Assassins
8 Central City || 2018
Notas iniciais
Central City – EUA
Março de 2018
Tomei ciência da dor em meu ombro antes mesmo que estivesse completamente acordada. Eu havia levado um tiro. Abri os olhos bruscamente e o quarto estranho rodou diante de meus olhos, então me agarrei aos lençóis macios da cama king size.
― Merda! ― reclamei pelo meu mal estar, mesmo estando sozinha no quarto.
― Ei, ei. ― Ele entrou às pressas, segurando meus ombros e me mantendo quieta na cama. ― Você não pode levantar ainda!
― Oliver? ― Franzi o cenho encarando seus olhos azuis, ainda levemente tonta. ― O que faz aqui? Como você...
― Estou cuidando de você, Felicity. Sempre estarei cuidando de você. ― Sua expressão preocupada, as mãos grandes que agora acarinhavam meu rosto, os lábios que desceram para os meus vagarosamente, trouxeram lágrimas aos meus olhos.
― Oh, Oliver ― murmurei com a boca quase colada na dele. ― Senti a sua falta.
Fechei os olhos esperando o toque, mas apenas uma brisa fria me atingiu, meu Oliver se desintegrando diante de mim logo que abri os olhos.
Despertei logo em seguida, uma lágrima quente ainda escorria.
― O que você tem com o Ollie? ― A voz masculina diferente preencheu o silêncio do quarto.
Entrei em alerta ao vê-lo ali do meu lado, sentando na ponta a poltrona, as mãos entrelaçadas e cotovelos apoiados nos joelhos, seu olhar me observando atento.
― Quê? ― perguntei na defensiva, me encolhendo para a cabeceira da cama.
― Você falou o nome dele a noite toda. ― Tommy saiu de seu lugar na poltrona para sentar na ponta da cama. ― E não parecia ser um sonho erótico. Acredite, de garotas tendo sonhos eróticos eu entendo. ― O sorriso do moreno era aberto e convidativo, mas eu ainda estava preocupada demais para exibir qualquer reação além disso. Preocupação. Muros de defesa. Estado de alerta.
― O que aconteceu? ― desviei o assunto, tentando focar no fato de que, se ele ainda não tinha me matado, não mataria agora.
― Bom, você levou um tiro e foi envenenada. A coisa com o Pistoleiro é que ele embebe as balas com curare, maior pé no saco! E ele ainda fugiu, eu devia saber que flechas no olho não são mais tão eficientes quanto antigamente ― comentou pensativo.
― Preciso sair daqui. ― Apoiei meus cotovelos no colchão para me levantar, mas fui detida quando ele segurou meus ombros, assim como Oliver fizera no sonho.
― Eu não faria isso, loirinha. Por mais que eu tenha essa carinha linda de ótimo cirurgião, tirar balas envenenadas e costurar o lugar não é minha especialidade. Você tem que descansar ou pode ter uma infecção ou coisa assim. ― Me revirei entre os lençóis, a dor em meu ombro ficando cada vez mais evidente.
― Onde estão minhas roupas? ― Ainda estava meio grogue, ou teria dado um belo soco na cara de pau daquele ser humano.
― Estavam sujas de sangue ― falou como se não fosse grande coisa. ― Relaxe, vou comprar algumas novas para você.
― Por que... Por que me salvou? Oliver me disse que você estava morto.
― Tem certeza? Que falta de consideração da parte dele! ― Tommy levantou-se do seu lugar no canto do colchão e pegou um casaco. ― Eu vou comprar o jantar, quer alguma coisa específica? Acho que deveria te trazer sopa ou canja. É isso que os doentes comem, não é?
― Eu não estou entendendo nada. ― Massageei as têmporas. ― Onde a gente está?
― Central City. Dadas as nossas condições com a Liga dos Assassinos, achei melhor não andar com você por aí no ombro. Relaxe, daqui a uns dias pego meu jato e voamos de volta para sua casa. ― Ele fez gestos com mão de um avião decolando.
― Eu não... Droga, eu preciso sair do efeito desses remédios! ― reclamei comigo mesma. ― Então você não morreu e é um fugitivo de Ra’s como eu?
― Mais ou menos. Olha, eu tenho que sair. Por favor, não fuja, vai acabar sendo morta ou capturada, o que seria uma pena. Você está segura aqui, Felicity, vou cuidar de você. ― Uma piscadela e ele sumiu pela porta.
~
Desci as escadas arrumando a blusa para baixo, tendo a absoluta certeza que Tommy havia comprado tudo menor que o meu tamanho de propósito.
― Servida? ― Ele apontou a tigela em minha direção, ao que só fiz uma cara de nojo.
― São oito da noite, porque 'tá comendo cereal?
― Porque é a única coisa que tem pra comer nessa casa! ― Tommy falou também não parecendo nada satisfeito com a refeição. ― Não que eu saiba cozinhar, de qualquer jeito. ― Deu de ombros, fazendo uma cara suplicante para mim.
― Nem vem com o olharzinho de cachorro de novo, já disse que também não sei cozinhar. Pra falar a verdade, minha cozinha nunca foi usada! ― Ele riu e deixou sua "refeição" de lado.
― Quer sair pra jantar comigo, Felicity? ― A atenção dele agora estava toda em mim, enquanto caminhava devagar em minha direção.
― Tipo um encontro, Merlyn? ― Segurei entre os dedos a gola da camisa social azul marinho que ele usava, entrando no jogo.
― Você que sabe. ― Tommy se inclinou para me beijar, mas desviei o rosto e me afastei dele. ― Por que é tão má? ― reclamou, jogando no sofá.
― Eu não sou má, você que é um safado. ― Me sentei ao lado dele. ― Ei, eu vou voltar pra casa essa noite ― avisei.
Já fazia uma semana que eu havia me hospedado em uma das dezenas de casas espalhadas pelo país e não registradas no nome de Tommy Merlyn. O cara vivia no luxo, dinheiro que ele me confessou ter conseguido tirando de alguns bandidos de colarinho branco. Eu só achava que ele precisava se tratar desse complexo de Robin Hood, mas isso era assunto para outra hora.
― Tem certeza que já está bem para voltar pra Star City?
― Como você sabe onde eu... Esquece! Desisto de tentar descobrir sobre como você parece saber de todas as coisas.
― 'Tá, pode perguntar. O que quer saber? ― Sentei sobre os joelhos no sofá, realmente animada com a possibilidade de saber mais sobre ele, e, principalmente, como evitar que outras pessoas consigam acesso a mim.
― Como me achou? Como sabia da minha existência e de todo esse plano contra o Ra's?
― Você matou Adam Hunt, então matou Ted Daniels. Seria coincidência demais.
― Grande coisa. Dois bandidos morrem e você já sai procurando um ex membro da Liga?
― Testemunhas disseram que os dois foram mortos por uma mulher muito bonita ― explicou. ― E boatos de que a Liga dos Assassinos tinha sua primeira desertora oficial se espalharam ano passado. Dois e dois...
― Você também saiu da Liga!
― Eu fui libertado por Ra's, foi diferente.
― Como conseguiu ser libertado? ― Tommy abriu um sorriso enorme diante dos meus questionamentos.
― Quer uma carona no meu jato? Faz tempo que não levo o meu filho pra passear, vou amar dar uma volta.
― Estou aqui com você faz um tempo, e não consegui quase nada! ― exclamei frustrada. ― Você se acha que o enigmático, não é, Tommy Merlyn?
― Me chame de Mister M, loirinha. ― Ele passou o braço por meus ombros e beijou meu pescoço, mas o afastei prontamente.
― Por que continuou a me seguir e me salvar?
― Não me leve a mal, Felicity, mas você é uma mulher um tanto fascinante. É inteligente, boa de briga e muito corajosa. Sem falar de seus nada discretos atributos físicos. ― Seu olhar desceu para meu decote.
― Cretino! ― acusei, lhe dando um tapinha no rosto.
― Eu quero te ajudar. Oficialmente. ― Me surpreendi com a afirmação.
― Não, obrigada. Não trabalho bem em grupo.
― Lobos solitários são ainda mais atraentes.
Minha surpresa não foi devido ao fato dele me beijar, Tommy vinha com seus charminhos e indiretas em todo tempo que estou aqui, mas pelo fato de eu ter retribuído. O moreno era muito no quesito beijos, seus lábios exigentes sobre os meus, a língua carinhosa na minha, as mãos segurando meu rosto e pescoço com firmeza.
Não sei o que deu em mim para levar aquilo a diante, ele também era um homem fascinante e muito bonito, mas não foi isso. Acho que foi algo no fato dele ser essa espécie de vigilante. Arqueiros são bem sexy, se formos analisar.
Tirei minha blusa e escorreguei para baixo dele, as costas apoiadas no sofá. Ele me ajudou a desabotoar a camisa dele, me fazendo gemer com as sensações prazerosas que sua língua em meu pescoço dele me dava. As mãos dele ganharam vida própria pelo meu corpo, apertando minha cintura, coxas e bunda.
Eu estava mesmo dando uns amassos em Tommy Merlyn?
Tommy Merlyn, que eu achava que estava morto, quando na verdade tinha sido a primeira pessoa a deixar a Liga dos Assassinos?
Tommy Merlyn, o Arqueiro Negro, que me salvou várias vezes?
Tommy Merlyn, melhor amigo de Oliver?
Tommy Merlyn que também amava...
― Para ― ordenei segurando seus ombros para que mantivesse uma pequena distância de mim. ― Melhor parar agora.
― Por quê?
― Não vamos elevar isso ao outro nível, Tommy. Não dará certo, vai por mim. ― Falando por experiência própria.
― Você está certa, desculpe. ― Ele sentou-se ereto no sofá, fechando a camisa. ― Eu me excedi, realmente achei que você poderia... Desculpe, eu achei, mas você...
― Não sou sua Laurel. ― Fiz carinho em seu ombro, sorrindo diante de seu olhar chocado que escondia algumas notas de pesar e tristeza. ― Oliver também me falou dela.
― Pra um ranzinza, Ollie te contou coisas demais!
― Éramos assim. ― Dei de ombros, vestindo minha blusa de volta.
― Posso te fazer uma pergunta indiscreta?
― E você faz perguntas que não sejam, Merlyn?
― Touché. ― Ele riu, o clima da sala ficando leve. Nem parecia que tinha duas pessoas quase transando em cima de um sofá segundos atrás. ― Você e Oliver... Nada romântico? Mesmo mesmo?
― Que velha fofoqueira é você, cara!
― Me fala só isso, antes que eu tenha que jogar a carta "salvei sua vida"!
― Babaca! ― acusei. ― Mas a resposta é não. Ele foi meu mentor, meu parceiro, em alguns momentos até meu amigo, só. Mas isso faz muito tempo.
― Certeza?
― Claro que tenho certeza, porque não teria? Ele além de tudo está me perseguindo pra matar.
― Duas observações, Felicity. Se Oliver quisesse te matar, já teria. Eu te achei, ele também teria achado, mas parece que nem se esforça pra isso.
Aquilo era absurdo. Eu tinha orgulho de ser muito boa em cobrir meus rastros e desaparecer, Tommy ter conseguido era um fato incomum. E outra, eu sabia que, se por alguma infelicidade, ele me achasse, me levaria até o Ra's sem hesitar.
― A segunda observação... ― O incentivei a continuar. Entrar no assunto Oliver e Felicity me lembrava os sermões de Curtis de dois anos atrás, e eu não estava mesmo no clima para isso.
― Conheço essa sua cara quando fala dele. É igual a minha ao lembrar da Laurel. ― Quê? E eu achando que a cota de absurdos dele já tinha se esgotado.
― Não fantasie, Tommy!
― Os dois estão presos em lados opostos dessa guerra, sei que é complicado sequer pensar sobre. E você tem a história da vingança por aquele cara de Star City, mas não pode negar para mim o que está tão na cara, Felicity. Mesmo que eu ainda considere ele um bastardo e ache que você combinaria mais com um arqueiro moreno. ― Seu sorriso malicioso se abriu em minha direção.
― Não vou nem discutir esse assunto com você, queridinho. Mas se entramos no assunto Oliver Queen, pode me dizer qual a sua treta com ele?
― Ele não te contou?
― Seu nome ainda é meio que um tabu em Nanda Parbat.
― Que honra! ― Fingiu emoção.
― Qual é, me fala! Eu te contei coisas.
― Você não me contou, seus olhos sim. E eu também quero meus créditos por per muito perceptivo.
― Tão poético! ― ironizei.
― Eu sou como uma cebola, Felicity ― gabou-se.
― Ardido e faz os outros chorarem? ― questionei entre risadas. Tommy me encarou muito sério diante da piada, o que só me fez querer rir mais.
― Não. Significa que tenho muitas camadas. Muitos Tommys em um.
― E nenhum desses Tommys quer me contar porque tem uma rixa com Oliver, ou como foi liberado da Liga?
― Você consegue ser mais irritante que eu, garota! ― reclamou. ― Ollie te falou como entrou para a Liga e que éramos melhores amigos, certo?
― Sim.
― Mas ele te falou como eu entrei?
― Isso não disse.
― Imaginei... ― falou pensativo, antes de voltar à sua história. ― Nós dois nos conhecemos a vida inteira. Quando eu tinha oito anos, minha mãe morreu, e meu pai surtou. Se afundou em trabalho e mais trabalho, eu mal o via. Por isso, eu passava muito tempo com os Queen. Robert e Moira se tornaram quase meus pais, Oliver era um irmão para mim, eu até tinha meu quarto e ficava na mansão mais tempo que na minha própria casa. Então... ― A voz dele foi ficando cada vez mais pesarosa a cada palavra pronunciada. ― Então...
― Então eles morreram e Oliver foi recrutado pela Liga.
― Sim ― assumiu triste. ― Foi como perder minha família de novo, eu não tinha mais ninguém. Oliver não podia contatar nenhuma pessoa da sua antiga vida, mas um dia, dois meses depois de ter "sumido", ele fez contato e me contou toda história. Então eu me voluntariei.
― Mas o quê? Você quis entrar nessa seita dos infernos? ― quase gritei, horrorizada pelo fato de alguém conhecer os intuitos da Liga dos Assassinos e querer participar mesmo assim.
― Oliver era minha família, Felicity, a única que me restou. Na época, faríamos tudo um pelo outro, ele ficou feliz em ter alguém amigo por lá, você bem sabe que os primeiros meses são brutais. E, por mais que os objetivos sejam terríveis, a Liga ainda funcionava como uma família.
― Não me diz que você também é um vendido, cadelinha de Ra's Al Ghul! ― esbravejei, sentindo meu rosto avermelhar de raiva.
― A coisa com Ra's é que ele age como um excelente pai, até você ir contra ele e seus planos. Eu lembro o quanto Talia ficou puta da vida quando ele anunciou a mim e Oliver como seus herdeiros. ― Ele riu com a lembrança, mas meu queixo apenas quase foi ao chão.
― Peraí, peraí, rebobina isso pra mim. Você e Oliver eram os herdeiros? Os dois?
― Só um de nós seria, ele ainda iria escolher ― explicou.
― Uau! Você poderia ter sido o herdeiro, e Oliver...
― Estaria livre para ficar com você? Esquece!
― Nem pensei nisso! ― Mentira, pensei sim. Não agora, mas alguns anos atrás.
― Ra's até me achava um ótimo candidato, muito bom em tudo que tinha que fazer, mas os outros idolatravam Oliver. Ele conseguia dos outros uma obediência cega, coisa que eu nunca tive. E, claro, a preferência de Laurel.
― E chegamos no xis da questão. Foi por ela que você saiu, não foi?
― Sim. Perdê-la foi um golpe muito forte, cada um de nós lidou com aquilo de um jeito, Talia, Nyssa, Oliver. Eu precisei sair de lá. Ra's entendeu e me liberou dos juramentos, desde que eu me mantivesse na linha, não revelasse nada sobre nossa amada instituição ou quebrasse qualquer outra regra.
― É uma história e tanto, Merlyn!
― Uma cebola, lembra?
― Se sua relação com a Liga é pacífica, por que quer se juntar a mim nessa cruzada?
― Não é óbvio? Quero provocar Oliver e dormir com você!
― Fala sério, Mrlyn!
― A Liga não é mais o que era, Felicity. Talia está tomando mais do controle que deveria, eles estão virando um grupo de mercenários.
― Sempre foram ― comentei amarga.
― Não na minha época. Havia honra, proteção e senso de família. Ra's perdeu isso quando Laurel se foi, acho que Oliver consegue trazer de volta.
― Seu plano então é levar Oliver ao poder? O cara que você odeia?
― Eu não o odeio, só não simpatizo com algumas de suas decisões.
― Você o culpa ― acusei, e ele não negou. ― Mas ele te odeia, só pra você saber.
― Eu sei, ele me disse isso quando fui embora. Não posso fazer nada sobre. ― Deu de ombros. Por mais que ele tentasse encobrir com piadas sua relação Oliver, eu via que ele ainda sentia muito.
― Se eu aceitar sua ajuda, como faremos isso? ― O sorriso dele se ampliou com sinceridade.
― Seu plano de acabar com as missões e os associados da Liga até que é eficiente, mas não vai além disso. Precisamos pensar em algo para acabar de vez com Ra's Al Ghul. Duas cabeças pensando são melhores do que uma.
― Você é bem teimoso, sua cabeça vai atrapalhar a minha.
― Não negue que precisa de mim, Felicity. E ainda tem o caso "Pistoleiro". Você ainda é um alvo dele, e por mais que não admita que precisa de proteção, eu sei que uma ajuda de arco e flechas sempre é bem vinda. ― Ponderei. O que eu tinha a perder?
― Ok, mas se fizermos isso vai ser do meu jeito!
― Sim, senhora!
― Nada de agir por minhas costas, nada de segredos ou surpresas. Odeio surpresas!
― Você que manda.
― E nada de tirar minhas roupas e ficar jogando charme. Ou tentar me beijar ou me arrastar para sua cama.
― As roupas posso até concordar, mas sobre o meu charme, é impossível. Tento não ser tão lindo, mas vem automático. ― Rolei olhos, mas acabei rindo. A presença de Tommy era leve e divertida, e essa semana me fez até gostar de tê-lo por perto.
― Acho que temos uma parceria aqui. ― Estendi minha mão para ele.
― Tem certeza que não quer repensar a regra das roupas? ― Piscou para mim, ao que apenas assenti sorrindo. ― Ok, então. Mas eu vou te levar pra Star no meu jatinho. Floyd Lawton ainda por estar por aí, não quero que morramos antes de passar na cara do Oliver que beijei você.
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