Ascensão Infernal
22 Apertem os cintos!
Notas iniciais
— Senhores passageiros com destino a St. George, Bermudas, informamos que neste momento estamos sobrevoando Fort Lauderdale. Em breve, deixaremos o território norte americano para trás — informou uma voz feminina pelo alto-falante do avião.
— Grande coisa — resmungou Mia baixinho e um tanto ansiosa, sentada em uma poltrona na região central da aeronave que tinha capacidade para setenta passageiros e tripulação, mas que naquele momento só transportava cerca de quarenta e cinco pessoas, já contando com piloto, copiloto e três aeromoças.
Enquanto a mensagem era reproduzida em outros idiomas, Mia respirou fundo e observou o céu pela janelinha a uma poltrona de seu assento. Não dava para se ver muita coisa do lado de fora, apenas uma das asas do avião e que o dia estava ensolarado, com poucas nuvens no céu.
Mesmo assim, ela continuou percorrendo a imensidão azul com um olhar um tanto vazio, até que Bobby, sentado em uma poltrona do outro lado do corredor, mas próximo dela, pigarreou para chamar a atenção da garota e, assim que ela olhou em sua direção, tentou tranquilizá-la:
— Ele virá, Mia. Já deve estar a caminho.
Achando engraçado que Bobby Singer tivesse adivinhado o motivo da sua ansiedade e mal humor, Mia lhe lançou um leve sorriso e agradeceu:
— Obrigada. — Porém, quando o caçador começou a abrir a boca, ela arregalou os olhos, prevendo o que ele diria a seguir, e dispensou de um jeito afoito: — Não responda!
Deduzindo o porquê de Mia lhe pedir aquilo, Bobby franziu o cenho assustado com a capacidade que ela e Castiel tinham de ver segundas intenções em uma simples expressão — de nada — e se limitou a resmungar:
— Balls!
Sem conseguir conter um sorriso mais largo, Mia voltou a olhar pela janela e passou a girar em seu dedo a aliança que Castiel lhe deu para substituir a antiga.
Embora tivesse ficado um pouco desconfiada das intenções por trás do gesto e da conversa que tiveram em seu quarto naquela ocasião, Mia preferia acreditar que o anjo só estava preocupado — e com certa razão — com a ideia de um reencontro entre ela e Crowley, mas que tinha aceitado o fato de que ela não iria desistir de acompanhá-lo na missão.
Prova disso era que ela estava em um avião, indo para as Ilhas de Bermudas. Ou seja, Castiel tinha mesmo aceitado a sua decisão, mesmo que isso o deixasse receoso.
Pensando em tudo isso, Mia relaxou um pouco e passou a olhar para os assentos na parte da frente da aeronave. E ao ver Sam entregar um remédio — mais precisamente, um analgésico —, para Claire, com um copo de água, e depois regular o assento dela para que a caçadora ficasse mais confortável, Mia voltou-se para Bobby, percebeu que ele observava aquilo com uma expressão pesarosa e resolveu retribuir a gentileza de antes:
— Ela vai ficar bem. A Claire é forte e o feitiço que aquele infeliz fez está com os dias contados. Aliás, o Crowley está com os dias contados também.
O caçador apenas assentiu brevemente com um meneio de cabeça, fazendo Mia pensar um pouco e mudar de assunto na sequência, numa clara tentativa de animá-lo de outra forma:
— E a Jody? Como ela está?
— Não começa — resmungou o velho caçador, ainda com os olhos fixos na filha algumas poltronas à frente.
— Ei! Perguntar não ofende, idjit — protestou Mia, finalmente chamando a atenção de Bobby para si. No entanto, quando ele lhe lançou um olhar nada satisfeito com a brincadeira, ela engoliu em seco e decidiu recomeçar, assumindo uma postura mais séria: — Eu só queria saber se você falou com a Xerife sobre essa viagem e tudo o mais.
— Por que eu falaria? Para deixá-la preocupada? — rebateu Bobby.
— Ela tem o direito de saber que você está a caminho de uma missão arriscada como essa — opinou a garota. E depois de observar o caçador por alguns instantes e deduzir por que ele poupou Jody daquela forma, Mia soltou um suspiro de indignação e completou: — Vocês, homens, são tão engraçados. Sempre tentando proteger as mulheres, como se nós fôssemos meros cristais prestes a quebrar a qualquer momento.
Prontamente, Bobby se ajeitou na poltrona, de forma a ficar de frente para a caçadora, e retorquiu:
— Nós somos engraçados? É estranho ouvir isso de você, Mia, considerando que alguém não quis avisar o Kevin e a Chloe sobre nossa viagem ao Triângulo das Bermudas.
— É diferente — defendeu-se ela, mas ao perceber que aquilo não era suficiente, tentou explicar melhor: — Eles estão há meses fora dessa loucura toda, estão bem, felizes, estudando em Stanford, como sempre sonharam, e não tem por que saberem o que nós estamos prestes a fazer. Além disso, nós vamos voltar. Só iríamos preocupá-los à toa, se disséssemos qualquer coisa.
Aproveitando-se dos argumentos da garota, Bobby resolveu frisar:
— Este é o ponto, Mia. Nós vamos voltar, então eu não preciso preocupar a Jody, assim como você não quis preocupar aqueles dois. E você está certa, Kevin e Chloe estão melhor longe de tudo isso, bem como a Jody. Então, eu também estou certo e, portanto, pare de me encher com esse assunto.
Mia ainda abriu a boca para contra argumentar, porém, sem conseguir encontrar uma forma de fazer isso sem entrar em contradição consigo mesma, ela revirou os olhos, esticou o pescoço para ver os assentos logo à frente e, sentindo falta de duas pessoas, resolveu mudar de assunto:
— Cadê o Dean e a Naty?
Ao ouvir tal questionamento, Bobby arqueou as sobrancelhas — pois tinha uma leve suspeita sobre aquilo —, se endireitou na poltrona e achou melhor desconversar:
— Acredite, você não quer saber, filha.
Confusa, Mia franziu o cenho e estava pronta para perguntar o que o caçador quis dizer com aquilo, quando o avião sacudiu levemente e um aviso soou no autofalante:
— Senhores passageiros, por favor, permaneçam em seus assentos e mantenham os cintos devidamente afivelados. Estamos passando por uma leve turbulência.
Quando a aeronave sacudiu novamente — só que desta vez bem mais forte e de uma forma mais abrupta — Bobby resmungou com ironia:
— Leve?
Depois de afivelar o seu cinto, Mia indagou preocupada:
— Não é melhor alguém procurar o Dean e a Naty? Onde eles estão, afinal? — Porém, quando Bobby olhou para trás, na direção do toalete, a garota entendeu quase imediatamente por que ele desconversou antes. Então arregalou os olhos, se endireitou no assento e encerrou a questão, dizendo: — Tudo bem. Eles que se virem.
De repente, o avião voltou a sacudir violentamente, causando certo alvoroço e pânico entre os passageiros, que começaram a gritar desesperados, enquanto simplesmente ignoravam os pedidos de calma transmitidos pela tripulação através do autofalante.
Mesmo Bobby, Sam e Claire ficaram um pouco assustados com a situação, já que era impossível não se lembrar de que, àquela altura, a aeronave já estava sobrevoando o Triângulo das Bermudas, e havia um histórico preocupante sobre aquela região.
Quando as bagagens começaram a despencar sobre as poltronas e o corredor, e as luzes da aeronave oscilaram freneticamente, mais gritos de medo e desespero foram ouvidos.
E quando as luzes apagaram de vez e a aeronave fez uma inclinação brusca para baixo, máscaras de oxigênio despencaram na frente dos passageiros apavorados, que imediatamente as colocaram nos rostos em meio a mais gritos e até orações em diferentes línguas.
Depois de colocar a sua máscara também, Bobby olhou para Mia e franziu o cenho intrigado com a aparente calma da garota. Isso porque, enquanto tudo em volta parecia caminhar para uma tragédia, ela mantinha os olhos fechados e segurava firmemente nos braços da cadeira, mas não parecia nervosa ou com medo, só um pouco desconfortável com o chocalhar do avião.
Quando o velho caçador abriu a boca para questionar aquela postura, o avião se estabilizou repentinamente, as luzes voltaram a acender e a misteriosa turbulência ficou para trás, ao mesmo tempo em que um bater de asas foi ouvido, fazendo Mia finalmente abrir os olhos e sorrir.
Enquanto os outros passageiros respiravam aliviados e tentavam se recuperar do susto, Mia se virou na direção da poltrona ao lado da sua janela, sorriu ao ver que Castiel tinha se materializado bem ali e brincou:
— Entrada triunfal, anjo.
— Eu imaginei que você fosse gostar — replicou ele, esboçando um leve sorriso enquanto Mia se aproximava mais um pouco.
Na sequência, a caçadora passou os braços em volta do pescoço do anjo, fechou os olhos novamente e uniu seus lábios aos dele com ímpeto, afastando toda e qualquer ansiedade que sentia até então, afinal não havia mais motivos para isso. Castiel finalmente estava ali. Com ela.
Percebendo que o casal tinha se empolgado com o beijo e perdido um pouco da compostura, Bobby pigarreou para chamar a atenção dos dois.
Imediatamente, Mia se desvencilhou um pouco do anjo, se recompôs e indagou:
— E então? Tudo certo?
Castiel — que tinha ido para a Ilha de Bermudas na frente de todos eles, a fim de levar as armas que precisariam para enfrentar Crowley e o exército de demônios, além de sondar o terreno — limitou-se a assentir com um breve meneio de cabeça.
No fundo, o anjo estava desconfortável com aquela situação, pois Mia estava crente de que os dois passariam por aquilo juntos, sendo que ele tinha um plano bem diferente. Um plano para poupá-la de um reencontro com o Rei do Inferno. Um plano para protegê-la.
Então, quando Mia sorriu satisfeita e o abraçou, Castiel não conseguiu esconder certa culpa ao trocar um olhar cúmplice com Bobby, que sabia de tudo. Mesmo assim, o anjo estava decidido a ir até o fim com o tal plano.
De repente, uma das aeromoças — que passava pelo corredor para verificar se todos os passageiros estavam bem e tranquilizar os mais abalados —, parou perto de Mia e Castiel e franziu o cenho, num claro sinal de que não estava reconhecendo o passageiro.
Então ela começou a dizer:
— Desculpe, senhor, mas...
Prontamente, Castiel esticou o braço e tocou a testa da comissária com as pontas dos dedos médio e indicador, deixando-a meio desnorteada por um breve instante.
Logo em seguida, a aeromoça piscou algumas vezes, sorriu de um jeito simpático, observou o casal mais uma vez, bem como Bobby no lado oposto do corredor, e perguntou:
— Todos estão bem?
— Perfeitamente bem — afirmou o anjo com uma expressão tranquila.
— Eu ficaria melhor com um café — insinuou Mia, sorrindo para ela.
— E eu com um uísque — emendou Bobby. Porém, imaginando que talvez a companhia aérea não servisse aquele tipo de bebida aos passageiros, sugeriu: — Mas se não for possível, eu aceito o que você tiver.
— Claro — assentiu a aeromoça. — E desculpem pelo incômodo da turbulência, mas não havia nenhuma previsão de que iria acontecer algo assim em nossa rota.
— Eu sei — tranquilizou Castiel, que havia sido o causador da tal turbulência.
— Com licença — encerrou a comissária, ainda um pouco desnorteada, antes de se afastar daquela parte do avião e deixar o trio para trás.
Logo depois, Mia entrelaçou o braço de Castiel com o seu, apoiou a cabeça em seu ombro, suspirou profundamente e voltou a observar a imensidão azul pela janelinha.
Enquanto isso, o anjo e Bobby se entreolharam mais uma vez. E só romperam o contato visual quando Dean saiu do toalete e passou por aquela parte do corredor, caminhando tranquilamente, como se nada tivesse acontecido.
Instantes depois, o caçador sentou-se em sua poltrona perto de Sam e Claire, que ainda se recuperavam do susto causado pela turbulência.
Ao ver o irmão tão calmo e com uma expressão visivelmente feliz, Sam franziu o cenho, estranhando aquilo, e questionou:
— Cadê a Natalie?
Dean demorou alguns instantes para despertar de uma espécie de transe em que se encontrava, até que finalmente olhou na direção do irmão e respondeu simplesmente:
— Toalete.
Imediatamente, Claire matou a charada, conteve um sorriso malicioso, desviou o olhar e se concentrou apenas em ouvir a conversa, enquanto observava o céu pela janela.
— E vocês estão bem? — questionou o Winchester mais novo ainda mais intrigado, pois ao contrário da esposa, não estava entendendo nada.
— Ótimos — assegurou o mais velho. — Por quê?
Indignado e ainda mais confuso, Sam expôs:
— Porque houve uma turbulência agora há pouco, Dean. E eu confesso que... Por um momento, achei que o avião fosse cair.
Com uma tranquilidade absurda, que não combinava com a sua fobia de viajar de avião, o Winchester mais velho pensou um pouco, se lembrou de quem viu ao lado de Mia quando passou pelo corredor, instantes atrás, e supôs:
— Deve ter sido o Cas. Ele já está a bordo.
Prontamente, Sam olhou para trás e constatou que o anjo realmente estava na aeronave. Mas, apesar da turbulência poder ser explicada pela chegada de Castiel, algo ainda o intrigava. A postura de Dean. Isso porque ele parecia calmo demais. Mais do que isso, Dean parecia feliz.
Então, lembrando-se da forte turbulência que acometeu a aeronave momentos antes, Sam resolveu insistir:
— Tudo bem, mas você e a Natalie não sentiram nada?
— Uhh... Nós sentimos muitas coisas, mas como eu sou um cavalheiro, acho melhor não entrar em detalhes, Sammy. Desculpe — insinuou o mais velho.
Com isso, Sam finalmente entendeu por que o irmão e a cunhada tinham sumido de repente, finalmente deduziu o que eles estavam fazendo esse tempo todo e não conseguiu esconder certo constrangimento, quando parou de olhar para o irmão e explicou:
— Eu estou falando do avião, Dean. Ele sacudiu bastante.
Depois de pensar um pouco, olhar tudo em volta e perceber que havia malas pelo chão e alguns passageiros ainda assustados e se recompondo, Dean se endireitou no banco e replicou surpreso:
— Sacudiu, foi? Nem percebi.
Sam limitou-se a balançar a cabeça negativamente, ainda mais constrangido. Não sabia se ficava feliz pelo irmão ter vencido o medo de avião ou se procurava um lugar para se esconder, já que se sentia meio idiota por não ter matado a charada antes. Com certeza, ainda estava desnorteado devido a turbulência preocupado com Claire.
Em seguida, Natalie aproximou-se e sentou ao lado do marido, que lhe lançou um olhar malicioso e sibilou:
— Ei... Você voltou.
— Já estava com saudade, Sr. Awesome? — questionou a loira, com uma voz manhosa enquanto passava os braços em volta do pescoço do caçador.
— Você não faz ideia do quanto, Baby — respondeu Dean, antes de unir seus lábios aos dela e colocar a mão em sua perna.
Sam achou melhor ignorar tal cena e pegou um dos fones que Claire pretendia colocar nos ouvidos.
A morena sorriu, achando engraçado que o marido tivesse ficado tão constrangido com aquilo e encaixou um dos fones em seu ouvido, enquanto ele se apossava do outro.
Em seguida, Claire lhe deu um selinho carinhoso, entrelaçou sua mão com a dele, apoiou a cabeça em seu ombro e se concentrou em uma música do Coldplay que um pequeno aparelho de som, acoplado a poltrona da frente, começou a reproduzir.
Ao mesmo tempo, ela tentava ignorar a sensação de agulhas começando a espetar o seu corpo e uma forte enxaqueca, que não tinha passado com o analgésico que tomou antes da turbulência.
Em dado momento, a morena segurou a mão de Sam com mais força, fechou os olhos e permaneceu quieta o restante da viagem, lutando para não se entregar a verdadeira tortura do feitiço ao qual estava presa.
Horas depois
Depois de deixarem o Aeroporto Internacional L. F. Wade para trás, Castiel, Mia, Bobby, os Winchester e suas esposas seguiram para a capital Hamilton e se hospedaram em um hotel simples, porém mil vezes melhor do que as espeluncas onde caçadores costumam ficar.
Em um dos quartos, e visivelmente impaciente, Mia andava de um lado para o outro, fazendo com que seus coturnos causassem um barulho constante e incômodo no assoalho de madeira.
Castiel, que estava em pé e próximo de uma enorme janela com vista para uma região montanhosa do arquipélago, observava a caçadora sem saber ao certo o que dizer para tranquilizá-la.
Por fim, quem acabou rompendo o silêncio foi Mia ao questionar:
— Quanto tempo mesmo para o famigerado eclipse?
— Vinte e quatro horas, cinquenta minutos e... Trinta e sete segundos — informou o anjo, embora tivesse certeza que a caçadora sabia aquela resposta, pelo menos no que dizia respeito às horas, já que nos últimos dias, eles praticamente só falaram sobre aquele eclipse e a sua importância para os planos de Crowley.
Ainda mais ansiosa, Mia colocou as mãos na cintura, continuou andando em círculos e exclamou:
— E o que eu vou ficar fazendo até lá?
Após pensar por um instante, Castiel olhou para a mala da caçadora próxima da cama e sugeriu:
— Por que você não começa organizando as suas coisas no guarda-roupa?
Enquanto balançava a cabeça negativamente, Mia replicou:
— Nem pensar. Eu tenho um péssimo histórico com guarda-roupas. Eles não gostam de mim. É melhor deixar as minhas coisas onde elas estão. — E depois de um momento em silêncio, pensou alto: — Deve ter alguma coisa que eu possa fazer... Que nós podemos fazer, sei lá. Se eu ficar parada, o tempo simplesmente não vai passar. Será uma verdadeira tortura!
— Está tudo sob controle, Mia. Você não precisa ficar assim tão aflita — articulou o anjo, numa clara tentativa de acalmá-la. — Agora só nos resta esperar.
Impaciente, mas sabendo que Castiel tinha razão, Mia respirou fundo, se aproximou dele, parou na sua frente e pediu:
— Então me distraia.
Pego de surpresa, mas no fundo imaginando o que Mia queria dizer com aquilo, o anjo gaguejou um pouco ao se fazer de desentendido:
— Como... Como assim?
Em resposta, Mia sorriu maliciosamente, passou os braços em volta do pescoço de Castiel e replicou:
— Não se faça de difícil, anjinho. Você sabe muito bem.
Sim, Castiel sabia. Porém, por não estar sendo totalmente sincero com Mia, ele não se sentia confortável com a ideia de fazer nada com ela naquele momento. Parecia errado.
Por isso, e embora tivesse muita vontade de ceder pura e simplesmente aos encantos de Mia, o anjo se manteve firme quando ela começou a aproximar o rosto do seu e desconversou com certa cautela:
— Você não acha que devia descansar um pouco?
Prontamente, Mia recuou o suficiente para fitá-lo nos olhos, franziu o cenho e sibilou confusa:
— Oi?
Sentindo-se ainda mais desconfortável com a situação, Castiel tentou consertar:
— Digo... Você não está cansada da viagem?
Depois de estreitar o olhar na direção do anjo, o analisando minuciosamente por alguns instantes, Mia preferiu acreditar que Castiel só estava fazendo certo charme, voltou a se aproximar dele, sorriu e respondeu sugestivamente:
— Para você, nunca.
Então, antes que o anjo pudesse pensar em uma forma de contornar aquilo, a caçadora uniu seus lábios aos dele, agarrou as lapelas do sobretudo e começou a puxá-lo na direção da cama, enquanto o beijava de um jeito mais envolvente, não lhe dando outra escolha a não ser corresponder à altura.
No entanto, quando os dois caíram sobre a cama e Mia tentou arrancar o sobretudo do anjo de qualquer jeito, Castiel fez um esforço para se desvencilhar dela, inverteu as posições, ficando sobre a caçadora, se afastou um pouco, interrompendo o beijo, e articulou:
— Mia, eu vou entender se você estiver cansada. Foram algumas horas de voo até aqui e nos últimos dias, você não dormiu direito.
Voltando a ficar confusa, a garota se sentou na cama, encarou o anjo por alguns segundos e, visivelmente constrangida, deduziu:
— Você não quer.
Sentindo-se culpado, Castiel franziu o cenho e tentou se explicar:
— Não é que eu não queira, mas... Eu só acho que...
Ao perceber que o anjo não conseguia concluir o raciocínio, Mia acabou enxergando a postura dele de outro jeito e supôs:
— Você também está ansioso, não é? — E antes que Castiel confirmasse ou não, ela acrescentou: — Eu entendo, anjo, mas por isso mesmo eu pensei que seria bom relaxar um pouco... Tipo... Juntos. Ainda mais se tudo der errado e o mundo acabar nas próximas vinte e quatro horas.
— O mundo não vai acabar, Mia — assegurou Castiel, embora no fundo soubesse que não tinha como garantir isso. No fundo, só estava tentando manter o otimismo e tranquilizá-la. — Vai dar tudo certo e nós teremos muito tempo para... Relaxar depois — completou, enquanto acariciava o rosto da caçadora.
Depois de pensar um pouco, Mia esboçou um sorriso discreto de concordância, segurou e beijou a mão de Castiel rapidamente, levantou da cama em um pulo e avisou animada:
— Neste caso, eu vou tomar o meu banho de uma hora e depois nós podemos ficar na cama, só pensando na morte da bezerra e tentando não pirar até o eclipse. — Ao chegar na porta do toalete, Mia se deteve na soleira, olhou para Castiel, sorriu e assegurou: — Ah! E não se preocupe, anjinho. Eu prometo que vou me comportar até lá.
De um jeito mais contido, Castiel retribuiu o sorriso e observou a garota adentrar o toalete e fechar a porta em seguida.
Uma hora depois, quando Mia finalmente saiu do banheiro e vestiu uma camisola na frente do anjo — que preferiu não olhar muito para não cair em tentação —, os dois deitaram na cama e se aconchegaram nos braços um do outro, se abraçando de um jeito terno e carinhoso.
Embora tivesse prometido que iria se comportar, Mia acabou não resistindo e roubou alguns beijos e carícias de Castiel, antes de aceitar que o clima realmente não estava propício para nada e se dar por vencida.
Então, ela respirou profundamente e fechou os olhos, praticamente se obrigando a desligar os pensamentos e dormir um pouco. Em dado momento, finalmente conseguiu adormecer.
Castiel, por sua vez, permaneceu em alerta, ansioso e rezando para que Mia fosse capaz de entender o que ele estava prestes a fazer para protegê-la de Crowley e a perdoá-lo por isso algum dia.
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