Ascensão dos Semideuses Livres
7 Capítulo 7: Morto - Pablar Graymane
Notas iniciais
Capítulo 4: Morto
Dain
Então nós fugimos. Nada de demais, considerando que era, em parte, pela nossa sobrevivência. A outra parte era menos honrosa, mas era o necessário. Eu não podia deixar Myr ou Ignis irem sozinhos. Não tinham lá muita experiência de campo, e era provável que morreriam.
Andamos o dia inteiro, nos afastando o máximo possível do Acampamento. Não posso dizer que estava triste; nunca fora minha casa. Estava pensando nos campistas que seriam mortos ou feridos, e em meio à dor encontrariam meu pai. Não eram pensamentos felizes, mas eram a pura verdade.
Olhei para Myr e Ignis; ambos estavam calmos, mas eu conseguia sentir a dor deles. Fora a escolha deles, entrar para a Organização, mas eles tinham amigos no Acampamento, gente que eles amavam.
Quando finalmente escureceu, estávamos a 20 quilômetros do Acampamento. Mas ainda assim, dava para ver a aura vermelha do fogo, em contraste com a escuridão do céu. Paramos em uma clareira para descansar e passar a noite. E também porque precisávamos falar com meu irmão.
Quando ele saiu das sombras à nossa volta, Myr e Ignis tomaram um susto. Eu permanecera imóvel; tinha sentido ele chegando. Por isso fui o primeiro a falar.
–Olá, mano.
–Olá, maninho. Como vão as coisas?
–Tudo igual. Como está o Pai?
–O mesmo de sempre por lá: tudo escuro, triste, e, como sempre, cheio de gente morta. Parece uma dessas comunidades de fãs, na verdade.
A esse ponto Ignis já tinha recuperado sua voz.
–Nós fizemos o que você pediu — Ele disse. -Seus monstros invadiram o Acampamento, como planejado.
Nesse momento um raio caiu das nuvens acima de nós, bem ao lado de Nico. Dessa vez eu me assustei, um pouco, mas menos que os outros ao meu lado. Odeio raios.
Do raio apareceu Thália, a Filha de Zeus. Ela olhou para mim com seus olhos azuis.
–Não chame meus bebês de monstros. São apenas lobos.
Ignis olhou para ela, se recuperando do choque, e retrucou:
–Eles provavelmente mataram todos naquele Acampamento. São bem monstruosos, na verdade.
–Não me diga que você sente pena dos outros. Eles mereceram, pois relutaram em serem livres. Recusaram a liberdade, e por isso morreram. Foram mortes honrosas, admito.
–Liberty in death – eu disse. Era um dos meus ditados favoritos. -Afinal de contas, a morte é só mais um passo que todos nós devemos tomar.
Thalia me olhou, surpresa.
–Esse daqui entende dessas coisas. Presumo que seja mais um irmão seu, Nico?
–Sim. Um dos preferidos do papai. Sempre soube que ele se juntaria a nós.
Nessa hora Myrella decidiu entrar na conversa.
–Que beleza, parece uma reunião de família. Na verdade, até é. Mas temo que eu tenha notícias importantes.
Com todos encarando ela, continuou:
–Eu tive uma visão, uns cinco minutos atrás. Vi um grupo de semideuses escapando do fogo do Acampamento, e fugindo. Também vi uma batalha sendo travada, não está muito distante. Mas haverão muitas mortes, semideuses e mortais.
Thalia encarou Myr por um tempo, depois desviou o olhar para Ignis.
–Dêem um jeito nisso, e nós daremos aos três ranks altíssimos na Organização.
Com isso, Thalia se foi com uma trovoada e Nico entrou em outra sombra. Nós três ficamos sentados, pensativos. Eu fui o primeiro a me levantar.
–Bom, mais alguma coisa na visão?
Myr me olhou, surpresa, e assentiu.
–Eu vi Nova York destruída. Os prédios em chamas. E… — Seus olhos se encheram de água. -E você. Havia um ferimento de flecha em sua coxa e seu peito fumegava. Você estava… Morto…
Pensei um pouco, enquanto ela enxugava os olhos nas costas da mão e Ignis desenhava uma runa no chão.
–Já sei — Eu disse. -Vai ser doloroso. Mas será necessário.
Enfiei minha mão em uma sombra e tirei meu arco. As vértebras que faziam as lâminas pareciam brilhar sob a luz do luar. Sem prestar muita atenção, tirei uma aljava de flechas de osso e ébono. Peguei uma flecha e entreguei o arco a Myr. Sabia que ela vinha praticando há um tempo, e que ela tinha uma mira melhor que Ignis.
Ela me encarou, assustada.
–Pegue o arco, por favor. Está na hora de tornar uma das visões em realidade.
Ela pegou o arco e a flecha, me encarando.
–Você tem certeza, absoluta, que quer isso?
Eu assenti, e levantei a calça para expor minha coxa. Ela se afastou um pouco, pois um tiro de perto poderia atraversar minha carne. Ela olhou para mim com aqueles lindos olhos, e eu assenti novamente.
Foi rápido, sem cerimonias, e lembro que a dor foi excruciante. Mordi meu lábio para concentrar em outra coisa, e senti o gosto metálico de sangue. Fiquei ajoelhado por um tempo, apoiado no chão, e depois me levantei. Peguei meu arco de volta, e com a flecha ainda presa na minha perna, andei em direção aos meus amigos e à minha morte.
Cheguei lá, fui encontrado, e retiraram a flecha. Despistei eles e limpei meu nome, o de Ignis e o de Myr, falando que fomos atacados e separados pela OSL. Também falei que, para vencer a Organização, eles teriam que achar o Arco de Apolo. Foi quando meu resgate chegou; um pouco atrasado, pra ser sincero. Mais alguns minutos e eu seria obrigado a ver meu irmão em um encontro com aquela Romana.
Thália fez uma entrada dramática. Cercada de Lobos e Semideuses, atacou nos diretamente. Depois de machucar meu irmão, ataquei ela, como era o planejado, eu fazendo o papel de irmão mais velho, preocupado. Ela me jogou para longe e eu fui cercado por uma luz azul clara. Se achava que a flecha tinha sido uma dor desconfortável, agora ela mais parecia o toque de folhas que caem de árvores no Outono. Levar um raio é mais como se sua cabeça fosse explodir: seus olhos tremem, seu corpo inteiro dói e queima, e você é arremessado para trás. Foi quando meu segundo resgate entrou em cena. Nico pulou de uma árvore, acima de mim, e, me puxando consigo, mergulhou nas sombras. Me deixou na clareira, sem nem aparecer, e voltou para a luta.
Depois disso tudo estava literalmente escuro. Não via nada, só conseguia ouvir a Myr chorando e Ignis tentando me curar. Senti como se entrasse na terra, em direção ao Submundo…
E de repente estava de volta. Myr me abraçava, e Ignis extinguia os raios de suas mãos.
–Olá!
Foi a única coisa que consegui dizer. Meio estúpida, mas eu havia acabado de morrer e voltar a vida.
Myrella ainda chorava, e Ignis falou algo sobre procurar um meio de locomoção. Ele saiu do meu ponto de vista, e eu tentei me sentar. Não gostava de ficar no chão.
Com esforço, todas as fibras do meu corpo doloridas e tremendo, eu consegui. Me encostei em uma árvore. Olhei para baixo e vi que um lugar no meio do meu peito ainda fumegava. E Myr ainda chorava.
Então eu a abracei. Não havia outro meio de consolá-la. Abracei-na enquanto ela chorava. Foi um momento… Estranho. Só aqueles que consolaram alguém depois de morrer sabem disso.
Ignis voltou pouco depois, e nós seguimos ele até nosso veículo. Não havia nada na estrada, mas fazendo um sinal com suas mãos ele fez uma Ferrári aparecer.
–Descobri o que meus anéis fazem! Guardam coisas pra mim!
Eu e Myrella entramos no banco de trás enquanto Ignis dirigia. Eu precisava descansar, por mais que odiasse admitir isso. Ao entrar, me olhei no retrovisor. Meus olhos negros, tão escuros quanto a noite, agora eram azuis. Azul escuro, pois nenhum raio conseguiria clarear completamente meus olhos.
Mas eu admito que gostei do azul. Combinaram comigo.
E assim, viajando em uma Ferrári, decidimos o nosso próximo passo na OSL.
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