas era sobre uma cumplicidade que não tinha com ela, aquela coisa das briguinhas bobas e confiança. E eu precisava daquilo.
― Claro que vou com vocês, Felicity. Estamos nisso juntos.
― Tipo, High School Musical? ― ela sorriu, mas as palavras não fizeram o mínimo sentido para mim. ― We’re all in this together! Deixa pra lá, coisa da minha adolescência. ― Ela levantou de um pulo do sofá e deixou um selinho em meus lábios. ― Vou arrumar minhas malas.
~
― Dá pra ir mais rápido?! ― Olhei de relance para o painel do carro onde o velocímetro marcava 250 km/h, enquanto Tommy limitou-se a me dirigir um olhar de esgueira e um sorriso de canto. ― Você tinha mesmo que comprar o carro mais extravagante do mundo?
― Achou mesmo que eu viria até a Itália sem comprar minha Ferrari? Você realmente não me conhece, Ollie.
― Tinha que ser vermelha?
― Eu queria preta, mas lembrei que já tenho uma Lamborghini dessa cor. E é um clássico, você tem que admitir.
― Me deixa dirigir então... ― Saí do meu lugar para tentar segurar a direção, mas fui empurrado de volta.
― Nananinanão. Meus carros, meus jatos, meus iates, ninguém dirige eles, só eu. Chame de capricho, eu chamo de "programa de proteção aos meus bebês". ― Controlei mais uma vez o desejo de iniciar uma briga de socos. ― E não me olhe com essa cara, não é culpa minha se Felicity fugiu do hotel.
― Tá dizendo que é minha? Eu entrei pra tomar um banho, ela evaporou. Se você não estivesse comprando carros...
― Não liga pro tio Oliver, Fefê, ele não quis falar assim com você. ― Rolei olhos e bufei com impaciência enquanto ele acariciava o volante, mas dadas as circunstâncias, até eu estaria disposto a chamar um carro por nome de gente se aquilo o fizesse ir mais rápido.
Desde nossa pequena conversa ainda em Star City, até pousarmos na Itália, Felicity estava se comportando como sempre, o que descobri que era apenas para nos fazer baixar a guarda. Na primeira oportunidade que teve, ela tomou um verdadeiro chá de sumiço, o que me deixava querendo arrancar os cabelos de preocupação. De fato, ela não estava em seu normal, e essa falta de confiança me magoou novamente.
― E se me permite uma observação sincera... ― Tommy continuou.
― Não permito ― o cortei.
― Vou dá-la mesmo assim. Que namorado instala um rastreador na namorada? Ok, eu sei que ela já fez isso com você, mas as circunstâncias eram outras.
― Eu não instalei nada nela, instalei no celular dela ― me justifiquei. ― E está sendo bem útil agora, ou não? O meu jeito funciona.
― Eu só sei de uma coisa, Oliver, e presta atenção no que vou te dizer, são palavras de muita sabedoria, como as minhas sempre costumam ser.
― Só fala de uma vez e me poupa de toda a conversa.
― A questão é, enquanto os dois tentarem lidar com tudo a seu próprio modo, nunca vai dar certo. Vocês precisam trabalhar em um jeito dos dois.
― Acabou com os conselhos, Oprah?! ― ironizei, e ele me olhou encantado com olhos brilhando.
― Você sabe quem é a Oprah?
― Dobra na próxima à esquerda e chegamos.
O ambiente era mais sujo e nojento do que minha imaginação pessimista criou e eu só conseguia pensar em tirar Felicity dali o quanto antes. Nada de bom poderia vir daquele lugar, e do jeito que ela não estava completamente em si, as coisas poderiam ficar bem feias em breve.
― Sabe o que mais? Acho que deveria te aconselhar mais um pouco. ― Tommy desceu do carro e quase correu para me acompanhar.
― Vou elegantemente recusar seus conselhos. ― Por mais que frase fosse composta com palavras educadas, ela não poderia ter saído com mais raiva.
― E eu irei continuar a insistir com carinho ― retrucou sem se abalar com minhas recusas nada gentis. ― Oliver, você tem que ter a medida certa para falar com ela.
― Não volte a tentar me ensinar a lidar com minha namorada. Você me chamou aqui.
― Me perdoe por não achar seus métodos mais tão eficazes, já que estamos nessa ruela fedida em Nápoles, enquanto sua garota está em algum lugar nesse prostíbulo.
― Se quer que eu quebre o seu nariz, é só pedir, Merlyn. Não precisa procurar uma briga com derrota certa.
― Não estou te julgando aqui, cara. ― Ergueu as duas mãos ao alto. ― Só me deixa tentar dessa vez. Você falou com ela em Star City, não rolou. Eu tento dessa vez, você vai na próxima, não é um ótimo acordo? ― Ele testou um sorriso conciliador, ao que me aproximei até estarmos a não mais um passo um do outro, prestes a finalmente dar o soco que eu vinha segurando há meses desde quando ele me apontou uma flecha no apartamento de Felicity. ― Você vai me beijar? ― O comediante provocou erguendo uma sobrancelha em desafio e cruzando os braços, sem recuar um centímetro sequer.
Parece que finalmente teríamos a briga que foi interrompida várias vezes há tantos anos.
― O que tá acontecendo aqui? Como diabos vocês me acharam? ― A voz de Felicity salvou Tommy por apenas um segundo. Ela usava um sobretudo preto e olhava de um para o outro. ― Vocês não... Oliver, você colocou um rastreador em mim?
― Eu posso explicar.
― Eu não estou acreditando nisso. ― Felicity começou a descer os degraus da pequena escada que levava à porta lateral de onde ela havia saído. ― Eu encontrei esse sinal estranho vindo de mim e rastreei de volta até aqui, até vocês. E qual não foi minha surpresa ao encontrar os dois tentando se esgueirar, mesmo com o carro mais extravagante do mundo. ― Ela olhou por cima do meu ombro para o carro parado atrás de nós.
― Ei! Deixa a Fefê fora disso você também! ― Tommy bradou em defesa do seu carro.
― E não tente voltar isso para mim, Felicity. ― Caminhei na direção dela, lhe apontando meu indicador. ― Você sumiu do hotel e veio para esse muquifo sozinha, quando você foi a pessoa a dizer que deveríamos confiar um no outro em tudo!
― Eu posso muito bem me defender sozinha, Oliver.
― Esse não é o ponto aqui, criatura! ― A esse ponto eu mesmo já tinha esgotado toda a minha paciência e já gritava. ― É a máfia italiana, você não pode simplesmente sumir no covil deles e me deixar sem notícias!
― Querem saber então porque os deixei para trás? Eu não aguento mais os dois brigando, sério. Foram nove horas no avião, mais duas no carro e uma no hotel ― explicou, enquanto eu e Tommy trocávamos um olhar confuso. ― Eu não vou vacilar nessa missão porque as comadres aí não conseguem resolver seus problemas de um milhão de anos atrás! Sim, Laurel escolheu Oliver e não contaram ao Tommy. Sim, Tommy era apaixonado por ela e não contou ao Oliver. Que se foda! Eu não aguento mais a cara de emburrado nem as provocações que já perderam a graça faz tempo.
― Mas, eu...
― Não, nem mais um palavra você também, Tommy! Eu vou entrar lá e conseguir as informações que eu preciso, enquanto os dois vão ficar fora do meu caminho. ― Felicity subiu as escadas rapidamente apesar dos saltos que notei que ela usava e bateu a porta com força.
― Ela está se perdendo. ― Não havia mais um mínimo ar cômico na fala de Tommy, ao que parecia ele havia entendido ao mesmo que tempo que eu como ela estava mais longe do que imaginávamos. ― O que aconteceu com esses Bertinelli e ela, afinal? ― Resolvi contar a ele a história, já que manter aquilo só esntre nós dois não estava resolvendo muita coisa.
― Ela foi... ― me interrompi, encostando-me no carro. Eu ainda não conseguia lidar bem também com o assunto. ― Em nossa primeira missão, na primeira missão dela na Liga, teve esse cara, Frank Bertinelli. A coisa toda foi armada pela Talia, mas eu acabei perdendo o controle da situação, foi minha culpa, e... Bem, Felicity foi violentada naquela noite, pelo Bertinelli.
― Como que... O quê? ― Ele ficou tão pasmo que mesmo com a pouca luz, vi seu rosto empalidecer.
― Ela tinha dezesseis, dezessete anos, foi tão... Eu não consegui chegar a tempo de impedir que aquilo acontecesse, ele era um monstro e ela... Felicity nunca se recuperou, foi por causa dele que ela ficou na Liga. Eu tinha todo esse plano para ajudá-la a escapar depois dessa missão, até que ela falou para Ra’s que ia ficar, e eu não pude fazer nada.
― Frank Bertinelli não morreu oito anos atrás em um acidente de carro?
― Ele morreu com três flechas no coração e não foi um acidente. Eu mirei bem antes de acertar cada uma delas.
Pensar, falar, lembrar sobre me fazia enxergar vermelho, e ódio que senti naquela ocasião me dominava como se tivessem se passado apenas algumas horas. Felicity era pura, delicada, e tudo aquilo matou uma parte dela que nunca conseguiu voltar, e sem que eu soubesse também criou essa versão maníaca que agora tomava conta de suas decisões.
― Não foi sua culpa, cara.
Eu já tinha ouvido aquilo da boca da própria Felicity, e tentava repetir em minha mente, mas não me fazia sentir melhor. Se eu tivesse chegado antes no quarto, ou então me imposto mais para Talia, ela sequer teria ido na missão.
Mas ouvir da boca do meu antigo melhor amigo, meu ex quase irmão, tinha um peso diferente. Tommy sempre fora a pessoa que amenizava todo o drama da maior parte da minha vida, ele era a pessoa dizendo que conseguiríamos dar um jeito, reverter a situação, dar a tão falada volta por cima, enquanto eu só via como tudo poderia piorar. Era uma amizade que se completava, eu o mantinha com os pés no chão e ele me impedia de afundar. E eu não tinha mais essa pessoa na minha vida, e mesmo o reencontrando não era assim. Até aquele momento.
― Sim, foi minha culpa. Eu a deixei a sozinha, e ela perdeu uma parte de si que nunca... Precisamos recuperá-la.
― Ei, que cara é essa? O que você está pensando em fazer?
― Podemos fazer uma trégua? ― Eu tinha muito o que fazer e ficar brigando com Tommy realmente não me levava a lugar nenhum, ao contrário disso, gastava minhas energias que eu poderia empregar em outra coisa. ― Eu adoraria quebrar seu nariz uma outra hora, mas não agora.
― Tá certo, mas aviso logo que você não vai quebrar nada meu mesmo que tente. Sou muito bom de briga, ou você esqueceu? ― Sorriu. ― Onde me quer?
― Preciso que entre pela porta da frente e a tire de lá se for preciso. Vou pelos fundos e tento a encontrar antes dela fazer mais alguma merda.
― Então não vamos fazer o que Felicity pediu?
― Essa pessoa que gritou com a gente não era ela. Eu vou entrar lá e resgatar minha garota dela mesma. Nunca mais vou deixá-la sozinha, Tommy.
― Esse é meu garoto. ― Recebi dois tapinhas no ombro. ― Então vou indo lá. Boa sorte pra gente.
Esperei que ele sumisse de vista, tomei um fôlego e subi pelas escadas que Felicity usara. Logo ao entrar vi que davam acesso a um corredor com quase uma dezena de portas fechadas. Procurar uma por uma levaria um tempo e poderia me causar problemas, mas eu tinha de arriscar. Já estava quase entrando no primeiro quando ouvi a voz dela vindo de um corredor adjacente.
― Eu volto em um segundo, tigrão. ― Ela sorriu para quem quer que fosse seu acompanhante antes de fechar a porta e me ver parado a encarando. ― Mas que merda, Oliver! Não te mandei ir embora?
― Vamos para casa, declaro essa missão encerrada. ― Segurei seu braço e comecei a praticamente a arrastar pelo lugar que havia entrado.
― Me solta, ou eu vou te machucar de verdade, Queen! ― Ela tentava tirar minha mão de seu braço, seus olhos brilhando das lágrimas de raiva não derramadas.
― Por favor, Felicity...
― Não! Eu vou até o final com isso, Oliver, e nada nem ninguém vai me impedir, entendeu?
― Me deixa fazer então. Matar, ameaçar, chantagear, torturar? Sou especialista, eu faço. Só espera no carro com Tommy que eu faço qualquer coisa que você queira, amor. Mas você não precisa ir tão baixo para conseguir...
― Ir tão baixo? ― Felicity apontou para as próprias roupas de couro preto, que eu nem havia parado para observar até aquele momento. ― Meu bem, baixo é onde passamos nossas férias. ― Ela trocava o peso da perna parecendo muito incomodada. ― Olha, lá dentro está o braço direito de Helena Bertinelli, o único que tem a localização certa da mulher. Eu estou tão perto, Oliver, não tenta me parar agora ― implorou. ― E só porque estamos em um relacionamento, não quer dizer que você tenha direito de questionar meus métodos, ensinados por você. ― Suspirei rendido.
― Eu te espero no carro.
― Tire Tommy daqui, só preciso de mais alguns minutos.
Caminhei de ombros baixos para fora. Era como se o peso de toda aquela rejeição estivesse sobre eles e me consumindo por não poder fazer nada. Geralmente, eu dava um jeito de modificar as coisas a meu favor, mas não aquela vez. Ela havia vencido.
~
― Não vai ser um plano fácil, a sede é quase tão bem protegida quanto a Liga e nós somos apenas três. ― Felicity estendeu sobre a mesa a planta do local, eu e Tommy cruzamos os braços olhando atentos. ― Então eu vou ser a isca. ― Meus protestos e de Tommy começaram logo em seguida.
Estava parecido demais com a missão que Laurel morreu e aquilo me dava arrepios em cada mínimo pelo do meu corpo, e Tommy não parecia estar diferente. E nenhum de nós queria que terminasse igual.
― Dá pra pararem de fazer escândalo, já pensei em tudo. Deus! ― Ela estava cada vez mais impaciente e estressada com aquilo tudo, e mesmo que já tivéssemos concordado em não ficar no caminho dela e ajudar o quanto puder, nada estava melhorando o humor de Felicity.
― Vai por mim, loirinha, não é uma boa ideia te colocar lá dentro sozinha, mesmo com nós dois como apoio.
― Eu não sou burra, Tommy, muito menos suicida. E desde que matei aquele homem noite passada, já estão procurando alguém com minha descrição mesmo. Vamos entregar isso a eles.
― Como isso não é suicida?
― Simples. ― Ela apontou para uma área na lateral esquerda do prédio. ― A Bertinelli costuma deixar duplas de guardas vigiando a fortaleza, e esses dois são os mais isolados. Vocês vão tomar o lugar deles, colocar os uniformes e me entregar. É o único jeito de chegarmos tão perto dela. ― Felicity espalmou as duas mãos no tampo da mesa e nos encarou esperando uma resposta.
― É, se nós... Podemos até usar tranquilizantes nos guardas, e... Acho que pode dar certo ― Tommy falava sozinho olhando para o grande papel azulado. ― Tô dentro.
― Oliver? ― Os dois olharam para mim.
― Vamos matá-la?
― Quando estivermos lá dentro, eles vão atirar para matar, Oliver. Não podemos fazer diferente.
― Felicity... ― apelei pela última vez para fazê-la desistir, mas como foi inútil, apenas concordei com a cabeça.
― Ótimo. Vou tomar um banho, vocês podem descansar, sairemos à noite.
― E aí, vamos matar Helena? ― Tommy perguntou para mim quando ficamos a sós.
― Já morreram pessoas o bastante ― respondi simplesmente e fui até a parte do quarto que ficava a cama.
Eu havia passado o resto da noite passada em claro vigiando o sono de Felicity, com medo de que ela fugisse de novo. Ainda assim, com meu corpo cobrando descanso e minha cabeça doendo pela falta de sono, não consegui dormir nem um pouco. Não até eu conseguir recuperar minha doce Felicity.
~
― Essa calça faz minha bunda parecer gorda? ― Tommy segurava o quadril e rodava em torno do próprio eixo como um cachorrinho que persegue a cauda. ― Vamos trocar, a sua é mais apertada.
― Nada disso ― retruquei, amarrando o segundo guarda da Bertinelli que havíamos derrubado, escondendo um pequeno sorriso para que o Merlyn não visse. Pelo menos eu sabia que era bom ter alguém tentando amenizar o clima ali.
― Qual é, Ollie?! Só dessa vez!
― Não, eu já disse. Não ligo pra você e sua bunda gorda.
― Aí, eu disse que tava gorda! ― reclamou inconformado. ― Felicity, manda ele me dar a calça!
― Já chega de piadas, Tommy, temos trabalho a fazer ― ela o cortou. ― E, pelo amor de Deus, quanto tempo mais vai levar pra você terminar de amarrar isso? ― Apenas a ignorei, não estava mesmo disposto a comprar aquela provocação mal humorada. ― Quer saber, dane-se! Vou silenciar o outro.
― Silenciar? Como assim, silenciar? Ele não está calado o bastante pra você? ― Tommy correu para a acompanhar até o corpo desmaiado do primeiro guarda.
― Silenciar tipo isso. ― Felicity encaixou o silenciador na pistola e mirou na cabeça do homem.
― Você não vai... Por que precisa... ― Tommy gaguejou chocado e eu deixei o nó que estava finalizando e corri para ficar entre ela e o pobre coitado quase morto.
― Dá para o Tico e Teco saírem da minha frente? ― Ela rolou olhos, destravando a arma.
― Claro que não! O homem já está abatido, não precisa morrer!
― Muito interessante. ― Felicity soltou uma risada sarcástica. ― Os dois maiores e mais bem treinados assassinos que conheço agora são defensores da vida e direitos humanos?
― Eu só não acho que precisemos matar todo mundo. Você quer acabar com a máfia Bertineli? Ok, vamos até o fim com você nisso. Mas esse seu jeito... Não, Felicity! ― apelei, mas ela não moveu um músculo, apenas me encarou resoluta pelo que me pareceu um longo tempo.
― Todos que esses dois machucarem depois disso, estão nas costas de vocês dois. ― Eu e Tommy suspiramos em alívio quando ela baixou a arma. ― Agora vamos entrar. Vocês precisam atirar em mim. Uns dois socos seriam bons também. ― Tommy soltou uma risada nervosa, enquanto eu fechava ainda mais a minha cara.
Paciência, Oliver, paciência!
― Não vamos fazer isso ― ele negou.
― Migo, eles viram o que eu fiz com um dos mais bem treinados de Helena. Não vão acreditar mesmo que dois guardinhas de patrulha me prenderam sem que eu sequer revidasse. Coragem, garotos!
― Não.
― Um “não” de você Oliver? Minhas cicatrizes são quase todas sua culpa!
― Eu já disse não. ― Caminhei até ficar bem na frente dela. ― Nem eu ou Tommy vamos machucar você, lide com isso ou esse plano acaba aqui e agora.
― Isso aí, o que ele disse.
― Foda-se! ― Quando viu que não íamos ceder, ela tirou a jaqueta, bagunçou os cabelos e sujou as roupas de terra e lama, enquanto não parava de resmungar xingamentos para nós dois. ― Vamos acabar logo com isso.
Não foi dificil entrar, já que as máscaras esconderam nossa identidade e nossa prisioneira nos deu a credibilidade necessária.
― Bom trabalho. ― Um dos guardas da entrada nos parabenizou. ― Está o maior alvoroço por aqui desde que ela matou Nick Salvati. Venha, bonitinha, a senhorita Bertinelli vai amar colocar as unhas em você. ― Quando o homem tentou pegá-la pelo braço, Felicity quase o mordeu e se soltou de nós.
― É uma gatinha salvagem ― Tommy brincou, mantendo o aperto firme.
― Podemos levá-la até a sala da chefe, se quiser ― ofereci, torcendo para que ele aceitasse, ou a pancadaria começaria antes do planejado.
― Claro, levem. ― Quando começamos a caminhar, outro homem que apenas observava tudo até o momento nos parou.
― Tem algo estranho. Helena não gosta que a chamem de chefe, como vocês não sabem disso? ― Ele olhava de mim para Tommy, então para Felicity.
― Eu sei, mas ele entrou agora nessa coisa ― Tommy se apressou em justificar. ― De todo jeito, podemos só ir logo deixar ela lá? Temos que voltar aos nossos postos.
― Eu vou com você. Fica de olho em tudo por aqui, Gus. ― O guarda desconfiado resolveu nos acompanhar. Passamos por algumas dezenas de guardas posicionados nos corredores em salas, até chegar na mais isolada, no último andar. ― Senhorita Bertinelli? ― Ele deu duas batidas na madeira, e logo após ouvir a permissão para entrar, abriu a porta. ― Alguns guardas conseguiram capturar a garota que acabou com o Salvati noite passada. Ela estava rondando o complexo.
Com seus longos cabelos negros, pele alva e olhos azuis penetrantes, a mulher atrás da mesa estava mais para um modelo internacional do que para a chefe da mais poderosa máfia italiana. Ela encarou Felicity de cima a baixo, uma expressão de descrença dominando seu rosto.
― Então foi isso que matou aquele incompentente? ― Ela deu a volta na mesa, ficando bem na frente de Felicity, sem ter a noção do perigo que enfrentava. ― Seus pais sabem que você tá aqui, querida? ― Felicity levantou o rosto, jogando os cabelos para trás e lançando seu olhar assassino para Helena.
― A coisa aqui não é sobre os meus pais. É sobre o seu. ― A morena franziu o cenho. ― Agora! ― A soltamos, Tommy rapidamente imobilizando o guarda que estava na sala e eu apontei o cano da pistola para Helena.
― O que está acontecendo? Quem são vocês?
― Façam igual combinamos. Deixem ela comigo.
O combinado consistia em um plano em três etapas. O primeiro seria entrar até a sala de Helena sem resistência, já havíamos conseguido isso. Depois eu e Tommy desabilitaríamos todos os guardas e seguranças armados, enquanto Felicity procurava nos arquivos digitais ou não provas para acabar com a máfia. E por último sairíamos antes que os reforços chegassem, deixando tudo de mão beijada para a polícia.
Mas considerando como minha namorada estava desequilibrada, eu duvido que alguém ali escapasse com vida, principalmente Helena. Não que eu me importasse com a vida de um bando de mafiosos qualquer, mas eu sabia que a Felicity em seu estado normal, minha Felicity, se importaria. E eu não a queria com essa culpa quando o surto passasse.
― Você consegue lidar com as coisas lá fora, eu vou ficar aqui ― falei a Tommy que assentiu saindo do escritório.
― Nada disso, me dá essa arma aqui! ― Felicity falou autoritária, ao que neguei com cabeça. ― A arma, agora!
― Não mata ela, amor. Por favor, você não precisa fazer isso, não vai te fazer se sentir melhor.
― Você trouxe seu namorado para uma briga? Fofo.
― Cala a boca! ― Felicity pegou a arma das minhas mãos e com uma coronhada na cabeça da outra, a nocauteou. ― Está viva. Feliz? Agora vai ajudar Tommy, vou procurar o que precisamos daqui.
― Eu já volto.
Mais e mais seguranças iam surgindo quando o ataque foi anunciado, mas eles não eram páreo para dois homens treinados desde os quatorze anos pela Liga dos Assassinos. E ainda mais com a motivação de lutarmos para proteger nossa preciosa Felicity, que estava dentro de uma sala ali perto.
― Cara, eu esqueci como lutar contra dezenas de caras era divertido. Lembra daquela vez na Argentina? ― Tommy dava saltinhos, estalando os dedos.
― Lembro, e abaixa! ― Soquei o homem que se aproximava atrás dele. ― E você estava certo, estou preocupado com ela.
― Dois atrás de você. ― Me virei e os derrubei de uma vez. ― Obrigado por admitir. E o que vamos fazer sobre a sede de sangue da Felicity?
― Por enquanto, impedir que ela mate Helena.
― Oh, gostosa pra caralho. Se não vamos matá-la, podemos ficar com ela?
― Ela não é um gatinho de rua, Tommy, não dá pra levar pra casa.
― Você tem sua assassina, quero a minha, oras! Mas que seja, depois então. ― Deu de ombros. ― Parece que terminamos por aqui. Vou checar o perímetro, é melhor você checar sua garota. Chego já lá.
― Ainda desacordada? ― perguntei retoricamente a Felicity sobre Helena, que digitava algo no computador.
― Não sufoquei ela enquanto dormia, se é o que está pensando.
― Encontrou o que precisava?
― Já enviei para os arquivos da polícia. ― Ela finalizou com um clique. ― Agora só precisamos dar uma olhada no que tem impresso por aqui. Livros-caixa, arquivos com associados conhecidos, essas coisas. Pode dar uma olhada naquele armário perto da porta?
― Claro.
Eu estava distraído procurando o que ela pediu quando ouvi o barulho do primeiro soco. Me virei em alerta, para logo ver que Helena havia acordado e que lutava com Felicity, e provava que para estar naquela posição tinha que ser boa de briga. Me preparei para intervir quando a porta de abriu e dois caras entraram, me derrubando usando a droga do elemento surpresa.
Não demorou mais do que um minuto para abatê-los, mas quando olhei pela sala, Felicity estava em cima de Helena, socando-lhe o rosto como se fosse um saco de areia.
― Felicity, para! ― Tentei segurar seu braço, mas ela rebateu, tentando me dar uma cotovelada.
― Foi mal, eu deixei dois passarem, e... O que tá rolando? ― Tommy entrou na sala, mas nem lhe dei atenção, já que toda ela estava voltada para minha loira, que murmurava palavras desconexas enquanto assassinava alguém a sangue frio, com os próprios punhos.
― Ela já desmaiou, para!
― Oliver, ela vai matá-la! ― Tommy alarmou.
― Felicity, para! ― gritei mais alto, então ela finalmente parou, desabando sentada ao lado do corpo quae sem vida. Examinei, e Helena mal respirava. ― A polícia já deve estar chegando, precisamos sair daqui. Vamos. ― A ergui pelos ombros, ajudando a sair dali, enquanto ela tremia muito em meu abraço. ― Acabou, Felicity. Acabou.
~
Entramos em nosso quarto ainda em silêncio absoluto, mesmo que aquilo estivesse parecendo incomodar absurdamente Felicity, não havia muito o que se falar. E até o tagarela Merlyn parecia concordar comigo.
Minha loirinha, que pareceu se recuperar da tremedeira nos primeiros cinco minutos fora do complexo Bertinelli, jogou-se com os braços abertos no encosto do sofá maior da antessala, então seu olhar azul viajou de mim para ele, que inconscientemente paramos em pé em sua frente de braços cruzados.
― Tá, podem mandar a bronca ― falou com um sorriso cínico nos lábios. ― Tommy vai fazer uma série de piadinhas antes de dizer o que quer, que vai acabar em como todas as mulheres não são perfeitas como a sua também não-tão-perfeita Laurel. ― Tommy olhou para o chão com as mãos nos bolsos. ― Não? Que milagre! Você está certo de parar de defendê-la, Merlyn, ela era uma vaca. Fez vocês mentirem um para o outro e acabou com a única família que cada um tinha. Uau, é tão bom finalmente falar isso pra vocês com todas as palavras! Vaca. Vaca. Vaca.
Tommy abriu a boca para falar e até deu um pequeno passo na direção dela, mas segurei seu braço para que parasse. Brigar, gritar, discutir não ia funcionar ali. Felicity estava transtornada pela vingança, com raiva de nós dois por não deixarmos que ela concluísse seu plano e fazendo de tudo para nos dar motivo para uma briga. Mas eu já estive quase nessa mesma situação com Malcom Merlyn, sabia o que ela sentindo. E uma boa luta não seria a solução para nada.
― Oh, o sermão vai vir do meu amorzinho. ― O olhar dela e a sobrancelha erguida em desafio foi para mim. ― Oliver vai ficar me olhando com a cara fechada esperando que eu adivinhe o que passa nessa cabecinha traumatizada. Vamos lá então, um, dois, três e já! ― Felicity repetiu meu movimento de cruzar os braços e estreitou os olhos em minha direção.
― Eu vou deixar vocês dois a sós ― Tommy falou antes de caminhar em direção à saída.
― Vê se demora e para de empatar a gente, Merlyn! Eu e Ollie pretendemos fazer muito sexo de distração agora.
― Tenha paciência ― ele falou para mim e saiu.
Caminhei até minha mochila, peguei uma de minhas camisetas limpas molhei na pia do banheiro, então voltei para a sala e sentei ao seu lado no sofá.
― Podemos pular a parte que você defende Helena, diz que a culpa do que aconteceu comigo não foi dela, que eu estou descompensada sem razões e que não podemos deixar que a assassina que Talia e Ra's criaram tome conta de mim. Eu digo que você não pode falar nada se costuma fazer o mesmo e vou dar uma pequena e disfarçada crise de ciúmes por você ficar do lado de uma mulher mafiosa que você nem conhece. Você vai dizer que não é sobre isso, vamos ficar os dois discutindo por mais alguns minutos até estarmos, quase sem perceber como, experimentando novas posições sexuais. Podemos pular pra foda de uma vez? ― A surpreendi quando apenas comecei a limpar os pingos do sangue Bertinelli que já secava em seu rosto. ― Ah, ok. Está sendo carinhoso e não julgador como geralmente é para que eu consiga ver por mim mesma que o problema sou eu e meus traumas de adolescência.
― Não, amor. Só estou limpando seu rosto.
― Como uma analogia do seu controle para me manter pura como você quer que eu sempre seja? Adivinha, Oliver, não sou! Eu mato pessoas, e teria matado Helena se você não tivesse intervido.
― Podemos invadir a delegacia, hospital, seja lá onde ela está, e terminar o trabalho, se você quiser. Podemos fazer isso agora mesmo.
― Qual a pegadinha?
― Sem pegadinhas. Você tem razão, já estive em um lugar parecido e sei como se sente. Sei também que na hora, só o que eu achava era que precisava matar, que isso faria eu me sentir melhor. Você me tirou de lá à força, e eu fiquei com tanta raiva que quase te matei ou te entreguei pro Ra's. Mas essa foi minha experiência, se você honestamente acha que matá-la vai fazer você se sentir melhor, vamos lá. Eu te ajudo. ― Ela sorriu.
― Você está tentando ensinar uma lição aqui, não está?
― Não, só estou sendo seu apoio, como você sempre foi o meu. Tommy está certo, enquanto cada um quiser fazer de um jeito nunca faremos nosso relacionamento funcionar.
― Eu não acredito em você.
― Você não acreditar não vai fazer ser menos verdade, meu amor.
― Para! Para de me chamar de “meu amor”, para de ser compreensivo porque está com pena de mim. Me odeia, mas não tenha pena de mim!
― Eu não tenho pena, só te entendo.
― Me solta! ― Ela saltou do sofá quando continuei a tentar limpar seu rosto. ― Eu te odeio, Oliver! Isso tudo é culpa sua, você me ensinou a matar, e agora... Quando eu atirei em Cooper, foi por sua causa, e quando eu disse que queria aprender a fazer isso, você deveria ter dito não!
― Eu sei, me desculpe. ― Aquele era um arrependimento que eu levaria para sempre também, mas eu sentia que precisava ajudá-la a sobreviver.
― E quando Talia me mandou... Frank Bertinelli., por que ele... Por que ele fez isso comigo? ― Felicity começou a chorar copiosamente e voltou a tremer enquanto abraçava o próprio corpo.
― Me desculpa. ― A abracei forte, beijando seus cabelos. ― Estou aqui você agora, eu sempre vou estar. ― A frase seguinte ficou apenas em minha garganta, já fui covarde demais para dizer em voz volta.
Eu sempre vou estar aqui para você, porque te amo.
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