Assassins
20 Star City || 2018
Notas iniciais
Star City — EUA
Abril de 2018
Minha boca abria a fechava e eu não conseguia falar, estava chocada demais pra isso. Oliver parecia uma estátua, mantendo-se na mesma posição desde que cheguei, a flecha mirando meu coração.
― Felicity, ainda 'tá aí? ― a voz de Tommy me chamava pelo telefone, foi quando acordei do meu estado de torpor.
― Eu te ligo depois ― falei, desligando o telefone, antes que o moreno tivesse chance de responder. Respirei fundo. Vamos lá! ― Hey, Ollie, que surpresa!
― Joga pra cá sua arma e não tente nada engraçado ― ordenou. Como estava sem opções, tirei a pistola que mantinha presa ao cós da calça jeans e joguei no chão na direção dele. ― A pequena da bota e as facas no sutiã também. ― Obedeci. Bastardo!
― Quer que eu tire a roupa também?
― Vire-se. ― Oliver abaixou o arco e atravessou a sala em poucos passos, me virando bruscamente de costas para ele e prendendo meus pulsos nas minhas costas e me amarrando numa cadeira.
― Ai, Oliver! ― reclamei, quando o aperto foi um pouco além do necessário.
― Vamos conversar. ― Ele sentou-se em frente a mim.
― Ok ― concordei. Considerando como ele ficou puto comigo da última vez que nos vimos, ele querer conversar ao invés de me levar direto para Ra's era um bom começo. A menos que... ― Papai Ra's não sabe que você está aqui, não é?
― Por que não me deixou matar Merlyn? Você encheu minha cabeça com aquelas histórias, para no final ferrar com meu plano.
― Oliver... ― comecei com calma. ― Existe mais coisa sobre a morte dos seus pais do que achávamos. Você ia se arrepender.
― Você não sabe disso!
― Sim, eu sei, porque conheço você.
― O cara que matou minha família estava nas minhas mãos e eu apenas o perdi, por sua culpa!
Ele estava sofrendo. Droga, ele estava sofrendo muito e só sabia a metade da história. O que ele faria quando soubesse de Thea?
― Você não sabe da história toda ― tentei argumentar, pensando em um jeito melhor de contar tudo. Mas o conhecendo bem, sabia que ele não acreditaria em mim, se apenas falasse. ― Me solta que eu te mostro.
― Não, você vai ficar quietinha na sua, até eu decidir a hora que te levarei de volta pra Nanda Parbat.
― Você não vai me entregar, ou já teria feito.
― Eu não tenho motivo algum pra te escutar, ou mesmo para confiar em você.
― Mas mesmo assim veio aqui em busca de uma conversa ― atestei.
― Eu odeio você, Felicity! ― gritou ficando de pé e caminhando por minha sala. ― Eu te odeio por estar fodendo com a Liga e com meu psicológico, por ter trazido a tona toda essa história e por parecer saber de tudo. Te odeio por ter deixado a Liga, por ter me deixado. Porra, você se apaixonou por um cara qualquer, quando eu...
Quê? Como assim?
― Do que você 'tá falando?
― Eu te odeio você porque te amava demais! ― A informação pareceu ser novidade não só pra mim. Sempre o provoquei com isso, mas era só o que era. Provocação. ― E você apenas pisou nisso quando foi embora!
― Oliver, pensei que você não se sentia mais assim. Eu não quis...
― Não importa mais! Você vai me falar tudo que sabe sobre minha família, e depois vou te entregar pro Ra's. Ele decide.
― Você sabe que não posso deixar que faça isso.
― E você sabe que eu não vou permitir que nada fique entre mim e a verdade, nem você! Então pode ir desistindo de qualquer estratégia e fale comigo!
Péssima hora para Tommy não estar abancado na minha casa, como sempre estava nas últimas semanas. Não conseguiria lidar com Oliver sozinha, mesmo que não estivesse amarrada. Hora de partir para um plano B, o que guardei para usar apenas em último caso.
― Há uma pasta no meu cofre com todas as informações que você precisa. Me solta que eu...
― Eu não vou te soltar, garota. Onde está o cofre?
― Oliver, mas eu tenho que... ― Ele ficou de pé na minha frente e gemi quando meu braço foi pressionado com força por sua mão contra a cadeira.
― Eu não quero ser a pessoa a te machucar, Felicity, mas eu vou se não cooperar, então... Onde é a droga do cofre?
― Atrás daquele quadro. ― Indiquei com a cabeça para a pintura na parede ao lado da lareira. ― Me deixa apenas digitar a senha, é um complexo numérico de palavras e letras que eu...
― Qual a senha? ― insistiu na pergunta, olhando para o pequeno teclado na porta do cofre, depois que havia retirado o quadro.
― Vegas Jonas Amendoim 11900. ― Ele, que estava atento às teclas, ergueu um pouco a cabeça ao ouvir o código. Claro que não passaria despercebido, tudo na senha estava relacionado a ele. Lugar da nossa primeira vez, o nome dele do meio, nossa missão na Rússia, o número do nosso quarto em Bangkok.
― Não brinque comigo, Felicity.
― Só coloca a maldita senha, Oliver ― retruquei sem humor.
Segurei a respiração, pois saberia o que viria a seguir. Quando a portinha foi destravada, um gás sonífero foi lançado diretamente na cara de Oliver, que desmaiou em segundos. Toda minha insistência em não dar a localização e a senha do cofre não passava de um truque para inverter aquela situação. Eu ainda planejava lhe contar a verdade, mas nos meus termos.
Peguei uma nova troca de roupa, mais munição e deixei um recado com um endereço e local para Oliver me encontrar em Metropolis cima da mesinha de centro. Hora de saber toda a verdade, Queen.
~
Fato, Oliver não iria aparecer. Eu o conhecia há mais de oito anos e nunca o vira se atrasar antes, um minuto que seja, e agora eu já esperava no beco lateral àquela boate em Metropolis há mais de meia hora.
Sem contar o fato óbvio que eu burramente havia deixado passar antes de ser encurralada em minha própria casa: o rastreador que eu havia implantado em Oliver quando nos encontramos na Indonésia, e que agora apontava para Star City.
Pensar na cidade que eu havia adotado como minha fazia meu coração doer. Era a cidade de Ray, que há dois anos era além do meu esconderijo, havia se tornado meu lar, mas que eu não poderia mais voltar, não com Al Sah-Him em meu encalço.
É, Smoak, não se pode ganhar todas!
Mas uma coisa naquela noite estava estranha. O Oliver que eu conheço não me deixaria escapar fácil. Eu ainda pensava sobre quando senti meu corpo sendo empurrado contra a parede e minha clavícula ser pressionada quase ao ponto de quebrar.
― Oliver, para! ― ofeguei. Eu mal havia me recuperado das marcas da nossa última passagem por aqui, e agora ele já fazia novas. Como nos velhos e odiosos tempos.
― O que você quer me trazendo de volta aqui, Felicity?
― Tá me machucando, me solta.
― Ou o quê? Vai me dar uns dos seus beijos de Judas? Ou prefere usar suas novas armas, um taser ou gás sonífero? ― Ele estava espumando de raiva.
― Facas ― respondi com o fôlego entrecortado. Mesmo que eu mantivesse o olhar fixo no dele, seus olhos baixaram para o pequeno punhal que eu segurava apontado para seu abdome. ― Eu não quero ter que te machucar de novo. E também não vou fugir. ― Suspirei aliviada quando o aperto diminuiu e eu consegui respirar livremente.
― Por que me queria aqui? Eu estou exausto de ter que dançar de acordo com esse ritmo que só você conhece, garota!
― Oliver...
― Direto ao ponto! ― ordenou.
― Vou te contar toda a verdade sobre a morte dos seus pais. Tudo que descobri quando estivemos aqui e na semana seguinte que passei investigando.
― Qual o seu interesse nisso?
― Você. ― Eu poderia ter usado meu tom sarcástico ou até mesmo brincalhão, mas ali estava sendo cem por cento honesta. Seus olhos azuis me encararam com surpresa. ― Você merece a verdade, todo mundo merece. E hoje vou dá-la a você. Toda ela.
― E o que te faz acreditar que eu ainda confio em você para qualquer coisa? ― Eu poderia fazer a forte, mas só Deus sabia como aquilo me machucava. Eu poderia lidar com as crises de raiva dele, mas não com Oliver me odiando.
― Não precisa confiar em mim, só peço que me siga até lá dentro. Eu sei que qualquer coisa que eu diga vai criar mais dúvidas em sua cabeça, então preciso te mostrar.
― Mostrar o quê?
― Qual é, Oliver, tire esse manto da Liga dos Assassinos e venha comigo. Se você souber de tudo e ainda quiser me entregar, irei de bom grado pra Nanda Parbat. Você não tem nada a perder ― argumentei.
― Sua última chance, Smoak.
Ele não levou mais que alguns minutos para trocar de roupa e já entrávamos na boate por uma porta lateral.
O barulho da música eletrônica era ensurdecedor e com tanta gente dançando, era fácil nos misturarmos. Mas o ponto ali não era sumir de fato, mas sim aparecer. E apresentar Oliver a uma pessoa, que de longe era a mais animada do lugar.
― O que estamos fazendo aqui?
― É uma festa de aniversário. ― Mesmo com a luminosidade diminuída, pude ver seu semblante ficar mais taciturno do que nunca.
― Pare de jogar comigo, não é um dia bom.
― Seria o aniversário da sua irmã caçula, estou certa? 23 anos?
― Como você sabe disso? ― Parei de andar e me virei para ficar em frente a ele, chamando sua atenção para mim.
― Você tem que prometer não falar nada ainda, que não vai sair daqui com o arco nas mãos, e que vamos planejar o que fazer a seguir juntos.
― Você sabe que não posso prometer isso.
― Me prometa tentar, ao menos. ― Quando percebi que ele quase cedia aos meus pedidos, ouvi a voz atrás de mim me chamar.
― Felicity! ― Coloquei um sorriso no rosto e me virei pra ela.
― Feliz aniversário! ― A abracei.
― Que bom que conseguiu vir. Open-bar e open-food, melhor DJ do país, e ele toca o que você pedir, desde que não seja essas merdinhas da moda. Fiquem à vontade. ― O olhar dela saiu de mim e viajou até a pessoa ao meu lado.
― Que indelicadeza a minha! ― Dei um tapa na minha própria testa. ― Thea, esse é o Oliver, meu... ― A menção do nome o fez empalidecer e ficar rígido como uma estátua do meu lado.
― Seu namorado? Bom trabalho, garota! ― Thea tocou meu ombro com o seu em um gesto amistoso.
― Ex ― a corrigi. ― Mais ou menos.
― E você traz seu ex para as festas? Estranho.
― É complicado. ― Dei de ombros.
― Enfim, fiquem à vontade. A qualquer momento meu pai pode descobrir essa minha escapada história e chegar aqui acabando com a festa. Malcolm Merlyn não é conhecido pela paciência.
― Seu o quê?! ― Quem perdeu a paciência foi Oliver, que não conteve o grito. Thea estreitou os olhos para o irmão, sem entender aquela reação.
― O pai dela, Ollie ― falei calmamente, segurando seu braço para acalmá-lo. ― É por esse e outros escândalos seus que não estamos mais juntos. ― Apontei meu polegar para ele, testando uma piadinha que amenizasse o clima.
― Tudo bem, então. Eu já vou falar com os outros convidados, a gente se esbarra por aí. Tchau Felicity, tchau Oliver.
― Você quase conseguiu se controlar, parabéns! ― elogiei, quando ele a deixou ir sem falar nada.
― Ela é... Aquela é...
― Isso é uma coisa boa, Oliver, sua irmã está viva!
― E o Merlyn roubou ela de nós? Se ele queria uma filha...
― Vamos conversar em um lugar mais tranquilo. Eu só queria que você a conhecesse.
― O inferno que eu vou sair daqui sem tirar essa história a limpo.
― Pensa bem... O Merlyn deve estar aparecendo aqui, com aquele exército de seguranças. Ele te conhece e me conhece, e já te capturou uma vez. Por favor, Oliver...
Ele finalmente aceitou minha mão estendida e saímos da boate para um café ali perto que ficava aberto 24 horas, onde eu lhe contei tudo que sabia.
Contei sobre a verdadeira paternidade de Thea, sobre a motivação para o acidente, sobre os motivos porque não deixei que ele o matasse naquele dia. Também falei sobre como ela era uma pessoa incrível, determinada, inteligente, boa lutadora.
Oliver parecia se deliciar com cada palavra sobre a irmã recém-renascida e seus olhos ficaram marejados durante todo o tempo.
― Eu vou voltar lá. Thea precisa saber a verdade!
― Se ela tiver metade do seu temperamento, isso não é uma boa estratégia. Ela não vai acreditar na gente, e ainda vai te afastar.
― E pretende que eu apenas descubra isso e volte pra Nanda Parbat como se nada tivesse acontecido?
― Claro que não, mas ainda precisamos de ideias de como nos aproximar. Pensei em algumas, mas... ― parei, respirando fundo. ― Olha, Oliver, eu juro que estou tentando me colocar no seu lugar. Se eu soubesse que minha mãe não tivesse morrido, ou que eu tinha irmãos perdidos, eu ia querer correr pra eles, mas precisamos usar a razão aqui. Ou tudo pode acabar muito mal.
― Essa noite. Eu vou ficar quieto essa noite, mas amanhã vou confrontá-la e matar Malcom se preciso.
― É só o que peço. Amanhã daremos um jeito. ― Me estiquei no sofá da cafeteria. Desde o voo repentino, mais a espera, a festa e a conversa, já era madrugada e eu estava muito cansada. ― Estou voltando ao meu hotel, preciso de algumas horas de sono.
― Você não espera mesmo que eu vá com você, ou espera?
― Honestamente, eu não espero mais nada de você, Oliver. Eu entendo que te magoei, tive meus motivos, mas nunca intenção. Só torço pra que acredite pelo menos nisso. ― Fiquei de pé para ir embora.
― Eu acredito ― a voz dele saiu quase em um sussurro.
― Então você vem comigo essa noite?
― Não force.
― Preciso ficar de olho para que não faça nada estúpido, baby. E considerando que você parece ter desistido da ideia de me matar com um travesseiro, acho que podemos fazer companhia um ao outro. ― O olhar dele se estreitou para mim. ― Não faça essa cara, seria totalmente platônico, e eu preciso mesmo dormir. Então, colegas de quarto?
― Só mais essa noite.
~
Apenas o pequeno movimento de abrir os olhos me deu uma dor de cabeça dos infernos, mesmo o quarto ainda estando mergulhado na total escuridão. Mas foi quando tentei passar a mão em minha testa, que senti a corrente que me prendia. Consultei o relógio da mesa de cabeceira para descobrir que já passava do meio dia.
Mas que droga, Oliver!
Meu ex treinador não mais dormia no sofá no quarto e estava claro agora que ele havia me traído. Me drogado durante a noite e me prendido para me atrasar ao segui-lo. Isso me deixava mais preocupada que chateada, na verdade, já que toda a aparente aceitação dos meus planos na noite anterior não passou de uma estratégia para me fazer baixar a guarda e seguir sozinho por uma ideia nada além de suicida.
― Você vai me pagar por me obrigar a isso, Oliver. ― Mordi os lábios enquanto deslocava meu polegar para me soltar da algema direita, para então usar a mão liberada para soltar a outra e colocar meu dedo de volta ao lugar.
Vesti um colete à prova de balas por baixo da jaqueta, peguei alguma munição e corri para fora do quarto, sem saber exatamente para onde a cabeça de Oliver o levaria primeiro.
A Universidade de Metropolis estava em seus últimos dias de aula, então muitos alunos corriam de lá para cá na realização das provas finais.
Por mais que a sede de vingança de Oliver estivesse no nível mais alto que já esteve, minha aposta é que ele procuraria Thea primeiro. Minha tese foi comprovada quando invadi o sistema de segurança de lá e o peguei numa briga no prédio do curso do moda, o qual a caçula Merlyn/Queen frequentava.
Eu não consegui entender exatamente tudo que foi dito, mas em suma, Oliver havia sido rejeitado pela garota que sequer acreditava que tivesse um irmão. Quando ela soubesse que tinha dois...
Eu não conheci os Queens ou Merlyns originais, mas pela minha vivência com Oliver e Tommy, e pelo pouco que conheci Thea, não tinha como ela apenas aceitar essa história de cara, que olhando de fora, era bem absurda. Era por isso que eu não queria que ele entrasse naquele conflito sem mim.
A briga tinha acontecido uma hora atrás, e, considerando como a raiva de Oliver deveria ter aumentado por Malcom ter tirado a irmã dele novamente, eu sabia bem o próximo destino. E corri para lá.
Peguei a entrada lateral e secreta da mansão que havíamos visitado há tão pouco tempo, mas que agora pareciam meses, e já ia procurar uma tocaia para observar o lugar quando ouvi o primeiro tiro.
É, Felicity, sem tempo para abordagens sutis dessa vez.
― Quem é você? ― O segurança/armário me perguntou quando eu, descaradamente, toquei a campainha. ― Espera, você é a... ― Ele logo sacou a arma ao me reconhecer da delegacia.
― A garota que derrubou alguns de vocês da última vez que esteve aqui? A falsa agente federal que tirou um cara muito gato das mãos do seu chefe? A injustamente denominada prostituta que enganou a chefe da segurança de vocês? Sou todas elas, meu bem.
― Não se mexa! ― Um segundo segurança chegou, então um terceiro. Minha enrolação nada mais era do que uma tentativa de tirar quantos seguranças pudesse de cima de Oliver e trazê-los para mim.
― Calminha, garotos! ― Ergui as duas mãos para cima. ― Eu só quero pegar de volta de novo o idiota que deve estar aí dentro. Um loiro dono dos olhos azuis mais lindos que qualquer um de nós verá algum dia, desse tamanho, dessa largura. ― Estiquei os braços para cima e para os lados para me fazer entender.
― E você acha que vai conseguir tirar seu namorado daqui?
― Ex! Mais ou menos, é complicado... ― Dei de ombros. ― Por que as pessoas continuam confundindo isso?
― Qual o problema aqui? ― Mais dois homens chegaram e o maior me olhou por cima do ombro do colega. ― Estamos ocupados de verdade lá dentro e vocês todos ficam perdendo tempo com uma escoteira vendendo biscoitos? ― gritou.
― Ei! ― reclamei.
― Garota, vá antes que tenhamos que te matar.
― Eu já disse, não vou sair daqui sem o supracitado idiota. Isso é uma missão resgate. ― Eles começaram a rir da minha cara.
― Você e que exército, Sininho? ― O apelidinho estúpido me lembrou da minha primeira missão com Sara. Fomos chamadas assim pelos caras que estariam com os narizes e mandíbulas quebradas nos minutos seguintes. Se não fiquei assustada naquela época, não ficaria agora.
― Eu não preciso de um exército, baby.
O primeiro soco foi na garganta do que me chamou de Sininho e que segurava a arma, que roubei para mim e atirei em dois outros. Usei meu primeiro alvo de escudo humano quando uma rajada de tiros veio em minha direção. Essa é uma das vantagens de ser pequena.
Empurrei meu escudo na direção dos últimos dois, e quando estava perto o bastante, chutei suas armas para longe, os desarmando.
― Uma luta justa, que tal? Eu contra vocês dois no mano a mano? ― Estalei o pescoço e os braços em gestos encenados, erguendo os punhos fechados na frente do meu rosto.
― Olha o seu tamanho, menina. Não vai ser uma luta justa, o que não vai nos impedir de matar você.
― Vocês têm que parar de colocar minha altura como critério, tá começando a me irritar!
Corri na direção do que estava mais perto e lhe dei uma chave de braço, usando meu peso para jogá-lo por cima do meu corpo e o derrubando sem dó no chão. Já ia me virar para derrubar o outro, quando ele me prendeu por trás, segurando meus ombros.
― Não agarre uma mulher sem o consentimento dela, babaca!
Meu cotovelo atingiu em cheio seu esterno, dificultando a respiração e o fazendo me soltar e dar uns passos cambaleantes para trás.
― Já estão cansados? ― Olhei de um para o outro, dando pulinhos animados. Eu amava uma boa briga, no fim das contas. ― Posso fazer isso o dia todo, amores.
As provocações faladas, mais a recente surra, os deixaram vermelhos de raiva, até que tomaram a burra decisão de correr os dois ao mesmo tempo em minha direção. Mantive minha posição de ataque, e quando eles chegaram perto o bastante, apenas me esquivei para baixo, os dois batendo de cabeça um no outro e caindo desmaiados.
― E eu achei que isso só funcionasse nos desenhos ― comentei sorrindo para mim mesma. ― Agora onde você está, Oliver?
Corri para os andares superiores, de onde eu havia ouvido o tiro, até escutar as vozes em um dos escritórios de cima. Controlei minha respiração e me esgueirei até a porta.
Oliver estava rendido de joelhos de costas para a saída, e Malcom e mais meia dúzia de seguranças apontavam armas para ele. Pensa, Felicity, pensa! Ataque direto, tiros aleatórios, uma granada? Droga, devia ter trago uma granada!
― Foi um acordo bom ― Malcom falava com arrogância. ― Eu teria minha filha, me livraria dos Queens e Ra's ganhava o que ele chamava de "recruta em potencial". Com apenas três meninas, ele estava mesmo procurando um herdeiro. Eu não precisei nem levantar da minha poltrona, a Liga dos Assassinos fez tudo por mim.
Espera aí... Isso eu não sabia! Ra's havia matado a família de Oliver?
― Isso não é verdade!
― Claro que é, garoto! ― Soltei um suspiro de alívio quando Malcom baixou a arma. ― Mas não importa mais, hoje o último Queen cairá. Matem.
Chutei a porta com força derrubando um segurança e surpreendendo outros. Mas infelizmente, nem todos se abalaram o suficiente para cessar fogo, foi quando ouvi o primeiro disparo, então fiz o que qualquer pessoa desesperada faria.
A dor pungente em meu tórax me derrubou, mas pelo menos ali do chão, eu vi que Oliver não havia sido atingido quando o empurrei para longe dos tiros. Mas o pior foi que, ao invés de revidar e começar uma briga, como achei que faria, ele correu em minha direção, se abaixando ao meu lado.
― Droga, Oliver, você deveria estar tirando a gente daqui! ― briguei com ele. ― Eu não tenho um plano sequência! ― A expressão em seu rosto me mostrava que ele parecia não acreditar no que eu disse.
― Você foi baleada, garota estúpida!
― O colete segurou as balas, não faça drama! ― Mesmo só o local do impacto esteja doendo como o inferno.
― Nem todas. ― Oliver segurou meu braço, de onde meu sangue jorrava, quente e pegajoso.
― Merda!
― Ótimo, acabamos com os dois de uma vez ― a voz de Malcom chamou nossa atenção. ― Eu estava me perguntando se você ia aparecer, loirinha. Quem diabos é você, afinal?
― Pega a arma na minha cintura ― cochichei para Oliver. ― Acabe com a vida do filho da puta!
Sem esperar um segundo sequer, Oliver pegou a arma e ficou de pé, me levando para cima junto com ele e mirando a cabeça do seu oponente.
― Fica atrás de mim ― ordenou entredentes.
― Que heroico! ― Malcom ironizou. ― Vocês não me ouviram? Atirem!
― Mas, senhor Merlyn, ele...
― Ele não vai atirar em mim. O protetor Oliver não tiraria a única família da sua irmã caçula.
― Eu sou a família dela, você é só o assassino dos nossos pais!
― Ok, você me mata e aí? Morre dois segundos depois? Grande plano!
― Vou correr o risco, você já me tirou tudo!
― E vai correr o risco da sua salvadora morrer também? Se você não notou, a ordem foi para acabar com os dois, e algo me diz que você não está tão disposto a colocá-la numa rota de morte certa.
― Oliver, atira! ― ordenei a ele quando o vi começar a ceder. ― Damos um jeito depois, só mata o desgraçado!
― Ela tem mais colhões que você, garoto, é uma pena. Matem os dois!
Eu já estive perto da morte mais vezes do que eu conseguia contar, mas quando uma dúzia de pistolas nos fizeram de alvo, foi diferente. Eu não via escapatória, iríamos morrer. E nesse momento eu só torcia para que Malcom Merlyn fosse junto e que Tommy concluísse a missão de derrubar Ra’s e cuidasse de Thea, contando histórias do final trágico de Oliver e Felicity. Pelo menos Ra's e Talia Al Ghul não teria o gostinho de me tirar desse mundo de merda.
E, no fim, eu estava com ele e era de certo modo reconfortante. Quem me ensinou a lutar, me ensinou a ser forte, me fez crescer. Eu estranhamente aceitei que morreria quando o abracei forte e fechei os olhos.
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