Assassins
4 Hub City || 2018
Notas iniciais
Hub City — EUA
Janeiro de 2018
As bolhas do champanhe fizeram cócegas no meu nariz quando tomei o pequeno gole. Ele já devia estar chegando.
Enrolei entre os dedos um dos cachos que haviam em meus cabelos, voltando a observar o jovem e desconhecido casal em um dos sofás chiques do cassino, parecendo alheios a todas aquelas pessoas. Ela tinha a cabeça no ombro dele e mexia em algo no celular, enquanto ele estava distraído em fazer carinho na orelha dela e lhe beijar os cabelos.
"Seus cabelos cheiram como o pôr do sol!, ele me disse uma vez, seu sorriso de príncipe da Disney o deixando ainda bonito com a luz alaranjada que entrava pela janela.
Esse cheiro não existe!, retruquei, me embolando em seu abraço.
Claro que existe, é maravilhoso e está em seus cabelos!"
Pensar que eu havia experimentado aquilo e perdido logo em seguida apertava meu coração, ao mesmo tempo que era o combustível que eu precisava seguir com meu plano adiante. Meu noivo teria sua vingança.
Avistei Oliver no segundo que ele pôs os pés dentro do lugar. Ele usava smoking e não estava sozinho. Mesmo que fingissem não se conhecerem e começarem a circular pelo local, eu reconheceria aqueles olhares em qualquer lugar. Meu ex treinador trouxe consigo uma dezena de assassinos da Liga.
Hora de uma adaptação rápida no plano!
Ele foi o primeiro a me ver, já assumindo uma postura de ataque, mas apenas lhe sorri em resposta. Talvez ele pensou que fosse correr ou fugir como da última vez, então pareceu surpreso quando caminhei em sua direção.
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#1 semana antes#
Tudo era um jogo. Um grande e intrincado tabuleiro de xadrez. A diferença é que aquele jogo teria consequências mortais para quem estivesse no meu caminho.
Caminhei até meu computador na bancada da cozinha usando apenas minha lingerie enquanto enxugava os cabelos. Aquele banho tinha sido revigorante depois da viagem até Mônaco.
O encontro com Oliver era uma possibilidade tão remota, que nem cheguei a me preparar para isso. A última vez que nos vimos pessoalmente a tensão era diferente, teve diversão, lágrimas, despedidas e sexo envolvido. Eu jamais imaginaria que aquela seria a última vez que nos veríamos, que a missão na Rússia para derrubar Anatoli havia sido a despedida da nossa parceria, mas coisas eram o que eram e eu não podia mudar.
Mas vê-lo acendeu mais raiva do que saudosismo em meu coração. Ele também era culpado. Oliver pode nem ter puxado o gatilho (ou enfiado a faca!), mas ele não fez nada, apenas se comportou como o bom cachorrinho adestrado de Ra's, enquanto o chefe matava o amor da minha vida.
Balancei a cabeça e me servi de uma taça de vinho tinto. Pensar em Oliver não fazia bem para minha sanidade, nem para minha missão. Sentei com as pernas cruzadas e apoiei o cotovelo no balcão, e enchi a mão livre de Doritos, já pronta pra assistir meu programa preferido do último ano.
Meu Big Brother particular.
― Impossível, impossível! ― Ra's deu um tapa na mesa, fazendo Curtis saltar de susto. ― Um membro da Liga não foge, e muito menos volta para tentar nos destruir! Era pra ser uma missão simples de eliminação. Isso é...
― Impossível, já sabemos, pai ― Talia parecia mais entediada do que realmente preocupada, girando em uma das cadeiras. ― Agora você vai deixar Ollie terminar a história ou ainda falta muito para parar de resmungar?
Oliver tinha a cara amarrada e parecia que ia soltar fogo pelo nariz, o braço preso em uma tipoia, culpa minha, assumo. Pobres ex-colegas da Liga, se alguém decidisse cruzar o caminho de Al Sah-Him agora seria esmagado no ato.
A sala que eles estavam era a segunda que diferia de todos os outros cômodos no castelo. A primeira era o quarto branco da Talia, e então tínhamos a sala de TI, que por anos foi minha casa. Toda a modernidade dos computadores servia como vigilância, rastreamento, controle e fechamento das operações, e era limitada a apenas uns poucos escolhidos. Aqueles com habilidades em informática e os chefes.
Com o tempo planejando minhas ações, acabei dando nome a cada uma das peças do tabuleiro que era a Liga dos Assassinos.
Tínhamos os cavalos, Curtis e Cisco, os caras do TI, acesso bem limitado à suas especialidades. Então vinham as duas torres, Sara e Nyssa, seguidas pelos bispos. Por mais que fosse conhecido como Herdeiro do Demônio, no fim das contas, Oliver era apenas isso, mais uma peça, um bispo. Uma com muito poder e movimentos, mas nada além. Eu costumava ser o outro bispo, mas desde que deixei a Liga, meu papel havia sido assumido por John Diggle, grande amigo de Oliver que tinha passado anos infiltrado em uma missão no Oriente Médio e voltara no ano anterior. Não conheci muito a criatura, mas pelo que vi, ele era bom, quase tanto quanto o Queen.
Meus alvos principais eram obviamente o rei e a rainha, Ra's e Talia, respectivamente. Os filhos da puta que ferraram com minha vida e escureceram meu coração. Eu ia destruí-los enquanto os olhava naqueles olhos que eram pura maldade.
― Vamos, Ra's, sua vez! ― falei para a tela. Eu tinha as peças brancas, fiz a primeira jogada e acabei com um dos seus peões, Adam Hunt. Agora estava mesmo curiosa para saber o que viria a seguir.
Antes de sair de Nanda Parbat, eu havia instalado câmeras não detectáveis por toda a ilha, e com isso acompanhava cada passo deles, sem ser notada, até o momento certo de agir.
― Ela quebrou o pescoço de um dos caras mais protegidos do mundo na frente de várias pessoas, inclusive dos seguranças dele, ganhou do seu melhor homem armado usando apenas um pedaço de madeira, tudo isso usando roupa de banho. Pai, você achou mesmo que só uma bala daria conta de Felicity?
― Não pareça tão orgulhosa, Talia.
― Ela é meu prodígio sim. Minha boneca mais linda e letal, eu a fiz assim, nós a fizemos. ― Ponto para Talia. Eles me fizeram assim.
― Você, inútil! ― Apontou para o coitado do Curtis, que empalideceu. ― Era amigo dela, onde acha que ela estava esse ano que desapareceu? Onde ela está agora?
― Não sei, senhor. Não tem como achar, já tenho vários programas de reconhecimento facial rodando pelo mundo todo, mas é como Al Sah-Him disse antes. Ela criou tudo isso!
― Pois faça melhor! Al Sah-Him, vigie para que ele faça as coisas direito ― ordenou, e recebeu um aceno em concordância de Oliver. ― Talia, na minha sala agora, nossas atividades não param porque essa coisinha resolveu sair das cinzas.
Liguei o monitor ao lado para ouvir a conversa dos chefes, mas minha atenção ainda estava na sala de operações.
― Algum lugar onde procurar? ― Curtis perguntou a Oliver. ― Talvez se limitarmos a algo além de "globo terrestre" consigamos achar mais fácil.
― Casa ― Oliver falou quase que para si mesmo.
― Las Vegas?
― Não, Star City. Qualquer informação me comunique.
Droga!
Oliver me conhecia ali melhor do que ninguém, e se eu pretendia me manter sob o radar por mais algum tempo, teria que isolar aquele bispo. Não tirá-lo do jogo, mas limitar seus movimentos. E teria que fazer isso rápido, começando com afastar o olhar dele da direção correta. Hora de buscar o próximo peão negro a ser eliminado.
.
#Presente#
― Que coincidência te ver por aqui, Ollie!
Coincidência é o caralho! Dei todas as dicas quando por um "descuido" Curtis rastreou um antigo número até aqui, servindo como meu desvio de atenção. O próprio Oliver argumentou que seria uma armadilha, mas não foi ouvido por Ra's.
― É sempre bom encontrar os amigos. ― Me inclinei para lhe dar um beijo no rosto, e logo seus braços me envolveram. Para qualquer pessoa, pareceria um abraço de velhos conhecidos, mas na verdade se tratava de uma revista. ― Ui, mão boba, adoro! ― exclamei quando as mãos dele examinavam cada centímetro sob o vestido curto e dourado que usava. ― Não subestime minha inteligência, Oliver, não estou armada.
― Por que nos atraiu pra cá?
― Te atrair? ― Me fiz de desentendida. ― Mais uma vez vocês me pegaram, acho que estou ficando descuidada! Eu só queria uma boa noite de jogos!
― Cinismo não combina com você, Felicity. Sei que você não veio à Hub City por uma partida de 21.
― Mas por uma de pôquer... ― sugeri.
― Direto ao ponto, garota! ― Apertou meu braço com força.
― Você voltou a ser o Al Sah-sem-graça-Him, que saco! ― resmunguei. ― Então, preciso trocar umas palavrinhas a sós com você. ― As sobrancelhas dele quase se uniram em um gesto de estranheza. ― Nem pense bobagens, só vamos conversar! ― Ergui as duas palmas na direção dele. ― Então se puder fazer o favor de dispensar seus minions e me acompanhar até lá fora, ficaria muito grata.
― Agora você subestima minha inteligência. Por que eu caminharia direto para uma armadilha?
― Porque isso não é uma, e eu preciso mesmo falar contigo. Missão de paz, juro! Nunca menti pra você, Oliver, me dê algum crédito! ― Ele ponderou por alguns segundos. Eu estava sozinha e ele achava que eu estava desarmada. Talvez viu uma oportunidade de me capturar sem chamar a atenção do cassino lotado.
― Ra's está nesse momento nos assistindo e ouvindo tudo que falamos ― argumentou.
― Ah, eu cuido disso.
Peguei um pequeno objeto que mantinha no decote. Ele ficou em alerta novamente, mas logo que mostrei que era apenas uma caneta. Ou se parecia muito com uma caneta, sendo na verdade um dispositivo que inventei que anulava com eletromagnetismo o efeito de qualquer comunicador por alguns minutos. Toquei o aparelho na orelha dele, e pronto. Tchauzinho áudio!
― Agora as câmeras. Se despeça do papai Ra's! ― Sorri e acenei uma despedida para a câmera mais perto de nós, então apertei um botão em minha pulseira. Tchauzinho, vídeo! ― Vamos?
Ele ainda me olhava chocado quando comecei a caminhar por uma saída lateral, mas logo me acompanhou.
― Só mais uma coisa.
Tirei uma pequena faca da minha bolsa de mão, que ele não se atentou em revistar, e atirei com precisão no pescoço do homem que jogava na mesa de pôquer. Havia atingido a carótida em cheio e eu sabia que por reflexo o próprio ou outros tentariam tirar o objeto. Aí ele teria uma hemorragia e morreria em segundos.
Tchauzinho, Ted Daniels!
Me aproveitei do caos criado para tomar uma distância de Oliver. Eu sabia que ele me seguiria, mas também sabia que ele estava armado até os dentes, e não hesitaria em atirar em mim. Eu não hesitei na última vez que nos vimos.
Quando alcancei o beco lateral, já puxei a pistola de dentro da bolsa. Eu tinha um pente com oito balas e uma dezenas de assassinos mais a polícia me procurando. Mas ia ter que me servir.
― O que aconteceu com a missão de paz? Quem era aquele cara? ― Oliver apontava a arma para mim, e eu a minha para ele, finalmente a sós quando parei de correr.
― Pensei que conhecesse todos os "amiguinhos" de Ra's Al Ghul, já que você será a próxima cabeça do demônio. Mas com esse você não vai mais precisar se preocupar. ― Dei de ombros.
― Droga, Felicity, o que aconteceu com você?
― Seu chefe me tirou algo muito precioso, então vou tirar o que ele mais ama: a Liga dos Assassinos.
― Tudo isso por um cara que você conheceu por seis meses?
― Não fala assim dele, Oliver! O buraco que fiz em seu ombro já fechou?
― Olha, eu sei mesmo o que você deve ter sentido. Você sabe que eu entendo, mas...
― Não, você não entende! Se entendesse, estaria do meu lado lutando por isso.
― Esse é seu ponto, então? Quer que eu me junte a você nessa odisseia maluca?
― Seria bom ter mãos extra.
― E vai ser bom também quando você tiver que eliminar um por um dos seus amigos para chegar em Ra's? Quando tiver que colocar uma bala na cabeça de Sara, Curtis, na minha?
― Torça para não chegarmos a isso, meu querido. ― Eu sei que eu torcia. Suspirei. ― Oliver, você precisa enxergar quem Ra's é de verdade.
― Parece que a única pessoa que nunca enxerguei de verdade foi você, Felicity. Agora só me dá um bom motivo para não cumprir as ordens de Ra's e te eliminar agora!
― Você ainda me ama. ― Oliver começou a gargalhar secamente com a minha afirmativa. ― É verdade, não negue.
― Não nego que tinha fortes sentimentos por você. Mas era pela doce, super esperta e inocente Felicity. Aquela que não gostava das mortes e fazia tudo para evitá-las, e não por essa impiedosa que apenas sai atirando facas e quebrando pescoços. Essa eu não reconheço.
― Não seja uma florzinha, Oliver ― debochei. ― Está velho demais pra isso.
― Felicity, você tem a oportunidade de deixar tudo isso pra trás e sumir pelo mundo, posso convencer Ra's a te deixar em paz. Pare de tentar se matar! ― Mesmo com minhas ofensas, ele apenas se mostrou preocupado, o que me deixou com raiva.
Não ama, sei...
― Eu só queria te dar um aviso, em nome de todos os anos que trabalhamos juntos. Se mantenha e mantenha todos que ama longe do meu caminho.
― Felic...
Não dei tempo nem para que ele terminasse meu nome, pois já tinha desaparecido por um beco escuro através da nuvem de fumaça.
Não teria jeito, seria eu contra Oliver, então.
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