Havia uma semana desde que os Aliados invadiram a cidade de Roma em uma operação para libertá-la do controle dos nazistas. E eu acompanhei tudo. Fui enfermeira durante a Campanha da Itália na Segunda Guerra Mundial ao lado do exército americano. Foram os meses mais difíceis da minha vida, diariamente vendo pessoas agonizando com balas alojadas no corpo, perdendo membros para as bombas inimigas e morrendo. Nós fazíamos o possível para manter os soldados vivos, para que pudessem voltar para suas casas e famílias. Mas nem sempre era possível.

Foram batalhas difíceis e cheguei a pensar que perderíamos, mas no dia 4 de junho de 1944 as tropas alemãs se renderam e Roma estava livre. Apesar disso, parte da Itália continuava sobre o domínio de Hitler e mais esforços seriam necessário para combater o inimigo. Mas meus serviços já não eram necessários. Um novo batalhão chegou no dia seguinte e os soldados feridos que estavam sob meus cuidados no hospital improvisado que montamos foram transferidos para um hospital de verdade no centro da cidade. Finalmente, era minha hora de voltar para casa.

Acordei bem cedo no dia da minha partida, as malas já estavam feitas desde o dia anterior, me vesti rapidamente e desci as escadas do casarão que estávamos alojados. Tudo que eu mais queria era me ver livre da guerra e das minhas piores lembranças. Comi um pouco do café que foi servido aos soldados – cortesia dos habitantes locais – e fui direto para a estação de trem. Não sabia o que dizer aos que estavam na mesa, porque com tudo que sofremos já não conseguíamos trocar muitas palavras e nossos diálogos se resumiam a comandos durante as batalhas. Então tudo que saiu da minha boca foi um “adeus”.

Mas se dentro do alojamento o clima era fúnebre, nas ruas era o completo oposto. As crianças corriam pelas ruas cantarolando as canções do exército italiano, velhos amigos conversavam após meses tendo que se esconderem dos bombardeamentos, as bandeiras fascistas aos poucos eram retiradas e queimadas, para apagar de vez o passado sombrio que aquele povo enfrentara.

Cheguei na estação por volta das 12 horas, se tudo desse certo eu estaria no porto de Nápoles antes das 15 horas para embarcar em um navio direto para Boston e de lá seguiria para Nova Iorque. Apresentei meu cartão de identificação para um dos soldados que faziam a escolta do prédio e recebi uma passagem de ida no trem das 12:30. Sentei em um banco e esperei.

Durante esses trinta minutos eu observei o movimento dos passageiros, a maioria famílias que se reencontravam após serem separados pela guerra, outros era jovens igual a mim, que embarcavam no trem rumo aos seus países após servirem nos campos de batalha. Um sentimento de alívio invadiu meu corpo ao ver essa cena — eu estava me libertando de todo o terror que passei. Foi nesse momento que outro trem chegou na estação, ainda não era o meu – olhei no relógio, eram 12:20 – a porta se abriu e do vagão principal desceram dois soldados que guiavam um prisioneiro. Alto e claro, cabelos loiros e olhos azuis que não demonstravam nenhum sentimento. Nos braços, a suástica nazista. Era um prisioneiro de guerra, provavelmente capturado da Sicília – pensei. Pararam ao meu lado e tornei a olhar para frente.

— O que você acha? – perguntou um dos soldados ao outro

Senti que ele se referia a mim, mas continuei calada. O outro riu e disse algo que eu me recuso a falar, mas agora eu tinha certeza que falavam de mim.

— Está indo pra onde, doçura? – um deles perguntou para mim enquanto depositada a mão sobre meu ombro.

Me afastei tirando a mão dele de mim.

— Para casa. – Respondi diretamente.

Novamente uma risada.

— Mas ainda está cedo... Se você nos esperar terminar de cuidar desse aqui – bateu no prisioneiro com o cassetete – a gente pode ir pra algum hotel da cidade. – E voltou a colocar a mão no meu ombro.

Me afastei de novo.

— Não percebeu que não quero nada com você? – levantei o tom de voz.

— Quem você pensa que é pra falar assim comigo? – me respondeu com agressividade.

Levantou a mão para me dar um tapa, mas algo o impediu. O prisioneiro, que fora deixado de lado por um momento, acertou suas costelas com o cotovelo. Me levantei. Os dois se preparam para bater no prisioneiro, porém o barulho do trem que chegava na estação os fez parar.

Olhei para o relógio, 12:30 — era meu trem.

Subi no vagão, entreguei minha passagem e fui em direção a cabine que estava reservada para mim. Organizei minha bagagem e me sentei, da minha valise retirei um livro que trouxera comigo ainda no início da Campanha. Estava pronta para lê-lo, mas fui surpreendida ao – pela janela – ver que o soldado inimigo, que era escoltado pelos soldados de antes, estava subindo no mesmo trem que eu.

A viagem foi rápida, apesar da situação, e cheguei em Nápoles às 14:40 – meu navio partiria às 15 horas. Desci do trem e fui até um oficial pedir uma informação. Enquanto ele me explicava como eu faria para chegar até o porto, observei o nazista descer do trem acompanhado de outro soldado. Agradeci e fui em direção a porta da estação. Segui as orientações que recebi e atravessei as ruas bombardeadas da cidade portuária. Ouvia passos atrás de mim. Me virei e tive a surpresa de ser o mesmo prisioneiro da estação de Roma. “Será que ele vai para o mesmo navio que eu?” – pensei – “Não é possível, ele não seria transportado em um navio comercial”. Cheguei a tempo no porto e de longe já pude avistar o navio que me aguardava — o S.S. Tipton. O prisioneiro seguiu o caminho oposto ao meu.

Fiquei em frete ao navio -mostrei meus documentos — estava tudo certo. Fui liberada para entrar, mas antes olhei para trás e me preparei para deixar tudo para trás. Já estava subindo as escadas quando ouvi meu nome.

— Catherine Hill!

Olhei para trás e vi dois soldados. “Não acredito...” – pensei. Desci as escadas.

— Sou eu. – Respondi.

— Quem bom que a encontramos a tempo. – disse ofegantemente o mais novo dos soldados.

— O que foi? – perguntei.

— Precisamos de você, a senhorita foi convocada pelo Médico-soldado do 34º batalhão da Marinha.

— A senhorita precisa vir conosco, são ordens do doutor Smith. – respondeu.

— O doutor Smith? Ele está aqui? – perguntei surpresa.

Havia sido aluna do doutor Smith na faculdade de enfermagem. Soube que ele havia ido para a guerra, mas não imaginava que fosse para a Campanha da Itália.

— Ele está em um submarino aqui no porto, temos um soldado ferido e precisamos de ajuda urgente. – respondeu o mais velho.

— Tudo bem. – Respondi enquanto pegava minhas malas – Mas precisamos ser rápidos porque meu navio sai daqui poucos minutos.

— Não vamos demorar.

Não demoramos mais que dois minutos até chegar ao submarino. Não era dos maiores e certamente não era militar. Estampava na carcaça o nome quase apagado “Karole” – provavelmente foi adaptado para a guerra – pensei.

Entramos no submarino e me esbarrei em alguém.

— Dr. Smith? – perguntei

— Catherine, que bom te ver – me respondeu.

Doutor Smith era clínico geral, tinha seus 42 anos e dava aulas na universidade de Columbia, foi lá que o conheci. Havia me pedido ajuda em seu estudo sobre venenos, e eu não podia negar uma oportunidade como essa.

— Não sabia que estava na Itália. – Murmurei.

— Sim, mas isso não é o importante, venha comigo. – disse enquanto me guiava até a enfermaria do submarino.

Adentrei o ambiente. Havia uma mesa com alguns papéis e chaves – olhei para o outro lado e vi uma grade improvisada – e lá dentro estava um rosto familiar, era o prisioneiro que levavam. “Então foi para aqui que o levaram” – pensei. Ao lado da mesa havia uma maca com um homem ferido sobre ela.

— É um soldado que foi ferido. – Começou a explicar – Todos os hospitais da cidade estão lotados e os postos militares já foram desmontados, pra piorar tudo não temos mais medicamentos. Então lembrei de que li seu nome na lista de esforços para a Campanha há alguns meses, pedi pra te rastrearem e descobrimos que você pegaria um navio justamente aqui. Mas indo ao que interessa: você tem algum medicamento com você? – perguntou olhando em meus olhos.

— Na verdade eu tenho sim, está na minha valise. – Respondi enquanto a abria – Eu trouxe comigo do que sobrou do campo de batalha. – Retirei os frascos – Algumas injeções de morfina, esses fracos de aspirina, penicilina...

— Ah, que alívio. – Suspirou – Vamos, me ajude aqui.

O soldado tinha um ferimento na perna, aparentava estar infeccionando e sentia muita dor. Aplicamos uma injeção de morfina para cortar a dor e depois uma de penicilina para tratar a infecção. Fiz um curativo no ferimento e olhei para o Dr. Smith.

— Então, é isso. Vou deixar os remédios aqui para você usar.

— Tudo bem, muito obrigado, Catherine. – Agradeceu estendendo a mão.

Sorri e apertei sua mão. Olhei para o relógio –15:03.

— Ah não! – exclamei e corri até minhas malas.

Peguei-as e fui até a entrada do submarino, saí as pressas e olhei para o navio que partia, me deixando para trás.

— Não, não, não! Por favor não! – falava enquanto balançava as malas que segurava nas mãos.

— O que aconteceu? – perguntou Dr. Smith.

— Meu navio, ele partiu sem mim. – disse – E agora o que vou fazer? O próximo só chega daqui uma semana. Não acredito que vou ficar presa aqui por mais tempo.

— Esse submarino vai até os Estados Unidos. – disse se aproximando de mim – e temos espaço sobrando, vamos partir ainda hoje. Se quiser podemos te levar.

— É sério? – disse com esperança – É claro que aceito, muito obrigada.

— Era o mínimo que eu poderia fazer. – respondeu – Então vamos? – disse apontando para o submarino.

— Claro. – Peguei minhas malas.