Assassins

6 Nanda Parbat || 2010


Notas iniciais
Oie!! Postagem antecipada por motivos de... Estou saindo para viajar!! Eba!! Vou deixar os agradecimentos para o próximo capítulo, tá bom? Estou literalmente de saída mesmo. Tipo, minhas malas já no carro. Anyway, boa leitura!! Até as notas finais!!

Nanda Parbat

Setembro de 2010

Fechei as mãos em punho e dei três socos seguidos no totem de madeira, que pareceu nem sentir as pancadas, ao contrário das minhas mãos, que doeram como o inferno. Fato, eu nunca seria boa em nenhum tipo de luta. As aulas de informática eram fáceis demais, eu até ajudava meus colegas. As aulas de armas, eu conseguia me sair razoavelmente, assim como as de vigilância, mas quando íamos falar de combate corpo a corpo, eu era uma tragédia.

― Aqui, seu eixo não está equilibrado. ― Meu corpo enrijeceu quando senti as mãos dele sobre minha barriga e coluna, ajustando minha postura. ― Afasta mais um pouco as pernas. ― Agora as mãos dele estavam em minhas coxas, me posicionando como recomendou e ficando quase colado, bem atrás de mim. ― A força não está só nos seus punhos, tem que vir do quadril e ombros. ― Orientava ao meu ouvido, até colocar as mãos sobre as minhas indo devagar até o local onde deveria bater no totem. ― Tenta agora. ― Ele se afastou apenas alguns centímetros.

Assenti e soquei a madeira, que estremeceu e fez um barulho que ecoou pela sala. Acabei sorrindo e procurei seus olhos em busca de aprovação, olhando por cima do ombro para trás. Ele tinha um riso mínimo nos lábios, os olhos azuis fitando os meus. Foi a primeira vez que vi o sorriso, e a primeira vez que suas íris não eram apenas gelo.

Al Sah-Him era meu terror. Não havia gel anestésico o bastante em Nanda Parbat para tratar todos os machucados que ele fazia em mim, cada aula era um massacre diferente. O homem era um sádico, e parecia gostar de se alimentar da dor de cada recruta, semana passada mesmo levei três pontos por causa de um “acidente” em uma aula sua com espadas.

Mas ao mesmo tempo que ele nos torturava, seus gritos de “de novo”, “mais uma vez”, “isso está péssimo, de novo”, soavam na minha cabeça como um incentivo para não ser tão péssima. Eu, honestamente, não sabia os perigos que nos aguardavam lá fora, mas se eles fossem 10% do que ele nos fazia passar, precisávamos ser melhores para continuar vivos. E, diferente de quando cheguei aqui, eu queria ficar viva.

― Seu tamanho não te dá a vantagem da força, então você tem que usar sua velocidade e ataques surpresa a seu favor ― continuou a me instruir. ― Procure áreas vulneráveis, como garganta, olhos e genitália. Por maior que seja, você vai conseguir derrubar qualquer homem.

A ideia me surgiu e logo em seguida, eu já me virei para ele, erguendo meu joelho na direção de seus países baixos. Ele desviou, mas seu olhar tinha um certo divertimento, quando ataquei a garganta dele com a mão espalmada. A cena deveria estar sendo cômica para os espectadores, eu o atacando enquanto ele desviava cada golpe como se brincasse com uma criança.

Quando fechei um punho e tentei atingir seu rosto, Al Sah-Him segurou meu pulso e me jogou por cima de seu ombro, me fazendo cair de cara no chão e torcendo meu braço em minhas costas.

― Sua lição para hoje, Smoak. ― Senti ele se aproximar, se abaixando em cima de mim, sua respiração quente em minha nuca, minha bochecha sendo amassada no chão frio. ― Não sou qualquer homem. ― E aquilo arrepiou cada pequeno pelo do meu corpo.

O que diabos foi isso?

― E olha quem está em cima da minha bonequinha de novo! ― A voz de Talia soou da porta, fazendo o aperto em meu braço afrouxar. ― Vocês dois são a piada mais óbvia, meus amores.

Óbvio mesmo era o ódio que eu estava desenvolvendo por aquela mulher. A fala mansa, a coisa de dizer como éramos especiais para ela e como éramos suas bonequinhas, me dava asco quase ao ponto de me fazer vomitar. Ra’s não fingia que gostava da gente (não que o víssemos muito, na verdade), assim como Al Sah-Him também não, mas pelo menos era honesto da parte deles.

― Se o que lhe falta é trabalho, posso mandar alguns recrutas para pegar uma ou duas aulas de etiqueta com você, Talia. ― O loiro se levantou e eu fiz o mesmo, batendo a poeira da minha roupa.

― Na verdade, querido, preciso falar com nossa Felicity. Temos um trabalho para ela.

Olhei desesperada de um para outro. Eu só estava ali há três meses e era a pior lutadora da turma. Não podia mesmo estar sendo designada para algum serviço.

― Não faça essa cara, e, principalmente, não chore aqui na frente de todos. Seja mais forte, bonequinha.

― Quem autorizou a missão? Ela não está pronta. ― Amém! Pelo menos alguém aqui sabe disso.

― Eu a escolhi e meu pai já autorizou, Oliver. Venha, querida, preciso te preparar.

― Qual a missão? ― Ele nos seguiu, quando Talia começou a me tirar dali pelo braço.

― Não é da sua conta. Confidencial.

― Não há nada confidencial para mim aqui na Liga!

― Sua arrogância só me motiva a te deixar no escuro nessa, Ollie. Agora volte para seus alunos que eu tenho que lidar com essa aqui.

Passei a tarde no quarto branco, minhas unhas, cabelos e pele sendo tratados, ao mesmo tempo que recebia as instruções de Talia Al Ghul, sobre como falar, andar, me comportar. Na verdade, apenas revisamos o que tínhamos aprendido nos últimos meses, já que as aulas de bons modos faziam parte da rotina.

Me senti um pouco mais aliviada quando descobri que minha função no plano era apenas ser uma distração para o futuro defunto, colocando um sonífero em sua bebida, para outros fazerem o serviço após mim. Minha aparência jovem e inofensiva parece ter sido a motivação para me escolherem.

― Você entendeu tudo?

― Sim. Entrar, colocar o pozinho no whisky dele, esperar desmaiar e sair.

― Você é esperta, garota. ― Minha cara angustiada não reagiu ao elogio. ― Não se preocupe, você não vai estar ajudando a eliminar nenhum pai de família gente boa. O homem é um bandido nojento, traficante de mulheres. Já vendeu centenas de garotas como você para a prostituição.

― E Ra’s vai eliminá-lo para limpar a sujeira do mundo? ― ironizei.

― Meu pai tem os motivos dele, você foca nos seus ― me cortou. ― Descanse e amanhã venha aqui depois do almoço, arrumarei seu cabelo e maquiagem antes de pegar o avião com o resto da equipe. Pense pelo lado bom, vai sair dessa ilha e dar uma olhadinha no mundo, que tal?

― Nos vemos amanhã.

Aquela noite não dormi ou deixei que Sara o fizesse. Eu estava tão nervosa que sentia minhas mãos tremerem. Minha amiga tentou me acalmar e me fazer entender que ficar daquele jeito só ia piorar a situação, podendo fazer com que eu falhasse. E falhas na Liga, significavam morte.

Fui liberada dos treinos da manhã e usei meu tempo nos computadores. Eles me deixavam calma, e faziam eu me sentir em casa. Gastei algumas horas escrevendo um programa que servia como bloqueador de sinal, deixando aparelhos como celulares, câmeras ou comunicadores irrastreáveis. Ainda não havia mostrado a inovação a ninguém, mas faria isso logo que ficasse pronto.

Não consegui almoçar, então decidi ir direto à sala de Talia, torcendo para ela considerar a minha não-resistência como um ato de iniciativa, e que pegasse mais leve comigo.

Barulhos esquisitos chamaram minha atenção quando cheguei perto da porta, mas segui adiante, minha boca abrindo em choque e meu rosto ficando muito vermelho. Os dois estavam no sofá e gemiam como bichos. Talia estava nua e sentava com força no colo de Al Sah-Him, que por sua vez tinha as calças arriadas até os joelhos e a boca nos seios da minha professora de etiqueta e idiomas.

A vantagem de não ter pai era que eu não precisei ser traumatizada com esse tipo de cena enquanto crescia, e agora, ali, eu estava com vergonha e com nojo. Achei feio, animalesco e asqueroso. As pessoas realmente sentiam prazer naquilo?

― Oh, querida, já chegou? ― Ela notou minha presença parada na porta, ainda com a mão na maçaneta. ― Você pode esperar aí fora alguns minutos, estamos terminando aqui.

Concordei com um gesto de cabeça, e ainda peguei um último olhar chocado de Al Sah-Him antes de ir para o corredor. Lá dentro, os barulhos agora se resumiam a cochichos e risadas dela, e não demorou muito para meu treinador sair da sala e passar por mim sem ao menos me dirigir um olhar.

― Felicity, pode entrar. ― Talia usava só um roupão e passava os dedos pela arara de roupas. ― Estava pensando nesse vestido vermelho, o que acha? Vai se destacar bem na cor da sua pele e é lindo! ― Ela segurava a peça entre os dedos, como se eu não tivesse presenciado uma cena pornô entre ela e o cara que ela vivia brigando. ― E ainda combina com essas suas bochechas coradas. Você é impagável, bonequinha.

― Desculpe entrar sem bater antes, eu...

― Relaxe, não é como se você mesma nunca tivesse feito sexo. ― Não achei que fosse possível, mas meu rosto ficou ainda mais vermelho e encarei o chão. ― Oh, você nunca fez? ― Ela me olhou chocada. ― Mas você já não tem dezesseis, dezessete?

― Eu nunca fui muito atraente ― admiti.

― Pessoas por aqui discordariam ― comentou vagamente. ― Mas enfim, você vai gostar quando experimentar. Eu até recomendaria Oliver como professor para isso também, ele é ótimo, mas você parece que tem mais medo dele que de mim. Sem falar que o homem é um animal, ia te rasgar todinha. ― Tremi com o pensamento. ― Mas vamos deixar essa conversa para depois, você precisa se arrumar ― finalizou com uma gargalhada.

~

― Você não precisa ficar nervosa, ok? ― Al Sah-Him tinha as mãos em meus ombros me fazendo olhá-lo. ― Eu estou bem aqui no quarto ao lado.

Mesmo com a proximidade, eu não conseguia olhá-lo nos olhos, não depois da cena de hoje de manhã. E mesmo agora que estávamos em um lugar da Europa Ocidental que eu não fazia ideia, ainda estava com vergonha.

Encontrá-lo no avião havia sido uma surpresa. Eu sabia que ele acompanhava pessoalmente todas as primeiras missões de seus recrutas, mas jamais imaginei que ele viesse nessa depois de Talia ter claramente o dispensado na sala de treinos. Mas lá estava Al Sah-Him, em sua armadura da Liga e seu arco, flechas e espada a postos, enquanto eu usava um vestido que estava me fazendo tremer de frio.

― Já tem tudo que precisa? ― Acenei afirmativamente ao questionamento dele. ― Ok, pode ir. Bom trabalho.

O quarto que eu estava tinha mais ou menos dez membros da Liga, que deixei para trás para encarar o corredor vazio. Respirei fundo e dei duas batidas na porta, puxando o vestido mais para baixo.

― Boa noite, senhor ― tentei parecer simpática e relaxada, diante da figura do homem estranho que abriu a porta.

― Muito boa noite. Sou Frank Bertinelli. ― Ele me deu passagem e entrei, passando por três guardas mal-encarados que estavam na antessala e, depois de uma rápida revista, pediu que eu o seguisse até o outro cômodo. O quarto.

Até o momento eu não sabia bem sobre o que era a missão, apenas tinha ciência do que deveria fazer. Mas notando o modo como ele me despia com os olhos e as roupas um tanto vulgares que eu usava, quis me empurrar por não ter percebido antes. Eu seria a prostituta de um figurão essa noite. Distraia-o e lhe dê o pó, foram as instruções de Talia. Distrair não com conversa, agora era óbvio.

― Você é bem do jeitinho que eu gosto, sabia? Tem quantos anos, 15, 16?

Senti meu estômago afundar de nervoso e segurei com força o anel que continha o sonífero. Eu tinha que fazê-lo beber antes que me tocasse.

― Acabei de fazer 17, senhor.

― Senhor não, minha linda. ― A mão dele foi em meus cabelos. ― Pode me chamar de Frank. ― Forcei um sorriso. Precisaria convencer se quisesse sair dali inteira.

― Ok, Frank. Temos algo pra beber?

― O que a florzinha quiser.

― Você decide.

― Será champanhe então.

O homem serviu duas taças, enquanto eu me ajustava desconfortavelmente no sofá. Bebi a primeira em poucos goles e o assisti beber também. Não coloque na primeira bebida, homens como ele são desconfiados, mais uma vez a voz de Talia na minha cabeça.

― Mais uma, por favor ― pedi.

― A mocinha gosta de álcool? É das minhas, então!

Ele encheu minha taça e a dele. Era hora de fazer minha jogada.

― Pode me conseguir alguns lenços de papel? Sua presença é um pouco intimidante, estou suando na minha maquiagem. ― Ele me olhou desconfiado, mas se levantou e foi até a porta.

Aproveitei o momento e despejei o pó na bebida dele, dando uma leve balançada para misturar tudo e voltei à minha posição, bebendo mais alguns goles de nervoso.

― Aqui seus lenços. ― Ele me entregou os papéis, mas permaneceu de pé.

― Não vai sentar e terminar sua bebida? Aposto que pode me contar grandes histórias.

― Acho que o podemos mover a hora da história para a cama. ― Meu coração acelerou.

― Ainda temos muito tempo.

― Sim, e eu pretendo aproveitar cada minuto, inclusive agora, então vamos. ― O aperto firme em meu braço me fez ficar de pé.

― Mas você até já serviu a taça! ― Seu olhar ficou enfurecido.

― Bonitinha, se o problema é só esse. ― Quase chorei quando a taça se despedaçou contra a parede o líquido escorreu pelo chão. ― Agora vem, você não foi contratada para ouvir histórias.

― Me solta! ― grunhi quando ele me arrastava para a cama. ― Eu vou gritar!

― Que bom que avisou! Odeio quando vocês, putinhas, gritam.

Meu fôlego foi tirado quando as mãos dele envolveram meu pescoço. Logo eu estava jogada na cama, ele sentado em mim, prendendo meus braços junto ao meu corpo.

Lágrimas escorriam de meus olhos, súplicas silenciosas para que ele não levasse o que pretendia adiante, mas não adiantou em nada. Pelo que ouvi do seu currículo, ele já devia estar acostumado a isso.

― Agora vamos ver se essa bocetinha é tão linda como esse rosto.

Meu vestido foi subido até minha cintura, com uma mão ele tapou minha boca e com a outra rasgou minha calcinha.

― Vamos logo acabar com isso, daí aproveitaremos a noite com mais prazer.

O maldito desafivelou o cinto e desceu as calças, abrindo minhas pernas e posicionando o membro excitado na minha entrada.

A primeira dor cortante me atingiu quando o senti entrar com força em mim, rompendo o hímen e me fazendo soltar um gemido de dor, um fio de um líquido quente escorrendo por minhas pernas.

― Isso, geme, florzinha! ― Mais uma investida brusca.

Enquanto me penetrava, ele deixou meus braços livres, então me forcei a lembrar. Para me defender de homens maiores... Atacar genitália, olhos, garganta!

Fechei a mão em punho e esmurrei seu pescoço, bem abaixo do queixo. Ele perdeu o equilíbrio por alguns segundos, mas o suficiente para liberar minha boca.

Não sei de onde saiu aquilo, eu poderia ter chamado por socorro, poderia ter gritado pelo nome que ele havia se apresentado e todos os chamavam, mas no momento, apenas uma palavra saiu dos meus lábios.

― Oliver! ― O homem estava tão possesso por me ver revidar que começou a bater na minha cara, investindo com mais força.

― Você é uma vadiazinha corajosa, não é mesmo? ― O Bertinelli saiu de dentro de mim e, novamente, tapou minha boca. ― Quem é Oliver? Seu namoradinho? Ou é seu cafetão?

― É alguém que você não deveria mesmo irritar. ― A voz foi ouvida da porta. ― Sai de cima dela, ou essa flecha vai direto no seu coração.

― Vá encontrar sua própria prostituta, estranho.

― Eu avisei.

O zunido das flechas foi seguido pelo corpo inerte que caiu em cima de mim, sujando meu colo com o sangue que agora jorrava. Com uma velocidade impressionante até para ele, meu treinador chegou na cama, tirando o corpo de cima e me ajudando a sentar.

― Você está bem? ― Mas que tipo de pergunta era aquela? Eu tinha acabado de ser estuprada e espancada.

― O inferno que não! ― Não sei se a cortina de lágrimas me confundiu, mas jurei ver compaixão em seus olhos claros.

― Vem, vamos para casa.

Casa.

Eu não sabia o que era ter uma casa há algum tempo, e com certeza Nanda Pabart não era minha casa. Na verdade, aquela maldita ilha era o lugar de onde eu fugiria na primeira oportunidade.

~

Eu falei que ela não estava pronta! ― A voz de Oliver sobressaiu mesmo através da parede. ― E agora eu tenho uma recruta machucada e traumatizada em mãos!

Você está exagerando como sempre, Oliver. Ela vai ficar bem ― Talia retrucou. Abracei meus joelhos e me encolhi na cadeira que ficava do lado de fora da sala de Talia. Eu ainda não tinha parado de chorar desde que havíamos saído do hotel. ― Você sabe que essa virgindade dela era um problema desde o início.

Pare de tratá-las como garotas de programa. Minhas garotas não são prostitutas de luxo que você usa para satisfazer nossos alvos!

Suas garotas, ou essa em especial?

Você estragou a missão, colocando alguém inexperiente nela ― ele voltou o assunto para meu aparente fracasso.

Você estragou a missão quando disparou três flechas no coração de alguém que deveria morrer de overdose. Foi exagero até pra você, Oliver! Você sabe que sua paixonite é realmente patética, a menina se borra de medo de você.

Não fala merda! Ela, assim como as outras, são minha responsabilidade, não vadias como você!

Uma vadia que você gosta de foder de vez em quando, não é?

Não mude de assunto! ― a cortou raivoso. ― A partir de hoje, todas as missões dos meus recrutas terão que ser aprovadas por mim.

Você está se dando mais importância do que realmente tem. Ra's é meu pai, e...

E ele me escolheu como seu herdeiro! ― A informação me surpreendeu. Eu sabia como ele era importante, mas não tanto.

― Você deve mesmo ser alguém especial. ― Saltei de susto quando vi Ra's Al Ghul em pessoa do meu lado. Quando ele chegou aqui? ― Eles estão brigando há quase uma hora.

― Não me importo ― falei sem ânimo.

― Felicity Smoak, certo? Acho que Talia falou de você. ― Grande coisa, quis responder. ― Antes que eu entre aí e tenha que separar as feras, você pode me acompanhar até um lugar?

Não era como se fosse um convite que eu pudesse recusar, então apenas me levantei e o segui. A sala que entramos era escura e sinistra, meio iluminada por velas e com paredes decoradas com armas. Mas nada ali se destacava mais que um poço. Tem como ser mais assustador?

― Venha aqui.

Ele chamou, e tive que firmar os pés no chão para não correr quando ele pegou um lenço branco, molhou na água e começou a passar nos ferimentos do meu rosto.

Aos poucos a ardência dos cortes na sobrancelha e lábio, e a dor das pancadas no rosto foram diminuindo até sumir completamente. Toquei minha face com a ponta dos dedos, e os ferimentos também haviam sumido. O olhei chocada.

― O Poço de Lázaro é o maior tesouro de Nanda Parbat, ele mantém minha vitalidade e força. Geralmente membros da Liga não tem acesso a ele, mas resolvi mostrar pra você.

― Por que para mim?

― Já disse, você me parece especial. ― Deu de ombros. ― Eu vejo fogo em seus olhos, Felicity. E conheço do ser humano o suficiente para saber que você tem planejado uma fuga desde que voltou pra cá hoje. ― Ou desde que saí de lá, na verdade. Eu não passaria mais uma noite naquele inferno, nem que significasse que eu morreria tentando sair da ilha.

― Eu não... ― tentei negar.

― Não tem problema, é isso que eu gosto em você, e que deve ter impressionado minha filha e meu herdeiro.

― Por que Al Sah-Him é seu herdeiro, e não Talia? ― questionei, tirando o assunto de mim.

― Ninguém é tão leal quanto Al Sah-Him. E não somente a mim, aos outros membros também, e esses o seguem cegamente. Ele está aqui há tanto tempo, praticamente o criei como filho, vai ser um bom líder quando eu não puder mais ― concluiu. ― E sobre sua fuga, não faça. Seria um desperdício você morrer tentando sair daqui ― falou como se lesse meus pensamentos.

― E espera que eu apenas fique sentada esperando outra missão de estupro ou espancamento? ― Ele riu.

― Você tem duas opções sobre isso, Felicity. Continuar a chorar e ser a menina frágil que seria se não estivesse aqui, ou pegar isso e usar como combustível para ser a melhor. Frank Bertinelli não é o único, e na Liga, você pode derrubá-los um por um. Ajudar a limpar essa sujeira do mundo, ser a mulher mais forte e inteligente que já se teve notícia. Sei que você pode, e não costumo errar sobre essas coisas.

Todo dinheiro, poder e conhecimento que me foi oferecido realmente não me interessava na verdade, mas finalmente alguém havia dito algo que me fez cogitar ficar aqui. Eu iria estudar, treinar e me esforçar ao máximo, e me tornaria uma das melhores dali. Então teria capacidade para livrar muitas meninas como eu das mãos nojentas de homens como o Bertinelli.

~

Sara me abraçava enquanto dividia a pequena cama comigo. Minha colega de quanto nunca fora do tipo carinhosa, mas ao ver minha situação, se compadeceu e me deixou chorar em seu ombro.

― Ah, se ainda desse para colocar minhas mãos nesse Frank, ele iria desejar as flechas do Al Sah-Him de novo e de novo! ― ela resmungava.

Demos um pequeno salto de susto quando a porta se abriu, revelando Oliver. Era a primeira vez que eu o via sem a armadura da Liga dos Assassinos, e o jeans escuro e a camisa de lã com as mangas puxadas até os cotovelos, revelaram um homem ameaçadoramente bonito. Mesmo com todas as risadinhas e cochichos dos recrutas pelos corredores, foi a primeira vez que concordei.

― Lance, me deixe com ela a sós. ― Sara me olhou como se perguntasse minha opinião, então apenas neguei com a cabeça. ― Não foi um pedido.

― Pode ir ― acabei concordando, não queria colocar minha amiga em problemas.

― Estou bem aqui fora, onde consigo ouvir tudo ― anunciou, mais para Oliver do que para mim, na verdade. Em dias normais eu riria da ousadia dela.

― Trouxe isso para você. ― Encolhi minhas pernas e as abracei quando ele sentou-se na ponta da minha cama e me estendeu um copo com uma bebida estranha. ― Não precisa ter medo de mim, Felicity, eu jamais te machucaria. ― Disse a pessoa que já me quebrou três costelas e não me deixa sem roxos. ― É algo para que você não engravide ― explicou, e aquilo apenas me fez chorar mais.

Ele mexeu-se irrequieto, parecendo realmente incomodado com meu choro. Ah, me poupe! O que eu não ia me preocupar agora era sobre como ele se sentia em relação a isso, eu era a vítima ali. Mas ponderei e resolvi aceitar sua bebida. Engravidar em um estupro ia bem além dos meus planos.

― Eu preciso dizer que sinto muito. Você era minha responsabilidade, acontecer isso foi culpa minha, mas enquanto eu tiver algum poder não vou te colocar em perigo de novo. ― Me surpreendi ao ouvi-lo admitir aquilo, mas não respondi. ― É melhor eu ir, você precisa descansar. Está liberada dos treinos da semana. ― Oliver se levantou e foi até a porta.

― Não. ― Ele se virou bruscamente ao me ouvir. ― Amanhã estarei lá.

― Você realmente não precisa.

― Mas eu quero. ― Levantei e parei em sua frente. ― E prometa que não pegará leve comigo, e me ensinará tudo que preciso saber para ser a melhor de suas recrutas.

― Por que o pedido?

― Isso nunca vai acontecer de novo. ― Ele pareceu entender, então apenas acenou com a cabeça e saiu do quarto.

Notas finais
Muitos se questionam nos reviews como Felicity se tornou a pessoa que é no presente. Essa missão foi basicamente o começo de tudo, tadinha. E Oliver? Alguém quebrou uma pequena barreira no tão impenetrável Al Sah-Him, só acho!! Só terei internet na quarta que vem, então não verei nada até lá. Espero que tenham gostado desse capítulo!! Até os reviews.. Bjs*