Ascensão dos Semideuses Livres
8 Inocentes- SirOlavo
Notas iniciais
Ignis
Estamos nos dirigindo a Nova Roma… como todos os outros semideuses que escaparam do ataque. Guiava meu carro — adquirido de maneiras duvidosas — pela estrada, enquanto tentava me lembrar o que poderia dar errado. O plano parecia simples o suficiente para funcionar: Iriamos para Nova Roma e contaríamos uma historia sobre como nós heroicamente tentamos atrazar a horda, mas percebemos que a causa era perdida e fugimos. Estávamos muito longe do acampamento para conseguir enviar qualquer mensagem então decidimos salvar nossa própria pele. A mentira parecia convincente.
Passei por uma pequena loja de fast foods e percebi meu erro.
Por mais convincente que a mentira fosse, os cães da pretora conseguiriam a farejar… Precisava de transformar essa mentira em uma realidade…
Vislumbrei pelo canto do olho minha irmã deitada no colo de Dain no banco de trás e sorri levemente. Maldito TDAH, preciso me concentrar agora.
Escrevi uma pequena runa no volante para ele se auto-guiar e sussurei “Nova Roma”. Puxei o pergaminho que havia escrito mais cedo e quebrei seu selo. Nele, estavam as runas de um feitiço para apagar a memoria.
Comecei a escrever novas runas no papel, com cuidado para não chamar atenção dos dois às minhas costas. Talvez se eu pudesse reescrever o feitiço… Talvez desse tempo de efetivamente escapar dos malditos cachorros romanos.
Abaixo do papel eu escrevi a historia que eu queria que fosse real. Escrevi que tentamos chamar reforços para ajudar na guerra. Escrevi que avistamos o exercito ao longe e tínhamos certeza de que estávamos condenados… escrevi uma historia ricamente detalhada, porem ao mesmo tempo em que detalhava algumas partes, embuia outras em sombras.
Fiz três copias da historia, e quando eu acabei já quase amanhecia. Eu modifiquei a historia de Dain, disse que ele foi atrás de nossos amigos por ter se perdido de nós. Disse que ele foi arremessado pelo raio da filha de Zeus e que seus amigos não se deram ao trabalho de o procurar — deram-no como morto. Escrevi que ele se levantou no dia seguinte e andou — quase morto — até bem próximo a Nova Roma, antes de cair exausto. Disse ainda, que um grupo de locais o encontrou e o enviou para Nova Roma para ser tratado.
A ultima informação precisaria ser feita verdadeira urgentemente.
Me virei e percebi que ambos dormiam. Toquei a testa de Dain e o imobilizei com um feitiço fraco. Ele abriu os olhos assustado, mas eu contive o resto do corpo.
Coloquei um dedo na frente da boca, pedindo silencio.
Puxei uma das copias do pergaminho e a coloquei em seu peito. Ele continuava a me olhar, sem entender… Então eu sussurei um encantamento para ativar o pergaminho e ele apagou.
Repeti o processo com Myr, mas foi um pouco mais dificil de fazê-la ceder a minha magia. Por fim, ela também apagou.
Guiei o carro para um local perto a onde deveria ser Nova Roma e o desliguei.
Saltei do carro e puxei Dain comigo. Carreguei ele para uma ruela escura, e o joguei no chão.
Pensei em dizer algum pedido de desculpas, mas ele não iria se lembrar então não teria problema.
Comecei a chutar ele até que ele sangrasse. Puxei um pergaminho e escrevi uma runa fraca de fogo, para dar a aparência de que ele foi atingido por um raio.
Por fim, joguei uma camada de nevoa, para que os mortais não encontrassem o corpo… Mas logo algum semideus conseguiria.
Pensei em chuta-lo mais, mas rejeitei a ideia e toquei a a testa dele para o livrar da paralisia. Ele iria continuar desacordado por um bom tempo em consequência da força que coloquei no pergaminho.
Voltei para o carro sem pressa, ao chegar lá, retirei o feitiço de Myr e coloquei o ultimo pergaminho em meu rosto.
Minha visão escureceu como um monitor sem energia.
Senti meu corpo ceder e ser acolhido pelo chão.
Me senti como que em uma banheira gigante, a qual havia sido retirado a tampa que segura a agua, e agora tudo se esvaia. Eu estava desesperado.
Me agarrava a cada memoria, no segundo em que a sentia me deixando. Sentia como se o mundo tivesse parado, e agora as unicas coisas que existiam eram eu e minha eterna dor. Perder a memoria é horrivel, mas o pior é saber que você está a arrancando de si.
Tudo isso aconteceu em milésimos de segundos.
Eu acho.
A unica coisa que sei é que quando eu acordei era um herói derrotado, indo se refugiar na fortaleza aliada.
Myrella me olhava, sentada no carro.
– Está bebado, Ig?
Coloco a mão na cabeça e esboço um sorriso
– Talvez um pouco. Estamos perto de Roma afinal?
– Possivelmente. Sabe chegar lá?
– Todos os caminhos levam a Roma.
Myr me lançou um sorriso debochado.
– Estamos nos Estados Unidos. Se você encontrar um caminho para a Itália saindo daqui…
Pulei no carro e comecei a procurar. Não foi tão fácil quanto imaginava que seria, mas Myr acabou reconhecendo a entrada a partir de uma das historias que contavam no acampamento.
Entrar em Nova Roma foi simples. Os guardas rapidamente perceberam que vinhamos do acampamento meio sangue, e eu contei historias a eles. Historias que eu considerava verdadeiras. Após algum momento contando historias, Myrella interrompeu a torrente de perguntas que era jogada a nós, e pediu um lugar onde poderiamos descansar.
Fomos conduzimos em meio a multidão de pessoas que havia lá, e os guardas nos deixaram em uma casa pequena e aconchegante.
Os dias seguintes foram confusos. Eu mal consigo me lembrar oque exatamente aconteceu…
Me lembro de passar o resto do dia na casa. Ela tinha dois quartos, uma cozinha e uma pequena sala de estar na porta.
A noite, sai com Myr para jantarmos em um restaurante perto da casa. Foi quando recebemos a noticia de que Dain havia sido encontrado. Lembro de ter seguido minha irmã de encontro a ele, e de ter deixado a sala com um sorriso pervertido no rosto quando percebo que minha presença não é necessária.
Na manha do segundo dia, os campistas sobreviventes começaram a chegar. Os guardas tentavam organizar todos eles, mas eles eram muitos e a pretora não estava presente. Fiquei observando o tumulto, na segurança de minha casa.
Foi somente ao meio dia que meus amigos chegaram.
Helena era uma líder nata. Ela havia acabado de chegar e começara a organizar todos os gregos em filas, para que pudessem ser testados pelos cachorros e então enviados para algum refugio. Os soldados romanos estavam organizando tendas em um espaço aberto na margem do pequeno Tibre.
Assim que os gregos eram liberados eles começavam a ajudar na tarefa de subir as barracas.
Vi um guarda sussurrando para Helena e ela olhou diretamente para mim e minha irmã. Os olhos dela brilhavam com uma mistura de curiosidade, desconfiança e felicidade.
Myr se levantou e eu a segui. Helena nos recebeu e começou o interrogatório. Ela não parecia acreditar em uma palavra que dizíamos, e muito menos o filho de hades atrás dela. Mas os cachorros nem se quer nos arranharam.
Me lembro de ter seguido Helena, Gui — o filho de hades em questão — e Myr até o grupo dos sobreviventes. Trocamos cumprimentos acalorados, mas eu estava distante… Ros não estava ali.
Me afastei do grupo com um aceno e comecei a procura-la. Helena e Gui não se desgrudavam por um segundo, e Myr queria levar o grupo à Dain. Yorel Nai estava lá tambem, correndo de um lado a outro, maravilhado com Nova Roma.
Vaguei pelos templos dedicados aos deuses. Varias pessoas prestavam suas homenagens a seus antecessores divinos, mas Hecate teria que esperar. Subi no templo de Afrodite e finalmente pude me acalmar. Rosalie estava sentada a poucos metros de mim. Linda como sempre, mas o mais importante: A salvo.
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