Ascensão dos Semideuses Livres
6 Doce Vingança – ladytyrell
Notas iniciais
Rosalie
Acordei ouvindo vozes fora da caverna, enquanto decidia se eram amigas ou inimigas desprendi a armadura lentamente. Minha garganta estava seca e a cada movimento sentia uma fisgada na lateral do corpo. Tentei ver o ferimento, mas roupa estava grudada em mim com uma camada de sangue seco – Precisava de néctar e água com urgência.
As vozes estavam se aproximando e consegui distingui-las: Helena, Guilherme e uma terceira que não reconheci. Não pude conter o um suspiro de alívio, eram amigos.
– Yorel, verifique se a caverna é segura enquanto me lavo nesse lago. – Helena pediu.
Ouvi uma risadinha, talvez de Guilherme, e pensei que eles dariam um belo casal: a romana rígida e o filho de Hades que raramente aparece. Nai entrou lentamente e eu deitei, fingindo estar desmaiada... Daria mais drama à situação e ajudaria a disfarçar o fato de que eu estava em farrapos. Quando me viu caída ele correu até mim, se ajoelhando ao meu lado e levantando minha cabeça com as mãos.
– Quem está ai? – gemi abrindo os olhos, tentando passar a impressão de que estava morrendo – Nai? O que aconteceu?
– Está tudo bem Rosalie, beba um pouco de néctar.
Ele tirou um cantil do cinto e derramou o conteúdo na minha boca. O líquido – que tinha um gosto semelhante a morango com leite condensado – desceu refrescante e acolhedor, levando energia para cada músculo do meu corpo e aliviando a dor da ferida. Yorel ajudou-me a sentar, ele parecia extremamente preocupado e pronto para fazer qualquer coisa que eu pedisse. Deuses, eu poderia ser atriz.
Levantei-me e andei ate a porta da caverna, me apoiando nele, ouvi a pretora mencionar um banho e era disso que eu precisava no momento. Ao lado da gruta havia um pequeno riacho, que se represava formando um laguinho. Noite passada estava tão fraca que nem notei a presença da água. Helena e Gui estavam apenas de roupas íntimas, mergulhados até a cintura, ela tinha o corpo dos sonhos e ele não estava nem um pouco atrás com seu peitoral bem definido. Eles pareciam tão felizes que decidi não interromper, sentei em uma pedra e comecei a conversar com Nai.
– Então Nai, como vocês escaparam da batalha? – de quem ele era filho? A sim, Éolo.
– Depois que ouvimos seus gritos e todos começaram a correr, o Guilherme simplesmente puxou Helena e abriu caminho até a floresta, então eles começaram a correr e eu os segui até aqui. Foi basicamente isso. Muita gente fez o mesmo, acho que a maioria está indo para Nova Roma.
– E o acampamento? – perguntei temendo a resposta.
– Virou cinzas – ele respondeu com um tom sombrio.
Nesse momento o casal finalmente notou nossa presença, Helena saiu do lago vestindo sua roupa depressa, totalmente vermelha, já Gui ria de uma orelha a outra e fez várias brincadeiras com ela antes de vestir-se também. Eles correram até nos encharcados e Nai jogou uma rajada de vento quente para secá-los.
– Você está bem? – Guilherme perguntou olhando preocupado para o sangue nas minhas costelas.
– Vou ficar, só preciso de um pouco de néctar e um banho, – abri um sorriso. Dessa vez, a última coisa que eu precisava era fazer drama – recomendo que você entre na caverna e fique quietinho, não quero apanhar da sua namorada.
Ele sorriu mais ainda ao ouvir aquela palavra e entrou na caverna, seguido pela garota. Não queria nem saber o que aqueles dois iriam aprontar sozinhos lá dentro. Tirei a túnica sem cerimônias e entrei no lago, nunca havia me importado muito com a nudez. A água estava fria e revigorante, lavei o sangue e examinei o ferimento, os buraquinhos dos dentes de lobo iam desde um pouco abaixo dos meus seios até meu quadril – não eram fundos, mas estavam começando a infeccionar. Peguei o cantil de néctar de Nai, que estava na beira do lago me observando e pinguei na mordida, imediatamente os pontos de infecção sumiram os buracos começaram a se fechar.
Mergulhei e esfreguei meu cabelo e o resto do corpo, aproveitei também para lavar as manchas de sangue das minhas roupas e percebi que estavam rasgadas, mas teriam que servir. Saí do lago pingando e tremendo, não tinha notado a presença de Helena até ela pigarrear.
– Não quer se vestir Ros? – ela parecia bastante irritada. – Consegui salvar algumas coisas do acampamento, isso deve servir.
Ela abriu a mochila que carregava nas costas e tirou de lá um jeans e uma camiseta laranja do acampamento. Deu uma tapa na parte de trás da cabeça do Nai, pois ele me encarava hipnotizado, murmurando algo como: “melhor que toddynho”. Soltei uma gargalhada e ele corou, jogando uma rajada de vento morno para me secar.
Rasguei um pedaço da túnica e usei como curativo, atando meu tórax, vesti as roupas que Helena me dera e a armadura por cima. Em cinco minutos estávamos todos prontos para sair.
– Algum plano? – perguntei para a romana enquanto caminhávamos.
– Antes de a batalha começar despachei Rick para o Acampamento Júpiter para que ele organizasse nosso exército. Um pouco antes de nós encontramos você vi uma águia romana sobrevoando a floresta, então provavelmente pégasos estão a caminho para nos buscar, é só uma questão de tempo até nos encontrarem.
Mas uma vez fiquei impressionada com a organização dos romanos. Estava pensando na dificuldade que nós – os gregos – teríamos para nos adaptar se decidirmos viver com eles quando um barulho arrancou-me dos devaneios. Olhei em volta e vi alguma coisa se mexer entre as árvores. Todos nós sacamos nossas armas, e Gui deu um passo na direção do movimento. Ouvi Gui se assustar, e corremos ao seu auxilio. Ele ajudava Dain a andar, sendo que seu irmão mais velho ainda estava com uma flecha atraverssando sua coxa direita.
– Estavam tão despreparados que se eu fosse o inimigo vocês já estariam todos mortos! – ele disse em tom de gozação, mas por trás havia um aviso sincero.
Fui a primeira me recuperar do choque e, após ajudá-lo a se manter em pé, gritar com ele.
– Dain! Onde estão Ignis e Myrella? Por onde vocês andaram?
– Não precisa gritar Ros, eu vou explicar tudo. Só precisamos nos sentar...
Ele se dirigiu para uma clareira e nós o seguimos, tentei conter a raiva e soar o mais fria possível:
– Espero que você tenha uma ótima justificativa por ter nos abandonado.
– Nós nunca abandonaríamos vocês, a verdade é que saímos para tentar atrasar a OSL, mas não tivemos sucesso. Então acabamos sendo separados... Enquanto corria para longe, algum semideus, provavelmente filho de Apolo, me atingiu... tive que parar em algum lugar e descansar por um tempo... Quando ouvi a voz de vocês...
Ele parecia muito ofendido e um turbilhão de sentimentos passou por mim: felicidade por não ter sido traída, orgulho da atitude dele, vergonha por ter duvidado de sua lealdade e dúvida ao mesmo tempo – por que ele não me avisou? Respirei fundo e assenti, sem conter um sorriso que se formava no canto da minha boca. Nós retiramos a flecha, e ele grunhiu um pouco, mas sem fazer muito barulho. Ele prosseguiu.
– Mas não foi tudo em vão. Nós conseguimos descobrir, depois de andar escondidos pelo acampamento temporário deles, que eles estão atrás te um artefato muito poderoso, o Arco de Apolo. O poder do Sol pulsa dentro dele. Seu poder é tão grande que é capaz de evaporar oceanos e transformar florestas em desertos nas mãos de um bom arqueiro.
– Se quisermos que o mundo sobreviva temos que acha-lo antes da OSL... Onde ele está? – era a primeira vez que Guilherme se manifestava desde que o seu irmão chegou. Finalmente havia superado o choque inicial.
– Diz à lenda que ele está onde a primeira promessa da Guerra contra Cronos foi quebrada – Luke Castellan prometera à Silena Beauregard que manteria seu amado Charles Beckendorf a salvo, mas ele morreu a bordo do “Princesa Andrômeda”.
Antes que pudéssemos responder uma voz saiu de trás das árvores.
– Ora ora, é muito bom saber disso.
Thalia Grace estava ali com um sorriso na cara. Minha vontade era arrancá-lo com as unhas naquele momento, mas ela tinha consigo uma dúzia de guardas e um deles parecia extremamente experiente. Ele era sombrio e tinha um ar de quem poderia nos matar a qualquer momento. Deveria agir com calma, saquei a adaga e segurei o escudo, virando-me para ela.
– Que surpresa agradável querida, qual foi última vez que nos vimos? Já sei! Quando você destruiu a minha sanidade mental. – senti os semideuses ao meu redor se preparando para a batalha.
– Ou será que foi você que matou a coisa mais importante da minha vida?
Aquilo foi a gota d’água, ela nunca havia amado Eric como eu amei, ela só queria usar seu poder de influencia. Parti para cima dela e os outros seguiram. Ela abriu Aegis, mas pela primeira vez a imagem horrenda não me intimidou. Meu ódio era enorme e nada me pararia.
Ela desferiu o primeiro golpe com espada, mas eu desviei. Dain surgiu das sombras ao nosso lado e tentou acertar a lateral do corpo dela, mas Thalia foi mais rápida e o atingiu com um raio, de tamanho poder que ele simplesmente desapareceu. O choque de perder um companheiro foi enorme, mas não poderia me desconcentrar agora. Depois me preocuparia com ele, agora tinha assuntos mais importantes para resolver. Aproveitei a distração para me aproximar dela e acertei seu nariz com o cabo da adaga, ela cambaleou para trás e eu não perdi tempo: acertei sua mão direita e ela largou a espada.
– Você o roubou de mim! Nós éramos felizes até você aparecer e tirá-lo de mim! – gritei.
– Você era só um passatempo para ele garota, ele nunca te amou.
Se ela queria me atingir conseguiu, pois essa era a verdade que eu nunca admiti pra mim mesma. Eric me tinha na palma da mão e sabia disso, por isso o matei. Não podia tolerar a humilhação. Uma nova onda de ódio e energia me atingiu, ela tentava me acertar com o escudo, mas eu era muito rápida, sempre que ela falhava, eu dava golpes sucessivos nas fendas de sua armadura. Thalia caiu de joelhos e eu fiquei em pé atrás dela, me preparando para o golpe final.
– Por isso agora você poderá sentir o mesmo gosto da minha vingança que ele sentiu.
As palavras saíram frias, mas ela ainda sentiu mais frio quando passei a adaga em sua garganta e senti minhas mãos quentes com seu sangue. Olhei ao redor e vi a batalha que se desenrolava, Helena, Gui e Nai lutavam de costas um pro outro. Ela derrubara três meio sangues com raios até o homem misterioso surgir e acerta-la nas omoplatas. Vendo isso Guilherme virou uma máquina de matar, eliminado mais da metade dos semideuses que restaram para encontra-lo, mas ele já tinha desaparecido nas sombras. A outra metade ficou a cargo de Nai.
Antes que pudesse fazer qualquer coisa avistei pégasos vindo em nossa direção, Gui montou em um com Helena inconsciente em seus braços, eu e Nai montamos os outros. Quando levantamos voo, vi o homem surgir na clareira novamente e percebi que ele era familiar… Talvez eu tenha ouvido alguma historia sobre ele... Estava atordoada demais para prestar atenção na viagem, em pouco tempo estávamos em Nova Roma.
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