Assassins
15 Star City || 2018
Notas iniciais
Star City – EUA
Maio de 2018
― Temos um problema. ― Passei por minha porta jogando a mochila em qualquer lugar no chão e não foi surpresa nenhuma ver Tommy em meu sofá, assistindo alguma coisa na Netflix. Merda, não queria vê-lo agora, não depois do que tinha acabado de descobrir em Metropolis. Respira fundo, Felicity, e aja normalmente.
― Sim, temos. Acabou o pão.
― Como acabou? Eu comprei antes de viajar, há dois dias.
― Sinto muita fome entre missões ― justificou-se fazendo bico e me encarando com a cara mais deslavada do mundo, como se eu caísse no olharzinho de cachorro.
― Você tem uma dezena de casas, Merlyn, use-as! E pare de comer toda minha comida, ou pelo menos reabasteça a porra da dispensa! ― gritei com ele enquanto subia as escadas.
― Hm, alguém está de mau humor ― observou me seguindo até meu quarto. ― Qual é o drama?
― Você conseguiu derrubar Anthony Venza?
― Claro que sim, a tempo de assistir a um belo pôr do sol com uma bela morena na bela Barcelona, e ainda voltar aqui e comer todo o seu pão.
― Pois isso nos deixa com a lista dos conhecidos associados da Liga fechada. Acabou.
― Já era? Todos eles?
― Todos eles ― repeti me jogando de costas em minha cama.
― Por que você não parece feliz com isso?
― Você estava certo, precisamos de um plano maior ― assumi frustrada. ― Estou há meses nisso e é como se não tivesse feito um arranhão sequer na Liga, e ainda me colocado como a inimiga número um deles!
― Eu estava pensando sobre enquanto comia pão... Dá espaço. ― Ele me empurrou do meu lugar no centro da cama e sentou com as costas apoiadas na cabeceira.
― Faz o favor de tirar o tênis antes de subir na minha cama, seu peste! ― Ele rolou olhos, mas obedeceu. ― Sobre o que estava pensando?
― O que dá poder a Ra's?
― A legião de assassinos treinados que ele controla, oras ― falei como se fosse óbvio, porque era.
― Não, o que dá poder real, faz ele diferente de qualquer outro líder com uma legião de assassinos por aí.
― Hm... ― Eu juro que queria pensar, mas estava cansada demais pra isso, só queria meu travesseiro macio e quentinho, depois das quase dez horas de voo que tinha pego. ― Podemos falar disso depois, Tommy? ― Me deitei de costas para ele, abraçando as cobertas.
― O Poço de Lázaro ― ele sussurrou ao meu ouvido e o ouvi sorrir. Sim, aquilo fazia sentido. Era o poço que dava cura instantânea, vida prolongada e invencibilidade a Ra's Al Ghul. Esse era o diferencial da Liga dos Assassinos.
― Tommy Merlyn, você é um gênio! Eu poderia te beijar agora! ― Sentei na cama sentindo a adrenalina correr de novo em meu sangue.
― E eu não me oporia a isso. ― Ignorei sua falta de noção e continuei.
― Só precisamos destruir o poço e ele já era. Sem chance de recuperação.
― Aí que está o problema, loirinha. O Poço está no centro de Nanda Parbat, quase inacessível, uma missão suicida. E mesmo que consigamos, ainda teriam os outros dois.
― Ei, ei, ei. Espera aí um segundo. Que outros dois? Não existem outros Poços!
― Existe tanto que você ainda não sabe, pequeno gafanhoto. ― Ele fez cafuné meus cabelos como se faz a uma criança pequena e sorriu.
― Pois me conta, imbecil! ― Minha reação mal-humorada só o fez rir mais. Depois que derrubar a Liga, meu próximo objetivo de vida seria descobrir como ele conseguia tantos sorrisos, o tempo todo.
― Existem outros dois Poços que tem águas mágicas como as de Nanda Parbat, mas a localização deles é tão misteriosa quanto a ciência de que eles existem.
― E como você sabe que eles existem?
― Eu era candidato a herdeiro, lembra? ― Deu de ombros.
― Ok, então me fala onde eles ficam que vamos lá e...
― Eu não sei onde eles ficam. ― Quis dar um tapa na minha própria testa. Tommy estava começando a me irritar.
― Mas você disse...
― Eu disse que sabia que eles existiam, não disse onde.
― Então voltamos à estaca zero, Merlyn. Podemos ir em uma missão suicida e acabar com o poço de Nanda Parbat, mas Ra's ou qualquer outro membro pode começar a Liga em dois outros lugares. Excelente!
― Não seja tão pessimista, só porque eu disse que não sei onde ficam, não quer dizer que não tenha um meio conseguir essa informação.
― Me fala, como?
― Existe um mapa.
― Ótimo, vamos atrás desse mapa. Onde está?
― Nessa hora meu pão acabou, e minhas ideias também ― ele justificou e quis bater nele. Às vezes dava mais trabalho falar com ele do que com uma criança. ― Eu até sei onde o mapa fica escondido, mas é impossível conseguir sem o acesso adequado, que eu, por sinal, não tenho mais.
― Não enrola, quem tem acesso? Ra's, Talia?
― Nah, eles teriam preguiça de manter essa informação e de mover a bunda de Nanda Parbat para ir resolver, se algo acontecesse.
― Então quem?
― Al Sah-Him, baby.
― Oliver? Droga! ― resmunguei.
― Isso foi um droga de "vai ser difícil encontrá-lo" ou de "não quero encontrá-lo"? ― provocou.
― Foi um droga de cala a droga da sua boca! Você sabe como Oliver tem se mantido inacessível, e desde nosso último encontro, tem evitado todas minhas iscas.
― Eu também não iria querer ver minha ex se fosse ele.
Tommy vinha enchendo meu saco com insinuações nada discretas sobre eu e Oliver como algo romântico desde os meus supostos "delírios" com meu antigo treinador enquanto estava sobre o efeito do curare. Não que ele fosse favorável ou não, o idiota só não conseguia fechar a matraca sobre.
― Tommy, eu juro que... ― Respirei fundo tentando manter a cabeça fria. Gritar com ele só daria mais margens a provocações. ― Tommyzinho lindo do meu coração, serzinho mais fofo do planeta... Só explica pra Fel a questão do acesso. Precisamos mesmo do Oliver? ― Seu riso ampliou-se diante da minha falsa doçura.
― É um cofre com um leitor de retina, digital e análise sanguínea. Então acho que a resposta para sua pergunta é sim. Precisamos do Oliver.
― Droga!
― Agora foi um droga de "terei que vê-lo" ou de "não sei como vou convencer ele"?
― Foi um droga de "terei que usar uma carta que guardei para o final".
― Que carta, Smoak? O que você não me falou?
― Digamos que tenho uma pessoa para quem pedir informações quando a coisa ficasse crítica. ― Os olhos dele arregalaram-se com a surpresa.
― Você tem alguém infiltrado na Liga dos Assassinos?
― Não, mas é alguém disposta a me dar informações que não a comprometam. Ela não pretende sair de lá.
― Ela? ― Seu sorriso de lado foi malicioso. ― Ela é gostosa?
― Você não faz o tipo dela, Merlyn ― refutei a ideia, levantando da cama e indo buscar uma toalha do closet, sendo seguida de perto por ele. ― Agora saia do meu quarto, preciso de um banho relaxante e descansar um pouco.
― Ela não gosta de homens bonitos, ricos e interessantes? ― ele voltou ao assunto anterior.
― Ela não gosta mais de homens, ponto. Além do mais, Sara me deve um favor. Não queria ter que cobrar, mas a situação exige.
~
― De todas as suas ideias...
― Essa é a pior. Eu entendi nas cinco primeiras vezes que você disse, Merlyn. ― Passei meu batom vermelho e ajustei as ondas do meu cabelo.
― É brilhante, mas perigoso. Oliver vai descobrir.
― Ele não sabe o que estou fazendo e nem vai saber, já que você é alguém fora da equação. Agora pare de ter medo dele e me pega o equipamento na minha bolsa.
― Eu não tenho medo dele! ― refutou a ideia. ― Mas acho que você deveria ter um pouquinho.
― Você mesmo me disse que se ele quisesse me matar, já teria. Ele não vai me machucar.
― Calma aí, eu disse sobre ele te encontrar, não sobre te matar ― falou com o dedo em riste. ― E você confia demais nesse amor que ele sentia por você.
― Cala a boca. ― terminei de calçar os saltos e peguei o que parecia apenas ser apenas a caixinha das lentes, as colocando em seguida. ― Estou indo, fica em posição.
Saí do quarto do hotel e puxei o tubinho preto um pouco mais para baixo. Aquele vestido havia sido desenhado para mexer com o imaginário masculino, o decote generoso, as costas que tiram nada além que algumas faixas de tecido, o comprimento reduzido.
Minha mente fazia e refazia cada pequeno detalhe do meu plano, absolutamente nada poderia sair fora do combinado, ou tudo estaria perdido. E eu sabia que Tommy não estava completamente errado, Oliver poderia enfiar uma bala na minha cabeça logo que me visse, mas era um risco que eu teria de correr.
Tudo estava se encaminhando bem, desde o início. Minha ligação para Sara durou uns poucos minutos, minha ex-colega de quarto não poderia se arriscar tanto, mas criei uma isca que parecia não me envolver e dei a dica a ela, para convencer Oliver sobre uma missão urgente em Kuala Lumpur, a capital e maior cidade da Malásia. O mapa estava em um cofre em Jerantut, que ficava a quase cem quilômetros de distância, mas era arriscado demais atraí-lo para a cidade certa.
Eu teria que conseguir clonar de Oliver a digital e a retina, além de conseguir uma amostra de sangue, então distraí-lo enquanto Tommy dirigia até lá e roubava o mapa. Simples? Só que não. Duvido que papo furado ou sexo funcionasse como distração por muito tempo, Oliver era mais inteligente que isso, então tive que arrumar outra estratégia, que até me arrancou um sorriso saudoso.
Mas em resumo, eu estava bem ferrada.
O avistei de longe no bar, usando um terno e com uma bebida em mãos. Joguei para Sara pistas incontestáveis de que naquele mesmo hotel teria um inimigo da Liga de alto perfil e segurança redobrada, Slade Wilson. Ra’s não resistiria a abater um de seus piores inimigos, e esse era bem o tipo de trabalho que caía no colo de Oliver. A coisa é que, segundo as pistas, Wilson chegaria apenas amanhã, então Oliver estaria hoje ali apenas para analisar o local.
― Um sex on the beach, por favor ― pedi ao bartender, no lado oposto onde Oliver estava. Não demorou nem um minuto inteiro e já senti seu perfume inundar meu olfato, além, claro, da pressão de uma ponta de flecha bem na minha coluna.
― Slade Wilson não vem, não é mesmo? ― Sorri para o balcão. Esperto.
― Uau, você fica realmente incrível de terno, Oliver! ― elogiei quando me virei para ficar em frente a ele, seu corpo pressionando o meu contra a madeira, a flecha agora apontada para meu estômago. ― E respondendo sua pergunta, não sei de Slade nenhum.
― Não subestime minha inteligência, Felicity. ― Fiz um biquinho e pendi minha cabeça para o lado, sem negar ou concordar com ele.
― Seu drink, senhorita. ― Oliver olhou de relance para o barman, e depois para de volta para mim.
― Uh, sex on the beach! Não acha uma boa ideia, Oliver? ― O rosto dele assumiu uma expressão de ligeira confusão. Cheguei mais perto, deslizando os dedos pela lapela do terno. ― Que tal deixarmos o que quer que viemos fazer aqui, pegar o avião da Liga e voar até a Ilha de Redang? Paradisíaca, quase inabitada. Nunca fizemos sexo em uma praia. ― Pisquei três vezes seguidas, o suficiente para capturar uma imagem perfeita dos olhos dele com minhas lentes de alta tecnologia e enviá-la direto para o computador de Tommy. Passo um, retina. Feito.
― Vamos sair daqui. ― Sua mão envolveu meu braço com força.
― Espera, e meu drink?
― Você não vai beber. ― Oliver alcançou o copo antes que minha mão chegasse nele, afastando a bebida de mim.
― Estraga prazeres ― reclamei enquanto ele me arrastava para longe dali, mas o passo dois também estava completo. Digital, feito. Agora só faltava a amostra de sangue. ― Pra onde está me levando? Meu quarto é o 309.
― O que você quer comigo? Me enlouquecer? ― Oliver me largou quando estávamos em uma parte menos movimentada do bar, com uns sofás grandes e iluminação escassa.
― Meu problema não é contigo, você sabe.
― E essa é mais uma de suas tentativas de recrutamento? Não vai acontecer.
― Não custa tentar, meu querido. ― Dei de ombros. ― Olha, tem como você abaixar essa ponta de flecha, tá ridículo! Se eu quisesse te matar, teria feito isso quando entrei no bar, e se você também quisesse, não ia ficar só ameaçando. ― Ele manteve a posição, então quando tentei lhe tomar o objeto quase que como uma brincadeira, acabei fazendo um corte superficial na palma da mão dele. ― Isso é culpa sua. ― Peguei um dos guardanapos na mesinha e entreguei. ― Não quero te machucar! ― Passo três, concluído. Sangue. Agora eu só precisava entregar a amostra a Tommy.
― E o que diabos você pretende? ― ele elevou a voz, indo na minha direção e ficando tão próximo quanto era possível. ― Jogando comigo, me atraindo e flertando. Não pode ser apenas saudade.
― Pois eu digo que é bem isso. Saudades de você.
Segurei sua gravata e mesmo com os saltos, ainda tive que ficar na ponta dos pés para beijá-lo. Nossa, como eu sentia falta daquilo, Oliver beijava como um profissional. O puxei para um dos sofás e sentei em seu colo, me surpreendendo por ele ainda não ter sequer me afastado. Ele não estava caindo naquilo, talvez também estivesse jogando e eu não sabia até onde ele iria. A coisa é que meus planos para nós dois naquela noite eram outros.
― O que... O que você fez? ― Ele perguntou tirando as mãos da minha cintura e segurando nos braços do sofá, falhando em ficar em pé.
― Tranquilizante no batom, jamais achei que logo você fosse cair nesse truque velho. Quem derrubamos com ele, Anatoly? Ah, não era amendoim.
― Eu vou... ― Oliver novamente tentou se erguer, mas já caiu de volta desmaiado no sofá.
― Relaxe, eu jamais te machucaria. ― Não resisti a vê-lo ali, o indestrutível Al Sah-Him tão vulnerável bem na minha frente, que me agachei ao lado do estofado e deixei um beijo casto em seus lábios, minha mão fazendo carinho em seu rosto. Minhas saudades não eram inteiramente mentira, no fim das contas.
― Adorável ― a voz brincalhona de Tommy soou atrás de mim, me fazendo ficar de pé. ― Quem que não sente nada por quem mesmo?
― Você não consegue fechar a torneirinha de comentários, não é mesmo? ― O moreno abriu um sorriso enorme, como quem dizia que estava apenas começando. ― Eu só estava me certificando que ele recebesse a dose adequada do tranquilizante.
― Eu só não entendo como você não sente nada colocando um negócio desses na sua boca. Por que não desmaiou também?
― Estude mais um pouco de química de medicamentos, reações entre barbitúricos e antidepressivos e o mecanismo de ação deles que você entenderá. Pegou o copo no balcão?
― Sim, e prefiro deixar que você estude isso e me dê o que preciso. ― Deu de ombros. ― Você tem uma faca aí, preciso tirar a amostra de sangue.
― Sua amostra está aqui. ― Lhe entreguei o guardanapo. ― Você não precisa machucá-lo mais. ― Os olhos dele se estreitaram em minha direção e ele abriu a boca para soltar mais uma das suas, mas o interrompi antes que ele falasse de novo. ― Me ajuda a levá-lo para o quarto e vai logo. Você tem que estar de volta o quanto antes, esse efeito não vai durar muito.
O quarto escolhido foi propositalmente no térreo, e não demorou muito para Tommy colocá-lo na cama, então parar e ficar olhando para o amigo. Ou ex amigo.
― O que foi?
― É estranho vê-lo, depois de tanto tempo. Eu lembro de uma vez que Oliver tomou um porre depois de uma missão fracassada, e eu o carreguei até o quarto com a ajuda de Laurel.
― Oliver bêbado e você não? Difícil acreditar, hein? ― Foi a vez dele soltar um sorriso saiu saudoso.
― Foi só aquela vez, geralmente era eu que dava trabalho a ele. Laurel me convenceu a não beber para ajudá-lo se precisasse.
― Confessa que quer ser amigo dele de novo, vai? ― Toquei meu ombro com o dele de modo amistoso.
― Confessa que quer fazer sexo selvagem com ele de novo, vai? ― Ele provocou de volta, e rolei olhos.
― Quem disse que fizemos isso alguma vez?
― Aquele com certeza não foi o primeiro beijo de vocês, loirinha ― atestou. ― E como poderia ter tanta certeza que ele te beijaria de volta?
― Se ele não fizesse, você o nocautearia pelas costas.
― Mas funcionou, o que só fortalece meu argumento de que vocês tinham algo. Agora se me dá licença, tenho alguns quilômetros para percorrer e um mapa para roubar. Se cuida. ― Recebi um beijo na testa e ele me deixou a sós com Oliver.
Agora era só esperar.
E eu esperei. Esperei. Esperei. E agora estava entediada.
Não que eu quisesse encarar Oliver em um combate corpo a corpo, eu provavelmente iria perder porque ele era maior, mais forte, e me ensinou tudo que eu sei, mas ficar fazendo nada naquele quarto de hotel estava me dando nos nervos. Mas eu não poderia sair, alguém tinha que ficar e atrasar Oliver caso ele descobrisse nosso objetivo na Malásia. E como Tommy ainda era minha carta secreta na manga e tinha o tipo físico do loiro para poder se passar por ele ao roubar o mapa, tive de ficar.
― Você quer o mapa, não é? ― Oliver me chamou quando eu havia ido ao banheiro e trocado de roupa, para uma calça e blusas justas e pretas. Ele acordou antes do previsto, deveria ter aumentado a concentração do tranquilizante.
― Boa noite, bela adormecida. ― Abri meu maior sorriso ao encontrá-lo, amarrado com correntes em cima da minha cama. Tudo bem que eu confiava nas drogas, mas não poderia deixar as coisas ao acaso. ― Soninho revigorante?
― Como soube do mapa? Não pode ser uma coincidência você estar na Malásia.
― Eu não sei do que você está falando, meu bem. ― Me fiz de desentendida, sentando confortavelmente na poltrona e cruzando as pernas, enquanto ele forçava os braços tentando escapar. ― Não, nem tente fugir.
― O que você quer, afinal?!
― Ok, eu menti antes. Eu sei que Slade Wilson chega aqui por amanhã e queria levar um papinho com ele. Aquela velha história do inimigo do meu inimigo é meu amigo, sabe? Imagina minha surpresa em te ver, deixou a noite mais estrelada.
― Só me mata e acaba com tortura que é ouvir você mentir para mim, Felicity.
― Já disse que não vou. Só precisamos ter uma conversa sem você apontando suas armas ou flechas para mim.
― Não vou passar para seu lado, desista disso.
― Eu vou parar de te pedir isso também. Você vai me procurar quando estiver pronto, acredita em mim. ― Ele me encarou emburrado como eu tivesse falado o maior absurdo do mundo. ― Não me olhe assim, você vai lembrar dessa conversa quando estivermos armando planos juntos.
― Você tem algum ponto aqui ou só está me enrolando para conseguir alguma outra coisa? ― Touchè, Queen. Você nunca esteve mais certo, para as duas opções.
― Eu tenho uma coisa para te contar, antes de ir embora daqui e a camareira tomar o maior susto da vida dela. ― Sorri com a ideia.
― Você mente, garota! Eu não acredito sequer em uma palavra.
― Eu nunca menti pra você, Oliver, assim você me ofende. Ao contrário disso, eu estou aqui para começar a abrir seus olhos.
― Sobre como Ra’s é malvado, a Liga é uma instituição mercenária e como todo mundo foi tão injusto com você? Esse discurso é velho, supere.
― Isso não é sobre mim, ou sequer sobre Ra’s ou a Liga. Vamos falar de você.
― De... de mim? ― Ele hesitou, antes de perguntar. Eu não queria mesmo tocar nesse assunto, eu sabia que o magoaria relembrar, mas ele merecia saber o que eu havia descoberto recentemente enquanto abatia um associado da Liga em Metropolis.
― Da sua família, especificamente. Do acidente que matou todos os Queen.
Investigando sobre Ted Gaynor, um juiz corrupto, descobri que um dos mais famosos processos que ele havia presidido era sobre o acidente Queen e a condenação de Lionel Luthor. As provas eram irrefutáveis e os Luthor não eram conhecidos por sua honestidade nos negócios, então ninguém sequer pensou em discutir sobre.
A coisa é que achei coincidência demais tudo isso ligado à Oliver, então mergulhei em uma busca mais profunda. Não consegui conexão com a Liga, mas outro nome importante e já conhecido para mim surgiu.
― Nem tente me confundir, Felicity. Lionel Luthor está ainda em prisão perpétua por causa da queda do avião.
― Eu sei, mas... Não foi ele. ― Joguei a bomba e assisti seu olhar chocado.
― Você não pode estar falando sério.
― Infelizmente é verdade. Lionel é culpado de muita coisa e com certeza merece estar preso para o resto da vida, mas sobre isso, não foi ele.
― E... E quem?
― Eu sinto muito, Oliver. ― Dei um suspiro de pesar.
― Quem, Felicity? ― ele elevou a voz.
― O pai do seu amigo Tommy, Malcom Merlyn. ― Como quando ele me contou a história, seus olhos ficaram marejados e eu quis abraçá-lo, como naquela vez.
Eu ainda não tinha falado isso a Tommy, seria um baque para ele também. Os Queen e os Merlyn eram amigos desde antes dos meninos nascerem e um assassinato tão brutal e sem nenhum motivo aparente, deixaria os dois arrasados. Foi esse acidente que desencadeou a entrada de Oliver na Liga, assim como a de Tommy, e todos os eventos que se seguiram. Mexer nisso doeria nos dois, mas eu me importava demais com eles para deixar isso em segredo. Conversaria com Tommy logo que passássemos dessa coisa dos poços.
― Não, não foi ele. Malcom era amigo do meu pai, antes de morrer a esposa dele e minha mãe eram muito próximas também! A troco de que ele faria isso?
― Negócios, não sei. ― Dei de ombros.
― Quem te falou isso? É mentira, Felicity, tem que ser!
― Ninguém me falou, eu descobri. E eu sei que ser a mensageira dessa notícia só vai fazer você me odiar mais, mas... ― Respirei fundo, sentando ao seu lado na cama. ― Você pode não acreditar em mim, achar que estou ferrando com sua vida enquanto busco minha vingança contra Ra’s, mas ainda me preocupo muito com você.
Ele não respondeu, apenas ficou quieto, encarando os lençóis. Meu celular apitou a chegada de uma mensagem de Tommy, avisando que havia conseguido o mapa e já sabia a localização dos dois poços. O passo seguinte seria destruí-los antes que Oliver fosse até o cofre em Jerantut e pudesse impedir nossos planos.
― Eu tenho que ir agora. ― Quando ele ergueu o olhar para o meu ele estava sofrido, parecia que toda a tragédia havia acontecido há dias e não há anos atrás. ― Desculpa, vou ter que te amordaçar. ― Amarrei um tecido em sua boca e ele sequer resistiu. ― A gente se vê por aí, Oliver. ― Talvez ele pensasse que eu havia contado a história para o deixar vulnerável, mas não foi. Eu sentia até uma ponta de arrependimento por ter feito.
Dei uma última olhada nele antes de sair do quarto, ainda congelado na mesma posição. Eu não fazia ideia quando o veria de novo ou o que ele faria com a informação, e confesso, tinha medo de descobrir.
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