Assassins
16 Metropolis || 2018
Notas iniciais
Metropolis – EUA
Maio de 2018
Metropolis se parecia com Star City em muitos aspectos, como os gigantes arranha-céus corporativos, o clima constantemente nublado, a conhecida violência das ruas, as pessoas que andam apressadas sem notar umas às outras. Um ótimo local para se passar despercebido, o que era uma vantagem para mim, mas uma desvantagem quando se tratava de achar Oliver antes que ele conseguisse se matar. Por sorte, eu havia me prevenido quanto a isso.
Nem cheguei a ainda ver Tommy aquela noite que deixamos a Malásia. Eu estava a apenas alguns minutos de encontrá-lo quando descobri que o plano de voo de Oliver não estava direcionado para o local do mapa dos outros dos poços, mas para os Estados Unidos. E o pior de tudo é que ele estava indo sozinho, segundo as câmeras de segurança da pista particular onde estava o avião da Liga.
Malcolm Merlyn era um homem poderoso, potencialmente perigoso, e mesmo com todas as habilidades de Oliver, mas seria um trabalho de no mínimo duas pessoas, ele não conseguiria derrubá-lo sozinho antes conseguisse um tiro de algum homem do exército de seguranças que ele deveria ter, e isso eu não permitiria. Ele estava transtornado e sem foco, por minha causa. Eu escolhi péssimos meios de dar uma notícia tão séria, e agora tinha que consertar as coisas.
Não contei sobre meus motivos para a mudança de planos a Tommy, apenas falei que precisava ajudar Oliver em algo. Eu poderia estar fazendo uma sequência de escolhas erradas, e ajudar o Queen a matar o pai da única pessoa que tinha se mostrado meu amigo de verdade poderia ser loucura, mas eu esperava mesmo que Tommy entendesse um dia. Eu entendia. Sabia como era sentir essa coisa no peito que só se aplacaria quando o causador de tanto sofrimento estivesse sem vida aos meus pés.
Por mais que fosse difícil achar qualquer um naquela cidade, eu sabia exatamente onde Oliver estava, já que coloquei um rastreador intradérmico nele quando o tive desacordado em meu quarto. Agradeci aos céus quando pousei e vi que ele ainda não tinha tentando atacar, mesmo tento chegado algumas horas antes de mim. Ele não era tão maluco no fim das contas.
― Um quarto, senhorita? ― A recepcionista perguntou educada quando entrei no hotel luxuoso, sem saber ao certo porque Oliver o havia escolhido.
― Não, obrigada. Vou encontrar meu... ― parei, formulando qual mentira contaria dessa vez. ― ...marido. Ele teve negócios em uma cidade próxima, e eu acabei perdendo meu voo, por isso o atraso. ― Ok, nem a recepcionista caiu muito na minha história, talvez pensou na hora que eu era a amante ou uma prostituta, mas que seja. Isso não ia fazer muita diferença agora, desde que eu conseguisse acesso.
― Certo, qual o nome da reserva? ― O nome dele, ótima pergunta! Eu não fazia ideia qual nome ele estaria usando dessa vez. Se apresentar com o nome real seria um perigo, mas aquilo era pessoal demais. Resolvi arriscar.
― Oliver Queen. ― O olhar dela assumiu uma expressão de reconhecimento, ela sabia de quem eu estava falando e estava surpresa. Deve ter achado que eu fosse me encontrar com algum velho barrigudo para o programa da noite.
― Vou avisar ao senhor Queen que a senhorita está subindo.
― Senhora ― a corrigi, provando a mim mesma minha teoria. ― Senhora Queen.
― Ok. Vou avisá-lo. ― Ela pegou o telefone e eu peguei uma pequena lâmina que servia para abrir cartas que estava em cima da sua mesa e escondi na manga do casaco.
― Prefiro que não faça, queria fazer uma surpresa pro Ollie.
― Desculpe, não posso fazer isso. Protocolo do hotel.
― Tudo bem, eu vou ligar para ele. ― Apontei para meu celular e me afastei com ele no ouvido, sem tirar a atenção dela, que discou o número 214. Não tão esperta, hein?
― Senhor Queen? ― Joguei um pequeno punhal que cortou o fio do telefone. ― Alô? Alô? Tem alguém aí?
Se cortar um fio à distância usando a pequena faca que nem era balanceada ou afiada o suficiente não foi difícil, roubar um cartão de acesso enquanto a recepcionista estava distraída com o "problema" no telefone é que não seria.
Quando cheguei em frente ao quarto e abri a porta, o vi de costas, mexendo em algo numa mesa. Suspirei baixinho. Sempre seria tão confuso entre nós? Sempre essa relação de puxa-empurra, a coisa de mesmo até quando concordávamos nunca chegávamos a um acordo? Parece paradoxal? Pois era bem isso.
Durante aquele milésimo de segundo antes de revelar minha presença, eu desejei algo que não fazia ideia que ainda queria, já faziam anos que o pensamento não rondava mais minha cabeça. Eu só queria não ser a assassina num caminho de vingança, e queria que ele também não fosse.
Tire isso da sua cabeça, Felicity, não será bom para nenhum dos dois!
― Olá, Oliver. ― Sorri e ergui as mãos rendidas quando ele já se virou para mim com a Glock G25 em punho. ― Não estou procurando briga.
― Disse a mulher que me deixou amarrado com correntes numa cama, menos de um dia atrás.
― Por que tudo soa tão sexy saindo da sua voz? ― comentei para mim mesma mordendo o lábio, mas ele ainda mantinha sua postura de ataque.
― Felicity... ― alertou em tom rígido.
― Por que não tentou me seguir na Malásia, Oliver?
― Você acha que eu poderia simplesmente deixar pra lá o que você me disse?
― E a Liga não aprovou a missão, então você veio para cá sozinho, derrubar o pai do seu melhor amigo? ― Eu teria que saber se ele não estava agindo cegamente e estava mesmo certo do que faria, mesmo com as consequências.
― Tommy não é mais meu melhor amigo, assim como Malcolm não merece o mínimo de piedade. Isso é importante, você não vai estragar!
― Ok, me convenceu. ― Dei de ombros, baixando as mãos, mesmo que isso o tenha feito dar um pequeno passo ameaçador à frente.
― Do que você está falando?
― Não estou aqui para estragar nada, Oliver. Como a especialista em vingança dessa história, estou oferecendo meus serviços. ― Fiz uma pequena reverência. Como o rosto dele ainda mostrava incredulidade e confusão, resolvi explicar melhor. ― Estou aqui para te ajudar a abater Malcolm Merlyn e conseguir a vingança para sua família. ― Oliver me analisou por longos e incômodos segundos, mas aos poucos eu o sentia ceder.
― Desarme-se. ― Obedeci ao comando, lhe dando esse voto de confiança e me livrando das duas pistolas e três facas que mantinha escondidas nas botas, cintura e sutiã. ― A jaqueta. ― Rolei olhos, mas tirei a peça e dei uma volta completa mostrando que não tinha nada escondido no quadril, então ele finalmente baixou a arma.
― Eu falei sério, vou te ajudar. Confia em mim.
― Depois de Ray Palmer, toda vez que confiei em você, me fodi em seguida, então não me julgue. ― Ouvi-lo citar Ray não foi bom, tenho de admitir.
Eu separei a vida que tinha com Oliver da vida que tinha com Ray, era como se eles sequer habitassem o mesmo planeta, era mais fácil assim. A única vez que os dois coexistiram na mesma existência foi no pior dia de todos, e eu não queria lembrar.
― A diferença é que isso não é sobre a Liga ou Ra’s Al Ghul. ― Caminhei na direção dele, que ergueu a pistola novamente. ― Seremos só Oliver e Felicity, parceiros no crime, como nos velhos tempos. Agora abaixa essa arma, já entramos em acordo sobre não atirar um no outro. De novo. ― Coloquei minhas mãos sobre as dele e as baixei sem muita resistência. ― Então, qual o plano? ― Quase soltei um suspiro de alívio quando seus ombros relaxaram.
― Encontrar o Merlyn seria um bom começo ― Oliver falou chateado se voltando para a mesa, que agora vi que se tratavam de mapas, especificamente da Global Merlyn. ― Ele vive cercado de seguranças, seria impossível pegá-lo na empresa. Fora disso, some e aparece como se fosse da própria Liga dos Assassinos.
Aquele comentário fez um clique em minha mente, mas resolvi deixar aquilo de lado por enquanto, e investigar depois mais à fundo.
― Posso hackear o esquema de segurança dele, agenda pessoal e essas coisas ― sugeri. ― Só me dá dois segundos com acesso a um computador e internet.
Abri um notebook que estava na mesa, começando a digitar alguns códigos de acesso à servidores restritos.
― Não vai funcionar, tentei isso logo que cheguei em Metropolis. Parece que tudo fica armazenado offline. ― Oliver chegou atrás de mim, também olhando para tela, uma mão espalmada no tampo da mesa e outra no encosto da minha cadeira, tão perto que eu conseguia sentir seu calor nas minhas costas, seu cheiro e presença tão familiar. Me virei para olhar para ele com o cenho franzido em estranheza, um meio sorriso nos lábios. ― O que foi? Você não é a única que sabe usar um computador aqui. ― Seu sorriso também foi pequeno, quase como se ele não tivesse noção que havia deixado escapar.
― Me desculpe, só não sabia que você tinha interesse em saber essas coisas, ou eu mesma teria te ensinado quando éramos parceiros.
― Tive que aprender, já que perdi a pessoa que cuidava dessa parte pra mim. ― Deu de ombros em um gesto genérico e casual, mas seus olhos analisavam meu rosto com tanta atenção que me fez não conseguir sustentar o olhar e quase me sentir corar como uma garotinha. Mas que merda foi isso?
― Isso pode ser um problema ― murmurei em voz baixa, tentando deixar daquela estranha sensação de lado e focar no que importava.
― O que pode ser um problema? ― Peguei o momento que a ponta de sua língua umedeceu os lábios. Claro que viu isso, Smoak, já que você estava encarando a boca dele!
― O sistema... ― Soltei um pigarro e levantei da cadeira, dando dois passos para trás. ― O sistema off-line pode ser um problema. Mas espera. ― As engrenagens do meu cérebro começaram a trabalhar em um plano B. ― Alguém deve ter acesso a essas informações e que seja mais acessível, alguém que cuide da segurança dele! ― Dessa vez, Oliver nem ao menos tentou esconder o sorriso orgulhoso de satisfação diante da minha fala. Um daqueles que eu não recebia há anos e fazia uma falta do caralho.
― O chefe de segurança da Merlyn Global está nesse hotel, seis andares acima de nós. Algo sobre uma reunião no restaurante daqui essa noite.
É claro que ele já havia pensado nisso, todas minhas técnicas e estratégias eu havia aprendido com ele, o que reforçava uma das falas de Tommy. Se ele sabia tanto como eu pensava, porque ainda não havia me encontrado? É como se nem tivesse tentando de verdade.
― Então você já tem mesmo um plano.
― Sim ― admitiu. ― Capturá-lo, matá-lo de medo até me entregar o que preciso. Ou matá-lo de fato se não entregar. ― Rolei olhos. Típico Oliver.
― Ou... ― Fiz uma pausa dramática para ter sua inteira atenção. ― Podemos pegar sem que ele ao menos saiba que temos. ― Ampliei meu sorriso diante do seu rosto confuso.
― Que armas tem em mente?
― Ah, eu tenho a arma perfeita na minha mente.
~
Oliver franziu o cenho para o olhar crítico que a recepcionista lhe lançou quando passamos pelo saguão em direção ao bar/restaurante e eu nada fiz além de rir.
― Ela acha que eu sou a segunda prostituta que você traz hoje pra cá ― expliquei a ele, que estranhou mais ainda.
― Julgando pelo seu vestido eu não posso discordar dela, mas porque acharia que é a segunda? ― Rolei olhos diante da crítica disfarçada às minhas roupas. Um tubinho vermelho e brilhante, toda garota deveria ter o seu.
― Teve a loira da manhã, então essa ruiva maravilhosa que agora te acompanha ― brinquei enlaçando meu braço no dele.
― Que loi... Ah, você, claro. Acho que nem quero saber o que você fez para chegar ao meu quarto sem ser anunciada.
― Em minha defesa, me apresentei como senhora Queen, mas ela não acreditou. Pelo visto, uma garota como eu não pode casar com um cara como você. ― Foi a vez dele rolar olhos.
― Tem certeza que essa ideia vai dar certo?
― Se eu consigo enrolar você, baby, consigo qualquer um. ― Ele ainda estava emburrado desde que contei meu plano. ― Relaxe, cinco minutos de flerte, um dispositivo escondido no telefone dele e vamos ter tudo que ele tem, ouvir o que ele ouve e saber tudo que ele sabe. Agora me mostra onde está o tal Hall. ― Observei cada ser masculino do lugar. Para ter posição tão privilegiada, ele deveria ser um homem de meia idade e de cara fechada.
― Eu não sei a aparência dele. Só rastreei seu trabalho e localização, não tinha foto.
― Você faz o mais difícil e ignora o mais fácil. ― Soltei seu braço até encontrar o primeiro garçom que passava. ― Com licença, eu tenho uma reunião com o senhor Hall, você pode me mostrar quem é ele? Cheguei na cidade agora, e meu segurança ali não se deu ao trabalho de pegar uma foto sequer que facilitasse minha vida. ― Sorri educada para o homem, que sorriu de volta.
― Não sei de nenhum senhor Hall, talvez seu segurança tenha se confundido. Você deve estar procurando aquela pessoa.
Quando ele apontou a pessoa no bar, eu quis rir muito. Não por achar graça, na real, mas pela cara que Oliver faria quando eu lhe propusesse o que fazer. Agradeci à presteza do homem e voltei para onde havia deixado o loiro.
― Mudança de planos. ― Oliver levou um segundo pra ouvir, um pra absorver a notícia e no seguinte já sorria.
― Quem vou ter que socar?
― Se depender de mim, ninguém. Eita mania de só querer resolver as coisas nos punhos! ― O arrastei pelo braço para a entrada do restaurante. ― Acontece que não é senhor Hall, é senhorita Hall. Aquela morena ali no bar. ― Apontei discretamente para a pessoa. ― Duvido muito que ela vá cair no meu charme. ― Entendimento chegou aos olhos dele.
― Não, nada disso! Se chance.
― Qual é, Oliver? Custa nada!
― Claro que custa. Essa é sua estratégia, não a minha ― reclamou.
― Você prefere o modo nada discreto, eu sei, mas pensa bem... Estragaria o elemento surpresa. Se Merlyn arrumar ainda mais seguranças do que já tem, vai duplicar nosso trabalho.
― Mas eu não sei...
― Porra, Oliver, olhe pra você! Dê um maldito sorriso e ela será sua. ― Aquela modéstia dele quanto à aparência já estava me irritando. O homem era um maldito Adônis, qual a dificuldade de usar isso a seu favor?
― Você me paga, Smoak! ― ele resmungou, mas foi.
E que comecem os jogos!
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