Assassins
23 Bangkok || 2015
Notas iniciais
Bangkok – Tailândia
Setembro de 2015
O gosto de ferrugem preencheu minha boca quando sangue a entupiu, mas eu não daria aquele gostinho a ele. Eu não soltaria mais nenhum grito, por mais que o barulho dos meus dois ossos do braço quebrando com a pancada do martelo e a dor que se seguiu fossem uma das piores sensações que eu já tinha vivenciado.
Cuspi o nojento líquido vermelho vivo e joguei os cabelos para trás, olhando no fundo dos olhos do meu algoz, mesmo que só o conseguisse ver com um dos olhos já que o outro estava inchado demais para cumprir a função. E sorri.
― Acabou, Chase?
― Olha aqui, sua... ― O homem pareceu se enfurecer ainda mais com minha provocação, então avançou novamente na direção da cadeira em que eu estava presa, mirando meu outro braço.
― Ela não vai falar! ― Nyssa, que achei que tinha desmaiado, falou com impaciência. ― Nós somos a Liga dos Assassinos, como acha que é nosso treinamento?
― Ela tem razão ― concordei com minha colega de tortura. ― Esses rounds de dor física é o que fazemos todas as manhãs. Estou nisso há muitos anos e essa aqui é a filha do demônio, você vai ter que fazer muito, muito melhor. ― Ergui uma sobrancelha em desafio.
― Você fala demais, loirinha. ― Ele foi até uma mesa com seus “equipamentos” e pegou um alicate. ― Já que não quer me dizer onde fica a sede da Liga, vamos ver como se sai sem a língua. Vai ser um desperdício, mas acho que até sua aqui colega se cansou da sua voz. ― Adrian Chase aproximou o rosto do meu segurando meu queixo com força, o que fez minha mandíbula doer.
É, acho que ela também estava quebrada!
― Eu vou matar você. ― Minhas palavras saíram calmas, lentas e quase sussurradas, mas diretamente para ele. ― Não é uma ameaça, é uma promessa.
― Linda, inteligente, destemida. ― Ele soltou meu rosto com brusquidão e começou a caminhar para longe, brincando com o alicate que tinha em mãos. ― Você é bem única, sabia?
― Tá me chamando pra sair, coração? ― ironizei.
― Eu concordo com vocês, estamos nisso há quase uma semana e nada além de comentarioszinhos espertos saíram dessa sua língua afiada, loirinha, nem seu nome consegui. E a outra, mais medita que qualquer coisa, é meio chato. Tortura física não adianta em vocês.
― Eu te disse que ele não era tão burro! ― falei para Nyssa.
― A coisa é que você me força a usar minha carta na manga, eu nem queria. ― Adrian ignorou minha provocação. ― Eu volto, queridas.
― Você vai matar nós duas, sua idiota! ― Nyssa brigou quando estávamos a sós na cela. ― Não consegue calar a droga da boca um segundo?!
― Oliver e Sara estão vindo, já te disse. ― Finalmente me permiti gemer ao me mexer na cadeira. Por mais que eu tentasse me manter forte, só Deus sabia como eu não aguentaria mais um dia sequer.
― Eu não quero Sara aqui com esse maluco. Acabaremos os quatro mortos!
― Oliver não vai desistir, eu o conheço, só precisamos aguentar mais um pouco. ― A ouvi bufar, mas nem pude ver sua cara de insatisfação, já que a cadeira dela estava presa às costas da minha. Durante todos esses dias, o único rosto que eu via era de Adrian Chase.
Quanto mais a adrenalina baixava, mais a dor em meu braço aumentava. Até seu formato estava se modificando com a falta de alinhamento dos ossos quebrados e não era nada bonito de se ver.
Só mais um minuto, ele está vindo, ele prometeu!, eu falava para mim mesma, então repetia o processo no minuto seguinte, e no seguinte. Mas a cada um desses minutos parecia que o resgate estava mais longe, e nós já havíamos esgotado todas as tentativas de fugir dali.
― Sentiram saudades? ― Chase voltou algumas horas depois, sorridente e confiante. ― Novidades, trouxe um amigo para festa ― anunciou.
Então ele entrou, acorrentado, machucado, sendo empurrado por dois homens enormes. Um capuz negro cobria todo o seu rosto, mas ali no colarinho de sua camisa e debaixo de toda a sujeira e sangue, estava a marca de batom. A marca do meu batom, que deixei por lá na última vez que nos vimos.
― Oliver... ― A palavra saiu em um murmúrio baixo, e lágrimas já se acumulavam em meus olhos.
― Oh, você reconhece esse cara? ― Adrian apontou com o polegar para Oliver. ― Encontrei ele rondando há uns cinco dias, também não me entregou nada e já ia descartá-lo, mas quem sabe ainda sirva para algo. ― Ele chegou mais perto e apoiou as mãos nos joelhos para ficar à minha altura. ― Então, queridinha... Onde fica a sede da Liga dos Assassinos?
― Não ― minha voz saiu embargada com a imagem do meu parceiro e última esperança, cambaleando à minha frente.
― Não? ― Adrian repetiu dramatizando incredulidade, mas parecendo se divertir mais do que nunca com a coisa toda. ― Eu vou matá-lo. ― Oliver deveria estar amordaçado por baixo do capuz, pois o som que ele fazia em nada se pareciam com palavras.
― Não vai, ele é sua vantagem.
― Você não me conhece mesmo. ― Quase saltei da cadeira quando Adrian sacou uma pistola da cintura e atirou em uma das pernas de Oliver, que foi ao chão. ― Qual a fraqueza de Ra’s?
― Oliver! ― gritei.
― Não vai falar, ok. Outra perna! ― Outro tiro. Meu parceiro se contorcia de dor no chão e eu não poderia mais permitir aquilo. ― Você sabe que existem muitos lugares para atirar antes que ele morra, não sabe? ― Que se dane Ra’s Al Ghul, eu salvaria Oliver! Eu também havia feito uma promessa.
― Nem pense em dizer nada, garota! ― Nyssa pareceu ler meus pensamentos. ― Al Sah-Him é forte, ele aguenta!
― Então seu parceiro é o lendário Al Sah-Him, herdeiro do demônio? ― Chase pareceu impressionado. ― Ai, como eu vou dizer isso? ― Ele uniu as duas mãos como se fosse explicar algo para uma sala de aula. ― Você tem dez segundos antes que exploda a cabeça dele e tenha cérebro por todas as paredes.
― Não precisa matá-lo, eu falo. ― Suspirei derrotada. Tortura física realmente não funcionava em mim, mas eu o deixaria morrer ali, ele era minha fraqueza. Oliver me odiaria por entregar a Liga, mas eu não o perderia.
― O tempo está correndo, lindinha. ― Estalou os dedos. ― Sete, seis...
― Felicity, não! Ele vai nos matar de todo jeito!
― Calada! Quatro, três...
― Ele não vai ter coragem, não fale nada!
― Dois, um. Acabou minha paciência.
― Não! ― Fechei os olhos e o barulho pareceu estrondar mais alto que os outros. Sangue escorreu em grande volume até tocar meus pés descalços e o corpo que antes se debatia, agora estava imóvel.
Eu poderia até responsabilizar Nyssa ou Adrian Chase, mas eu sabia que minha hesitação o havia matado. Oliver estava morto e a culpa era minha.
~
#Uma semana antes
― Desculpa, gente! ― Saí com as mãos ao alto do quarto errado, mas ao chegar no corredor, não pude evitar gargalhar da situação e Oliver me acompanhou nas risadas.
― Você está bêbada! ― ele acusou.
― Você também, gatinho! ― Movimentei o indicador na frente de seu nariz. ― Gato não, gambá, não que você esteja fedendo nem nada. Ei, porque as pessoas dizem “bêbado igual gambá”, você já viu um gambá bêbado? Aliás, você já viu algum animal bêbado?
― Eu não, você já viu? ― me respondeu.
― Eu não, você já viu? ― retruquei, minha cabeça meio zonza.
― Eu não e você?
― Ok, isso ficou chato. ― Sara saiu de seu lugar encostada na parede oposta e tomou o cartão de acesso das mãos de Oliver e abriu uma porta. ― Quarto 11900, esse é o de vocês. Vão dormir que amanhã a gente volta ao interessante tópico dos animais bêbados. Cara, odeio ficar de babá!
― Você se ofereceu ― Nyssa rebateu, já de dentro do próprio quarto, que ficava na frente do nosso.
― Da próxima, os dois ficam sóbrios e eu e Nyssa vamos aproveitar. ― Abri meu sorriso malicioso quando minha amiga ia entrando no quarto.
― Oliver, Oliver, vou te contar um segredo! ― cochichei, o puxando pelo braço para perto de mim. ― Elas... ― Apontei para as duas. ― Casal! ― Uni as duas mãos em formato de um coração.
― Sexo? ― Oliver cochichou de volta.
― A noite toda! ― Fiz um gesto amplo com os braços. Nyssa bufou e entrou completamente no quarto, enquanto Sara apenas ria.
― Para referências posteriores, vocês não sabem falar baixo enquanto estão bêbados. ― Piscou para nós. ― Boa noite.
Sentei na ponta da cama enquanto Oliver falhava em pendurar os nossos casacos no suporte, já dentro de nosso quarto. Não era a primeira vez que eu o via bêbado, mas era a primeira vez que ambos estávamos trocando as pernas ao mesmo tempo. No geral, sempre cuidávamos um do outro, revezando quem seria o "responsável" da noite, mas hoje com a companhia de Sara e Nyssa, tínhamos extravasado pós missão bem-sucedida. Talvez até exagerado um pouco.
― Essas sandálias sempre foram tão difíceis de tirar? ― Franzi o cenho para meus pés quando não consegui ficar descalça depois da terceira tentativa.
― Eu ajudo ― ele se ofereceu, se agachando à minha frente e desamarrando os nós ainda com certa dificuldade.
Fato, nunca mais a gente deveria beber daquele jeito!
Arregalei meus olhos quando suas mãos começaram a subir por minhas pernas nuas por causa do vestido, seu olhar procurando o meu, um brilho que conhecia bem, mesmo que não o visse há alguns anos.
― Eu sei no que você tá pensando... ― cantarolei.
― No que eu estou pensando? ― Oliver retrucou com a voz inocente, então suas mãos se posicionaram na parte de trás das minhas coxas, me deitando na cama em um movimento rápido e ficando sobre mim.
― Em como precisa urgente de um banho frio? ― sugeri com um sorriso.
― O chuveiro pode ser sim uma opção. ― Suas palavras sussurradas fizeram cócegas em meu pescoço e sua mão já subia da minha coxa até o quadril levando o vestido consigo. ― O que você quiser, Felicity.
Os lábios dele envolveram os meus e logo sua língua brincava com minha, o gosto das bebidas misturando-se com um sabor tão particular dele que não dava pra esquecer.
No fundo da minha mente nublada uma voz me mandava parar, tínhamos algum tipo de acordo sobre isso, mas na superfície, eu estava mesmo era afrouxando a gravata dele e abrindo os botões da sua camisa social, distribuindo beijos em seu pescoço e manchando todo colarinho com meu batom. Foi quando a pressa levou minhas mãos ao seu cinto, que ele praticamente saltou de cima de mim, se jogando de costas no espaço vazio ao meu lado no colchão, parando a coisa toda.
― A gente não deveria...
― É, eu sei. ― Levei a mão ao peito, tentando controlar minha respiração ofegante, ambos olhando para nenhum lugar em particular no teto.
― Minha cabeça tá rodando, a gente não devia ter bebido tanto.
― Nisso concordamos, parceiro. ― Dei dois tapinhas em seu braço, levando a mão à testa em seguida. ― Eu só queria uma aspirina.
― Eu preciso te contar uma coisa enquanto estou com vontade. ― Oliver se ergueu apoiado em seu cotovelo para me olhar.
― Com vontade ou com coragem?
― Ambas ― assumiu. ― Já estamos juntos em campo há mais de dois anos, e não passou. ― Estreitei os olhos para ele.
― Tem como ser mais vago, Oliver? ― ironizei, mas ele me olhou emburrado como se eu tivesse o ofendendo, então resolvi entrar na conversa de bêbado. Não é como se eu fosse lembrar em algumas horas. ― Tá bom, me diz. O que não passou?
― Eu ainda me preocupo muito com você, Felicity. Não consigo desligar essa parte, como consegue?
― Eu não consigo, também me preocupo com você. ― Acarinhei sua barba por fazer. ― Somos parceiros de campo, estranho seria se fôssemos indiferentes um ao outro.
― Eu deveria ser. ― Oliver sentou-se na cama e eu fiz o mesmo. ― Não posso perder você também. ― Seus olhos estavam vermelhos e marejados. Quando passamos de uns amassos entre missões para confissões da madrugada?
― Está pensando em Laurel?
― Laurel, Tommy... Se fossem só eles...
― O que você não está me dizendo? ― Envolvi suas mãos com as minhas. ― Pode confiar em mim? ― A intenção foi falar a última frase como uma afirmação, algo que passasse segurança para ele, mas acabou saindo mais como um pedido.
― Eu perdi toda a minha família, Felicity. Meus pais e minha irmã, que teria a sua idade. ― Segurei a respiração. ― Todos os Queen morreram no que pareceu ser um acidente de avião, mas não foi. Um magnata de Metropolis e concorrente do meu pai causou a queda.
― Meu Deus, Oliver! ― exclamei. ― Você veio parar na Liga por causa disso?
― Ra's estava por perto, viu potencial em mim e me recrutou.
― E o que aconteceu com o cara? O tal concorrente?
― Até onde sei, Lionel Luthor ainda cumpre perpétua numa prisão de segurança máxima. Eu nem pude... Não posso... ― Oliver deixou a frase suspensa, mas eu sabia do que ele falava. Meu parceiro queria vingança ao estilo da Liga dos Assassinos. ― Ele não sabe como teve ser sorte em ser condenado.
― Eu sinto muito, Oliver. Meu pai nos deixou e eu perdi minha mãe, mas ela estava doente. Eu nem consigo começar a imaginar o que é ter alguém tirado assim de mim ― falei sincera. ― No que depender de mim, você não passará por isso de novo, eu prometo.
― Com a vida que levamos, você não pode prometer isso, Felicity. ― Ele fez carinho em meu rosto. A frase dele me atingiu em cheio, meu coração apertando ao ponto de doer. Eu não poderia prometer, e nem ele! Qualquer um de nós poderia não voltar de uma missão.
― Tem razão, eu não posso ― concordei. ― Mas a gente pode fazer outra promessa aqui, nós dois. Nunca vamos deixar de proteger um ao outro, lutar pelo outro. Eu não consigo imaginar um guarda costas melhor que você Al Sah-Him, herdeiro do demônio. ― Engrossei minha voz para falar seu nome e ele sorriu, apenas um pequeno sorriso que conseguiu iluminar aquelas trevas em que estávamos enfiados até o pescoço.
― Eu prometo não te deixar morrer, Felicity.
― E eu prometo não te deixar morrer, Oliver. ― Apertamos as mãos fechando nosso acordo. ― Agora precisamos dormir, foi um dia intenso. ― Voltei a me deitar, me esticando na cama como um gato preguiçoso. ― Ei, onde você vai? ― questionei quando ele levantou da cama.
― Só dar uma volta, limpar minha cabeça. Toda essa história mais a ressaca que está chegando...
― Tá bem, mas tome cuidado.
― Você também. Descanse, eu não demoro. ― Oliver deu um pequeno passo de volta em minha direção, mas pareceu desistir do que ia fazer, então apenas deu meia volta e me deixou sozinha no quarto. Abracei os travesseiros e logo estava dormindo.
Eu não sabia exatamente que horas da madrugada eram quando acordei no susto. Eu deveria ter levantando e tomado um bom banho depois que ele saiu, mas acabei adormecendo do jeito que estava ainda o tubinho preto de lantejoulas negras que usava mais cedo.
Um vulto se destacou da escuridão quando cruzou a janela semiaberta, e o mesmo instante peguei um dos lençóis e torci em minhas mãos, pronto para ser usado como arma, quando o ser misterioso acendeu a luz.
― Nyssa, não sabe bater?! ― Baixei a guarda quando soube quem era minha companhia. ― Eu poderia ter te matado.
― Não poderia não. ― A morena riu das minhas certezas. ― Onde está o seu colega de quarto? ― Olhei ao redor procurando por Oliver, que ainda não tinha voltado.
Estranho.
― Onde está a sua?
― Sara foi comprar comida, me obrigou a vir aqui chamar vocês. Disse que vocês estariam acordados.
― Que horas são? ― Passei as mãos nos olhos, tentando focar no relógio em cima do criado mudo. ― Deus, são quase quatro da manhã! O que Sara pretende conseguir às quatro da manhã na Tailândia?!
― Ela disse comida tailandesa, mas acho que aqui só chamam de comida. Enfim, eu só vim dar o recado. ― Nyssa deu de ombros. ― Não precisam nem aparecer se não... ― Ela parou de repente, passou a mão no pescoço, então desmaiou.
― Mas que diab... ― Foi quando senti a picada em meu braço. Ainda tive tempo de ver o dardo tranquilizante antes de tudo voltar a ficar escuro.
~
Meus pulmões queimavam com a água e eu tossia tentando em vão expelir todo o excesso. Chase tirou a toalha que estava em cima do meu rosto e sorriu maléfico depois de derramar tantos litros de água na minha cara que eu já havia perdido a conta. Um afogamento no seco.
― Refrescante. ― Sorri.
Já faziam três dias que estávamos sob o poder de Adrian Chase. Quando acordamos, tinha esse homem perigosamente bonito que só queria saber informações sobre a Liga dos Assassinos. Onde ficava e como poderia ser destruída. Obviamente eu e Nyssa não entregaríamos nada, então as sessões de tortura começaram e seguiam quase incessantes por todo esse tempo.
― Vocês são duronas, entendi. Vamos ver quanto mais tempo aguentam.
Quando ele saiu, vomitei quase toda a água que acabei ingerindo, já que comida mesmo eu não via desde antes de começarmos a missão. Quando eu não tinha mais nada para pôr para fora, respirei fundo, tentando voltar ao foco, que era fugir dali.
― Nyssa, me ajuda a alcançar aquela porta. ― Não houve resposta, até pensei que ela havia desmaiado. Chase estava pegando mais pesado com ela hoje do que comigo. ― Nyssa?!
― O que você quer, Felicity? ― respondeu de mau humor.
― Cortar essas cordas com atrito no ferro da porta. Se a gente se soltar, damos conta dele fácil. Quando Oliver chegar, já teremos escapado ou pelo menos adiantado algo. ― Eu até tentei sair pulando com a cadeira, mas a maldita estava firmemente presa ao chão. ― Merda, assim não vai. Temos que achar outro jeito.
― É irritante o quanto você se parece com ela. Agora entendo o deslumbramento de Al Sah-Him, Talia e até meu pai.
― O quê? ― Eu ainda tentava me arrastar enquanto falava com ela. ― Do que você está falando?
― Da minha irmã, é claro.
― Ah.
O assunto Laurel tinha sido enterrado de volta após o fim da conversa que tive com Oliver antes de começarmos a parceria e nunca tinha conseguido voltar à superfície, até hoje. E voltou logo pela boca de Nyssa com algo bem parecido com o que o pai dela havia dito uma vez.
― Por que as pessoas falam isso?
― Vocês duas são teimosas demais, boas de briga e tem esse apelo ao sexo masculino. Eles caem como moscas diante de vocês.
― Eles não caem como... ― tentei refutar.
― Temos sorte que Tommy Merlyn não está mais conosco, ou teríamos outra guerra em Nanda Parbat entre ele e seu parceiro.
― Oliver nunca me fala sobre Tommy.
― Interessada?
― Curiosa, na verdade.
― Bobo demais para meu gosto, mas Laurel gostava da companhia dele, você também teria. A maioria das garotas caía por ele, e ele vivia de quebrar as regras de meu pai para se aproveitar disso, mas era bem claro para todo mundo que ele só amava uma. A única que não estava interessada nele desse jeito.
― Mas com Oliver era diferente.
― Ela o amava, mesmo contra meus conselhos. Eles se amavam desde a adolescência, e não dá para parar um amor desses.
― Que romântica, Nyssa ― ironizei, não sabendo bem o porquê de ter me sentido um pouco incomodada. ― Mas sem querer ofender, sua irmã era meio vadia. Ela enrolou os dois por anos, sem escolher de fato, fez Oliver mentir para o amigo por ela e até sua morte foi a causa que os separou para sempre.
― Isso deve ser o que parece de fora, mas não era assim.
― E como era?
― O problema de Tommy e Oliver era que ambos queriam tê-la. Uma coisa com as irmãs Al Ghul é que não nascemos para ser propriedade de ninguém, assim como imagino que você abomina essa ideia. E tudo bem, ela escondeu o relacionamento deles de quase todos, mas é que ela amava Tommy e não queria perdê-lo ao escolher Oliver. Se você nunca foi colocada nessa posição, não deveria julgar minha irmã.
― Você realmente a amava.
― Laurel era minha melhor amiga, a pessoa mais inteligente e compassiva que eu conheci, e não há um dia que eu não sinta falta dela. ― Entre as confissões de Oliver e Nyssa sobre suas famílias, eu estava tendo muitas doses de sentimentos e segredos revelados naquela viagem.
― Me desculpe se falei algo que ofendesse a memória dela ― pedi, percebendo que poderia ter sido meio rude. ― Eu teria gostado de conhecê-la em outra situação. E Tommy também.
― Vocês seriam o quarteto amoroso mais bizarro da história.
― Engraçadinha. ― Também dei um pequeno sorriso. ― Por que não descansa um pouco, aquelas doses de veneno na sua corrente sanguínea foram bem pesados, o que até justifica um pouco você estar falando demais. Eu vou continuar procurando um jeito da gente sair dessa.
~
― Para de chorar! ― Nyssa me censurou. ― Aquele louco vai voltar logo e vai ser tudo dez vezes pior. Esse Chase vai nos matar, Felicity! ― Dessa vez ela gritou, mas eu não me importava nem um pouco.
― Já estamos mortas. ― Minha voz saiu baixa e meu olhar ainda estava fixo no corpo aos meus pés. ― Como ele.
― Não era você que estava com todo o otimismo do lugar? Precisamos dele agora e do que pudermos fazer para sair daqui antes que...
― Não dá. ― Neguei com a cabeça. ― Ele está morto, Oliver está morto.
Minha mente estava em branco e eu não pensava em nada além de como eu deveria ter impedido, eu poderia ter impedido. Cada segundo que passava a ciência de que eu não mais o veria, não teria mais suas críticas e muito menos seus raros sorrisos. De algum modo eu lembrava do que ele me falou na última noite. Agora eu entendia o que era ter alguém tirado dessa maneira de mim.
― Droga, vamos morrer. Meu pai vai começar a maior batalha de todos os tempos contra esse cara que matou a filha e o herdeiro dele e nem irei participar. ― Sério, era nisso que ela estava pensando agora? ― Pelo menos Sara conseguiu escapar.
Um barulho se destacou no silêncio que geralmente tínhamos do lado de fora. Então seguiu-se gritos de alerta, até um baque de corpo contra a porta. Como eu estava de frente para a saída, fui a primeira a ver Sara e seu sorriso aliviado ao nos ver.
― Vocês estão vivas! ― Ela pegou um punhal da cintura e cortou as cordas que me prendiam nos braços e pernas. ― Quase achei que seria tarde demais. ― Ela deu a volta em minha cadeira para soltar Nyssa. Mas a má noticia era que já era tarde demais.
― O que faz aqui, sua maluca?! ― A morena esbravejou.
― Também é bom te ver, amor. ― Ouvi o som de um beijo, mas mesmo sem amarras eu não conseguia me mover do lugar. ― Temos que nos apressar, só temos poucos minutos para sair daqui, logo esse lugar vai estar cheios de reforços. Felicity! ― Sara me chamou quando viu que eu não havia movido um músculo e não as seguia para fora.
― Acho que ela está em choque. Não se move e está chorando há horas.
― Felicity, você precisa levantar daí e me seguir. ― Sara falou com calma se abaixando para alinhar o olhar com o meu. ― Precisamos sair, isso lá é hora pra ter crise, mulher?
― Ela está assim desde que mataram Al Sah-Him.
― Quê? Como assim mataram Al Sah-Him? Ele não está morto.
― Como você pode ter certeza? ― Eu apenas ouvia a conversa delas à distância, como se não tivesse acontecendo bem na minha frente.
― Porque ele está lá fora quebrando tudo. ― Apontou com os polegares para fora, mas aquelas palavras estavam tão longe da realidade que era mais provável que Sara estivesse louca. ― Espera aí, tive uma ideia. Vem, Nyssa, você consegue caminhar?
― Vamos deixá-la?
― Não, mas é bonitinho ver você se importando. ― Sara fez um carinho no rosto da namorada. ― Não sai daí, Felicity.
As duas sumiram pela porta e eu apenas voltei a baixar meu rosto em direção ao corpo encapuzado de Oliver. Eu nem ao menos pude ver seu rosto pela última vez.
― Vamos, tira ela daqui antes que eles voltem. ― Dois homens que pareciam ser capangas de Chase surgiram na porta. ― Talvez o chefe não nos mate por perder apenas uma.
Nesse momento, só vi um deles ser puxado para trás e as botas que chutaram o peito dele, então o segundo praticamente voou por cima do mascarado, flechas atravessando os dois.
― Felicity! ― Meu salvador tirou a máscara e baixou o capuz, revelando rosto de Oliver. Só poderia ser um sonho, ou melhor, um delírio. ― Precisamos sair agora.
― Você não é real, eu vi você morrer. ― Nosso olhar foi direto para o corpo no chão. ― Você não é real, não é real.
― Ei, olha pra mim. ― Ele largou o arco no chão e se agachou à minha frente, segurando meu rosto para o olhar. ― Essas são minhas roupas, mas não sou eu.
― Oliver? ― Levei uma mão ao seu rosto, meus olhos enchendo-se de lágrimas. Eu nem acreditava que era ele mesmo ali na minha frente.
― Sim, esse sou eu. ― Ele cobriu minha mão com a sua. ― Eu sei que você passou por dias horríveis, mas agora preciso que foque aqui, ok? Consegue caminhar? ― Acenei afirmativamente com a cabeça. Ele não está morto, você consegue, Felicity! ― Espera, o que houve com seu braço?
― Um martelo. ― Apenas dar de ombros me fez gemer.
Oliver contraiu os lábios em um linha fina, então ficou em pé de repente, caminhando pela sala, apertando as pálpebras. Para nossa sorte, eu parecia estar acordando do meu surto, já que agora era ele que parecia prestes a explodir.
― Oliver, precisamos...
― Ok, eu... ― Ele parou de andar, parecendo lutar para também recuperar o foco. ― Precisamos dar um jeito no seu braço, ou pode piorar. ― Oliver tirou o terno do defunto e veio na minha direção. ― Isso vai doer mais do que quando quebrou, mas preciso fazer. Morde isso.
“Excruciante” não chegava nem perto de descrever a dor quando ele ajustou os ossos no lugar em um movimento rápido, lágrimas involuntárias escorrendo os meus olhos, então amarrou o terno que eu mordia em meu braço, imobilizando e fazendo uma espécie de tipoia improvisada.
― Vamos sair daqui. ― Oliver segurou minha mão livre e me ajudou a levantar. ― Tem certeza que pode andar?
― Só vamos sair desse inferno logo.
― Fica atrás de mim. ― Ele recolou o capuz e a máscara e pegou o arco do chão.
― Coitado de você se acha que sou mulher de ficar atrás de alguém. Me dá uma arma. ― Ele apenas me olhou com aquela cara de que não estava acreditando no que ouvia. ― Agora, Oliver!
― Você não tem condições, Felicity, deixa de teimosia! Eu não vou...
― Acho que agora você não tem muita escolha ― comentei casualmente, mas na verdade eu estava muito preocupada ao ver uma dezena de pessoas vindo em nossa direção. Parece que os tais reforços haviam chegado.
― Só toma cuidado. ― Ele me passou meia dúzia de pequenos punhais.
Eu já conhecia bem o estilo de luta de Oliver quase como o meu próprio e sabia bem o que viria a seguir. Ele atirava duas flechas por vez, derrubando os capagangas a distância, ao memso tempo que corria para entrar em uma luta corporal com os que estavam mais próximos. Eu escolhia aqueles que não estavam no campo de visão de Oliver para arremessar uma lâmina certeira, já que não aguentaria uma luta agora, e não demorou mais que alguns poucos minutos e já seguíamos adiante.
Ao sair daquele primeiro local, foi que vi que o lugar onde eu estava sendo mantida era um complexo enorme no meio do nada, o que também explica a demora de Oliver e Sara em nos ecnontrarem. Mas isso não importava agora, pois mais pessoas chegariam em breve, e o próprio Chase também.
― Você não parece bem.
― Obrigada pelo elogio, você é muito gentil. ― Minha respiração estava ruidosa enquanto eu recuperava minhas facas nos cadáveres. ― Suas flechas estão no fim, devia pegar algumas de volta também.
― Estamos perto da saída onde deixei minha moto, Sara e Nyssa deveriam nos esperar lá. Vamos embora logo. ― Me peguei sob seu olhar atento quando eu não segui adiante, mas ficava olhando para todos os lados procurando algo que nem eu sabia dizer. ― Teremos outras oportunidades de pegar aquele filho da mãe, Felicity, me deixa te tirar daqui em segurança? ― Era até meio constrangedor como ele me conhecia ao ponto de saber, até mesmo antes de mim, o porquê da minha hesitação. ― Eu te ajudo. ― Oliver passou o braço pelos meus ombros, pois apesar de tentar manter a pôse, eu estava quase desmaiando.
― Finalmente, vocês estão aí ― Nyssa falou estranhamente aliviada, encostada na moto, quase tão ruim quanto eu.
Sara estava quase subindo em sua moto para irmos embora quando eu o vi, saindo de uma parte escura atrás delas, Adrian Chase, com uma arma em cada mão apontadas diretamente para as duas.
― Abaixa! ― Elas se inclinaram por instinto, sem saber ao menos sobre o que eu gritava, foi quando usei minha mão livre para atirar o punhal que atingiu o coração dele em cheio.
― Mas o que... ― Sara olhava de nós para o corpo sem vida caído perto de seus pés. ― Você nos salvou, Felicity. ― Ela correu até mim.
― Tudo já estava tão escuro? ― Senti minhas pernas faltarem e só não caí porque Oliver me segurou.
― Whou, te peguei.
― Estou te devendo uma vida, amiga.
― Eu te cobro depois. ― Dei um pequeno sorriso, respirando fundo para não ter uma síncope. ― Vamos voltar pra casa.
~
― Pode entrar. ― Oliver tinha aquela já conhecida expressão de culpa em seu rosto quando adentrou meu quarto. ― Oh, chegou a hora da "conversa", não é?! ― Ele franziu o cenho em estranheza.
― Do que você tá falando?
― Toda vez que temos alguma missão traumatizante fazemos isso. Você vem no meu quarto, pede desculpas por algo que não foi culpa sua, eu choro e daí nossa relação muda de algum modo. Melhora, no geral. ― Um pequeno sorriso formou-se em seu rosto.
― Fazemos isso?
― Todas as vezes.
― Ok então, se é uma tradição... ― Ele sentou na beira do meu colchão. ― Felicity...
― Não, Oliver. Não vai ter choro nem pedidos de desculpas dessa vez. Sei que fez o que pôde e salvou a mim e Nyssa no fim das contas. Vamos deixar tudo aquilo no passado e ir daqui pra frente. ― Ele assentiu a contragosto.
Eu não estava nem de perto pronta para falar sobre tudo que aconteceu enquanto estávamos sobre o poder de Adrian Chase, eu não queria sequer ficar relembrando aquilo. Estar tão vulnerável, tão machucada, e tê-lo perdido, mesmo que só por um par de horas, era doloroso demais.
― Falando em Nyssa Al Ghul... Agora ela te acha fodona, palavras dela.
― Nada como um bom cativeiro para fortalecer uma amizade. ― Ignorei a cara de desgosto dele ao me ver brincar com aquilo. ― Ela também não é como eu pensava, tão diferente de Talia que nem parecem irmãs. Conversamos bastante.
― Nyssa não conversa com ninguém, e conversou com você?! Impressionante.
― Ok, não "conversamos bastante", mas trocamos alguns xingamentos e histórias.
― Que tipo de histórias?!
― Coisa de garotas, Oliver, não seja curioso. ― Coisas que esclareceram bem mais sobre o passado dele com Laurel e Tommy na Liga do que qualquer conversa que tive com o próprio Oliver todos esses anos.
― Como está o seu braço?
― Ruim, mas vai melhorar. ― Fitei minha nova tipoia. ― Em alguns dias estarei novinha em folha. ― Dessa vez a risada dele foi seca e sem graça.
― Ou você está fingindo ou não faz a mínima noção do que acabou de acontecer, Felicity. ― Primeira opção! Me mantive calada. Sabia que não escaparia dessa sem um sermão. ― Eu te trouxe uma coisa. ― Oliver dessa vez parou a lição de moral antes mesmo que começasse. Menos mal.
― O que é isso?! ― Peguei entre os dedos o pequeno frasco com um líquido transparente.
― Um delito terrível. Água do Poço de Lázaro.
― Você roubou?! ― questionei impressionada. Aquela água era limitada a Ra's. O próprio demônio havia de dado uma vez há muitos anos, mas só ele tinha acesso. E Oliver ter quebrado aquela regra por mim era quase espantoso. Bebi tudo de uma vez, e já senti uma melhora instantânea, como lembrava de ter acontecido da outra vez. Águas realmente mágicas.
― Felicity, você estar lá foi minha culpa, se eu tivesse ficado no hotel com você, ou voltado mais cedo, sei lá... ― E lá vamos nós...
― Você também poderia ter sido pego ― argumentei.
― Eu tive que sair daquele quarto, ou íamos acabar fazendo alguma idiotice.
― Como dormir juntos?! ― Essa conversa de novo não.
― Como te confessar mais do que fiz naquela noite. ― Ele fez uma pausa. ― Você se lembra?
― Sim ― assumi, torcendo meus próprios dedos. ― Eu sinto muito por sua família, Oliver Queen ― falei seu sobrenome a primeira vez, e isso pareceu ter sido uma pancada na dor dele. Se eu soubesse, não teria feito.
― Só Ra's sabe sobre essa história aqui na Liga, e agora você. Apesar de não ser algo fácil, foi bom compartilhar com outra pessoa.
― Fico feliz que tenha sido eu.
― Eu também. ― Ficamos em silêncio por algum tempo, até quando ele limpou a garganta com um pigarro e levantou. ― Vou te deixar descansar.
― Me perdoa ― pedi quando ele já estava com a mão na maçaneta.
― Por quê?!
― Naquela noite, naquele hotel, fizemos uma promessa. Eu quebrei ela, Oliver.
― Como assim?! ― O loiro voltou a sentar-se na cama, dessa vez bem pertinho de mim.
― Nós prometemos que íamos lutar pela vida um do outro. Eu prometi que não te deixaria morrer.
― Estamos bem, Felicity, isso que importa. ― Sua mão fez carinho em meu rosto.
― Ele matou você na minha frente, Oliver. Chase matou você porque eu não entreguei Ra's, e... Eu deveria ter...
― Ei, você não fez nada de errado! Seguiu seu treinamento, e...
― Que se dane esse treinamento! Eu aguentaria muito tempo toda a tortura, mas quando te vi morrer na minha frente, eu não pude... Me perdoa, Oliver.
― Vem aqui. ― Ele me abraçou forte. Seus abraços eram tão bons, mas tão raros, eu só os recebia em momentos assim e isso era bem triste, se formos parar para pensar sobre. ― Não há nada que eu precise te perdoar aqui, ok?! ― Seus lábios estavam em meus cabelos e uma mão descia e subia por minhas costas, me trazendo conforto.
― Eu sei que você vai dizer sempre isso, mas não vai mais acontecer. Nenhuma norma da Liga vai ficar entre mim e sua vida de novo, Oliver. Eu não vou hesitar em entregar quem quer que seja ou até mesmo arriscar tudo para salvar a vida.
― Com sorte não precisaremos mais passar por isso de novo, Felicity. ― Ele não estava concordando comigo, mas era o máximo que eu conseguiria agora. Ele me soltou de seu abraço, se afastando só um pouco, mas ainda manteve as mãos em meus ombros. ― Acho melhor você dormir um pouco. Com isso que tomou, amanhã vai acordar uma nova mulher.
― Obrigada.
― E só pra deixar claro, eu me segurei bem e todo o choro e desculpas dessa vez foram por sua conta. ― Senti seus dedos em minhas bochechas, enxugando as lágrimas que eu não notei que caiam, seus carinhos e pequenas tentativas de fazer graça renovando minhas forças mais que a água do poço fizera. ― Boa noite, Felicity.
― Até amanhã, Oliver.
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