Ascensão Infernal
12 O Chamado
Notas iniciais
Era manhã, Claire tinha acordado há poucos minutos e caminhava por um corredor do bunker em direção ao banheiro. Depois de jogar um pouco de água no rosto e escovar os dentes, ela prendeu os longos cabelos em um rabo de cavalo e saiu do recinto, pensando no mal estar que havia sentido na noite anterior.
Aliviada por não estar sentindo mais nenhum desconforto, a morena seguiu pelo corredor, desceu as escadas e começou a procurar Sam pelo bunker. Logo, ela o encontrou. Na cozinha, de costas, aparentemente preparando o café da manhã e ainda de pijama.
Ainda com certo sono, Claire passou as mãos pelo rosto e, enquanto se aproximava do marido, sibilou:
— Bom dia.
Imediatamente, Sam abandonou o que estava fazendo e virou-se na direção da caçadora, replicando:
— Ei... Bom dia. Como você está se sentindo? Melhor?
— Ótima. — respondeu Claire, parando de frente para ele, passando os braços em volta do pescoço do Winchester e lhe dando um demorado e carinhoso beijo de bom dia, que foi prontamente correspondido.
Quando seus rostos finalmente se afastaram, Sam quis se certificar:
— Tem certeza?
Depois de balançar a cabeça afirmativamente, a morena reforçou:
— Sim. Eu me sinto ótima. Não se preocupe. Aquilo, ontem à noite, foi só um mal estar passageiro. Está tudo bem agora.
Depois de observá-la por alguns instantes, ainda um pouco preocupado, Sam resolveu acreditar nas palavras da esposa e assentiu:
— Que bom.
Em seguida, sentindo um aroma gostoso, Claire esticou o pescoço para ver algo sobre o balcão atrás de Sam e disse animada:
— Humm... Café?
— Exato. — confirmou ele, antes se virar e servir uma xícara para ela e outra para si.
Em seguida, o caçador ligou a torradeira e pegou um pacote de pão de forma no armário. Mas, ao olhar de soslaio para Claire e perceber que ela ainda não tinha provado o café, ele se voltou para a caçadora e indagou:
— O que foi?
Com certa tristeza e nostalgia, ela respondeu:
— Eu só... Me lembrei da Mia.
Depois de soltar um suspiro profundo e erguer o rosto de Claire, posicionando o dedo indicador e o polegar em seu queixo, Sam afirmou:
— Nós vamos trazê-la de volta.
Lembrando-se dos longos meses de busca e da última missão fracassada, Claire não conseguiu conter certo desânimo e indagou:
— Vamos? — porém, percebendo que não adiantava deixar-se levar por aquela onda de pessimismo, ela se lembrou da demônio presa na masmorra e mudou um pouco o rumo da conversa: — O Cas e o Dean conseguiram alguma informação relevante?
Antes que Sam respondesse, Dean entrou na cozinha dizendo:
— Sim e não. — e enquanto se aproximava do casal, ele cumprimentou: — Ah! Bom dia, pombinhos. — antes que Claire ou Sam respondessem o cumprimento, Dean pegou a xícara do irmão sobre o balcão, tomou um generoso gole e murmurou: — Humm... Café. — enquanto Sam o fuzilava com o olhar e Claire continha um sorriso, ele pensou no que havia feito e opinou: — Isso foi tão... Mia.
— E mal educado. — ressaltou Sam, lançando um sorriso amarelo na direção dele, como um protesto por Dean ter tomado o seu café na maior cara de pau.
Como resposta, o mais velho deu de ombros, arqueou as sobrancelhas e reforçou:
— Como eu disse, tão Mia.
Em seguida, Dean tomou mais um pouco do café, pegou um waffle em um prato sobre o balcão e sentou à mesa, de frente para o casal.
— Vocês conseguiram arrancar alguma informação da Mandy? Sim ou não? — recomeçou Sam.
De boca cheia, Dean respondeu:
— Ela não deu nenhuma pista sobre o Crowley ou sobre para onde a Mia iria depois de Maine, mas acabou deixando escapar algo sobre um feitiço.
— Um feitiço? — repetiu Claire com interesse.
Depois de devorar o que sobrou do waffle e terminar o café, Dean se recostou na cadeira e explicou melhor:
— Parece que o desgraçado do Crowley fez uma lavagem cerebral na Mia, através de um feitiço de sangue, que além de mexer com as suas memórias, despertou o que havia de pior dentro dela. É por isso que a Mia não se lembra de nós ou do Cas, por isso que se aliou ao Crowley e se tornou tão... Perigosa.
Depois de assimilar o que tinha ouvido, Sam lembrou do rápido reencontro com a garota, quando a viu à distância, e de tudo o que Castiel relatou sobre o seu próprio reencontro com ela, e então ponderou:
— Faz sentido. A Mia que nós conhecemos jamais agiria assim.
Após um momento de silêncio, Claire questionou:
— E o que vocês vão fazer com a Mandy agora?
— O Cas já fez. — respondeu o Winchester mais velho, mas diante das expressões confusas do irmão e da cunhada, ele resolveu explicar melhor: — Ele matou a vadia, quando ela insinuou que a Mia está tendo um... Romance com um demônio.
— Isso é um absurdo. — protestou Claire. — A Mia jamais trairia o Cas. Muito menos com um demônio.
— A Mia que nós conhecemos não. Mas a Mia Dark... Quem sabe? — indagou Dean.
Sem conseguir aceitar aquela possibilidade, Claire insistiu:
— Mesmo sem se lembrar do Cas, a Mia não faria algo assim. Ela ainda é a Mia. De alguma forma, ela ainda está lá. Perdida dentro de si mesma, mas... Lá.
Depois de pensar um pouco sobre o que a esposa disse, Sam fitou o irmão e indagou:
— Supondo que a gente consiga localizar a Mia de novo, como nós quebramos o feitiço?
— Eu estou trabalhando nisso. Aliás, por acaso você quer me ajudar com a pesquisa, nerd? — perguntou Dean, lembrando-se de que há alguns minutos, ele estava na biblioteca do bunker, fuçando em alguns livros sobre feitiços envolvendo sangue de demônio, mas acabou perdendo a paciência com a linguagem rebuscada que encontrou.
— Claro. — habilitou-se o caçula. — Eu só vou tomar um banho primeiro e trocar de roupa.
— Tudo bem. — assentiu o mais velho, antes de se levantar e começar a se afastar.
— Ei, Dean! — chamou Sam, fazendo o irmão deter o passo, girar nos calcanhares e encará-lo.
— Sim? — indagou o Winchester mais velho.
Depois de trocar um olhar cúmplice com Claire e hesitar um pouco, Sam resolveu perguntar de uma vez o que perguntava praticamente todos os dias para o irmão:
— Como você está?
Imediatamente, Dean entendeu o que ele pretendia com aquela pergunta e, inevitavelmente, fechou a cara antes de responder com um resmungo impaciente:
— Eu estou ótimo, Sammy. Mas se você me perguntar isso mais uma vez, eu juro que te dou um soco.
Sem dar qualquer chance para que Sam continuasse aquela conversa, o mais velho deixou a cozinha para trás.
Então, foi a vez de Claire se pronunciar:
— Ele não falou mais sobre a Natalie?
— Às vezes, ele fala alguma coisa, mas em seguida, se fecha e fica completamente mal humorado. E no fim, ele bebe. — respondeu Sam, sentindo-se triste pela situação do irmão e da cunhada.
Mesmo com os dois separados, era assim que o Winchester mais novo pensava em Natalie, como sua cunhada. E ele esperava que um dia, ela voltasse a ser aquilo de fato.
Momentos depois
Sam estava tomando banho, quando a porta do banheiro foi aberta silenciosamente e Claire adentrou o lugar.
Ao vê-la através do box, enquanto se ensaboava, o caçador sorriu e brincou:
— Ei, Beautiful... Caso você não tenha percebido, este lugar está ocupado no momento.
Com um sorriso divertido nos lábios e sustentando o olhar do marido, a caçadora se despiu lentamente, caminhou até o box, entrou, passou os braços em volta do pescoço de Sam e retorquiu:
— Eu acho que tem espaço suficiente para nós dois aqui. Você não acha?
Depois de colocar as mãos na cintura de Claire e trazê-la para debaixo do chuveiro, e consequentemente para mais perto de si, Sam decidiu entrar naquele jogo e desafiou:
— Vamos descobrir.
Em seguida, suas mãos subiram pelas costas nuas da caçadora e alcançaram a sua nuca. Seus rostos se aproximaram e suas bocas se encontraram. E se envolveram em um beijo profundo e apaixonado.
Algum tempo depois
Dean estava na biblioteca do bunker, quando Sam chegou no lugar, se acomodou em uma cadeira de frente para ele e pegou um dos livros de uma pilha sobre a mesa.
Enquanto Sam abria o livro e o folheava com atenção, Dean o observou por alguns instantes e, imaginando o motivo da demora do irmão, acabou dizendo:
— Que banho demorado, hein?
— O quê? — retorquiu o caçula um tanto surpreso com aquela observação.
Após um momento de hesitação, o Winchester mais velho voltou a se concentrar no livro que estava lendo antes do irmão chegar e desconversou:
— Desculpe, eu não tenho nada a ver com isso.
Na verdade, o grande problema era que Dean havia imaginado que Claire tinha feito companhia ao irmão no chuveiro, acabou se lembrando dos seus banhos com Natalie, se sentiu infeliz, já que aquilo agora fazia parte de um passado irrecuperável, e por isso fez aquela crítica velada.
Instantes depois, tentando afastar Natalie do seu pensamento, ele indagou:
— Cadê a Claire?
— Ao telefone. — respondeu o mais novo, sem desviar a atenção do livro.
— Falando com o Bobby? — supôs o outro.
— Não. — respondeu Sam de forma evasiva.
Isso deixou Dean intrigado, já que uma hipótese passou em sua cabeça imediatamente. E sem conseguir se conter, ele desviou o olhar da leitura e perguntou:
— Com quem então?
Sam se mexeu na cadeira, um tanto incomodado com o interrogatório e, sem olhar para o irmão, respondeu:
— Com uma amiga.
Isso só deixou Dean ainda mais desconfiado e, sendo assim, ele apoiou os braços sobre a mesa, riu sem humor e insistiu:
— E essa amiga tem nome?
Cansado de tentar entender o que se passava na cabeça do irmão e o que ele pretendia com aquela conversa, Sam ergueu o olhar na direção dele e respondeu com certa impaciência:
— Tem, Dean. Natalie Jones. Você sabe muito bem que ela e a Claire continuam se falando, as duas eram amigas bem antes de nos conhecerem. Satisfeito?
— Sim, obrigado. — resmungou o mais velho, e alterando-se um pouco, questionou: — Por que você não disse logo?
Perdendo ainda mais a paciência, Sam respondeu:
— Eu não sei, Dean. Talvez porque eu nunca sei se posso tocar no nome da Natalie com você ou não. Talvez porque, às vezes, você se fecha totalmente e diz que ela é um assunto proibido, e já em outros momentos, como agora, você fica sondando o terreno e querendo saber como a Natalie está.
— Quem disse que eu quero saber como ela está? — rebateu o mais velho com certa indignação.
— Então você não quer? — duvidou Sam.
— Claro que não. — assegurou Dean prontamente, embora no fundo, aquilo não fosse verdade. — Por que eu ia querer saber qualquer coisa sobre a minha... Ex?
Sam pensou em responder que talvez Dean quisesse saber como Natalie estava porque ele não via a loira como sua ex. Porém, sabendo como aquela conversa costumava terminar, o Winchester mais novo preferiu esperar um pouco.
E, conforme o imaginado, assim que ele voltou a olhar para o livro, ouviu Dean perguntar sem jeito e hesitante:
— Ela está bem, certo? Eu quero dizer... Ela não está com problemas?
Depois de respirar fundo, Sam respondeu calmamente:
— A Natalie está bem, Dean. Claro que ela estaria melhor, se estivesse com você. — e após uma pausa, avaliando se devia dizer aquilo ou não, ele resolveu arriscar: — Você devia ligar para ela.
— Eu tentei. Ela não me atende mais. — confessou Dean, que mesmo depois da conversa definitiva com Natalie, não tinha resistido e havia ligado para ela algumas vezes.
— Então vai atrás dela. — sugeriu o caçula.
Quase imediatamente, Dean articulou:
— Eu já tentei isso também. Não deu muito certo e na nossa última conversa, a Natalie foi bem clara. Ela pediu que eu não fosse mais atrás dela, então...
Depois de pensar um pouco, Sam tentou dar um pouco de esperança ao irmão, dizendo:
— Aquela não foi a última conversa entre vocês, Dean. Não precisa ser.
Ao se lembrar de como magoou Natalie ao terminar com ela, há alguns meses, do sofrimento que viu no olhar da loira quando a reencontrou, há alguns dias, e de tudo o que ela lhe disse, tanto pessoalmente como na conversa definitiva ao telefone, Dean se convenceu de que devia respeitar a vontade dela. E a vontade de Natalie era que ele não a procurasse mais.
Por isso, Dean afirmou:
— Precisa sim. — em seguida, tentando encerrar aquele assunto de vez e manter a cabeça ocupada, ele virou uma página do livro e desconversou: — Agora é melhor eu me concentrar nesta maldita pesquisa. E você também.
Sam ainda observou o irmão por alguns instantes. E antes de retomar a pesquisa, constatou:
— Certo. Você se fechou de novo.
Enquanto lia um trecho do livro, Sam ouviu Dean abrindo uma garrafa de uísque, que estava sobre a mesa desde que ele entrou ali, depois ouviu o barulho da bebida sendo servida em um copo e, por fim, ouviu o irmão tomando generosos goles.
Dean repetiu esse ritual várias vezes. E Sam sabia muito bem por quê. A bebida era um refúgio para Dean.
Mais tarde
Não tinha jeito. Por mais que Castiel tentasse evitar certos lugares do bunker, cada metro quadrado daquela fortaleza lhe lembrava Mia de alguma forma.
Então, depois de ser bombardeado por muitas lembranças da caçadora, o anjo deixou a sala secreta, que havia descoberto com a própria Mia, pouco antes dela ir embora, e que continha um verdadeiro acervo sobre anjos.
Na sequência, Castiel resolveu ir para o Céu e consultar os anjos, para descobrir se eles conheciam alguma forma de reverter o tipo de feitiço que, aparentemente, mantinha Mia sob a influência de Crowley.
Enquanto alguns anjos tentavam encontrar uma forma de reverter tal feitiço, outros tentavam localizar Mia, mesmo desconfiando que a garota tinha desenvolvido um tipo de camuflagem contra seres celestiais.
Castiel voltou para a Terra no final daquele dia. Mas, desta vez, ele preferiu ficar do lado de fora mesmo, apoiado em uma mureta que cercava o bunker, olhando para o céu e sendo acometido por lembranças de Mia do mesmo jeito.
Foi quando Dean, que tinha visto o anjo por uma das janelas do bunker momentos antes, se aproximou, segurando uma garrafa de cerveja, se posicionou ao lado do anjo, olhou na mesma direção que ele e só então cortou o silêncio:
— Dada a minha atual situação, eu sou o cara menos indicado para te dar conselhos amorosos, Cas. Mas, mesmo assim, eu tenho que te dizer duas coisas muito importantes. — quando Castiel olhou em sua direção, Dean tomou alguns goles da cerveja, o encarou seriamente e continuou: — Primeiro, não importa o que a Mia tenha feito nesses últimos meses, cara. Ela perdeu o controle sobre si mesma e não teve escolha. Portanto, releve tudo o que ela possa ter feito e se concentre em uma única coisa: no nosso trabalho. E, neste momento, o nosso trabalho é trazê-la de volta. Trazer a antiga Mia de volta, entendeu? Portanto, não desista da sua coelha, Cas. Não importa o que aquela vadia dos infernos disse que ela fez.
Depois de ponderar o que tinha ouvido, o anjo expôs com determinação:
— Eu não vou desistir dela. Nunca. Claro que foi difícil ver a Mia naquele bar, tão... Diferente e tão influenciada pelo Crowley. Foi difícil ouvir as coisas que ela me disse e as coisas que aquela demônio falou sobre ela também, mas... Eu não vou desistir da Mia. Eu não poderia, mesmo que quisesse.
Depois de tomar mais um pouco da cerveja, o Winchester anunciou:
— Ótimo, então eu posso partir para o segundo conselho. — e percebendo que tinha a atenção do amigo, ele expôs: — Quando você encontrar a Mia novamente, terá que ser mais esperto do que da última vez. — ao notar certa confusão no semblante do anjo, como se ele tivesse ficado ofendido com aquilo, Dean mediu melhor as palavras e recomeçou: — Olha, eu entendo que você tenha ficado emocionado e mexido quando a viu, acredite, cara... Eu entendo. Mas aquilo foi desastroso, Cas. Então, se você quiser mesmo trazer a Mia para cá e ajudá-la de verdade, vai ter que ser mais esperto da próxima vez. E o mais importante: terá que ser bem mais esperto do que a Mia Dark parece ser. Você me entendeu?
Após avaliar tudo o que tinha ouvido, Castiel assentiu:
— Sim, eu entendi. Eu serei mais... Esperto da próxima vez. Obrigado pelos conselhos, Dean.
Depois de assentir com um discreto meneio de cabeça, o caçador entornou a garrafa em sua boca, mas só então percebeu que a cerveja tinha acabado. Disposto a partir para a próxima garrafa, ele encerrou a conversa:
— Então é isso.
Em seguida, o Winchester começou a se afastar. Porém, ele deteve o passo na sequência, quando Castiel se virou e o chamou:
— Dean. — quando o caçador olhou em sua direção, o anjo disse com certo cuidado: — Você devia ouvir os seus próprios conselhos. Você sabe... Não desistir da Natalie e ser mais esperto quando a encontrar de novo. Não deixá-la escapar da próxima vez.
Enquanto pensava sobre aquilo, Dean desviou do olhar do anjo e esboçou um sorriso amarelo, apenas para mascarar o vazio que estava sentindo desde que terminou com a caçadora e que tinha se expandido, consideravelmente, desde a última conversa entre os dois.
Em seguida, Dean se obrigou a encarar o amigo novamente e disse visivelmente triste:
— Eu não acho que terá próxima vez no meu caso, Cas.
Antes que o anjo contra argumentasse e aquela conversa se estendesse, Dean lhe deu as costas e caminhou na direção do bunker.
Duas semanas depois
Desesperada, ligeiramente suada e com os cabelos sendo constantemente bagunçados pelo vento, Mia corria por um enorme descampado em direção à uma antiga capela abandonada no meio do nada.
Depois de sonhar com aquele lugar por noites seguidas e finalmente descobrir onde ele ficava, era para lá que Mia tinha seguido, após despistar Crowley e todos os demônios que ele havia colocado atrás dela. Ou quase todos, já que Mia sentia que ainda havia um deles por perto. E, por isso, ela continuou correndo, sujando as botas em poças de lama pelo caminho, até finalmente adentrar a capela.
Ao pisar no chão de pedra sabão do lugar, centenas de pássaros, que tinham transformado a capela em uma espécie de morada, reagiram a presença da intrusa e sobrevoaram cada canto do lugar, provocando um barulho ensurdecedor de asas e assustando Mia, que gritou e se abaixou quando as aves passaram por ela aos montes, até finalmente alcançarem o lado de fora.
Com o coração acelerado e transpirando medo e adrenalina por cada poro de sua pele, Mia voltou a correr, passou por alguns bancos quebrados e se escondeu atrás de uma pilastra. A cada instante, ela podia sentir aquela presença demoníaca ficando mais forte. Mais perto. Até que Mia ouviu passos na entrada da capela e, na sequência, uma voz masculina e grave ecoou pelo lugar, espantando os pássaros que insistiram em continuar ali:
— Eu sabia que tinha alguma coisa errada com você, sua vadia. Você está esquisita há dias.
Mia engoliu em seco e tentou conter a sua respiração ofegante, ao mesmo tempo em que lutava para resistir ao efeito devastador da abstinência do sangue de Crowley.
Honestamente, Mia nem sabia como tinha conseguido resistir ao ímpeto de beber cada dose que Crowley lhe ofereceu nos últimos dias, nem como conseguiu enganá-lo, descartando cada uma daquelas doses sem que o Rei do Inferno percebesse.
Ao contrário do que Mia esperava, se privar do sangue dele não lhe trouxe nenhuma resposta, apenas dor e desespero. O período de abstinência havia feito as suas dúvidas ganharem mais força também. A tal ponto, que Mia não resistiu, foi até Minnesota, há dois dias, e encontrou o túmulo do seu amigo Ric Mathias, descobrindo assim que Crowley havia mentido, quando disse que ele estava vivo.
Com isso, mais dúvidas surgiram dentro de Mia, abalando a sua confiança no Rei do Inferno e a levando a fugir daquele jeito.
— Eu vou te levar de volta para o Rei. — a voz do demônio que a perseguia despertou Mia daqueles pensamentos. — Nem que seja arrastada pelos cabelos. — acrescentou enquanto seus passos eram ouvidos pela capela.
De repente, silêncio. Um silêncio aterrador. Ameaçador. Mia sentia o medo sufocá-la a cada segundo e, ao mesmo tempo, uma parte dela estava pronta para reagir, em constante alerta, disposta a lutar até o fim. Mia só não sabia exatamente por quê. Pelo o que ela está lutando, afinal? Por que ela estava fugindo do Crowley? Ela queria liderar o Inferno ao lado dele, não queria? O que havia mudado? Por que aquela sensação de que havia alguma coisa muito errada naquela história se intensificava dia após dia? E por que, mesmo assim, ela continuou ajudando os demônios de encruzilhada a fecharem novos pactos?
Essas eram apenas algumas perguntas que atormentavam Mia naquele momento. E toda vez que fazia as tais perguntas para si mesma, novas dúvidas e questionamentos surgiam em sua mente. Mia estava confusa, em um verdadeiro conflito interno, dividida. Era como se houvesse duas pessoas dentro dela e a cada momento, uma delas tomasse o controle.
Enchendo-se de coragem, a garota resolveu dar uma olhada em volta. Então, com muito cuidado e cautela, ela se mexeu um pouco e olhou na direção da entrada da capela. Mia não viu ninguém ali, nenhum sinal do último demônio que tinha restado e que tinha a seguido.
Porém, logo Mia descobriu onde ele estava exatamente. Isso porque, ela sentiu uma forte presença maligna atrás de si e se virou imediatamente, pronta para reagir da maneira que fosse.
No entanto, não houve tempo para isso, já que o demônio a segurou com força contra a pilastra, fazendo o seu corpo se chocar com violência contra o granito e, com o rosto a poucos centímetros do dela, ele questionou entredentes:
— O que você fez com os outros? O que você fez com o Rei e com o Sawyer, sua vaca?
Mia, que resolveu testar o seu poder contra anjos no Rei do Inferno e nos demônios que a seguiram, matando os demônios comuns — de olhos pretos — e deixando Crowley, Sawyer e alguns soldados do seu exército — que eram naturalmente mais fortes — desacordados, reuniu forças para fazer aquilo de novo, segurou no rosto daquele demônio com as duas mãos e respondeu de forma ameaçadora:
— Exatamente o que eu vou fazer com você agora.
Em seguida, Mia se concentrou e lançou um olhar raivoso na direção do demônio, que gritou à medida que sentia uma dor excruciante se espalhando por sua alma corrompida. Logo, uma luz alaranjada emanou de seus olhos e boca e, quando Mia finalmente o soltou, o demônio caiu morto no chão.
Mia não podia negar que estava, de certa forma, feliz por saber que o seu poder contra anjos também tinha efeito em demônios, matando os mais fracos e deixando os mais fortes inconscientes. Por outro lado, Mia sabia muito bem que era apenas uma questão de tempo para que Crowley e os demônios do seu exército se recuperassem e fossem atrás dela de novo.
Uma parte de Mia queria que aquilo acontecesse de uma vez. Queria ser encontrada, queria retomar a confiança no Rei do Inferno. Mas, a outra parte, só pensava em continuar com aquela fuga.
Sem saber para onde exatamente fugir, muito menos se iria muito longe com isso, Mia correu pela capela e se escondeu na antiga sacristia do lugar. Confusa e em pânico, ela girou em volta de si mesma e passou as mãos pelo rosto e pelos cabelos, tentando pensar em uma saída para aquela situação. Mas era difícil, já que ela nem mesmo entendia por que tinha sonhado com aquele lugar e por que tinha ido até ali.
Naquele momento, dada à confusão que estava a sua cabeça, Mia não podia imaginar, mas foi naquela capela que Sam tentou purificar a alma de Crowley, há quase dois anos, para assim completar os testes que fechariam os portões do Inferno.
Mia também não podia imaginar, mas à pedido de Dean, Sam desistiu de fazer aquilo na última hora, já que prosseguir iria acarretar em sua morte.
E Mia também não podia imaginar, mas na época, ela havia sonhado com aquilo, tido uma premonição, visto aquele lugar em seu sonho, tinha tentado chegar lá, mas havia parado no meio do caminho, quando os anjos começaram a cair do céu.
Por algum motivo que Mia não conseguia explicar para si mesma, no meio de todo o pânico que sentia, ela se pegou pensando em Castiel e em tudo o que ele lhe disse.
Depois de travar uma luta interna consigo mesma e admitir que tinha ficado mexida com as coisas que o anjo havia dito, Mia entendeu que, naquele momento, Castiel era o único que poderia ajudá-la a sair daquela situação ou, pelo menos, entender o que exatamente estava acontecendo com ela.
Sendo assim, depois de pegar um canivete que mantinha escondido dentro da bota e fazer um corte em sua mão, Mia abafou um grito de dor e começou a desenhar um sigilo enoquiano na porta da sacristia com o seu próprio sangue. Sem se lembrar de onde e com quem tinha aprendido aquele símbolo em específico, Mia terminou o desenho e se posicionou ao lado da porta.
Enquanto apertava a mão ferida, para conter o sangramento, ela fechou os olhos com força, tentando se convencer de que aquela era mesmo a única saída. Depois de perceber que não tinha mesmo outra escolha, Mia abriu os olhos, respirou fundo e, ainda à contragosto, começou a rezar:
— Eu sei que, de alguma forma, eu estou escondida de todos os anjos, mas... Eu aposto que se eu te chamar, você vai saber exatamente onde eu estou. Você não pode me encontrar, a menos que eu permita isso. — sentindo-se meio ridícula por estar falando sozinha, Mia respirou fundo, hesitou mais um pouco, mas por fim, chamou: — Então... Venha até mim... Castiel. Venha agora. Eu estou permitindo que você me encontre.
Um longo momento de silêncio se instalou na sacristia e Mia sentiu-se ainda mais ridícula. Estava claro que ela tinha se enganado e que aquilo era patético. Frustrada, ela olhou tudo em volta e estava pronta para deixar o lugar e continuar sua fuga até onde desse, quando um farfalhar de asas ecoou pelo recinto e lhe causou um leve sobressalto.
Automaticamente, a garota olhou na direção de onde o barulho parecia se concentrar e se deparou com o anjo de sobretudo, a cerca de cinco metros dela. Seus olhares se encontraram e, por um momento, o tempo pareceu parar.
Sem saber o que estava sentindo exatamente, a antiga caçadora permaneceu no mais absoluto silêncio e imóvel, sem saber o que fazer, sem saber o que pretendia com aquilo. Por que ela tinha feito aquilo, afinal? Por que tinha chamado Castiel, quando deveria voltar para Crowley e se desculpar por aquela fuga descabida?
— Mia. — murmurou o anjo, visivelmente confuso, mas feliz por ter ouvido aquele chamado.
No entanto, quando ele deu um passo à frente, fazendo menção de caminhar até ela, a garota finalmente despertou daquela espécie de transe, aproximou a mão ensanguentada do sigilo enoquiano na porta e ordenou:
— Não se aproxime! Fique bem aí, bonitão!
Imediatamente, Castiel deteve o passo e a encarou confuso. Mia engoliu em seco, também muito confusa.
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