Ascensão Infernal
21 Preparativos
Notas iniciais

Mia estava em seu quarto, colocando algumas peças de roupas mal dobradas e pertences pessoais dentro de uma bolsa de viagem, quando o farfalhar das asas de Castiel ecoou pelo recinto e uma leve brisa moveu uma mecha do seu cabelo.
De costas para o anjo, a caçadora fingiu que continuava sozinha, até que ele perguntou de um jeito cauteloso:
— Você ainda está chateada comigo?
Depois de pensar um pouco sobre a questão, Mia respondeu com ironia ainda sem olhar para Castiel:
— Por você ter ido ao Egito sem mim? Não, imagina.
Depois de observá-la socando algumas roupas dentro da bolsa e tentando fechar o zíper a todo custo, Castiel deu alguns passos em sua direção, segurou em seu braço de um jeito firme, porém gentil, fazendo a caçadora voltar-se em sua direção e fitá-lo um tanto aborrecida.
Em seguida, ele argumentou calmamente:
— Você pode não acreditar, mas eu só estava tentando te proteger.
Um tanto incrédula, Mia riu sem humor e zombou:
— Do que exatamente? De alguma múmia que podia voltar à vida e agarrar o meu pé? Oh, não... Lembrei! Talvez a naja que picou Cleópatra ainda esteja por lá, certo? Só esperando para dar o bote de novo.
— Você está sendo infantil — criticou Castiel, estreitando o seu olhar na direção da garota com insatisfação.
Imediatamente, Mia respirou fundo, fechou a cara, desviou do olhar do anjo, puxou o seu braço de volta e, embora desconfiasse que estava mesmo sendo um pouco imatura sobre aquilo, o orgulho não lhe permitia admitir que Castiel tinha razão. Pelo menos, não até ele esclarecer:
— Eu estava tentando te proteger do Crowley.
Ouvir tal nome fez o estômago de Mia embrulhar no mesmo instante e uma onda de raiva surgir e se espalhar pelo seu corpo.
Fazendo um esforço, e um pouco menos na defensiva, ela perguntou:
— Como assim?
Prontamente, o anjo explicou:
— Se o portal do Inferno estivesse localizado no Egito, ou nos outros lugares que eu fui depois de lá, então o Crowley poderia estar por perto também. E eu não podia arriscar, Mia. Eu não quero que ele chegue perto de você de novo, eu não quero que ele tenha a mínima chance de tentar qualquer coisa contra você, de sequer pensar nisso.
Após refletir um pouco sobre tudo o que ouviu, o resquício de raiva que Mia sentia por Castiel ter deixado-a de fora da viagem ao Egito se dissipou. Não tinha como ficar magoada, quando tudo o que ele fazia era pensando no bem estar dela.
Por outro lado, algo em todo aquele instinto protetor incomodava a caçadora, pois parecia que Castiel queria limitar as suas ações.
Sendo assim, ela expôs:
— Obrigada pela sua preocupação, mas eu não acho que tenha adiantado muita coisa, afinal, eu estou indo para o Triângulo das Bermudas de qualquer jeito, então... — de repente, Mia parou de falar ao notar algo no semblante do anjo. Ao deduzir o que ele tinha em mente, ela resolveu se adiantar, afirmando seriamente: — Eu vou com vocês.
Visivelmente frustrado, Castiel expôs:
— Eu pensei que pudesse te convencer do contrário.
— Pensou errado — afirmou Mia resoluta. Mas, sem querer discutir com ele, transformando aquilo em um problema maior do que de fato era, ela baixou a guarda, deu um passo na direção do anjo e articulou: — Olha, eu entendo por que você não me levou para o país dos faraós e não estou mais com raiva disso, okay? Você está certo, eu estava mesmo sendo infantil. Mas... Eu não posso e não vou ficar me escondendo do Crowley desta forma que você quer. Esta luta também é minha, Cas, então... Não me impeça de lutar.
Embora soubesse que não podia impedir Mia de fazer qualquer coisa, Castiel resolveu insistir mais um pouco:
— Todas as vezes que se encontrou com Crowley, você acabou morta, quase morta ou desmemoriada. Isso para não falar daquele acordo para ressuscitar a Claire e depois para recuperar a minha graça. Você ficou presa a esse acordo por meses, Mia, e no fim, acabou pagando o preço. Nós dois pagamos, aliás. Por tudo isso... Você não pode me julgar por estar preocupado agora e por não querer que vocês voltem a se encontrar.
Depois de ponderar os argumentos do anjo, Mia contrapôs:
— Eu já tirei tudo o que podia do Crowley. E ele tirou tudo o que podia de mim. Acabou, Cas. É o fim da linha — mas, percebendo que isso não era o suficiente para dissipar a preocupação dele, ela completou com determinação: — Eu não vou morrer, quase morrer, nem fazer outro acordo com ele ou perder a memória, porque a única coisa que eu vou fazer quando encontrar aquele desgraçado será matá-lo.
— Eu temo por isso também — confessou Castiel, pensativo.
Ao ouvir tais palavras, Mia franziu o cenho e questionou confusa:
— Por quê? Por acaso, você acha que o Crowley não merece morrer?
Prontamente, o anjo respondeu:
— O que eu acho é que você não é a pessoa mais indicada para fazer isso. Você está envolvida demais, com raiva demais, e pode acabar trocando os pés pelas mãos.
Apesar de sentir que Castiel tinha uma ponta de razão, Mia não conseguiu esconder certo desapontamento ao dizer com um suspiro:
— Obrigada pelo voto de confiança. Conta muito.
— Não se trata de confiança, Mia, mas... — começou a dizer o anjo, porém, na impossibilidade de fazer a garota entender como ele se sentia, Castiel achou melhor não insistir naquela questão, por ora, e mudou de assunto: — Não foi para isso que eu vim aqui. Eu vim porque... Quero te dar uma coisa.
Sentindo uma pontinha de curiosidade, Mia resolveu deixar o outro assunto para depois, cruzou os braços contra o peito e indagou:
— Que coisa?
Um pouco atrapalhado, Castiel procurou pelo tal objeto em um dos bolsos do sobretudo, até que retirou algo pequeno e metálico, que Mia viu de relance, mas não conseguiu distinguir o que era, pois antes que pudesse dar uma boa examinada, o anjo fechou a mão, escondendo o que quer que fosse entre os dedos.
Em seguida, ele ergueu o olhar na direção da garota e pediu um tanto sem jeito:
— Feche os olhos.
Mia arqueou uma sobrancelha e retorquiu desconfiada:
— Por quê? — mas, quando Castiel lhe lançou um olhar insistente, ela resolveu não discutir, respirou fundo e fechou os olhos de uma vez.
Em seguida, ela sentiu Castiel segurando a sua mão esquerda com cuidado, fazendo-a descruzar os braços automaticamente, e permitindo assim que ele levasse a sua mão para mais perto de si.
Confusa, Mia sentiu algo relativamente gelado deslizando por um de seus dedos, enquanto o anjo explicava:
— Desde que te reencontrei naquele bar, eu notei que você não estava mais usando a aliança do nosso casamento. Com certeza, Crowley a retirou do seu dedo antes de apagar as suas lembranças de mim, de tudo, com aquele maldito feitiço. Um dia, em breve, eu pretendo recuperar aquela aliança, Mia. Mas, até lá, eu quero que você use isso. — depois de soltar a mão da caçadora com cuidado, Castiel orientou um pouco nervoso: — Pronto, pode abrir os olhos.
Mia obedeceu e olhou para a sua mão apenas por um breve instante, já que sabia muito bem o que Castiel havia colocado em seu dedo. Outra aliança. Dourada, bonita, delicada.
Em seguida, ela fitou o anjo e sorriu levemente, sentindo uma felicidade genuína.
— O que foi? — indagou ele, estranhando o silêncio da garota e com receio de que ela não tivesse gostado do presente.
Incapaz de dizer qualquer coisa, Mia decidiu demonstrar como se sentia. Sendo assim, ela aproximou-se do anjo, passou os braços em volta do seu pescoço, fechou os olhos e uniu seus lábios aos dele com um beijo carinhoso e suave, fazendo-o fechar os olhos e corresponder instintivamente.
Instantes depois, Mia afastou seus lábios dos de Castiel e o abraçou ternamente.
Com a certeza de que Mia havia gostado do presente, ele sorriu levemente e a abraçou de volta. Então, Mia se aconchegou melhor nos braços dele e esclareceu:
— Eu não preciso da antiga aliança, Cas. Esta é perfeita. — e depois de soltar um breve suspiro e fechar os olhos, pediu: — Me prometa que nós não vamos brigar por causa do Crowley. Que nós vamos lutar contra ele juntos, como tem que ser.
Após uma longa pausa, pensando sobre aquele pedido, tudo o que o anjo conseguiu responder foi:
— Eu prometo que ele não vai nos separar de novo, Mia.
Automaticamente, a caçadora abriu os olhos e retorquiu seriamente:
— Não foi isso que eu pedi.
— Eu sei — balbuciou ele.
Percebendo que Castiel ainda tinha planos de convencê-la a ficar de fora daquela missão, Mia se afastou um pouco, apenas o suficiente para fitá-lo nos olhos, e começou a protestar:
— Cas...
No entanto, antes que ela pudesse prosseguir, o anjo envolveu o seu rosto entre as mãos e decidiu dizer:
— Nós vamos para o Triângulo das Bermudas. Juntos. Todos nós.
Mia o encarou em silêncio por alguns instantes, perguntando-se se Castiel quis dizer que concordava com ela, ou se aquilo era apenas um jogo de palavras para fazê-la pensar que sim.
Decidida a acreditar na primeira opção, Mia sorriu levemente, procurou relaxar e o abraçou mais uma vez.
Castiel, por sua vez, fitou um ponto qualquer do quarto com um olhar inexpressivo e a abraçou de volta, convencido a fazer qualquer coisa para proteger Mia desta vez. Independente do que ela achasse disso.
Sendo assim, Castiel tomou uma importante decisão. Naquela madrugada, enquanto Mia dormisse, ele iria conversar com Sam e Dean sobre o que tinha em mente.
O anjo já havia percebido que Sam andava muito preocupado com o atual estado de Claire, e sabia muito bem que Dean não havia esquecido o ocorrido com Natalie, há alguns meses, quando a caçadora morreu em um acidente de carro orquestrado pelo Rei do Inferno para atingir Dean.
Desta forma, talvez os Winchester não só o entendessem, como quem sabe se juntassem ao seu plano também.
No dia seguinte
Na sala de tiro ao alvo do bunker, o barulho estridente das balas que Claire disparava com uma arma ecoavam por todo o lugar.
Buscando, o tempo todo, a concentração ideal, a caçadora estreitava o olhar constantemente na direção do alvo, a alguns metros de si, empunhava a arma com o máximo de firmeza que suas mãos conseguiam e tentava ignorar a forte enxaqueca que sentia.
No entanto, quando Claire terminou de descarregar aquela arma e a abaixou, tudo o que ela viu diante de si foi que as balas não haviam chegado nem perto do alvo, muito menos do centro dele.
Ao notar que suas mãos estavam um tanto trêmulas, a filha de Bobby largou a arma sobre a bancada diante de si, depois apoiou os cotovelos nela e levou as mãos ao rosto, tentando se recompor, embora a sensação de frustração e até certo desespero a atordoassem por dentro.
Enquanto isso, parado na entrada do lugar e sem que Claire o visse, Sam observa a esposa com uma expressão preocupada.
E quando ela recarregou a arma, voltou a atirar — com certa raiva — e errou o alvo novamente, Sam deu as costas para aquela cena e seguiu de volta pelo mesmo corredor pelo qual havia vindo antes, deixando aquele lugar para trás.
Quando ele chegou na sala principal, Bobby, que tinha ido ver a filha momentos antes e que também exibia uma expressão preocupada, perguntou:
— E então? O que você acha?
Depois de apoiar as mãos na mesa, respirar fundo e soltar o ar com força, Sam respondeu com pesar:
— A Claire não está em condições de lutar, Bobby. Ela não tem a menor condição disso.
Após avaliar o que ouviu por um instante, o velho caçador questionou:
— Então, como vai ser? Eu falo com ela ou você fala?
Depois de um momento em silêncio, Sam respondeu de um jeito sério, como se houvesse algo subentendido em suas palavras:
— Nem uma coisa nem outra. A Claire não está bem e não precisa que ninguém a lembre disso. O que ela precisa é... Ser poupada.
Desconfiado, Bobby estreitou o olhar na direção dele e indagou:
— O que você pretende fazer, filho?
Após um segundo de hesitação, Sam respondeu:
— O mesmo que o Cas. E o Dean.
Bobby, que já desconfiava dos planos de Castiel em relação à Mia, pois percebeu toda a preocupação do anjo, no dia anterior, quando ele não quis levá-la aos possíveis lugares onde o portal principal do Inferno poderia estar localizado, mas que nem sonhava que o Winchester mais velho estivesse pensando em fazer o mesmo em relação à esposa, perguntou surpreso:
— O Dean também quer deixar a Natalie fora disso?
— Ela morreu por causa do Crowley — lembrou Sam, e em seguida, completou: — E o Dean viu isso acontecer, Bobby. É claro que ele também quer evitar que ela corra esse risco novamente.
Após um momento em silêncio, pensando nas consequências que aquilo poderia trazer para os relacionamentos deles, o velho caçador alertou:
— Elas não vão gostar nem um pouco disso.
— Eu sei — assentiu Sam, engolindo em seco, mas determinado a prosseguir com o combinado entre ele, o irmão e Castiel naquela madrugada.
Pensando que o Winchester não estava levando o que ele disse a sério, Bobby resolveu reforçar:
— Se o mundo não acabar, vocês terão que lidar com três mulheres bem furiosas. E talvez elas acabem com vocês de qualquer jeito.
Depois de pensar sobre os prós e os contras da decisão que havia tomado, Sam articulou com certo pesar:
— Contanto que a Claire fique bem no final, eu acho que posso lidar com as consequências. Eu tenho certeza que o Cas e o Dean pensam o mesmo sobre Mia e Natalie.
Convencido de que não adiantaria argumentar, e no fundo também querendo proteger as garotas do Rei do Inferno e de tudo o que ele ainda poderia fazer contra elas, Bobby suspirou um tanto cansado, lembrou-se das pesquisas que todos fizeram no dia anterior e recomeçou:
— Pelo o que eu entendi, tudo o que nós conseguimos descobrir até agora foram sinais demoníacos na Ilha de Bermudas. Então, qual é o plano para chegarmos lá e não sermos notados pelo Crowley e seus malditos soldados?
Antes que Sam explicasse, Dean entrou na sala, segurando um pequeno prato e comendo um hambúrguer feito por ele mesmo, momentos antes, e explicou de boca cheia, enquanto se sentava à mesa:
— O Cas vai na frente. Voando, literalmente. Ele vai levar a Colt, facas contra demônios, munição especial, água benta, enfim, tudo o que nós vamos precisar e que não seria possível levar em um avião comercial. — depois de dar mais uma mordida no hambúrguer, Dean completou: — Chegando lá, o Cas vai procurar a localização exata do portal do Inferno e depois nos dará cobertura. E claro que nós vamos em um avião de uma companhia pouco conhecida, com documentos falsos, como de praxe, e com saquinhos de bruxa espanta demônios à tiracolo. Nem o Crowley nem nenhum dos seus soldadinhos vão nos ver chegando.
— E o Cas já tem um palpite de onde o portal fica? — quis saber Bobby.
Depois de engolir mais um pedaço do hambúrguer e colocar o restante no prato, o Winchester mais velho respondeu:
— Sim, um ótimo palpite, por sinal. — e olhando para o irmão, orientou: — Nerd? Explicações, por favor.
Depois de revirar os olhos, um pouco incomodado com aquele rótulo — embora no fundo soubesse que era um nerd mesmo — Sam lembrou da pesquisa que fez naquela madrugada, após conversar com o irmão e Castiel, olhou na direção de Bobby e explicou pacientemente:
— Bermudas é um arquipélago constituído por uma ilha principal e um conjunto de pequenas ilhas. Uma dessas ilhas é totalmente inóspita, mais afastada das demais e foi formada há milhões de anos por erupções vulcânicas no fundo do mar. E algumas mitologias dizem que vulcões são portais diretos para o Inferno.
— Ou seja, — anunciou Dean, fazendo os dois olharem para ele — esta ilha é o nosso melhor palpite. Eu não tenho a menor dúvida, o portal principal para a casa do capeta fica lá.
Dito isso, Dean voltou a comer o seu hambúrguer com ímpeto e Bobby perguntou:
— Certo, então qual é o próximo passo? Quando nós vamos para a Ilha de Bermudas?
Depois de se sentar à cabeceira da mesa e levantar a tela do notebook que estava sobre ela, Sam respondeu:
— Eu já estou providenciando as passagens. Se tudo der certo, amanhã mesmo nós pegamos o voo.
Enquanto olhava o Winchester mais novo digitando algo no teclado e pegando um cartão de crédito falso, que também estava sobre a mesa, e observava Dean tranquilo demais para quem ia pegar um avião em poucas horas, Bobby cruzou os braços contra o peito e questionou:
— E as garotas? Vocês vão simplesmente deixá-las aqui?
Depois de trocar um olhar cúmplice com o irmão, Dean olhou tudo em volta para se assegurar de que nem Natalie nem a cunhada ou Mia estavam por perto, voltou-se na direção de Bobby e respondeu num tom baixo de voz:
— O Cas tentou convencer a Mia a ficar, mas não adiantou. Então, antes que ela ficasse desconfiada de alguma coisa, ele prometeu que os dois iriam juntos para o destino da missão. — e após uma breve pausa, ele concluiu: — Bem, digamos que a Claire e a Naty também vão.
Desconfiado e um tanto impaciente, Bobby estreitou o olhar na direção dos dois e questionou:
— E o que vocês pretendem fazer quando chegarem lá, idjits? Trancá-las no hotel?
Sam e Dean não responderam, mas trocaram mais um olhar cúmplice, significativo, dando a resposta para a pergunta de Bobby, que soltou um suspiro cansado ao imaginar a confusão que aquilo iria dar e resmungou por fim:
— Balls!
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