Ascensão Infernal
11 Abstinência e Tortura
Notas iniciais
Os últimos raios de sol entravam pela janela do quarto do hotel, onde Mia estava hospedada desde que saiu de Waterville às pressas, fugindo do anjo Castiel e dos caçadores que pareciam estar com ele.
Em dado momento, a antiga caçadora e agora pupila do Rei do Inferno acordou assustada e se sentou na cama com o coração acelerado, a respiração entrecortada e o rosto ligeiramente suado.
Incapaz de entender o sonho bizarro que havia tido, Mia passou os olhos pelo quarto parcialmente escuro e teve um sobressalto quando viu um homem apoiado na porta do recinto. Instintivamente, ela levou uma das mãos ao coração ainda mais disparado diante daquela imagem.
— Credo! O que você está fazendo parado aí, assombração? Tentando me matar de susto? — reclamou, reconhecendo um dos soldados de Crowley.
Depois de dar alguns passos e parar no centro do quarto, próximo à cama, o demônio a fitou seriamente e respondeu:
— O Rei ordenou que eu ficasse de olho em você.
— Típico. — resmungou Mia visivelmente insatisfeita, afinal ela odiava que Crowley colocasse os seus cães de guarda para vigiá-la, sob a alegação de que ele estava cuidando da sua segurança. — E? — indagou impaciente e confusa, já que não achava que estava em perigo naquele quarto.
— Você dormiu por horas. Muitas horas. — relatou o demônio, que se chamava Sawyer e tinha possuído um homem loiro, forte e de aproximadamente trinta anos. — Então, eu achei melhor vim ver como você estava. — completou, enquanto a fitava com certa desconfiança.
— Eu estou ótima. — assegurou Mia. — Agora some da minha frente. — ordenou rispidamente.
Ignorando aquela ordem, Sawyer questionou:
— Por acaso você não estava tendo um pesadelo, estava? Porque o sangue do Rei do Inferno deveria evitar que isso aconteça e ele esteve aqui pela manhã, conversou com você, então...
Na verdade, não era bem o sangue de Crowley que impedia que Mia tivesse os pesadelos horríveis que ela costumava ter antigamente, mas sim o feitiço que o Rei do Inferno havia feito, há quatro meses, e que impedia que ela tivesse aqueles sonhos novamente. As doses de sangue que Crowley dava regularmente para Mia eram importantes porque mantinham o tal feitiço sob controle.
Claro que ela não sabia disso e bebia o sangue apenas porque Crowley dizia que aquilo a deixaria mais forte e preparada para o dia em que eles finalmente fossem quebrar o selo que faria os portais do Inferno se abrirem.
Mia, que se lembrava de ter muitos pesadelos antes de conhecer Crowley, tinha ficado profundamente aliviada, quando parou de ser atormentada por tais sonhos, cujos significados nunca entendeu direito.
O silêncio no quarto se estendia de um jeito incômodo, até que Mia percebeu que Sawyer queria uma confirmação, pois estava desconfiado do comportamento dela quando despertou afoita e assustada.
Então, lembrando-se do sangue que derramou na pia depois que Crowley foi embora, Mia mentiu:
— Eu tomei a minha dose, não se preocupe.
O demônio a observou atentamente por algum tempo e, ainda desconfiado, indagou:
— Então com o que você estava sonhando?
Mia engoliu em seco ao se lembrar do pesadelo horrível que teve há alguns minutos, no qual ela se via com uma enorme barriga diante de um berço delicado com um lençol cor de rosa. Era o pesadelo mais perturbador que Mia já havia tido — pelo menos, que ela se lembrava — e parecia incrivelmente real. Era como se fosse real, mas... Em outro tempo, em outra vida, com outra Mia.
Confusa e apavorada, ela resolveu mentir mais uma vez e respondeu de um jeito ameaçador com o olhar fixo em Sawyer:
— Eu sonhei que estava matando você. Lentamente. Foi tão divertido que eu estou tentada a experimentar a sensação na vida real. O que você me diz? Eu posso te amarrar em uma cadeira e te torturar por algumas horas antes do grande golpe final.
Sem se intimidar com aquelas palavras, Sawyer deu mais alguns passos, sentou na cama e apoiou as mãos em volta do corpo da garota. Em seguida, com um olhar e um sorriso significativos estampados no rosto, ele insinuou sem qualquer pudor:
— Se você quer se divertir comigo, Mia, por que não me amarra nesta cama mesmo? Nós podemos nos divertir juntos e de uma forma bem mais interessante do que tortura.
Esboçando um sorriso amarelo, a garota se aproximou do demônio, até a sua boca quase encostar na dele, depois desviou estrategicamente, aproximou os lábios da orelha de Sawyer e, lembrando das inúmeras investidas dele desde que o conheceu, sussurrou:
— Eu já disse, porque você não faz o meu tipo.
Em seguida e com agilidade, Mia se desvencilhou do demônio, levantou da cama e começou a caminhar na direção do banheiro, pensando em tomar um banho. Mas, deteve o passo quando ouviu uma pergunta:
— E qual é o seu tipo, Mia?
Automaticamente, ela se fez a mesma pergunta. E por algum motivo que não sabia explicar para si mesma, acabou lembrando de Castiel.
Depois de sacudir a cabeça levemente, afastando tal pensamento, Mia olhou na direção de Sawyer e desconversou seca:
— Certamente, não é você. Agora saia do meu quarto. Eu não vou pedir de novo.
Em seguida, a garota seguiu até o banheiro, entrou e trancou a porta. O efeito da abstinência do sangue de Crowley, que ela tanto lutou para disfarçar na frente de Sawyer, veio à tona com força total e Mia deixou-se cair sentada no chão, com as costas apoiadas na porta, enquanto o seu coração batia acelerado, sua cabeça doía e a sua garganta ficava cada vez mais seca.
Por um momento, Mia se arrependeu amargamente de ter dispensado a dose oferecida pelo Rei do Inferno naquela manhã, mas por outro, a sensação de que ele não estava sendo 100% honesto com ela se confirmava a cada instante. Crowley nunca lhe disse, por exemplo, que se ela parasse de beber o sangue, se sentiria daquele jeito. Não lhe falou nada sobre efeitos colaterais e não a alertou sobre o desconforto que poderia sentir caso se privasse daquilo.
Mia não queria duvidar de Crowley, não queria se importar tanto com a possível morte de Ric, afinal quando o Inferno ascendesse, uma vida a mais, uma vida a menos não faria a menor diferença. Mas, a ideia de que Crowley estava mentindo e a manipulando de alguma forma não lhe agradava nem um pouco.
Além disso, e por mais que não quisesse admitir, Mia tinha ficado realmente mexida em relação ao maldito anjo que a encurralou no toalete daquele bar em Waterville. As coisas que Castiel lhe disse, a forma como a olhou, o beijo... Foi como se um parte dela tivesse o reconhecido. Como se uma parte dela lutasse para vir à tona desde então.
Disposta a entender por que se sentia assim e confirmar se podia ou não confiar no Rei do Inferno, Mia levantou do chão, reuniu forças para lutar contra aquela sensação desesperadora que a abstinência lhe causava, se despiu e entrou no chuveiro.
Enquanto a água morna escorria pelo seu corpo, ela se convenceu de que para não levantar qualquer suspeita, continuaria seguindo com o determinado por Crowley.
Mia iria continuar buscando pactos para os demônios de encruzilhadas. E era estranho, mas enquanto uma parte de si gostava muito de ver aquelas pessoas burras e desesperadas selando pactos que ajudariam a quebrar o selo necessário para o Inferno ascender, a outra parte de Mia, uma parte que até pouco tempo ela desconhecia, se sentia enojada e sufocada por tudo aquilo.
Infelizmente, e apesar de ter rompido um pouco da influência de Crowley ao recusar aquela dose do seu sangue, ainda havia muito daquele sangue no corpo de Mia, o que fez o seu lado obscuro vencer aquele conflito interno e silenciar o seu lado humano com certa facilidade.
Dias depois
Foi com muito custo que Castiel se convenceu de que, por mais que as lembranças de Mia o fizessem sofrer, ele precisava ficar no bunker por algum tempo. Só assim ele conseguiria informações com a demônio Mandy, que Sam e Claire haviam capturado no bar de Waterville e prendido na masmorra do bunker. No entanto, os primeiros dias naquele lugar, cercado de memórias de Mia, não foram nem um pouco fáceis para o anjo.
Quando Dean voltou para o bunker, Castiel sentiu-se um pouco melhor, pois pelo menos o caçador entendia como ele se sentia, já que também estava sofrendo com o fim do relacionamento com Natalie.
Claro que Dean não tocava no assunto, nem fazia qualquer comentário sobre o reencontro com a ex. Mas não era preciso. Castiel o entendia. Assim como Dean entendia o silêncio do anjo, quando ele se pegava olhando para um lugar específico do bunker que lhe remetia a alguma lembrança de sua coelhinha viciada em café.
Só tinha um lugar do bunker que Castiel se recusava a ir: o quarto de Mia. As principais lembranças dela e dos dois estavam lá e o lugar estava repleto de pertences da caçadora, era impossível entrar ali. Castiel não conseguia. Não sem ela.
Naquele momento, o anjo estava em uma garagem subterrânea do bunker, onde carros antigos dos Homens das Letras se encontravam estacionados de forma alinhada. Eram veículos clássicos e muito bonitos, mas apenas um carro, no meio daqueles, chamava a atenção de Castiel: o Mustang de Mia.
Dias depois que a caçadora se rendeu ao Rei do Inferno, a única coisa que Castiel e os Winchester conseguiram localizar foi o carro que Mia tanto amava, abandonado nos arredores de Lawrence. E agora, o veículo parecia completamente incompleto sem ela.
Enquanto tocava suavemente na lataria do Mustang, Castiel era bombardeado por inúmeras lembranças de Mia. Algumas tristes, outras bem comuns, muitas românticas...
Sentindo a ausência dela o machucando profundamente, Castiel deu as costas para o veículo e começou a se afastar dali, convencido de que além do quarto, ele deveria evitar aquela parte do bunker também.
XXX
Enquanto isso, na masmorra, a demônio Mandy estava amarrada a uma cadeira, no centro de uma Chave de Salomão, enquanto Dean estava no lado oposto do lugar, diante de uma mesa com algumas garrafas cheias de água benta, facas contra demônios e recipientes contendo sal.
Depois de pegar uma das garrafas, Dean caminhou lentamente até a armadilha, encarou Mandy de um jeito sério e indagou de forma ameaçadora:
— Pronta para falar, coração?
Enquanto lançava um olhar raivoso na direção do caçador, a demônio respondeu entredentes:
— Eu já disse, eu não sei para onde a Mia iria depois de Waterville e não sei onde o Crowley está.
Depois de fazer um biquinho com os lábios e arquear as sobrancelhas, como se estivesse pensando sobre aquela resposta, Dean deu um passo a frente, segurou Mandy pelos cabelos, inclinando a sua cabeça para trás, e despejou uma quantidade significativa de água benta em sua garganta, a obrigando a engolir o líquido que a queimava por dentro e produzia uma fumaça esbranquiçada.
Depois de algum tempo, Dean finalmente afastou a garrafa da boca da demônio, que tossiu mais fumaça, e recomeçou:
— Vamos tentar de novo. Pronta para falar, coração?
Mandy ainda tossiu por um bom tempo e cuspiu parte da água benta que não havia engolido, antes de conseguir se pronunciar:
— Vai para o Inferno.
Depois de lhe lançar um sorriso amarelo, o Winchester retorquiu:
— Eu já fui. Duas vezes. Obrigado pela sugestão, mas eu achei o lugar péssimo e meio atrasado, sabe?
Em seguida, ele voltou a despejar mais água benta na garganta de Mandy, até que o farfalhar das asas de Castiel ecoou pela masmorra e o anjo disse firmemente:
— Dean, vai com calma. — e quando o caçador finalmente afastou a garrafa da boca de Mandy e olhou para trás, na direção de Castiel, este completou: — Você está indo longe demais.
Enquanto a demônio tossia compulsivamente e tentava se recuperar do efeito da água benta, Dean se afastou da Chave de Salomão e, enquanto voltava para a mesa no canto da masmorra, argumentou com certa frieza:
— Qual é, Cas? Foi você que disse que a única alma naquele corpo é a alma distorcida dessa vadia. — e depois de olhar para Mandy, lembrou: — E ela mesma assumiu que parou o coração da pobre mulher por pura diversão há algumas semanas. — depois de parar diante da mesa e pegar uma faca, Dean concluiu: — Então, eu não estou machucando ninguém que não mereça ser machucada e, portanto, vou fazer isso sem qualquer remorso.
Na sequência, ele pegou mais uma garrafa de água benta e se virou, disposto a continuar com aquela sessão de tortura, mas deteve o passo quando Castiel se posicionou na sua frente e o fitou seriamente.
Irritado com aquela postura, Dean respirou fundo e questionou:
— O que foi, Cas? Por acaso, você não quer encontrar a sua coelha? Trazê-la de volta de uma vez por todas e acabar com o Apocalipse Parte 2 antes que ele aconteça de fato? — antes que o anjo respondesse, o caçador se antecipou: — Então, a menos que você esteja preocupado com aquela vadia do inferno ali, saia da minha frente e me deixe fazer o meu trabalho.
— Ei! Também não precisa ofender! — zombou Mandy, dando claros indícios de que estava ouvindo a conversa dos dois.
Dean a fitou com ódio e em seguida voltou a olhar para Castiel. Como o anjo permaneceu imóvel e o encarando de um jeito ainda mais sério, o caçador fez menção de passar por ele de qualquer jeito. Mas então Castiel se moveu para o lado, ficando na frente dele novamente e, por fim, resolveu se pronunciar:
— Eu quero trazer a Mia de volta e quero impedir o Crowley, assim como você. Mas eu também estou preocupado, Dean. E não é com aquela vadia do inferno logo ali. — após uma breve pausa, Castiel insinuou: — Nós dois sabemos muito bem com quem eu estou preocupado. E eu sei que você não está agindo deste jeito apenas porque quer salvar a Mia e o mundo, Dean.
Finalmente entendendo aonde o anjo queria chegar com aquilo, o Winchester soltou um suspiro de irritação e retorquiu:
— Por acaso é pecado querer vingança pelo o que aconteceu com a Natalie?
Ao ver uma nuance de dor e culpa no olhar de Dean e percebendo que ele lutava para disfarçar aquilo, a expressão de Castiel se suavizou um pouco e ele respondeu:
— Não, Dean. Desde que isso não acabe com você.
— Eu estou ótimo. — assegurou o Winchester, incomodado com aquela conversa. — Eu estou totalmente bem, okay? — reforçou, alterando-se um pouco.
Em seguida, sem esperar que Castiel saísse do seu caminho, Dean passou por ele, esbarrando no seu ombro sem qualquer paciência.
Castiel o seguiu com o olhar e o observou, quando o caçador parou diante de Mandy, molhou a faca com um pouco da água benta e perguntou em tom ameaçador:
— Agora você está pronta para falar?
Enquanto olhava ora para ele, ora para Castiel, Mandy sorriu com deboche e rebateu:
— Depende. Vocês já terminaram de chorar pela falta de sorte no amor? — antes que Dean e Castiel dissessem qualquer coisa, a demônio resolveu provocá-los ainda mais: — Não é triste que dois casais tão bonitos tenham terminado assim? — e olhando especificamente para o anjo, completou: — No seu caso é ainda pior porque a insuportável da Mia nem sequer se lembra de você. Pior, ela se aliou ao seu pior inimigo. Por falar nisso, como que você se sente?
Após lançar um olhar mortal na direção de Mandy, Castiel pegou uma faca e um recipiente com sal sobre a mesa, se aproximou, se posicionou ao lado do caçador e falou:
— Tudo bem, Dean. Esquece o que eu disse antes. Vamos fazê-la falar.
Aos poucos, Mandy foi desmanchando o sorriso e, instantes depois, seus gritos começaram a ser ouvidos pela masmorra e pelo bunker. Mas, apesar de toda a tortura imposta por Dean e Castiel, ela permaneceu firme e não respondeu nenhuma pergunta do interrogatório.
Mandy sabia muito bem que se contasse qualquer coisa, ou seria morta ou exorcizada. Se fosse a segunda opção, com certeza Crowley iria atrás dela na primeira oportunidade para tirar satisfações e isso a apavorava.
Insistir naquele silêncio também podia acarretar em sua morte, mas qualquer coisa era melhor do que encarar o Rei do Inferno, depois de ter sido capturada pelo anjo e pelos caçadores que foram atrás de Mia. Ainda mais porque Mandy deveria ter evitado tal situação e não conseguiu.
Crowley não era o tipo de líder que admitia erros grotescos como aquele. E isso deixava a demônio ainda mais apavorada com a ideia de reencontrá-lo.
Mais tarde
Era madrugada, Sam estava na sala principal do bunker, sentado à mesa e folheando alguns livros antigos dos Homens das Letras, quando Claire desceu as escadas e se aproximou dizendo de um jeito suave:
— Ei... Está tarde. Você não vem para a cama?
Sam ergueu o olhar na direção da esposa, desviou rapidamente, mas em seguida voltou a sua atenção para ela mais uma vez, encantado com a bela mulher diante dos seus olhos.
Claire vestia uma camisola preta de seda, que caía muito bem em seu corpo cheio de curvas, estava com os cabelos soltos e caindo pelos seus ombros desnudos, e apesar da cara de sono, estava olhando para Sam com segundas intenções.
O caçador sorriu diante daquilo e, quando ela sentou ao seu lado, ele explicou:
— O Bobby precisa de ajuda com um caso.
— Meu pai te pedindo ajuda com um caso? Não costumava ser o contrário? — observou Claire, arqueando as sobrancelhas um tanto surpresa.
— Ele está em Sioux Falls com a Jody, caçando algo que eles ainda não sabem o que é, e o acervo sobrenatural está bem aqui, então acho que a situação se inverteu um pouco. — articulou o Winchester.
Depois de se recostar na cadeira e estreitar o olhar em um ponto qualquer da sala, Claire perguntou:
— Por falar nisso, quanto tempo faz que ele foi para Sioux Falls mesmo?
— Foi logo depois do casamento da Mia e do Cas. — lembrou o caçador.
— Quatro meses... — murmurou Claire, enquanto pensava um pouco. — Você acha que o meu pai e a Jody estão... Juntos? — indagou, voltando-se para o marido com um sorriso divertido nos lábios.
Depois de pensar um pouco, Sam respondeu:
— Eu acho que do jeito deles, os dois sempre estiveram. E, de alguma forma, sempre vão estar.
— Então eu não sei por que eles não assumem de uma vez. Eu ia gostar de ter a Jody como madrasta. — disse a caçadora, se divertindo ainda mais com aquilo. Mas em seguida, lembrando-se de outros casais, Claire desmanchou o sorriso e lamentou: — É uma pena que a Mia e o Cas estejam nesta situação tão complicada. E uma pena também que o Dean e a Natalie não tenham se entendido. Aliás, se a Mia estivesse aqui, com certeza, ela ia saber exatamente o que fazer para juntar os dois de novo. A Mia é indiscreta e inconveniente, mas eu tenho que admitir, ela tem o dom do cupido. Se um dia você me dispensar, eu vou correndo pedir a ajuda dela para te ter de volta.
— Se um dia eu te dispensar, um exorcismo resolve. — replicou o Winchester, sorrindo para Claire enquanto acariciava o seu rosto com uma das mãos.
Satisfeita com a resposta, Claire sorriu de volta, se aproximou e beijou Sam por alguns instantes. Em seguida, ela anunciou de um jeito sugestivo:
— Eu vou subir para o nosso quarto.
Entendendo muito bem o que ela quis dizer com aquilo, Sam se comprometeu:
— Eu não vou demorar.
— Que bom, porque eu vou te esperar acordada. — ressaltou Claire, o fitando profundamente.
— Não se preocupe, se por acaso você dormir, eu te acordo. — rebateu o Winchester, a fitando da mesma forma.
— Combinado. — assentiu Claire, antes de se aproximar mais um pouco e beijar o marido novamente. Desta vez, de um jeito mais intenso, profundo e desconcertante.
Momentos depois, quando se afastou e percebeu que Sam estava confuso e boquiaberto com aquele gesto, ela explicou com um sorriso no rosto:
— Só para o caso de você esquecer o caminho.
Em seguida, Claire se levantou e começou a se afastar. Sam a seguiu com o olhar, ainda desconcertado, e percebeu que ia ser muito difícil voltar a se concentrar na pesquisa que estava fazendo antes.
Mas isso perdeu completamente a importância, quando Claire sentiu um mal estar súbito, ficou zonza, tropeçou nas próprias pernas e apoiou-se no corrimão da escada para evitar uma queda. Quase no mesmo instante, Sam levantou rapidamente e foi até ela perguntando preocupado:
— Claire? O que houve? O que aconteceu? Você está bem?
— Sim... Eu estou bem. — respondeu a morena, embora ainda estivesse sentindo que a sala em volta estava girando, quando Sam se posicionou ao seu lado, apoiou uma das mãos em suas costas e segurou gentilmente em seu braço com a outra.
— Claire, você não está bem. Você está gelada. — constatou o caçador, diminuindo a distância entre eles. — E pálida.
Depois de passar as mãos pelo rosto, a morena articulou:
— Eu só fiquei um pouco tonta, mas já está passando.
— Tem certeza? — quis confirmar Sam, pouco convencido daquilo.
Claire assentiu afirmativamente com a cabeça, mas quando colocou o pé no primeiro degrau, a tontura voltou de um jeito mais forte e um suor frio se espalhou pelo seu corpo. Então, ela se apoiou melhor em Sam e admitiu:
— Não, você está certo, eu não estou bem.
— Eu sabia. O que você está sentindo? — recomeçou o Winchester, afastando algumas mechas de cabelo do rosto da esposa.
Fazendo um esforço para se recompor um pouco, Claire respondeu um tanto confusa:
— Eu não sei, eu estava bem, e de repente...
Sentindo uma nova onda de vertigem, a caçadora parou de falar, fechou os olhos por um instante e novamente se apoiou em Sam, que a segurou com firmeza e a chamou aflito:
— Claire?! O que foi?!
Fazendo outro esforço para se recompor e no fundo assustada com aquele súbito mal estar, ela sorriu para tranquilizar o marido e pediu:
— Ei, bonitão... Não me leve a mal, eu não estou tentando te seduzir, mas será que você poderia me ajudar a chegar no quarto?
— Claro. — assentiu Sam prontamente, e antes que Claire tentasse dar o próximo passo se apoiando nele, o caçador a pegou no colo e começou a subir a escada.
Antes de fechar os olhos, tomada por um sono inesperado, Claire sentiu Sam a colocando na cama com cuidado, a cobrindo com uma manta e se deitando bem perto dela.
Enquanto tudo em volta parecia girar e o sono a dominava a cada instante, Claire ouvia Sam lhe fazendo perguntas naquele mesmo tom preocupado de antes. Porém, ela não conseguiu reunir forças para responder. Ao invés disso, acabou adormecendo enquanto sentia o toque suave dele em seus cabelos.
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