Fui levada por Dr. Smith até a sala do Capitão do submarino. No caminho pude observar o ambiente – era a primeira vez que tinha entrado em um submarino. Estávamos no andar mais alto, o corredor era estreito e levava até a enfermaria, a cozinha, o refeitório, a sala de comando e os aposentos.

Paramos em frente a uma porta oval — “Sala de Comando” disse Smith antes de abri-la. Entramos e encontramos dois homens com os uniformes brancos da Marinha americana, um deles mexia em algumas válvulas e botões, enquanto o outro foleava um livro grosso – provavelmente o manual.

— Capitão Craig? – Dr. Smith disse se colocando na minha frente.

Os dois pararam de fazer o que estavam fazendo e olharam para ele.

— Dr. Smith? – respondeu o que antes mexia nas válvulas.

Deduzi que se tratava do Capitão do submarino. Era um homem mais jovem que o doutor, devia ter 37 anos. Era alto, forte, cabelos pretos assim como os olhos, parecia saber o que estava fazendo.

— E quem é a senhorita? – perguntou apontando para mim.

— Catherine Hill, senhor. – Respondi dando um passo adiante – acabo de terminar meus serviços na Campanha da Itália. Sou enfermeira.

— Ela estava voltando para os Estados Unidos em um navio, mas foi impedida para atender um pedido meu. Ela me ajudou a tratar do soldado Clark. – Smith começou a explicar – Mas devido a isso ela acabou perdendo o navio, e eu ofereci a ela um lugar aqui.

O Capitão pareceu não ter gostado. Olhou seriamente para Dr. Smith.

— Doutor, acha que temos aposentos e comida suficiente para trazer mais uma pessoa? – disse.

— Ela pode ficar na enfermaria. – respondeu – E não pensei que estivéssemos sem comida.

— Pois nós estamos, doutor. – respondeu o Capitão – Sinto muito, mas não podemos aceitar sua amiga.

Era visível que ele não me queria ali, mas eu precisava voltar para casa. E eu não ia me deixar ser vencida tão facilmente.

— Estão sem comida e sem remédios. – Respondi olhando para o Capitão – Felizmente eu trouxe remédios comigo, mas já que não posso ficar terei que leva-los comigo.

O outro homem que até então só observava olhou para mim e soltou uma risada, finalmente dizendo:

— Tenho certeza que podemos economizar nas refeições para a moça ficar, Capitão. – E então sorriu para mim.

— Se é assim – o Capitão começou a falar – então que avise você aos tripulantes que agora cada um só terá direito a uma porção de carne.

— Não será problema algum, Roger. – respondeu.

O Capitão olhou para mim.

— Seja bem-vinda a tripulação, enfermeira Hill. – Sorriu – Ficamos felizes em recebe-la.

Parecia ser um homem difícil, mas acabou cedendo no final.

— Obrigada. – Agradeci.

— Vou te levar para conhecer os demais. – Disse Dr. Smith.

Saímos.

— Acha que ele realmente ficou feliz? – perguntei.

— Pode parecer que não, mas no fundo deve ter ficado. – Smith respondeu.

Chegamos até a enfermaria.

— Então são esses os meus aposentos? – perguntei deixando as malas no canto.

— Sim. – respondeu Dr. Smith enquanto puxava um suporte da parede, revelando ser uma cama – E você pode dormir aqui.

Não era a coisa mais confortável do mundo, admito, mas já dormi em trincheiras e nada podia ser pior do que aquilo.

— Obrigada? – respondi.

— Vamos, que eu preciso te mostrar o refeitório. – disse Smith enquanto saia da enfermaria.

— Tudo bem... – respondi enquanto olhava para o homem preso na cela improvisada.

Mais alguns passos e estávamos na porta do refeitório. Entramos e vi três pessoas. Duas delas estavam sentadas, eram os homens que mais cedo vieram me buscar no navio. E atrás de um balcão estava uma mulher – provavelmente a cozinheira.

— Senhores – Smith começou a falar – a Catherine fará essa viagem conosco.

O mais jovem, que encarava a mesa, levantou a cabeça e disse:

— Que bom, seja bem-vinda. Sou Blake, Joe Blake. – Sorriu.

Joe era magro, seus cabelos e olhos eram castanhos, devia ter a mesma idade que eu. Aparentemente não conversava muito.

— O que aconteceu com seu navio? – perguntou o mais velho.

De cabelos grisalhos, aparentava estar perto dos 70 anos. “Um veterano da Grande Guerra, talvez” pensei.

— Ele partiu sem mim. – Respondi.

— E então resolveu roubar nossos aposentos e nossa comida? – resmungou.

— Não, eu — tentei falar, mas fui interrompida pela mulher atrás do balcão.

— Pare de ser razinza, Charles. – Olhou para mim – Aqui temos lugar e comida para todo mundo, seja bem-vinda. Me chamo Tiffany Morris.

Tiffany devia ser uma mulher de 40 anos. Tinha os cabelos ruivos e bochechas redondas, ela me lembrava minha mãe. “Uma figura que eu me darei bem” pensei.

— Muito obrigada. – Sorri.

— Por que a gente não se senta? – perguntou Smith enquanto puxava duas cadeiras na mesa em que os homens estavam.

— É claro. – Me sentei.

— Então são só vocês aqui? – perguntei.

— Não, quem dera fosse. – respondeu Charles.

Joe bateu os dedos na mesa compulsivamente. Vi isso acontecer com alguns homens durante a guerra. “Será que está traumatizado com alguma coisa?” pensei.

— Você ainda precisa conhecer o comandante e o dono do submarino... – disse Joe.

— Dono? Então realmente não é um submarino militar? – perguntei.

— Não, isso daqui é do Ricky Luther, ele tem uma companhia de metal na Itália e na França. — respondeu Charles – Nós estávamos em outro submarino, no mediterrâneo, mas o afundaram próximo ao litoral e conseguimos nos salvar. Ele ficou sabendo e procurou o Capitão para oferecer esse submarino, mas ele teria que ir junto. Como a frota da Marinha tinha acabado, nós tivemos que aceitar. Mas agora esse maníaco está nos atrapalhando! Já faz um tempo que ele saiu, dizendo que precisava encontrar um amigo.

— Mas ele não tem família? – perguntei.

— Tem sim, meu bem. – respondeu Tiffany que se aproximava a mesa para se sentar. – Ele é divorciado da primeira esposa, com quem teve dois filhos. O rapaz está estudando na América, e a moça vive viajando pela América do Sul. Quando os dois já estavam crescidos ele casou-se novamente, dessa vez com uma secretária dele. Mas na noite da lua de mel ela levantou da cama, pegou todo o dinheiro que ele trouxe na mala e fugiu com o assessor do coitado. E só lhe sobrou eu na vida, por isso ele fez questão de me trazer nessa aventura.

— E o soldado ferido, quem é ele? – continuei meu interrogatório, eu queria saber mais de cada um.

— É o Clark. – respondeu Dr. Smith – ele atuou na Sicília, junto com o comandante Pearson. Você ainda não o conheceu.

— Ele já estava com vocês? – perguntei.

— Não, estamos aqui há poucos dias. Esse maldito ficou sabendo que estávamos atracados no porto e apareceu dizendo que precisa de ajuda para tratar o único soldado que sobrou do batalhão dele. – respondeu Charles – Mas ele deixou o moribundo aqui e desapareceu! Só trouxe mais um pra acabar com nossos mantimentos e se safar da responsabilidade. Eu vou quebrar a cara desse covarde quando eu o ver novamente! – Socou a mesa. – A cara dele e a do Craig. Esse incompetente deixa fazerem o que bem entenderem aqui, e nunca faz nada! Se não consegue agir como um Capitão devia passar a função para alguém mais competente, ou experiente. Droga! – levantou da mesa e saiu.

— Se acostume, ele é assim. – disse Joe – Mas é uma boa pessoa.

— Tudo bem. – Sorri. – E o prisioneiro que vocês levavam?

— O nazista? – falou Joe – Nós recebemos uma ordem do Alto Comando da Marinha para leva-lo até Washington, dizem que ele tem uma informação valiosa. Tentamos perguntar o que era, mas ele não parece falar nossa língua.

— E vocês o prenderam em uma cela... na enfermaria... Eu vou estar segura com ele lá? – receosa, perguntei.

— Bem, no comunicado que recebemos dizia que ele concordou em cooperar, e nós o acorrentamos, então não tem perigo de ele sair de lá... – respondeu Joe, tentando passar confiança, mas ele não era muito bom nisso.

— E quem aquele homem que estava com o Capitão? – perguntei para Smith.

— É John Abbott, o Segundo-Capitão. – Ele respondeu.

— Eu pude perceber que ele chama o Capitão pelo primeiro nome... Os dois são íntimos? – perguntei.

— Até demais – Tiffany respondeu – os dois se conhecem desde a infância. Até onde sei, acabaram casando um com a irmã do outro, mas eles passavam mais tempo juntos do que com as esposas. Entrar para a Marinha foi a última gota para ambas, agora são divorciados.

“Como ela sabe disso? Pensei que tivesse conhecido o capitão há poucos dias.”

— Sério? – perguntei.

— Engraçado, não? – respondeu Tiffany.

De repente, ouvimos gritos vindo de fora do refeitório.

— O que deve ser agora, meu pai? – perguntou Tiffany se levantando.

— Parece uma discussão. – respondeu Dr. Smith.

Todos levantamos e fomos até a fonte dos gritos, a entrada do submarino. Acabamos nos deparando com Charles discutindo com um homem elegante que vestia um terno vinho de veludo. Parecia ter por volta dos 55 anos. Levando em conta a elegância, deduzi que fosse o tal dono do submarino.

— O submarino é meu. Eu trago quem eu bem entender. – disse o homem do terno de veludo, respondendo as ofensas de Charles. – Se não está satisfeito, saia daqui.

— Escuta aqui, seu engomadinho. – respondeu Charles, levantando o punho – Não sei se você percebeu, mas estamos no meio de uma guerra, e não me importa se você é dono disso daqui ou do Atlântico inteiro, quem está defendendo a sua bunda somos nós!

— Se o problema for eu, tudo bem, eu saio. – disse o homem de terno marrom que estava atrás do dono do submarino.

A julgar pelo corte perfeito do terno marrom, pelo cabelo impecavelmente cortado e pelo lenço precisamente dobrado no bolso do paletó, ou era um homem vaidoso, ou era um daqueles perfeccionistas que querem tudo no seu devido lugar.

— Não é só você, são todos que não fazem nada além de atrapalhar e trazer mais gastos! – esbravejou Charles.

— Você está dizendo isso sobre mim? – perguntou um homem forte, de cabelo grisalho que acabara de entrar.

“Deve ser o comandante” pensei.

— É sobre você sim! – respondeu Charles.

— Então da próxima vez seja homem e diga isso na minha cara. – respondeu enquanto encarava o mais velho.

— Já chega! – disse uma voz que vinha do fundo.

Era o Capitão que vinha acompanhado de John.

— Tenham compostura – continuou – não quero discussões aqui. Todos passamos por momentos difíceis e temos outras prioridades. – Olhou para o homem do terno de veludo –Quem é esse que você trouxe, Luther?

— É um velho amigo – respondeu – o inspetor Hans Müller.

— Um alemão? – perguntou John.

— Era o que me faltava. – Resmungou Charles.

— Eu posso explicar. – disse Hans – Sou da Bélgica, fugi quando as tropas alemãs invadiram meu país. Eu trabalhava para a polícia de Bruxelas. Conheci o Luther há alguns anos durante uma viagem que ele fez.

— Entendo, mas sinto muito, não podemos aceita-lo. – respondeu o Capitão – Não temos mais aposentos.

— E quem é essa? – Luther apontou para mim.

— Sou Catherine Hill, enfermeira do exército americano, senhor. – Respondi – Perdi meu navio para a América e fui convidada pelo Dr. Smith.

— Pois bem, se ela pode ir então meu velho amigo também pode. – respondeu Luther – Vamos, Hans, deve haver lugar para você nos meus aposentos.

— Com licença. – disse Hans.

Os dois saíram.

— Já que estamos todos aqui – disse o Capitão – vamos começar a viagem. Joe, acione as turbinas. Charles, cuide do oxigênio. Smith, feche a porta. E Tiffany, prepare o jantar, por favor.

— De novo as turbinas? – indagou Joe.

— Sim, soldado. – respondeu o Capitão. – Por quê?

— Sabe que eu não gosto das turbinas! – disse Joe.

— Está tendo problemas com as minhas ordens, soldado? – o Capitão perguntou.

— Tudo bem, deixe que eu faço. – disse John.

— Não, senhor. – respondeu Joe – Estou indo agora. – E desceu as escadas.

— Vai ser uma longa viagem... – o Capitão disse olhando para mim.

Deu as costas e foi até a cabine junto do homem que o acompanhava. Todos os demais foram aos seus postos, fui para a enfermaria e fechei a porta. Clark, o soldado ferido, ainda estava desacordado, mas parecia estar se recuperando. Chequei seus sinais vitais e o curativo na perna. Abri minha valise e tirei o livro que levara comigo. Foi então que lembrei do prisioneiro. Fui até em frente a cela, me agachei, ele dormia com os pés e as mãos acorrentadas. “Quem iria levar comida para ele? Seria eu?” pensei. Me levantei e fui fazer algumas anotações sobre o estado do paciente e sobre o dia. Algo no momento me disse que seria uma experiência interessante o tempo que passaria naquele lugar.

Senti o submarino tremer e o ar ficar diferente. Estávamos entrando no mar. Senti um pouco de enjoo, mas logo me acostumei, seria assim pelas próximas semanas... Ouvi um barulho atrás de mim e me assustei. Deixei as anotações na mesa e olhei para trás. Era o prisioneiro que havia acordado e estava batendo na grade.

Levantei, fui até ele e me agachei. Ele me mostrava as algemas no pulso, como se pedia para que eu o soltasse.

— Não tenho as chaves. – falei.

Ele continuou a me mostrar os pulsos. “Não fala a minha língua” me lembrei. Tentei gesticular para ele, mas fui interrompida pelo som de um megafone.

— A refeição está servida. – disse Tiffany no alto-falante.

Me levantei e abri a porta da enfermaria. Todas as outras portas também se abriam, e todos saíam. Ou talvez não todos? Alguém faltava...Mas não consegui perceber quem.

Fomos até o refeitório onde Tiffany organizava as bandejas. Fizemos uma fila. Tiffany parecia incomodada, saiu de trás do balcão, correu o olho pela fila e perguntou:

— Onde está Joe?

Todos se olharam, era Joe quem eu sentia falta.

— Ele deve estar nas turbinas ainda, foi pra lá que o Capitão o mandou ir. – disse Charles – Daqui a pouco ele aparece, serve logo essa janta.

— Nós só comemos com todos aqui. – disse Tiffany – Eu vou procura-lo.

Terminou de dizer e saiu do refeitório. Nesse momento, percebi que na minha frente estava o homem que chegou com Ricky. Pensei que seria bom cumprimenta-lo, afinal estávamos na mesma situação, e ele não havia sido bem recebido.

— Me chamo Catherine Hill – disse colocando minha mão sobre seu ombro – prazer em conhece-lo.

Ele se virou.

— Ah, sou Hans Müller. – Me respondeu – Também é um prazer conhece-la.

— Também fui convidada por um amigo. – disse – Espero que não tenha se ofendido com o que disseram mais cedo. – Sorri.

— É muita gentileza sua – respondeu – mas em um momento desses é completamente compreensível que os nervos fiquem a flor da pele. – Sorriu.

— É claro. – Respondi – O que acha de sentarmos na mesma mesa? – perguntei com entusiasmo.

Tentava ser gentil, mas no fundo eu também era um bocado curiosa e intrometida, gostava de observar as pessoas e seus comportamentos por pura diversão. Mas a resposta para essa pergunta eu nunca tive, porque um grito estridente interrompeu a todos. Não demorou mais que um instante para todos correrem para fora do refeitório a fim de descobrir o que acontecia.

Saímos no corredor e olhamos ao redor, não havia movimento algum. Até que me deparei com a porta no fim do corredor aberta, e fui até ela. Os demais me seguiram. Paralisei logo em frente a porta. A cena que vi ficou na minha memória e deu início a uma trama interminável. Desacordada em frente a porta, estava Tiffany. Em pé no fundo da sala e com uma expressão vazia, estava Joe, que segurava uma chave de fenda inglesa suja de sangue. E estirado no chão sobre uma poça de sangue, estava o Capitão, agora morto.