Notas iniciais
Uhuuu! Minha vez! Na história eu interpreto Dain, um Filho de Hades. Espero que gostem do capítulo, e quero saber o que vocês pensam sobre ele!

Capítulo 3: Semideuses Livres

DAIN

Dei um passo para fora da sombra de uma árvore. A claridade faz meus olhos se fecharem um pouco, mas logo me ajusto. Lugares escuros são bem melhores. Realmente não entendo por que muitos preferem o sol à luz da lua.

Todos me encaram por um momento, mas logo param. A romana, Helena, é a que mais demora a desviar o olhar, mas por fim percebe e para de me encarar. Adoro deixar as pessoas constrangidas.

Na borda da clareira se sentam Rosalie (a líder do chalé de Afrodite), os pretores Hernandez e Helena, e por fim Ignis. Sinto meu irmão mais novo, Guilherme, andar pelas sombras até a clareira, mas como ele permanece nas sombras das árvores, não digo nada.

– Por que estão tão quietos? Isso aqui está parecendo um funeral… — Digo, provocando.

Ao ouvir esse comentário, Helena se encolheu um pouco, e Myrella desviou seu olhar para o chão.

–Talvez até seja a preparação para um — diz Ignis, se levantando. — Nós, filhos de Hécate, temos evoluído nossos poderes nos últimos anos… Para podermos nos proteger. Conhecimentos em Runas e na essência da natureza em si nos trouxe resultados ótimos, exuberantes…

–Só fale logo o que é, e pare com a enrolação — Disse Helena. Olhei rapidamente para ela; não esperava que alguém que parecera tão magoada segundos atrás fosse dizer algo de tal maneira.

“Deve ser por isso que é pretora” pensei.

–O que eu quero dizer — continuou Ignis. — É que esses estudos nos deram alguns “efeitos colaterais”. Alguns têm tanto conhecimento que conseguem manipular o mundo quase como que a sua vontade. Outros têm certas visões… Sobre o futuro, o presente ou o passado. Esse é o caso da minha irmã- Myrella. Ela esteve tendo inúmeras visões ultimamente, sobre o futuro… sobre o nosso futuro. Para começar, ela viu um monumento- uma escada.

– Nossa, grande ajuda… uma escada… — murmurou Helena, baixo mas não o bastante para nós não ouvirmos. Eu noto que Ignis fuzila ela com seu olhar, e não posso deixar de sentir certa raiva dela.

– Como eu dizia– Continuou Ignis, em um tom ameaçador. — Vários semideuses têm decidido viver livres, fora do Acampamento Meio-Sangue ou de Nova Roma. Todos nós sabemos que isso é extremamente arriscado e poucos sobrevivem. Existem dois problemas nisso. O primeiro é que os monstros que são atraídos estão ameaçando a vida dos mortais, e nosso mundo está perto de ser descoberto. O segundo é que eles se reuniram, e criaram a OSL: uma organização que visa “libertar” todos os semideuses, tirando eles dos Acampamentos. A escada, que foi motivo de deboche pela nossa convidada romana, representa a ascensão da OSL.

– Sua irmã não pode estar errada? — perguntou Helena.

– Nunca vi ela errar. Previa o que quisesse: se desejasse saber o que aconteceria se quebrasse um vaso, conseguia, e mesmo assim acabava quebrando ele.

Myrella, que até esse momento estava muito quieta, se levantou e silenciosamente correu até seu chalé. Pelo o que as sombras me diziam, ela não estava nada bem. Enquanto Ignis continuava com seu plano (ou sermão, ou os dois, como muitas outras vezes ao se dirigir à Helena). Como não tinha muita utilidade, resolvi deixá-los. Tinha coisas melhores para fazer.

Levantei e andei até a sombra de uma árvore. Antes de entrar, me virei, e vi que Ignis constantemente desviava o olhar em direção aos chalés. Sem pensar novamente, entrei na sombra.

Muitos não conhecem a sensação de andar pelas sombras. É bem simples: é frio, escuro, e você ouve vozes por todos os lados. Bem aconchegante mesmo. Me faz lembrar a casa de meu pai.

Saí dentro do Chalé de Hécate, de uma das paredes. Estava vazio; todos os acampantes estavam espalhados pelo Acampamento. Fui até a cama no canto mais escuro e lá a achei.

Estava sentada bem no canto, abraçando suas pernas, angustiada. Sentei no outro lado da cama. Acho que tem alguma regra que impede semideuses de entrarem no chalé de outros semideuses. Mas até parece que eu ligo para as regras.

– Saída dramática. Gostei. — sorrio para ela.

Ela levantou a cabeça, parecendo assustada.

– Não era pra você estar aqui.

Sério, juro que encarei ela profundamente. Tipo, eu entro lá e falo da saída dela, e ela só fala isso?!

Simplesmente sorri para ela, me segurando para não fazer algum comentário sarcástico, e disse:

– Se não quisesse que eu entrasse deveria ter acendido pelo menos algumas luzes por aqui. Desse jeito só me restaria a porta. E que meio chato de entrar seria…

– Prefiro o escuro. Me acalma, e geralmente consigo pensar direito. Só queria que aquela romana se calasse. Estou farta de tentar ajudar e todos me ignorarem. Cansei…

– Aquela reunião parecia ser importante… Tenho certeza que você tem algo de importante a falar lá. Vamos voltar.

E antes que ela pudesse me impedir, entrei em uma sombra, levando ela junto comigo. Em instantes estávamos de volta à clareira, e ela me fuzilava com seu olhar. Mas não sei se era totalmente pelo fato de eu ter trazido ela de volta até aqui.

– EI! Galera! Acredito que a Myrella tenha algo muito importante para dizer. Ah, e se todos pudessem ficar calados, seria ótimo.

Todos me olharam, surpresos. Inclusive a Myrella. Ela realmente não esperava por essa.

Dando um passo a frente, ela disse, brevemente:

– Nas minhas visões, muitas outras coisas, além da escada, aparecem — Até Ignis pareceu surpreso. — Eu tive outras também. Uma delas mostrava um exército de Monstros vindo para o Acampamento… E a outra mostrava o Acampamento em chamas.

Todos arregalaram os olhos. O Acampamento era o lar de muitos semideuses, e seria uma perda enorme para todos se ele queimasse até não sobrar nada. As pessoas na clareira começaram a discutir arduamente, sobre que rumo deveria ser tomado. Mas Myrella só olhava para o chão. Ainda tinha algo a dizer.

Dei um longo assovio para chamar a atenção de todos, e deixei com que Myrella continuasse.

– Uma última coisa: em minhas visões consegui ver que todos aqui, e até mesmo alguns outros, estarão envolvidos nesta história. Previ que… — Lágrimas começaram a cair de seus olhos e molhar a terra aos seus pés. Incrivelmente, flores começaram a brotar do chão, azuis e roxas. — Previ que um de nós, se não mais, irá morrer. Não sei quem ainda, mas esta foi a última coisa que vi.

Ela então se virou para mim e disse:

– Isso era tudo que eu tinha. Agora me deixe em paz, por favor.

Deixei ela ir embora, e voltei a atenção para a reunião. Não estava prestando atenção de verdade, e sim garantindo para mim mesmo que ela chegou em seu chalé sem problemas.

A esse ponto Gui já tinha se revelado. Meu irmão as vezes gosta de esperar o momento certo, mas isso é, na verdade, uma das características dos filhos de Hades. Logo que terminamos de discutir o rumo que seria tomado, Ignis se ausentou e foi procurar algo, não sei ao certo o que. Gui começou a conversar com a romana, e Rick ficava remexendo com alguns itens de metal. Provavelmente criando algo.

Me encostei em uma árvore e me pus a ouvir a conversa dos outros. Rosalie também estava fazendo isso, mas prestava mais atenção à conversa de Gui do que a de qualquer outro. Parecia saber para onde isso levaria.

Peguei somente pedaços da conversa. Não tinha muito o que pensar. Gui pediu para a romana escurecer o céu, então com suas nuvens a escuridão ficou muito confortável. Estava quase caindo no sono quando senti certa energia no ar. Meus cabelos começaram a ficar arrepiados, e pressenti que algo não estava certo. Gui então perguntou o que a aflingia tanto: se alguém havia morrido, e por isso Helena não gostava do Acampamento. A palavra morte foi a gota d’agua. Raios cercaram a filha de Júpiter, formando uma bola de energia ao seu redor. Gui se protegeu atrás de uma árvore, e eu fui pelas sombras até onde Ros e Rick estavam. Protegi a nós três com uma barreira de ossos. A barreira tremia quando raios a acertavam. Quando pararam de vez, desfiz a barreira e me encostei em uma árvore. Estava bem cansado, pois havia usado poderes várias vezes seguidas. Mas nada que um pouco de descanso não ajudasse.

Enquanto Gui acalmava Helena, eu senti uma outra presença passando pela clareira.

– Cara, eu me pergunto onde a Myrella está…

Rosalie disse algo sobre o chalé, Rick levantou seu olhar mas depois voltou a trabalhar, mas nada disso importava. A presença no meio da clareira havia parado, como se não quisesse ser descoberta.

Senti alguma coisa pressionando contra minha mente, pedindo para entrar. Com um pouco de esforço consegui ver duas cores vindas da presença: roxo e azul. Deixei entrar.

“Se você fizer eles me descobrirem, juro que acabo com a sua raça” eu ouvi ser dito dentro da minha mente. As palavras só apareciam la dentro, como se eu estivesse pensando, mas eram involuntárias. E eu sabia que não eram meus pensamentos pois vinham em uma voz bem conhecida.

“Calma, só passei perto. Ninguém desconfia. Mas afinal, onde está indo?” pensei de volta.

“Pensar um pouco. Preciso de um tempo longe daqui, de todos esses idiotas, que acham que eu não sirvo pra muito” ela me respondeu.

“Se precisar de ajuda, me chame” mandei de volta, e senti como se ela estivesse concordando mentalmente. Ela desapareceu por um tempo, e eu fui obrigado a ficar ouvindo a conversa entre Gui e Helena. A romana falava algo sobre Myrella não gostar dela.

“Não me surpreende, depois do que você disse” eu pensei.

Poucos segundos depois senti que algo corria pelo meio da clareira, e pude sentir seu desespero. Senti até onde ela ia, e depois fui para lá.

Fiquei esperando na porta do Chalé de Hécate por um bom tempo. Alguém, talvez Myrella ou Ignis, havia posto uma Runa na porta que me proibia de entrar. Quando Ignis finalmente saiu, indo para a Casa Grande para falar com Quíron, consegui reganhar a conexão mental com Myr.

“O que houve?”

“Eu e Ignis estamos fugindo” ela disse, estranhamente calma.

“Ok. Que horas que eu preciso estar pronto para partir com vocês?”

Ela pensou um pouco antes de dizer:

– Dentro de dez horas.

Notas finais
Valeu manos!