Ascensão Infernal
27 Final
Notas iniciais
Era como se o tempo tivesse parado enquanto Castiel, Sam, Dean, Bobby e os outros anjos presentes na ilha encaravam estupefatos a figura de Gabriel em meio aos escombros do que antes foi o portal principal para o Inferno.
Por mais estranha e surpreendente que aquela situação fosse, Castiel queria no mínimo uma explicação plausível para o que estava bem diante dos seus olhos. E ciente de que não era apenas ele que ansiava por isso, o anjo fez um esforço para despertar daquele estado de inércia no qual se encontrava até então e lembrou intrigado:
— Você morreu.
— Por favor! — Gabriel deu um tapinha no ar e, olhando para o anjo de sobretudo e os caçadores diante de si, articulou: — Com exceção dos nossos irmãos presentes aqui, todos vocês já passaram para o outro lado em algum momento. Ou em vários, na verdade. Então vamos deixar esse papo de "Nossa! Você estava morto!" para os fracos, tudo bem?
Gabriel não notou, mas os demais anjos não pareceram gostar muito do que ele falou. Mesmo assim, permaneceram em silêncio, trocando apenas olhares intrigados e prestando atenção quando Castiel tornou a se pronunciar:
— Então... Você voltou? Da morte?
O arcanjo esboçou um breve sorriso zombeteiro e confirmou:
— Isso mesmo, Sherlock. Eu não posso negar que senti falta da sua astúcia.
— Como? — Desta vez foi Sam quem se manifestou, mantendo o foco da conversa e atraindo imediatamente a atenção de Gabriel para si.
— Sam! Nossa, como eu senti a sua falta! — o arcanjo exclamou empolgado. — Você sabe que dentre todos você é e sempre será o meu babaca favorito, não sabe?
— Ele te fez uma pergunta — lembrou Dean, duramente e com uma desconfiança palpável no olhar semicerrado que sustentava na direção do arcanjo.
— Como você voltou da morte, princesa? — reiterou Bobby, impaciente e igualmente desconfiado.
Achando aquelas posturas defensivas totalmente desnecessárias, Gabriel relaxou o corpo, revirou os olhos e explicou com certo tédio na voz:
— Olha, eu realmente morri. Lucy chutou o meu traseiro naquela fatídica noite de verão e eu acordei do outro lado do véu, numa espécie de limbo sobrenatural. — Vendo Castiel franzir o cenho, visivelmente surpreso como os demais anjos ali, o arcanjo confirmou: — Isso mesmo. Não são apenas os humanos e os cães que vão para o céu, aparentemente nosso ausente e estimado papai também criou um pedaço de paraíso para os anjos. E era lá que eu estava desde que dei o meu último suspiro, aguentando as reclamações de Zacarias, Rafael e tantos outros idiotas alados que foram despachados para lá, geralmente por vocês, até que...
Quando Gabriel parou de falar de repente, Castiel estreitou o olhar em sua direção e inquiriu:
— Até que?
Após um instante de hesitação, o arcanjo abriu os braços e concluiu:
— Até que eu não estava mais lá. Eu voltei. Simples assim. Sem explicação aparente e num belo dia de sol escaldante, eu acordei no meio do deserto do Atacama, completamente... Nu. O que não foi muito interessante. Mesmo para mim que adoro ficar nu nas horas vagas. Vocês sabem, toda aquela história dos pornôs, Casa Erótica, meus talentos...
Ao ouvir essas últimas palavras, Dean revirou os olhos e manteve o foco no que realmente interessava:
— E quando foi que você voltou?
Depois de encarar todos eles por alguns instantes, temendo que ninguém gostasse da resposta, Gabriel contou:
— Há cerca de... Um ano, eu acho.
Enquanto Bobby se lembrava que também foi há um ano que ele voltou do mundo dos mortos e se perguntava se havia alguma ligação com o retorno do arcanjo, Castiel encarou o irmão duramente e questionou nem um pouco satisfeito:
— Você voltou há um ano e só agora resolveu aparecer?
Antes que Gabriel dissesse algo em sua defesa, Dean ironizou:
— Obrigado pela pronta ajuda, idiota.
— Não por isso, imbecil — o arcanjo rebateu, indicando tudo em volta como quem diz "eu acabei de ajudar, vocês não viram?"
— A ajuda veio um pouco tarde, você não acha? — retrucou o Winchester mais novo, lembrando-se de cada problema que eles enfrentaram nos últimos tempos e em como a interferência de um arcanjo poderoso como Gabriel poderia ter evitado tantos sofrimentos e complicações.
— É como diz aquele ditado, antes tarde do que mais tarde — filosofou o arcanjo, pouco importando se não era bem isso que o ditado dizia. — Olha — recomeçou, erguendo as mãos na altura do peito —, vocês estavam se saindo bem. Sério, eu estava acreditando em vocês, apostando minhas fichas em vocês, assistindo tudo de camarote e torcendo até o fim. Mas... quando eu vi que o buraco era mais embaixo e que vocês precisavam de uma forcinha para sair dele eu apareci, não apareci? Eu ajudei, certo? Eu parei toda essa coisa de ascensão infernal, não parei? Então... De nada.
Tais palavras fizeram todos ali saírem um pouco da defensiva e admitirem silenciosamente que sem Gabriel, eles não teriam mesmo conseguido fechar o portal do inferno e impedir que mais demônios, que todos os demônios, na verdade, escapassem das profundezas da Terra.
De um jeito torto e meio irresponsável, Gabriel tinha ajudado sim. Ele tinha feito a diferença no final.
Contudo, não era só isso que se passava na cabeça de Castiel naquele momento. A palavra nada, pronunciada pelo arcanjo, tinha o feito se lembrar de Mia imediatamente. E ele sabia que estava na hora de encará-la e acertar as coisas. Conversar. Tentar pelo menos. Mas ao mesmo tempo, ainda queria entender certas coisas sobre o retorno de Gabriel e por isso recomeçou:
— Por onde você esteve esse tempo todo?
Meio evasivo, o arcanjo respondeu:
— Oh... Você sabe, aqui e ali. — Diante de uma nova e mais insatisfeita expressão do anjo de sobretudo, ele soltou o ar com força e resumiu: — Olha, eu morri, eu voltei e finalmente assisti Downton Abbey. — Mas diante dos olhares insatisfeitos dos demais anjos e também dos caçadores, ele resolveu falar sério de uma vez: — Vocês me conhecem, eu não gosto de me envolver em brigas, mas eu vim quando vi que o caldo tinha entornado. Está tudo bem agora, o mundo pode respirar de novo e vocês podem arrumar o resto da bagunça, eu tenho certeza. Eu continuo acreditando em vocês, portanto não me desapontem desta vez, queridos amigos. E boa sorte com as garotas, algo me diz que vocês vão precisar.
Então o arcanjo moveu as sobrancelhas divertidamente e estalou os dedos, levando Castiel a dar um passo a frente e dizer atônito:
— Gabriel, não! Espere!
Mas já era tarde demais, ele havia voltado para sabe-se lá onde depois de curar os ferimentos de batalha dos Winchester, Bobby, Castiel e dos outros anjos e os enviar de volta ao hotel. Tudo isso com aquele simples estalar de dedos.
— O cara ganha uma segunda chance e continua sendo um idiota brincalhão. Eu nunca vou entender certas coisas — refletiu Dean, assim que se recuperou do teletransporte até o hall do hotel e vendo que os outros também tinham sido enviados para lá.
— Idiota ou não, ele nos ajudou — argumentou Sam, ao seu lado e também se recompondo daquela sensação desconfortável da viagem.
— Vocês acham que... A mesma coisa que me trouxe de volta chutou o Gabriel para esse lado também? — Bobby finalmente teve coragem de fazer a pergunta que não saiu de sua mente desde que o arcanjo relatou o seu misterioso retorno.
— Você quer dizer Deus? — indagou Castiel que não tinha dúvidas sobre a ressurreição milagrosa do velho caçador ter sido orquestrada pelo ser superior, já que na época havia sentido uma energia divina quando ele despencou no meio da sala do bunker.
Bobby não chegou a responder pois antes que ele sequer abrisse a boca, um pigarro foi ouvido, fazendo os quatro e os outros anjos olharem na direção de uma escada que levava aos quartos.
No topo dela, Mia estava parada, com as mãos apoiadas no corrimão, encarando Castiel duramente, embora também houvesse uma nuance de alívio em seu olhar, afinal ele havia voltado são e salvo. Uma parte de si se alegrava por isso inevitavelmente.
Claire e Natalie estavam logo atrás dela, com Hannah e outros dois anjos, e também fitavam os maridos da mesma forma.
Ao verem as respectivas esposas ali, tudo o que Castiel, Sam e Dean vivenciaram na ilha vulcânica perdeu a importância e eles entenderam que agora estavam diante de uma nova batalha. Talvez uma ainda mais difícil e complicada. Talvez uma que eles não poderiam vencer, mesmo se tivessem uma ajuda milagrosa, o que com certeza não teriam.
— Eu presumo que tudo deu certo no final, não foi? — deduziu Mia com uma voz firme, intransigente e o olhar fixo no anjo de sobretudo.
Enquanto os outros anjos que lutaram na ilha se afastavam e deixavam aquela área do hotel pouco a pouco, Castiel deu um passo em direção à escada e começou:
— Mia...
— Eu te fiz uma pergunta. Responda — ela o cortou, seca e num tom mais alto de voz, fazendo o anjo parar e sentir toda a tensão que pairava no ar.
Sem outra escolha e preferindo ignorar naquele momento as centenas de demônios que escaparam pelo portal, Castiel respondeu:
— Eu acho que posso dizer que sim. Houve complicações, como sempre, mas de uma forma geral, deu tudo certo. Quase tudo. O que não deu, nós iremos consertar. Como sempre fazemos também.
Depois de ponderar tais palavras, piscar algumas vezes e olhar para cima a fim de conter a ardência úmida em seus olhos, Mia engoliu o nó que se formou em sua garganta, tornou a fitar o anjo e disse:
— Que bom. Pelo menos valeu a pena mentir para mim e me prender em um sonho estúpido, não é?
— Mia... — Castiel voltou a se pronunciar, subindo um degrau.
Entretanto, a garota lhe deu as costas imediatamente, anulando qualquer possibilidade de diálogo, encarou Hannah com um olhar suplicante e pediu:
— Por favor, me tira daqui. Eu quero ir embora. Qualquer lugar.
Pela primeira vez, a anjo não pensou duas vezes, tampouco se importou com o que Castiel pensaria. Simplesmente tocou a testa da garota com o dedo indicador e o médio, a enviando de volta aos Estados Unidos, mais precisamente para o ferro velho de Bobby Singer.
Assim que Mia desapareceu dali, Castiel inclinou a cabeça e estreitou o olhar na direção de Hannah com surpresa, a levando a se justificar:
— Sinto muito, mas você mereceu.
Enquanto o anjo assimilava tal resposta, Sam, que não tinha tirado os olhos de Claire desde então, conteve a aflição que sentia e lhe disse:
— Eu posso explicar.
Depois de encará-lo por alguns instantes com visível desapontamento e mágoa, a filha de Bobby Singer dispensou sem qualquer ânimo:
— Agora não, Sam. Talvez em outro momento.
Antes que o caçador dissesse qualquer coisa para convencê-la a pelo menos ouvi-lo, Claire voltou-se para Hannah e lhe fez um pedido silencioso, sem palavras ditas, mas prontamente entendido pela anjo que assentiu, também tocou em sua testa e a enviou para o mesmo lugar da primeira caçadora.
Em seguida, foi a vez de Dean olhar para Natalie, engolir em seco e arriscar:
— Baby?
A loira lhe lançou um olhar repleto de mágoa e raiva, balançou a cabeça negativamente e redarguiu firme:
— Não me chame desse jeito, Dean. Nunca mais.
Assim que Natalie olhou para Hannah, esta entendeu o seu pedido também e enviou a caçadora para o ferro velho. Em seguida, ela olhou para Castiel e articulou:
— Você não pode localizar a Mia porque ela tem certa imunidade aos poderes celestiais, mas eu sei que se quiser, você pode localizar as outras duas e chegar até ela. Bem, eu te aconselho a não fazer isso. Nenhum de vocês. Não agora, pelo menos. Elas precisam de um tempo.
— Por que você está fazendo isso? — questionou o anjo, confuso com a postura da amiga.
Imediatamente, Hannah se explicou:
— Porque eu estava aqui quando você não estava, Castiel. — Olhando rapidamente para Sam, Dean e Bobby, corrigiu: — Quando nenhum de vocês estavam. — E após hesitar um pouco, ela tornou a olhar para o anjo e opinou: — Eu não sei se foi mesmo certo deixá-las presas aqui desta forma. Talvez nós tenhamos errado.
Tanto Castiel quanto os caçadores ficaram pensativos diante dessas palavras. E ainda refletiam sobre o que haviam feito e pensavam nas possíveis consequências de suas escolhas e seus atos, quando Hannah indagou:
— Então... O que nós vamos fazer agora?
Por mais que lhe custasse, Castiel entendeu que naquele momento realmente não podia ir atrás de Mia. A caçadora precisava de um tempo e ele precisava organizar a bagunça deixada pela ascensão infernal. Ele não podia localizar cada demônio libertado, tampouco mandá-los de volta para o Inferno, mas alguma coisa ele podia fazer. E faria. Faria o que estivesse ao seu alcance naquele momento.
Sendo assim, ele respondeu:
— Vamos curar os possíveis feridos, apagar a memória daqueles que viram coisas inexplicáveis hoje e colocar esse lugar em ordem. Depois você e os outros anjos voltarão para o Céu e nós pensaremos em uma forma de consertar o resto.
Hannah assentiu com um meneio de cabeça e desapareceu com os dois anjos que estavam ao seu lado até então, deixando o farfalhar de asas para trás, ecoando por cada canto do hall até se dissipar completamente no ar.
O silêncio não durou muito, já que tentando se convencer de que era melhor dar espaço para Natalie naquele momento e querendo se manter ocupado enquanto isso, Dean se ofereceu:
— Cas, nós podemos ajudar.
— Não — discordou o anjo imediatamente, afastando-se da escada, caminhando e parando diante dos três. — Vocês já fizeram muito por hoje. Vão para casa, descansem um pouco e depois... — Castiel hesitou ao pensar em Mia e imaginando como Sam e Dean estavam se sentindo em relação à Natalie e Claire. — Depois procurem algo para caçar, um novo caso, salvem pessoas. Vocês sabem, o tal negócio da família — orientou com um olhar meio perdido.
Ao perceber que Dean ia protestar e provavelmente insistir, ele tocou o seu ombro e o enviou de volta ao bunker sem lhe dar chance de retrucar. Em seguida, o anjo tocou os ombros de Sam e Bobby ao mesmo tempo e, antes de mandá-los para lá também, encerrou:
— Eu mantenho contato.
Sozinho no hotel, Castiel olhou tudo em volta com tristeza. Não era aquele final que ele havia imaginado. Mas por outro lado, o que ele esperava que fosse acontecer?
Mia já tinha deixado bem claro que se ele seguisse com o tal plano, ela não o perdoaria. E Castiel não voltou atrás em sua decisão, então ele sabia que as coisas terminariam assim entre os dois. Sabia e mesmo assim arriscou. E agora teria que pagar o preço por isso. Não sem lutar um pouco, pelo menos.
De qualquer forma, ele não podia pensar nisso agora. Hannah estava certa afinal. Mia precisava de distância dele naquele momento. E Castiel lhe daria isso. Por ora e por mais que doesse.
Fora a situação complicada e talvez definitiva com a garota, Castiel não tinha conseguido matar Crowley nem impedir a ascensão infernal. Claro que poderia ter sido pior, mas graças a Gabriel não houve tempo dos portais espalhados pelo mundo se abrirem também.
Numa projeção matemática, apenas 10% dos demônios tinham conseguido escapar do Inferno. Mesmo assim, era 10% de demônios. O suficiente para trazer muito sofrimento à humanidade.
Pelo menos Sawyer havia partido dessa para uma pior. Junto com o seu exército maldito. Um problema a menos e um pouco de justiça.
Ao refletir sobre isso, Castiel se lembrou imediatamente de algo que havia tomado do demônio, algo que não lhe pertencia, algo que estava no bolso do seu sobretudo.
Lentamente, Castiel retirou o colar de Mia dali e o observou por um bom tempo. Lembrou de quando lhe deu o colar, como um presente de aniversário, mas também como algo maior do que isso. Era um símbolo do que eles tinham, da conexão, do sentimento, do amor. De tudo. De tudo que Castiel não queria que estivesse perdido para sempre.
Com o mesmo cuidado, ele guardou o colar de volta no bolso e prometeu para si mesmo que iria devolvê-lo para a dona assim que possível. E prometeu também que, por mais que não merecesse uma nova chance, iria lutar por isso. Ele iria fazer de tudo para consertar as coisas com Mia.
Com essa decisão consolidada dentro de si, Castiel deixou o hotel e o farfalhar de asas ficou para trás.
Durante o resto do dia, ele se empenhou em colocar cada ilha daquele arquipélago em ordem, apagando memórias e evidências, curando pessoas que haviam se ferido durante a confusão causada pela misteriosa e abrupta sequência de terremotos, lidando com as cinzas daquele dia e reunindo esperança para os próximos que virão.
Continua...
Fale com o autor