Ascensão dos Semideuses Livres
4 A Invasão - ladytyrell
Notas iniciais
Rosalie
Depois da reunião no Bunker 9, fui para o chalé ainda atordoada com as notícias. Não conseguia acreditar: a OSL novamente? Uma garota que matou o amor da sua vida não pode ter paz para se recuperar? Uma onda de raiva me invadiu e eu soquei o travesseiro com força. Respirei fundo, não podia me desesperar. Precisava tomar decisões e liderar... Mas primeiro, tinha que falar com Ignis.
O acampamento estava quieto, ou o mais quieto que ele poderia ficar. Olhei em volta, a fonte, o bosque, o refeitório, tudo aquilo era meu lar, não podia suportar a ideia de que fosse tudo destruído. Parei na frente do chalé de Hécate – provavelmente Ig estava lá. Bati na porta. Sem resposta. Ou ele não estava lá ou não queria me ver... a primeira opção era bem mais provável, então abri a porta para confirmar. É, ele realmente não estava lá.
Atravessei a área dos chalés até o bosque, o riacho era o segundo lugar que ele mais gostava de ficar, mas eu nunca entendi por que. Eu estava certa, encontrei-o sentado em uma pedra praticando algum tipo de magia. Aproximei-me devagar, da ultima vez que o interrompi durante um feitiço quase fiquei sem cabelo.
– Ig? Se eu chegar perto vou explodir? – dei uma risadinha.
– Hoje não, sente-se aqui. – ele respondeu entre risos.
– Precisamos preparar os semideuses para a invasão, quanto tempo acha que temos?
Ele hesitou um momento.
– Pouco menos de 24hrs.
– 24hrs?! Temos que agir rápido! – gritei espantada.
– Acalme-se Ros.
– NUNCA PEÇA CALMA UMA MULHER NERVOSA!
– Ok, não se acalme então.
Com esse comentário debochado me virei e corri de volta para o meu chalé. Por sorte encontrei Anna, e a pedi que reunisse todos os filhos de Afrodite imediatamente. Coloquei minhas roupas de batalha – uma túnica rosa claro para que a armadura não me machucasse e em vinte minutos depois uma dúzia de rostinhos bonitos me encaravam assustados.
– Queridos irmãos, hoje recebemos a noticia que a OSL se reorganizou para atacar o nosso lar. De acordo com fontes confiáveis temos cerca de 24hrs antes do ataque, então precisamos nos organizar rápido. Temos que mostrar que os filhos de Afrodite não são inúteis como muitos pensam: nós temos força. Para isso responsabilizo vocês por mobilizar o acampamento. Vão a cada chalé, em cada canto desse lugar e façam todos ficarem alertas, digam que todos estão sendo solicitados no refeitório. Esses filhos de Hera não vão nos pegar desprevenidos!
Com um clamor de aprovação, meus irmãos saíram agitados e se separando em pequenos grupos. Eles começaram pelos chalés, batendo de porta em porta para anunciar uma convocação no refeitório. Fui procurar à romana – se precisava organizar um exército ela era sem sombra de dúvida a mais apta para isso. Deduzi que ela estivesse na arena e corri o mais rápido possível para seu encontro.
Ela estava com Guilherme, o filho de Hades, treinando o estilo grego. Observei-os por alguns minutos, Gui tentava ensiná-la a lutar sem tantas regras, como um grego faria, mas sem sucesso. Ela insistia em usar técnicas e movimentos pré-ensaiados. “Não é atoa que eles conquistaram meio mundo, romanos têm uma disciplina que poderia apenas ser comparada com a de um espartano” pensei pigarreando para chamar a atenção do casal.
– Detesto interromper, mas temos um exército para organizar e você é o mais próximo que temos de uma líder, querida.
– Você tem razão, reúna seus semideuses! – ela respondeu sem se esforçar para responder o orgulho na voz.
– Estão todos no refeitório aguardando uma segunda ordem, me acompanhe.
Ao chegar lá nos deparamos com uma multidão de camisetas laranja, mas não havia a algazarra comum na hora das refeições, ouvia-se apenas um burburinho tenso que sessou-se assim que Helena e eu subimos no pequeno palco. Todos tinham os olhos pregados na pretora, que deu um passo a frente e começou a explicar a situação.
– Todos vocês conhecem a OSL, organização de semideuses que tentou invadir o acampamento no passado. Sabem também que eles fracassaram e se dissiparam. Relatos recentes afirmam que eles se reorganizaram e estão prestes a tentar nos invadir novamente. É dever de vocês proteger seu lar de quem quer destruí-lo, portanto armem-se e juntem suprimentos, pode ser que tenhamos que fugir ás pressas.
Ela começou a montar estratégias de guerra, dividindo os heróis em grupos de ataque, mas eu já não prestava mais atenção. Analisei as mesas abarrotadas de semideuses, verificando rosto por rosto, mas não encontrei Ignis, Myrella ou Dain. Outros tantos semideus que eu não lembrava o nome também não estavam ali, mesmo assim não pude deixar de me orgulhar dos meus irmãos: tinham feito um ótimo trabalho reunindo todos ali tão rápido.
Comecei a imaginar o que esses três poderiam estar fazendo, rezando silenciosamente para que estivessem bem quando ouvi uivos ao longe. Eles deviam ter demorado mais. Aqueles que já estavam armados – cerca de meia dúzia – correram para o topo da colina com armas em punho. A invasão começara.
Saquei a adaga que Ignis me dera e corri junto com o grupo. Ao chegar no topo da colina vi os lobos chegarem aos montes: dezenas dos maiores lobos que eu já vi. Suas cores variavam entre tons de branco e cinza a marrons... Seriam lindos se não estivessem prontos para matar.
Os heróis que me acompanhavam formaram uma fileira para tentar impedir a entrada das criaturas, unindo os escudos para segurar as investidas. Reconheci alguns rostos na fileira, dentre eles Nai, filho de Éolo, e Anna, minha companheira de chalé. Já havíamos matado muitos lobos quando Helena e os outros semideuses chegaram, mas esses demônios pareciam brotar do chão. Comecei a me perguntar onde a organização tinha conseguido esses lobos quando a resposta apareceu liderando um exército de semideuses, dentro de mantos azuis.
Thalia, minha pior inimiga, a Caçadora amaldiçoada que desertou, empunhava seu famoso e amedrontador escudo Aegis e uma nova lança carregada de estática. Com essa visão meu ódio e minha sede por sangue cresceram e os sons da batalha reverberaram no meu coração, me enchendo de energia.
Matei lobos e semideuses – qualquer um que estava entre mim e aquela figura repugnante. Mas quando estava quase chegando perto o bastante para lutar com ela um grito me chamou atenção. Três lobos encurralavam Anna contra uma árvore e ela tentava resistir, mas eu sabia que não conseguiria. Corri até ela abrindo caminho através da batalha, mas foi tarde demais... Vi um dos lobos saltando sobre ela e mordendo seu braço do escudo, os outros dois aproveitaram a deixa e atacaram. Um deles rasgou a garganta de Anna e ela só teve tempo de cravar a espada entre os olhos do que a atacou antes de cair inerte.
Só então parei para analisar a batalha, a OSL tinha quase o dobro do nosso número – em soldados e monstros – e estávamos cercados. Eles já tinham adentrado no acampamento e grossas colunas de fumaça subiam para o céu. Estava tudo em chamas. Ao meu redor várias lutas transcorriam e tudo que pude ver foram lampejos de bronze celestial de chocando e borrifos de sangue quando um golpe acertava o alvo. Ao longe vi Thalia lutando contra Helena, raio contra raio, e Gui protegendo sua retaguarda.
Dei-me conta da triste realidade: perdemos a batalha, o acampamento havia sido destruído e só tínhamos duas opções, fugir ou resistir até a morte.
–Semideuses! Não a mais nada que possamos fazer, fujam para qualquer lugar seguro que encontrarem! – gritei para que minha voz fosse ouvida sobre os clamores da batalha.
Aqueles que conseguiram me escutar viraram-se e correram, e os outros seguiram o exemplo. Mal acabei de pronunciar essas palavras e senti uma explosão de dor nas minhas costelas: um lobo me mordera. Enfiei a adaga no seu pescoço e ele caiu, mas a minha visão estava ficando turva. Corri para a floresta sem me preocupar com perseguição, sabia que ninguém viria atrás de mim. Encontrei uma caverna e me arrastei para dentro dela, agora toda a dor que tinha sido adiada pela a adrenalina ameaçava me sufocar.
Meu último pensamento antes de cair no sono foi querer sangrar até a morte, para que não tivesse que encarar a perda do meu lar, dos meus amigos e a dor de ser abandonada. Espero que Ignis, Dain e Myrella tenham uma ótima desculpa para justificar as próprias ausências. Depois, ficou tudo escuro.
Fale com o autor